Eros pode tudo?

Ler o artigo do poeta e cineasta Sylvio Back aqui, sábado passado, foi uma forte motivação a que me manifestasse sobre a questão dos poemas eróticos, ou pornográficos, ou fesceninos, como quer Sylvio Back. Vejam que utilizo os três termos como se fossem sinônimos, pois para mim o são. Organizo antologia de poemas eróticos de poetas de Santa Catarina e tenho pensado no assunto, inclusive porque organizar obra significa escrever uma introdução para ela, o que me obriga a ler sobre o tema, e a esclarecer para mim mesma como me sinto a respeito.

Na pesquisa que tenho feito, que inclui a leitura do seminal O Erotismo, do Georges Bataille, acabo topando com posições com que concordo e outras de que discordo.     Isso se dá porque olho a questão por dois vieses: pelo do produtor de textos, pois também faço poemas eróticos,  e o de leitora deles. Mas sou, ao mesmo tempo, profissionalmente portadora de deformação, a de professor, e gosto de tudo classificado e organizado.

Vamos ver se consigo colocar isso com clareza.

Há uma colocação de Dirceu Villa no site Germina Literatura (www.germinaliteratura.com.br) que ajuda a esclarecer isso: “ Tendo em vista evitar uma distinção de valor absolutamente ridícula, que vários teóricos e artistas propuseram (Boris Vian e José Paulo Paes, por exemplo) entre pornográfico e erótico, em que o pornográfico se destinaria pura e simplesmente ao estímulo sexual e o erotismo abocanharia a parte “nobre”, refinada e artística, entendamo-nos: erótico é um texto de poses, calculados subterfúgios que representam a sexualidade e pornográfico é aquele que fala francamente, com todas as tão temidas palavras. Ambos igualmente artísticos, ambos podem igualmente ser bons ou maus(…)”

Quanto à parte final, estamos concordes. Já quanto ao miolo, discordamos. Da forma como está colocado, e da forma como está colocado no artigo de Sylvio Back, parece que o que se classifica como erótico está apenas sendo hipócrita, ao menos na representação,  enquanto o que se classifica como pornográfico ou fescenino está sendo franco e sincero. E que,de uma forma meio torcida, porque implícita,  aquele  que faz poemas ou textos francamente pornográficos ou fesceninos é alguém que vive sua sexualidade de forma mais aberta e saudável, enquanto o erótico a vive de forma mais reprimida, menos saudável…Me parece, francamente, que não é por aí… E é neste ponto que reside minha discordância. Porque pode haver distorções dos dois lados, como pode haver sexualidade plena e bem vivida dos dois lados.

Na classificação partilhada por Boris Vian e José Paulo Paes, o foco está dirigido para o PRODUTO final, a obra poética, e a partir desse produto é que se pensou a distinção. São duas abordagens diferentes, embora o objeto seja o mesmo. Para o leitor desse tipo de obra, a diferença é visível, e chega a ser gritante. Todas as “malas palabras” estão no pornográfico/fescenino?  Sim, sem dúvida. Há uma representação mais leve, mais suave, mais romântica, na sexualidade poetizada no formato que chamam erótico? Sim, também sem dúvida. Posso entender a diferenciação, posso entender as razões que levaram os poetas e teóricos a formulá-la. Posso também não concordar com ela…E não concordo.

Tenho participado de congressos e seminários universitários em que se discute o tema , e neles sempre há algum pândego que vai dizer que a diferença é que o texto pornô é aquele que se lê com uma mão só… Tal colocação pode até ser justa para com o texto em prosa, pois há textos em prosa da pior qualidade, mas é tremendamente injusta para com o poema. Poemas que tratam de sexo ou desejo, e de sua decorrência, são sempre eróticos, utilizando-se ou não das malas palabras, dizendo tudo às brutas, ou usando figuras e dando voltas. Como diz o próprio Back, citando Manoel de Barros, a poesia empurece  a palavra…Da mesma forma como o uso acaba por fazê-lo. Os jovens, hoje, usam “puto”, “caralho”, em outro contexto, e vão acabar por depurá-las até na linguagem cotidiana. Fica-se puto por alguma razão, e tudo é bom pra caralho, pelo menos pra eles…Para empregar termos que tenham cunho pecaminoso, terão que ser substituídas por outras… E provavelmente o serão.  Para muita gente o prazer sem culpa não é prazer, o prazer sem crime não é prazer…

Mas vou recorrer a Mikhail Bakhtin: a palavra é neutra, o falante é que  a recobre de intenções; direi eu, usando Bakhtin, haver malas palabras é viés cultural. Na nossa cultura judaico-cristã, permeada de culpas e interdições, as proibições todas parecem ter recaído na sexualidade. O prazer é sempre culpado, não é?

