A educação brasileira tem inúmeros problemas. Verbas poucas, escolas sem condições, professores mal pagos e, portanto, mal preparados. Pior: uma profissão que já foi honrosa, e hoje é desprestigiada de forma terrível. Li no jornal, recentemente, que os deputados aprovam lei que proíbe que haja mais de 25 crianças por sala de aula… Fiquei muito pê da cara: a idéia está correta, mas é factível? Há salas de aula suficienetes? Há professores suficientes? Ta na cara que não. Então o que tem que ser feito é o que já sabe: construir escolas, contratar professores DECENTEMENTE pagos, cuidar primeiro do que é mais importante… Senão é brincadeira!
Os pais são ausentes, e esperam que a TV distraia seus filhos, e a escola lhes ensine tudo, até a viver sem carinho como se carinho houvesse, e a ser criaturas bem educadas…Alunos que se criaram diante da televisão e, diante da forma fragmentada como a TV se apresenta, não sabem se manter atentos por mais do que cinco minutos de cada vez.
Outro problema é a falta de objetivos claros para o Ensino Fundamental. No caso deste, a maior e criminosa inadequação: não tem nenhuma função intrínseca - assumiu apenas a de ser uma ponte (periclitante, na maioria das vezes) para a universidade, sendo pois, balizado por ela .
A universidade brasileira tem inúmeros problemas. O maior deles é o de ser vista como uma espécie de solucionador de problemas: ao ingressar em uma delas, adquire-se base, fica-se competente, o mercado de trabalho não vai resistir a um egresso dela e, o que é bem melhor, vai lhe pagar muito bem para incorporá-lo. Bem, essa época - se é que existiu - já acabou, à medida que o mercado de trabalho foi ficando saturando, e a perspectiva de vida dos trabalhadores aumentando. Hoje vivemos mais e, portanto, trabalharemos mais tempo. Assim, não se abrirão vagas, a menos que o mercado se amplie, o que não tem acontecido. Talvez o remédio seja se criar uma rede subterrânea de assassinatos de colegas em fim de carreira – perdoem, não resisto a um humor negro…
Na tentativa de fazer jus a toda essa expectativa, a universidade (e não falo só da UFSC) sente-se tentada a interferir indiretamente, apenas pela exclusão de determinados conteúdos em seus vestibulares, e a inclusão de outros. Primeiro foi a criação da prova de redação, numa tentativa de resgatar do submundo a que estava sendo relegada a língua escrita. Não se obtiveram grandes mudanças, a não ser as de estrutura de texto, que de fato melhoraram. Mas conteúdo, que é bom, muito pouco: reina a desinformação, o preconceito, o clichê mais raso e pobre.
Na tentativa de melhorar isso, chegou-se à conclusão de que seria bom que se exigisse a leitura de obras literárias. Ora, a leitura de obras literárias - o apogeu do SABER LER - passa pelo setor de conteúdo, também. Uma obra está inserida em um contexto histórico, em uma geografia espacial e social, em uma psicologia mais ou menos aprofundada e explícita, e se vai então compreender o ser humano. Parece que pouco disso é passado para os candidatos ao vestibular, por uma série de razões. Mais da metade deles não lê praticamente nenhum dos livros, mas há uma outra metade que lê. Inclusive os professores.
Os estudos sobre leitura são recentes, e ajudam muito o professor a se preparar para uma missão complicada. Leitor é filho de peixe, afirma Maria Clara Machado. Isso significa que filho de pais leitores normalmente lê. Mas a maioria dos pais não lê, e sabemos disso. A desculpa habitual é o preço do livro. Mas é comum vermos pagarem preço alto por livros de auto-ajuda ou essas bobagens esotéricas que rolam por aí. Reclamam de pagar por obras de qualidade, que são artísticas, profundas e densas, e portanto não servem para nada: afinal, não ensinam a perder 200 quilos em 10 dias, ou a simplificar sua vida em dois procedimentos e lendo os ensinamentos do guru de plantão.Uma questão de prioridade… e de gosto. Ou de inteligência, sejamos francos,esensibilidade.
Nos Estados Unidos há inúmeros métodos para ensinar leitura, publicados em livros, usados pelas escolas e pelo público em geral há anos. Um deles, Como ler um livro (How to read a book), de Adler e van Doren, é praticamente uma bíblia, tendo mais de quarenta anos de mercado… e de sucesso de vendas. É uma obra prática, ensinando a ler com aproveitamento e uma consciente aprendizagem, desde literatura até filosofia, histórias, atualidades. Sem esquecer, é claro, um capítulo sobre a leitura de poemas - e de como, ao se ler um poema, vai-se do particular daquela obra ao geral dos sentimentos, características e temática da espécie humana.
Tem gente que torce o nariz para este “espírito prático americano”, como se ele não tivesse grandes méritos, especialmente para aqueles que, como os professores, não tivessem que aprender para reproduzir teorias, mas também métodos que permitam uma prática mais aperfeiçoada. Usei e uso ainda Adler e Van Doren , sou sua fã ardorosa, mas há novas obras, desta vez teóricas, analisando a leitura. Destes novos teóricos, dois expoentes: Roger Chartier e Alberto Manguel. No Brasil destacam-se, na área, Regina Zilberman e Marisa Lajolo. E em Santa Catarina temos agora uma estudiosa do assunto: Claudete Amália Segalin de Andrade.
Claudete é professora do Colégio de Aplicação da UFSC e publicou pela editora de sua universidade o livro em que trata do assunto da leitura para o vestibular: Dez livros e uma vaga.Resultado de sua dissertação de mestrado, na verdade uma edição dela, mas sem aquelas firulas (na verdade, falta de firulas) todas do texto acadêmico, que acabam por torná-lo ilegível para o leitor comum. Claudete teve o cuidado de aparar essas arestas, e apresenta aqui tanto as entrevistas que fez com professores de terceirão, como dos alunos que são submetidos à famigerada lista. Derruba mitos, conclui coisas sensatas, embora me pareça que deposita na lista a esperança (meio insensata) de que a obrigatoriedade de ler dez obras para concorrer a uma vaga faça com que os alunos passem a gostar de literatura… O buraco é mais embaixo, infelizmente.
É, Regininha querida, a questão passa mesmo pela falta de leitura geral que ainda assola grande parcela da sociedade. E o detalhe é que sem a leitura livresca não há como se construir a capacidade de fazer uma leitura social, de mundo, de gente.
Li bastante coisa do Chartier, do Manguel, e outras poucas da Zilbermann e da Majolo. Li muito do Ezequiel T. da Silva, que é muito a base de minhas pesquisas sobre leitura, o professor como leitor ou não-leitor e por aí vai. Apaixonei-me por “Uma história da leitura”, do Manguel. E agora vou encarar “O último leitor”, do Piglia, sobre o qual o Carlos já muito falou bem =)
abraço grande pra ti,
sempre bom lê-la,
Ítalo.
Ítalo:
és mesmo um amor!
Já li os dois, Manguel e Piglia, e sou fã declarada e apaixonada do Piglia, de quem já li tudo!
E teu blog tá muito legal.
Vou lá te visitar de novo, e fazer um link, tá legal?
beijão (pra ti e pra Xarraguá, terra que eu amo!)