A narrativa de terror

Regina DráculaPara a maioria das pessoas, ouvir dizer que uma professora universitária oferecesse um disciplina sobre narrativa de terror seria já um forte indício de que ela não leva sua profissão lá muito a sério… Mas para objeção tão boba só posso oferecer uma frase de Umberto Eco , em que ele declara que nenhum assunto é baixo demais para o homem de espírito.

A literatura de mercado merece ser estudada, merece inclusive ser desenvolvida, pois acredito que nos faz falta, no Brasil, não ter autores trabalhando com esta vertente, exceção feita a André Vianco e Walther Alvarenga, autores meio fraquinhos. Os filmes devem ser vistos de maneira mais séria, sem apenas gritar e aplaudir a ação, como fazem os meninos de 12 anos com as maldades de Jason, pela importância que têm para as bilheterias de praticamente todo o mundo. Vamos tentar fazer isso, sem dúvida.

Para começar, vamos primeiramente falar do nosso gosto pelas histórias de terror. E vamos tentar não ser hipócritas sobre isso, tanto quanto for possível não ser hipócrita sobre a crueldade que nos permite ficar vendo outros seres - humanos ou não - sofrendo ou fazendo alguém sofrer, muitas vezes dores e torturas as mais atrozes.. E nós aqui, na segurança da poltrona de casa ou do cinema, comendo ou não pipocas , tomando ou não aquele refrigerante em lata bem geladinho, vivendo aventuras que não viveríamos de outra maneira . Impunes e incólumes, é bem assim que gostamos, é bem assim que preferimos. Sequinhos e limpos: sobre nós não vai respingar o sangue que jorra na tela, muitas vezes aos borbotões…Quer dizer: hipócritas e covardes… (não me odeiem por isso, mas é bem verdade, vocês sabem). Bem, não tão covardes quanto aqueles que NÃO ASSISTEM aos filmes ou LÊEM os livros…

Vou contar pra vocês de onde surgiu meu gosto pelas histórias que assustam a gente, e nos trazem as conseqüências que apreciamos: a adrenalina, os sustos, o suspense garantido pela música e pelas corridas todas, pelo monstro dentro do armário ou embaixo da cama. Stephen King garante que as crianças são as criaturas mais corajosas do mundo: elas sabem que há um monstro debaixo da cama, mas fecham os olhos e dormem assim mesmo. Pois eu era criança, e meu avô materno , marítimo, quando voltava de suas viagens, agrupava os netos ao seu redor, e nos contava histórias e mais histórias. Eram assombrações, bruxas, lobisomens (que ele dizia “lambisômi”), mulas sem cabeça, boitatás, saci pererês. Nós ouvíamos encantados, os olhos cheios de pavor com aqueles monstros que habitavam o mundo lá de fora, e depois não dormíamos, de medo. No dia seguinte, havia aquele escândalo das mães dos culpados: não deixem mais o velho contar essas histórias! Elas deixam as crianças com muito medo!

Pois o velho viajava outra vez, voltava quarenta dias depois, as mães já tinham esquecido de tudo,e lá íamos nós repetir a audiência, os sustos, o medo posterior, muitas vezes com histórias que já conhecíamos de cor e salteado. E lamentávamos que nenhuma de nossas mães tivesse tido sete filhas ou sete filhos, para poder acompanhar sua metamorfose em bruxa ou lobisomem… Eu queria mais, queria ser a sétima filha, virar bruxa e ir dar nós e fazer tranças na crina dos cavalos da vizinhança. Não, eu não morava no campo, morava no centro de Floripa, há muitos, muitos anos, ou, talvez, nem tantos assim…Havia jardins, havia manhãs naquele tempo, diz Drummond. E havia cavalos no centro deFloripa.

Nos adolescentes que vejo hoje assistirem aos filmes nos cinemas, observo um prazer pela correria, pelo sangue, pela crueldade - não há o mesmo prazer pela história bem montada que. nos conduz a um universo paralelo, inviável, talvez, mas verossímil. Eles querem cenas de ação, muito susto, muito sangue, muitos seios vislumbrados, e seus hormônios ferventes se satisfazendo com “apenas” isso. E tal afirmativa pode ser facilmente comprovada pelo sucesso de séries como Sexta-Feira 13 , cujo forte não é exatamente o enredo.

