VELHOS JORNAIS
Talvez um pão dormido,
jaz o jornal embaixo da soleira.
Mãos iletradas magras,
Mercúrios sorrateiros,
dobraram silenciosas as notícias.
Transpõem a madrugada
a tinta a celulose o antimônio
o sangue do tipógrafo
tossindo sobre as caixas.
O vai-e-vem que esmaga da impressora.
A imprensa era tão livre
quanto a memória arquivada e traçada
pelo Assis Chateaubriand.
Olhos virgens do foca:
a história é como o diretor a vê.
(IN-: O sol caía no Guaíba)
Para mim ela é e sempre será a “Professora Leonor”, mestra que me foi em duas disciplinas de pós-graduação e, mais que isso, mulher viajada e culta, admirada por isso. Gaúcha de Porto Alegre, radicou-se em Florianópolis há mais de 20 anos, aposentando-se como professora da UFSC, onde ainda está ligada ao Pós-Graduação de Lingüística, sua área acadêmica.
Mas uma parte de nosso conhecimento literário vem disso, das relações pessoais, daquilo que conhecemos das pessoas, tanto das que escrevem, como das outras. E nisso tenho sido pessoalmente premiada. Para melhorar, escritores e gente famosa não me constrangem: costumo vê-las como gente igual às outras, mas com um talento especial.Algumas sentem agudamente, e têm, agudamente desenvolvido, o sabor e o talento da palavra, coisa mais maior de boa…
E assim é minha relação com Leonor Scliar Cabral, essa admiração pela inteligência e pelo talento, e um grande afeto pela pessoa, uma pessoa tão completamente diferente de mim mesma. Afinal, Leonor é elegante e formal, e eu sou informal a ponto da deselegância…
Sobre sua obra, diz ela mesma: “Meus temas têm sido: o erotismo na mulher e, mais recentemente, na velhice; o judaísmo e a memória sefardita; a linguagem, em suas mais variadas formas e processos, culminando com a invenção do alfabeto. Meus poemas também são autobiográficos.”
Quero lhes mostrar poemas de seus dois últimos livros, e para isso começo com BUS STOP
Sob o neon fiquei horas parada/ na parada que me transporta ao nada /e o ônibus chegou sem passageiros, /condutor.// Desfilam os sobrados com seus palcos / onde ao redor da mesa iluminada / conversam as famílias com seus pratos./ Eu lá estou:// a criança me acena conivente / e no escuro do carro em que viajo / eu retribuo o gesto de quem parte / consigo só. (IN-: De Senectude Erotica)
O ônibus é sem dúvida uma metáfora da vida, seu trajeto é nosso viver e o bus stop, o ponto de ônibus, os momentos de reflexão, de introspecção, de análise. A criança é lindamente, trafalmadorianamente ela mesma. Lembremos Machado de Assis: “o menino é o pai do homem”. O que somos quando criança mostra o que seremos ao crescer, e sempre há um pouco ou muito da criança que fomos em cada um de nós. E como esta criança – e criança é palavra que serve para os gêneros todos – se diz para si mesma, ela parte consigo só…
Há neste poema uma imagem que me agrada particularmente, por sua força expressiva, resultante da ambigüidade com que está construída: “ao redor da mesa iluminada/ conversam as famílias com seus pratos.” Os membros da família conversam entre si enquanto têm os pratos à sua frente, ou conversam com os pratos, na incomunicabilidade que tanto faz sofrer todos os seres humanos? O clima do poema faz pensar na segunda hipótese, mas a primeira não se exclui: podem conversar entre si como se falassem com os pratos, pois na verdade não se conhecem, não se vêem, não se sabem…
Do mesmo livro, a dor do envelhecimento:
ÁGUAS PARADAS
O meu olfato aos poucos vai morrendo./Sem saber que estou surda, da janela, /surpreendo o badalar de um velho sino / que não me chega // e a brisa em sopro faz tremeluzirem / as corolas douradas dos jacintos /e os cachos de glicínias pendurados,/ quase inodoros.// Os frascos de perfume estão vazios / e as gotas esparzidas sem vestígio,/ sem encontrar abrigo nos meus poros,/ envelhecidos. E nem eu sinto o que eu própria transpiro,/ um odor acre em jarra enferrujada,/águas paradas no odre com sua pátina,/e com seu mofo. (IN- De Senectude Erotica)
