Os Olhos de Sylvio Back

“Do passado volto com mãos afanando
Do futuro antecipo o imperecível.”
(Sylvio Back:Inadvertência)

Na apresentação desta autora, ao pé da página, escreve-se: escritora. Mas o grande orgulho é o de ser poeta, embora bissexta. Cada poema feito, bom ou ruim, não importa, é enviado por email para os amigos com o título: felicidade existe! E não consigo dormir sem antes ler algum poema, dos poetas mais variados, Drummond o mais percorrido, sempre, e as mulheres poetas, especialmente Hilda Hilst e Adélia Prado.

Apesar dessa paixão toda – talvez justamente por causa dela – acho difícil escrever sobre a obra dos poetas. Não admito, porém, ter tal tipo de limitação, e estou me obrigando a superá-la. Para tanto, preparo palestra e livro didático sobre a poesia atual em Santa Catarina, com um objetivo mais divulgatório do que analítico, na crença de que cada poema DIZ a si mesmo de maneira tão perfeita que nenhuma análise dará conta dele. Lembre-se aqui a repetida afirmativa do mestre Antonio Candido, de que a leitura de um poema é a soma de todas as leituras feitas sobre ele.

Minha seleção começa pelos livros de poemas do cineasta Sylvio Back, catarina de Blumenau, cujos filmes acompanho – com os percalços enfrentados pelo cinema não-comercial – desde Aleluia, Gretchen ( o longa anterior, Lance Maior, só vi muito depois, em retrospectiva de cineclube paulista). Como não me envergonho de confessar ignorância, pois a partir dessa aceitação é que se aprendem coisas novas, sequer suspeitava que Sylvio também “cometesse” seus poemas, como nós outros, membros do clube dos que se dizem, contaminados pelo vírus da palavra mordida, saboreada, perseguida, erotizada, muitas vezes também odiada…

Se saber que Sylvio Back é poeta causa estranhamento, ler seus poemas causa um estranhamento ainda maior. Um imenso susto, na verdade: o que é isso? São poemas duros, sem muita musicalidade, sem muito ritmo, na imensa maioria extremamente contextuais – poemas daquele momento, daquele sentimento, daquele cotidiano. E o que parece uma limitação acaba se expandindo e DIZENDO, por mais que o poeta lui-même se esconda atrás dessa dureza da palavra e do verso. O também poeta e jornalista Anelito de Oliveira declara, em artigo sobre o livro Eurus, que são poemas do ver, não do dizer: perfeito! Os poemas de Back são cenas montadas, rodadas, mas sem trilha sonora perceptível, e daí a perplexidade de quem os lê.

Em minhas mãos, três de seus sete livros do poemário: Moedas de Luz ( o próprio título já demonstra o que acabo de dizer, por sua nenhuma sonoridade e sua estranheza semântica), editado pela Max Limonad, São Paulo, 1988; boudoir (7Letras, Rio, 1999) e Eurus (Íbis Libris, Rio, 2006). Esta uma edição bilíngüe, com tradução dos poemas para o inglês feita por Thereza C. R. da Motta, de alguns poemas escolhidos. O livro completo é da 7Letras, Rio, 2004.

Ao se observar as datas de publicação, e lendo-se as obras na seqüência, como o fiz, podem-se notar alterações de estilo e de temática, o amadurecimento contínuo do poeta. Os poemas se tornam menos ligados ao cotidiano específico, vão se tornando mais livres, mais soltos, mais densos. Em boudoir, são poemas de cunho erótico, fesceninos em sua maioria, a que ele tem se dedicado cada vez mais.

