Marco Vasques encerra seu livro de poemas Elegias Urbanas , editado pela Bem-Te-Vi, do Rio de Janeiro, em 2005, com este magnífico verso: eu sou o guardador de sombras Cada vez que passo por ele, penso duas coisas: a primeira, que lembra o mito da caverna de Platão, no qual ele diz isso de todos os homens, pela pobre percepção que temos uns dos outros; em segundo lugar, e contrariamente ao que está sendo dito, o poeta é, isto sim, o que ilumina as sombras, o que lhes empresta feições, clareza, grandiosidade.
E Marco faz mais do que apenas iluminar as sombras dos sentimentos humanos através da poesia. Ele vai muito além, e ainda é contista da melhor qualidade e um entrevistador empenhado e diligente, que estuda com afinco a obra do escritor a quem vai dissecar, ajudando-nos a esclarecer o que há por trás também desses outros iluminadores de almas.
E cada um desses seus trabalhos de iluminação de homens e de artistas merece um comentário à parte. Assim, repetindo a velha e batida piada, vamos por partes.
Marco Vasques, o poeta
Se de início, na poética clássica, o termo “elegia” servia para designar uma forma fixa de poema, com um metro específico, mais tarde passou a ser designador de um gênero de lamentos, de tristeza, especialmente por amores interrompidos pela infidelidade ou pela morte. O título sempre nos cria expectativa sobre o que virá em um livro. Elegias Urbanas nos faz pensar, pois, nessa relação entre os sentimentos comuns aos homens de todas as épocas, mas com os dias de hoje, em que somos seres moldados pela cidade, bichos urbanos, já desenraízados daquilo que deveria fazer parte da nossa natureza animalizada e…racional, acreditam alguns.
E Marco leva mais adiante esse lamento elegíaco: seu amor não é pela mulher, pela dor da infidelidade ou da separação, mas pelo ser que habita a cidade, por ela violentado, coisificado, muitas vezes morto. Pior que tudo isso: por ela endurecido, perdendo-se da piedade, do afeto, do amor. Senão, vejamos: e a bagagem que nos sobra/ são metais agudos asfalto/faixas prédios advertências/ placas ossos vozes e verbos/ que ressoam no ouvido/ e se transformam em campânula/eclâmpsia/ morredouro do sentido. (Poema 1). e o tempo que nos sobra/sorve as flores do vestido/ dependurado no cabide/ que anuncia a ausência do corpo/ e a resistência da tintura e do espinho. (Poema 1)
Duramente, na cidade o que vive não é o homem, mas o que nela há de concreto e de ângulo agudo: uma esquina respira o menino/ outra esquina dorme a menina/ semáforo uma maçã come o intestino vazio (…) (Poema 2). Pois mesmo quem não quer ver acaba tendo arrancadas as vendas dos olhos: e eu que saí de casa/ de olhos vendados / vi homens tristes nas esquinas / e mulheres baratas à minha espera / seios tatuados com cifras / de todos os dinheiros. (Poema 3). O Poeta apela para o lirismo de Rilke (“Se beber te é amargo, torna-te vinho”), mas nele também não há resposta: e tudo vira pedra/neste templo em que rezamos /tudo está determinado/apenas a escolha / da taça quebrada / e o amargo da veia ou do vinho/ agasalhado na marquise/alteram o interesse do paladar.(Poema 4) .
Pois nessa cidade áspera, pior que a drummondiana de A Rosa do Povo, já que nessa ao menos as flores feias que furam o asfalto nascem de maneira natural e espontânea: as flores da cidade/ plantadas por decreto/ velam prédios homens/ casas e balançam apenas/ com o vento metálico/ dos automóveis. (Poema 5). E o amor não só não existe, como seus frutos não prometem nada para o futuro: adiante uma flauta em forma de pênis / solta a semente no ouvido de uma cifra / e cria-se voz e movimento entre o acelerar/ e o gás carbônico de um escapamento/ e mais um estupro nasce com promessa de vingança/e ainda chamam o filho de rebento/ não bastasse isso ainda cresce/ sob a luz de um poste prostituído/ mais uma face cega para o mundo.(Poema 9)
Marco Vasques, o contista
O título do livro de contos é Harmonias do Inferno, o que, obviamente, conduz a Baudelaire, um dos seus autores favoritos. É edição do Autor, de 2005. São catorze contos, e diz o poeta Cláudio Willer, no Prefácio: “As histórias que compõem Harmonias do Inferno são fragmentos, peças de um grande painel, de um todo examinado e investigado a partir de cada um de seus microcosmos.”