Falar do prazer com franqueza, dando os nomes aos bois, sem usar pseudônimos, é interpretado  como perversão, como se fosse algo criminoso. De Bocage citam-se as piadas, não os poemas, belíssimos sempre, o que é bem sintomático…

Por causa disso, acabamos por incorrer no terreno da moralidade, e esta acaba sendo a baliza que vai permitir o emprego deste ou daquele termo. E aí está o fulcro da questão.

Discutir o rótulo é questão bizantina: tentar dar à poesia desbocada, eivada das más palavras, impregnadas de prazer, um rótulo diferenciado, é se desviar do que é mais importante no caso, que é  a pureza, a beleza, a santificação que a palavra poética tem.

Todos os grandes poetas fizeram poemas desse tipo. Dêem o nome de eróticos, pornográficos, fesceninos, pouco me importa. Prefiro eróticos para todos, porque vem de Eros, e é mais sonoro: coisas de poeta. É, além disso, menos marcado. O que me importa, o que me dói, é ver os poetas perdendo seu tempo com o tentar legitimar o que estão produzindo, em uma cultura cheia de variáveis incertas. Gostaria mais que, ao invés disso, estivessem poetando…  

(publicado no Cultura do DC, 5/4/2008. p.4)

4 Responses to “Eros pode tudo?”


  1. 1 Fatima de Laguna

    “Mas sou, ao mesmo tempo, profissionalmente portadora de deformação, a de professor, e gosto de tudo classificado e organizado.”(R. Carvalho in EROS PODE TUDO?).
    Regina tua lúcida confissão me fez lembrar aquela frase
    do Millôr Fernandes:
    “A universidade é o local onde a ignorância é levada à suas últimas conseqüências”
    Conforme percebo são quase 5 da madruga e perdi o sono mas hei de reencontrá-lo, pois daqui a pouco preciso clicar o nascente na praia.
    Grosso modo, erotismo e pornografia são mesma coisa.
    (Até porque se Ariano Suassuna diz que “ao redor do buraco tudo é beira” concluo que tudo o que a beira circunda é buraco, hahahaha…)
    Gosto do termo fescenino porque remete a sátira, que adoro.
    Penso que acostumei-me a ver pornografia como o desejo do autor em nos esfregar na cara e na marra
    o transbordamento do seu tesão.
    O erotismo seria aquele modo de levar o espectador, leitor, ouvinte a um estado de crescente envolvimento.
    Então as saideiras:
    A)pornográficos são os apressados, já os eróticos vão bolerando digavazinho até a zente suspirarrrrrrrrr
    B)pornográficos são explícitos, não capricham nas preliminares. Jogam as lentes da câmera de frente pro crime, não dissimulam. Os eróticos são mais “taradinhos”
    dão mil voltas… (in redó do buraco, eheheh)
    A verdade Regina é que arte é arte.
    Porcaria se faz com o nome de erótico, fescenino ou pornográfico.
    “Araras versáteis. Prato de anêmonas.
    O efebo passou entre as meninas trêfegas.(…)
    O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
    E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
    Empapou-se de mel nos refolhos robustos.(…)”
    (Hilda Hilst).
    Olha que coisa mais linda essa Hilda!

    Quanto ao poeta catarinense Sylvio Back, não li ainda.
    Penso que devemos nos orgulhar dele porque o cara que
    traduziu Cruz e Sousa na tela, daquele jeito, merece
    todo o nosso aplauso.
    Fui. bj da Fatima.

  2. 2 regina

    Fátima:
    chamar de fescenino ou de pornográfico significa fazer classificação MORALISTA, compactua-se com a moralidade comum. Cria-se uma diferenciação, tornando uns “maiores”, outros “menores”. Por isso não gosto.São todos eróticos… pra mim. São todos, simplesmente, tributos a Eros…(Te empresto os livros do Sylvio, pó deixar!)
    beijinho, e não te esquece de mandar a foto do nascente!

  3. 3 Zé Mariano

    Texto bom pra Cará!

    beijão

  4. 4 regina

    Eu sou boa pra cará, né, Zé?
    Obrigadinha!
    bj

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