Além desses, no formato livro, há os que estão à disposição nos sites www.cronopios.com.br e www.germinaliteratura.com.br. Em cronopios, vale a pena ler os kinopoems, por seu acabamento visual; em germina, os poemas fesceninos, que ele se recusa a aceitar sob o rótulo ali colocado de pornográficos, e protesta em artigo ali também exposto. Não quero entrar no mérito da discussão, pois se penetra em terreno de moralidade, embora tenda a concordar com ele: a arte não é terreno em que se devam aceitar ditames morais. Mas os poemas podem dizer melhor:

O desejo empurece
O verso do poeta
(fora de cena)
Pois, afinal
Amar é putear
(o desejo e o que seja)

Como não poderia deixar de ser, nem ele deixar de ser quem é, o cinema é referência constante:

antes fazendo fita
do que viver sem
Viveca Lindfors
(movie-junkie)

“Nenhum filme vale uma vida.”
(Diário de Mara VIII)

Antes que a gaze se insinuasse, foi rodando
(rondando) o derradeiro fotograma, bruxuleante.
(FIM)
“Teus filmes são os nossos filhos.”
(Diário de Mara V)

“Jamais dedique um filme a quem está vivo.”
(Diário de Mara X)

O filme
Da mente
Não mente
(demente)
(tem quem tenha visto)
24 horas depois, a imagem dela “congelava”.
(Dublagem)

E vai aparecer ainda em vários títulos:“…you only live twice…”,Film Noir, fill me (excelente trocadilho!), A propósito de Gilda, filmagem, na moviola… Alguns exemplos, apenas, dentre muitos.

As referências à morte são uma constante, seja à morte ela mesma, seja à petite mort, o orgasmo, sua forma (talvez!) mais prazerosa:

“Se eu morrer, cortem meus pulsos. Não quero
ser enterrada viva”
(Diário de Mara IV)

“Alguém que me acuda: estou de bem com a morte.”
(Diário de Mara VI)

A vida é um brinde da morte.
(E vice-versa)

Essa foi a única vez que não acabamos juntos.
(Imperdoável)

Me
masturbo
saboreando
-te
(no céu
da boca)
algas
que
nos pertenciam
(sobressalto)

E o mais significativo deles, quanto a esse aspecto:

nada mais
erótico
que a morte
nada menos
coveiro
do que
o tempo
(confidência)

Filho de pai suicida, o suicídio e o suicida acabam sendo figuras persecutórias:

feito um frio suicida
deixe sempre tudo atado
(críptico)
silêncio
hara-kiri
zen
(silenciário)

(este poema é um belíssimo jogo de imagens e contrastes, da crueldade extrema do haraquiri à serenidade do zen, impostos à voz que se cala: um curtíssima metragem que diz tudo).

E como o ressentimento é uma dor que nunca cicatriza, ele é claramente notado em poema sintomaticamente chamado de pai e Zweig (o nome do escritor austríaco sendo a única palavra escrita com inicial maiúscula em Eurus):

aos pósteros haver-se
para o que der e vier

Esta preocupação com o suicídio como temática está presente também em vários de seus filmes, a partir de Aleluia, Gretchen, quer consciente, quer inconscientemente. Lost Zweig é o mais evidente, mas eu diria que, indiretamente, ela está também em Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro, e até na luta inglória (e gloriosa!) de A Guerra dos Pelados.
Como não poderia deixar de ser, o cotidiano pessoal habita flashes:

Ainda bem que fiquei com a tua passagem
de volta.
(Previdente)

E ainda em remissões à música popular e seus instrumentos, como no título pequei-te cavaquinho, um bom intertexto. E muitas vezes em contrastes bem colocados, até na apresentação gráfica do poema:

rouco                        afônico
de                            de
tanto                        tanto
ficar                         falar
calado                      sozinho
(loquaz)                   (falaz)

Para falar de seu poemário, porém, nada melhor – continuo acreditando nisso! – do que o próprio poeta, ainda mais um com características tão próprias, para cuja fruição o leitor habitual da poesia precisa se deslocar do seu eixo do dizer para o do ver.

queimei o filme
queimei o poema
queimei se amei.
(movie-junkie)
E nada mais precisa ser dito…

(publicado do Diário Catarinense, de Florianópolis, SC. Caderno de Cultura, p. 4. 29/9/2007)

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