E este Inferno que é harmônico (e a imagem é altamente sugestiva) é um universo que se manifesta especialmente pela extrema solidão, pela dolorida carência, pelo desejo incestuoso, que é recorrente, mas nunca erótico ou pecaminoso. De um modo geral, se referem ao universo familiar, sufocante, pesado, claustrofóbico, de seres que não conseguem se comunicar, mas que só possuem uns aos outros. Nada mais adequado para que se extrapole o círculo desse tipo de relação, e se possa estender o entendimento - e a grande metáfora proposta - para o desespero existencial de cada ser humano.
A voz é sempre a voz do poeta que Marco Vasques é, acima de tudo. Aprecio muito todos os contos que compõem o livro, mas minha preferência vai se dar a um intitulado “Um palhaço com uma flor nas mãos numa estação de trens” (e o trem da chegada é o mesmo trem da partida, cantam Milton Nascimento e Maria Rita), forçado a alimentar a alma sedenta de alegria e de afeto com a lembrança dos velhos risos que já ouviu de seus espectadores de todas as épocas… E chega à noção epifânica de que tinha necessidade de fazer rir porque este riso alheio, vicário, lhe fornecia um pouco da felicidade que ele mesmo perseguia. E há ainda a crueldade do abuso sexual em “Todos os assentos estão ocupados”, uma história que não é original em si, mas na forma como a não-percepção do fato pela mãe - testemunha ingênua - deixa que aconteça, diante de seus próprios olhos. E ainda da talvez cumplicidade dos outros passageiros do ônibus que, se percebem o que ocorre, preferem não se envolver.
Marco Vasques, o entrevistador
Conversar com os outros escritores leva a uma compreensão e a um conhecimento da importância não só da literatura na vida de cada um, mas também do que os comove e move e vai lhes servir de tema, seja para cada um dos livros, seja para a obra em geral. Vêm de origens diferentes, com histórias de vida diferenciadas, usam diferentes metodologias para a produção de suas obras, são portadores de estilos os mais diversificados e, no entanto, são todos escravos da palavra, e necessitam dela para se exprimir e se contar para o mundo ou apenas para si mesmos. Porque até nisso se distinguem: alguns perseguem a fama; outros, porém, não fazem questão dela. Há os que se concedem também ao desejo de fortuna, e se dobram aos ditames do mercado. Uns poucos acertam nessa busca de um nicho que lhes seja tão completamente satisfatório.
Em 2004, em co-edição da EdUFSC e da Editora Movimento, de Porto Alegre, Vasques publicou o primeiro volume de seu Diálogos com a Literatura Brasileira. No próximo dia 8, lançará o segundo volume, com novas entrevistas.
Neste primeiro volume, cobre um espectro amplo de autores, que vai da (na época) iniciante Adriana Lunardi ao nacionalmente consagrado Cristovão Tezza, do prestigiado Salim Miguel ao escritor e cineasta Tabajara Ruas. E passa ainda pelos poetas Alcides Buss, Carlos Nejar, C. Ronald; pelo filósofo e estudioso de Nélson Rodrigues, Mário Guidarini; pelos ficcionistas Domingos Pellegrini Jr., Moacyr Scliar, Olsen Jr e a - além de ficcionista - também poeta e cronista Lya Luft.
Em recente participação do Círculo de Leitura, criação do poeta e editor Alcides Buss, Marco contava o que teve que aprender para bem conduzir suas entrevistas. Ao tratar da primeira, feita com Cristóvão Tezza, descobriu que Tezza já tinha dez livros publicados. Deles, Marco só havia lido dois… Diligente, foi ler o que faltava, antes de dar continuidade ao trabalho. Foi fazer o que se chama, em linguagem escolar, “os deveres de casa.” E falar com artista ou autor de qualquer área, com algum conhecimento de sua vida e um profundo conhecimento de sua obra acaba produzindo um resultado que poucos conseguem igualar.
Só para citar um exemplo, quem não se encantou com o Conversas com Cortázar,, de Ernesto González Bermejo, editado pela Zahar, em 2002? Pois acredito que o que foi aprendido ao elaborar o primeiro volume de seus Diálogos será plenamente aproveitado já no segundo, á beira do lançamento, e tudo isso, somado, servirá para tornar melhor e mais profunda a obra dele próprio, um autor ainda tão jovem, e já apresentando tão bela produção.
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