Na Introdução que fez para a edição dos três grandes clássicos do terror (Drácula/Frankenstein/O médico e o monstro - Ediouro, 2003), Stephen King se espanta com a permanência dos três no gosto do leitor. Argumenta ele que, com o que sabemos hoje sobre o sangue e sobre os transplantes, há muitos detalhes sobre a forma como o sangue é tratado nos livros (as muitas transfusões feitas em Lucy, no Drácula, por exemplo) que não se mantêm mais de pé. Assim mesmo, o leitor lê com facilidade e rapidez a trilogia básica.

Aliás, neste artigo aparece uma mancada cultural de King, que diz ” A maldade de Frankenstein é sugerida por seu subtítulo, ‘ O Prometeu moderno’. Prometeu, que nos trouxe o fogo, acabou acorrentado a uma pedra, seus olhos arrancados pedaço a pedaço por corvos - punição por ter roubado o que pertencia aos deuses.” (p. 10). Ora, qualquer um que tenha um pouco de cultura clássica sabe que era um abutre que vinha diariamente bicar o fígado de Prometeu - e o fígado tem de fato capacidade de se regenerar, e se regenerava rapidamente, já pronto para o dia seguinte. Nem os olhos (cuja perda faz parte do mito do Édipo) nem os corvos - abutres e fígado, numa tortura cotidiana e interminável, de um semideus amarrado a um pico do Cáucaso, por ordem de Júpiter.

Pois o fascínio que os livros e os filmes sobre monstros exercem sobre os leitores permanece, mas o leitor espectador da atualidade é muito mais sádico. Por uma razão muito simples: a visualização dos horrores foi se tornando bem mais explícita, à medida que se iam aperfeiçoando os efeitos especiais, a trucagem computadorizada tornando possível o que antes dela era inimaginável fazer.

Mas não foi assim que começou - nos primeiro filmes não há sangue, não há terror explícito, nem erotismo ligado a ele. Há suspense… um tênue, sutil suspense, e a maravilhosa imaginação do espectador preenchendo as necessidades de maior ou menor crueldade na cena. Não sei o terror tão explícito da atualidade é bom ou ruim. Só me parece desnecessário. Um dos melhores filmes que já vi, no setor, em preto e branco, foi há cerca de 40 anos, chamava-se “Os Inocentes”, era baseado no romance The turn of the screw, de Henry James, e fazia as pessoas gritarem no cinema, de susto… e prazer. Aquele conhecido e velho prazer nosso em sentir medo.

5 Responses to “A narrativa de terror”


  1. 1 leilalampe

    Regininha querida!
    Como o previsto, teu blog já é um sucesso.
    Beijão

  2. 2 Regininha

    Espero que continue sendo!

    Pode ser só curiosidade de primeiro momento, né?
    Mas vou ter sempre novidades aqui, pois sou mesmo novidadeira….
    beijão,

  3. 3 Ana Paula

    ô-ô-ô…Regininha é o terrô!!!

    tá td mundo falando desse brogue. Até eu q sou calado.
    hauhuahauhauhauhauhau…

    10 bju

    ps: aquela regininha q o Clóvis fez tá mutcho baita, visse?

  4. 4 Ana Paula

    hahhaah…saiu Ana Paula mas vc sabe quem escreveu, né?????

    bju, 1000 bju do FRANK (no lapentope da namô)

  5. 5 Regininha

    Eu tava achando estranho a Aninha Paula dizer “que sou calado”…
    Sendo tu, que não és nada calado, né, Negão,ficou melhor ainda…
    Vais adorar a crônica desta semana, sobre o Googlism. Sai na quinta no AN, e vem pra cá na seqüência.
    O Clóvis tá pensando em refazer a animação que tinha feito pro Sapo Azul, na época do Cia do Texto, pra pôr no site que o brogue vai virar! Vai ser a glória!

    beijão,
    Regina

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