O Gabriel Gomez e eu tivemos discussão interessante (pra mim, sempre é) sobre a palavra “borrador”. Começou aqui, terminou por email, ele constrangido como se tivesse cometido algum erro e, além de tudo, estivesse abusando da minha paciência. Conta que lá em Rio do Sul atribuem seus “erros” ao fato de ser argentino… Atribuiriam o mesmo aqui em Floripa, sem dúvida, que as pessoas são ignorantes de quase tudo, e de linguagem e suas sutilezas mais ainda. Ora, ele usaria termos diversos, do mesmo jeito, se falasse carioquês, ou paulistês ou mineirim, ou cearense, e nós sabemos disso. Só que daí seria brasileiro, e estaria falando Português, mesmo que um Português errado…Afinal, “todo mundo fala errado, menos eu”,é o pensamento geral, e os catarinas temos um exemplo taxativo com os vizinhos do “andar de baixo”, os gaúchos. Ora, isso não existe, né, ao menos em termos de língua falada.
Quem passou por minhas aulas de Variação Linguística e prestou alguma atenção, deve ter aprendido que o diferente é interessante à beça, não é errado. Sacar por que razões culturais as regiões se fixam em certas formas e abandonam outras é muito legal. Português e Espanhol são línguas assemelhadas, e o vocabulário é muito próximo. A imensa maioria das palavras existe nas duas línguas - nem sempre com o mesmo sentido, é claro…(Nunca esqueço da Anita, a professora de Espanhol, usando LARGO como exemplo de falso cognato, pra gente prestar atenção nisso. Porque em Espanhol “largo” significa comprido… “El pasillo es largo y ancho” ela dizia, e tínhamos que repetir, atrás, mais de uma vez…) O humor trabalha bem isso - e é o humor que salva a humanidade, ‘cês sabem. Portugueses dizem que o Espanhol é um Português errado; espanhóis retrucam, dizendo que o Português é um Espanhol errado… E Gabriel me conta que já ouviu de conterrânea sua que o Português é um Espanhol sem osso, por causa da suavidade da pronúncia, dos “-ão” todos. Afinal, era como nos chamava Mário de Andrade: a língua do ão…Maravilha: nenhum é errado, todos os dois são lindos, porque contam da cultura, da história, das mudanças de um povo.
Tem gente que corrige pronúncia dos outros em inglês, porque passou dois meses no interior do Arizona, e acredita que os EUA inteiros, mais o UK, falem daquele jeito…Ora, Arizona nunca mais! Outro dia colega teimava comigo que não existe a forma “hay”, do verbo haber, do ditado “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, porque passou não sei quanto tempo no México, e nunca viu ninguém usando. Haja saco! Nas outras línguas, como no Português, muita variação existe, regional, geracional, profissional. E isso é bonito. Falo jovem porque ando mais com jovens do que com pessoas da minha idade, a maioria na idade do condor… Como os jovens, acabo dizendo que certas coisas me deixam muito puta, e o que é bom ou bonito “é do caralho”… Os jovens nem piscam, mas os mais velhos me olham com espanto escandalizado, arre égua!
Faço distinção entre ignorante e burro. O “ignorante” é o que ignora, não sabe; não sabe ainda, mas pode vir a saber, se quiser. Tem capacidade de aprender. O burro é o que não tem essa capacidade. Às vezes nem é questão cerebral, é desinteresse , falta de esforço e o fato de se manter a mente fechada pras coisas novas. É muita pobreza que se considere errado o diverso, mas isso já é questão de burrice e de preconceito, nada a fazer… Cabeça fechada é coisa triste, e infelizmente é o que mais existe.Vamos abrir as nossas, façam-me o favor!
Mas, voltando ao Gabriel e à palavra “borrador”, ele tinha consultado o Michaelis, do qual sempre tenho desconfiança: Carolina Michaelis era filóloga portuguesa, seu dicionário nasceu em Portugal. Pra desfazer a cisma, fui ao Houaiss. E tive um deslumbramento. A citação que Gabriel tinha feito de Borges dizia: “A gente publica para não continuar corrigindo os mesmos borradores a vida toda.” Pus notinha embaixo: borradores = rascunhos, mas não fui verificar nada. E daí, ao me pegar com o Houaiss, uma viagem… A palavra tem sua origem na pintura, por causa de pincéis que borram. Se estendeu para as artes plásticas, e para o uso comum, como rascunho (usavam-se canetas de pena, depois caneta-tinteiro…). A contabilidade manteve o termo, que talvez não use mais: já está informatizada. O uso literário somou todos os sentidos, para significar que um borrador é aquele que borra tudo, é um mau escritor… Borges, sendo quem era, somou todos eles de novo, e taí. Maravilha! Inclusive, em Espanhol, maravilha sonora: pronunciem Borges em espanhol; pronunciem borrador - ele se diz rascunho, de gente, de artista, ele é pincel que borra, ele é mau escritor, eram calúnias quando falavam de sua genialidade… E ainda se pode ver a paronomásia. AMEI, AMEI! Obrigada, Gabriel!
Eu que amei!!!!

beijo!
Que interessante! Estava navegando em outros blogs, até que encontrei o seu… Gostei muito do que você escreveu.
Mas fiquei com uma dúvida: quem é Gabriel Gomez?
Lê:
quando eu fazia isso em sala de aula, os meninos diziam: “que viagem…” Bem, já vou adiantando o expediente. Adoro essas viagens!
Bom que amaste, também.
Roberto:
o Gabriel é um contista, argentino, que mora em Rio do Sul, SC. É casado com brasileira, tem um jornal naquela cidade.Estou revisando um livro de contos seu, redigido no mais legítimo portunhol (hehehehe) e que será publicado em futuro próximo, pela Design Editora, de Jaraguá do Sul, também minha editora.
O cara é bom, e foi ótimo descobrir mais um escritor produtivo cá na terrinha…
beijão procês.
eu também adoro pensar nessas, literalmente, variações da língua!
adorava as aulas desse assunto na faculdade. escrevi à beça sobre ^^
beijão!
até semana que vem.
Italo:
além de ser interessante, fornece histórias muito legais, não só as divertidas, mas também algumas bem dramáticas…
E justo pra mim, que quase não gosto de historinhas, né?
bj.