No entanto, este mesmo envelhecimento não impede erotismo e paixão. Só que eles se tornam dolorosos:
PEDIDO
Mesmo que doa, quero que me rasgues,/que tu me lanhes e depois me afagues//lambendo as chagas como cães no cio,/pedindo perdão pelo desvario// de sentir prazer nas marcas que arrasto/ para não te esquecer no leito azul// quando sozinha eu fico e ouço os gemidos/que se misturam ainda ao farfalhar//do bosque e seus sussurros abafados./ Mesmo que doa, vem, meu doce amado.(IN-: De Senectude Erotica)
Seu último livro se chama O sol caía no Guaíba (Bestiário, de Porto Alegre, 2006), e conjuga sonetos e odes. Dele, vou citar o soneto que o crítico gaúcho Fábio Lucas, que faz a apresentação, considera o poema mais bem realizado :
SENTIMENTO DO TEMPO
Invisível em visível se torna,/ da esfera mais longínqua a harmonia./ Da estrela mais distante que luzia,/ embora extinta, a música retorna,// mensageira do que não é mais nada./ Somente luz, vagando, sobrevive,/ ressuscitada nos que ainda vivem/ a contemplar a noite iluminada // e a entoar canções já irmanados/ pela mesma saudade, a mesma espera/ de quem partiu no tempo, atormentado.// Assim teu olho azul ainda é/ entre o ser e as coisas que perduram/ ao som do piano, flauta e oboé.
Enquanto a tendência atual na poesia é não se utilizarem os sinais de pontuação, deixando por conta do leitor organizar essa fragmentação que é tanto sintática como semântica, Isso vai ocorrer mesmo nas chamadas formas fixas, das quais o soneto é a mais popular. Leonor, no entanto, segue as regras clássicas, e estabelece ela mesma o ritmo e a entonação da leitura. E se utiliza magistralmente do enjambement, tanto entre versos como entre estrofes, um verso encavalgando o outro, emprestando-lhes uma certa angústia, uma certa premência. Seu vocabulário é simples, mas a erudição da mestra não consegue se esconder: vai usar uma estrutura de frase que é exemplo da linguagem clássica, quando diz: “teu olho azul ainda é”. Porque aqui o verbo ser tem o sentido de ter existência. Pode haver coisa mais bonita?
Seja bem vinda, Regina!
Pôxa eu não conhecia a Leonor e foi uma surpresa
maravilhosa esta amostra que voce nos oferece
da obra poética desta gaucha.
bj. Fatima.
Nestas alturas, Leonor é mais catarina que gaúcha…
E é excelente tradutora, também.
Quase ninguém lê poesia, né, Fátima? Isso é que é triste…
Me diverti muito na viagem, mas cheguei exausta… E tenho mil voltas pra fazer, hoje, afe maria!
bj
Embora a poesia recuse e não perdoe quem contra ela cometa adjetivo gentílico, gostei da afirmação de que Leonor é mais catarinense do que sul-riograndense. Não aguento mais esse “altruísmo” desse povo que deixou, no dizer deles, tudo que há de melhor no mundo, em sua terra para vir trazer o progresso para nós. Com cinco universidades federais, o RS é um estado “quebrado”. Nós, com uma, geramos emprego para todo o Brasil e somos, por eles, considerado atrasados. Que porre!
Ora, Norberto, há gaúchos de todo tipo. Lamento que conheças os desse tipo aí. Assim também há pessoas de outras origens - já ouvi, por exemplo, cearense dizendo horrores daqui.Os que estão no meu rol de amigos amam nossa terra tanto quanto amam a sua, e não dizem coisas desse tipo - porque cada terra tem suas qualidades e seus defeitos, exatamente como as pessoas que vieram delas, ou que nelas permanecem.
A ignorância das pessoas é que as faz achar que o diferente é sempre pior ou errado. Isso é muito ruim, sempre. Admitir o diferente é uma forma de crescimento; aprender com o diferente, sem necessariamente absorvê-lo, é melhor ainda.
E, me perdoa a franqueza, o que fazes é repetir o preconceito desse tipo de pessoas… contra eles.
abraço.
Você está certa, mas quem mora há anos aqui, é aquela história, “o gato nasce no forno mas não é bolo”. Saudades.
beijão, guri!
Espero que tenhas achado meu filho.E boa sorte com a publicação!