Na adolescência eu era muito “cinemeira”. Lembro claramente da sessão de estréia do Cine São José, em Floripa. Passaram aquela obra linda do Vitório de Sica: Milagre em Milão. Em preto e branco, com aquela estética que apenas os filmes em preto e branco conseguem ter.(Hoje os cinemas estréiam não mais com filme de arte, mas com algum grande sucesso de bilheteria. Sinal inequívoco dos tempos…) Mais tarde assisti a um filme do qual recordo muito pouco, mas cujo título, pela beleza e pelo significado, jamais esqueci: O que a vida nos tira…
E de tanto em tanto, nos balanços pessoais da vida, é necessário que me ponha a contabilizar isso. Aprendi, com o tempo, que se tira muito proveito da vida ao se admitir que ela é o que ela é, e não lhe exigirmos coisas impossíveis. Para isso declamo o poema preferido do Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Alberto Caeiro: “Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo./ E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.”
Acredito piamente que, em sua trajetória normal, a vida é aquilo que acho que ela seja - ou, em outras palavras, não há outra forma de alguém encarar os acontecimentos que não seja com a subjetividade de cada um. Vemos com nossos olhos, processamos com nosso conhecimento de vida, e tentamos alguma objetividade, tanta quanto nos seja possível. É óbvio? Sim, é o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Criamos um repertório próprio, uma filosofia e uma psicologia que seja adequada a nós, e tocamos em frente.
E cada dia é um dia…
Há fatos que fogem ao controle, mas há que enfrentá-los. Uma amiga me disse uma vez, ao me ver de baixo astral: não fica triste! E olhei-a meio escandalizada, como se tivesse dito uma grande bobagem,e eu não esperasse isso. O que, aliás, a meu ver, tinha feito. Apesar de todas as mensagens enviadas pelos livros e gurus de auto-ajuda, não se é feliz o tempo todo. Os nirvanas - exceção feita aos monges budistas, talvez - são momentâneos e esporádicos.
Há coisas que nos deixam tristes, há coisas que nos deixam zangados(as), há coisas que nos causam revolta. Há coisas que nos deixam completamente impotentes, e isso paralisa a gente … por uns tempos. Porque não está morto quem peleia, e somos lutadores. E alegres. Mas não o tempo todo, que não somos doidos nem nada…
Restaurações de dentes caem, o banheiro do vizinho de cima vaza no meu, alguém passa conversando alto pelo corredor,na madrugada e me causa uma insônia zangada… O 13º. salário não é pago na data certa, perdemos ação na justiça - e lá se vai uma parte do salário, uma grana que estamos recebendo há 17 anos… “Não existe direito adquirido”, argumentam… E ficamos muito indignados, mas se o estupro é inevitável, já se sabe. Cortam-se refeições fora, não se compra roupa nova, diminui-se o gasto com livros - só se diminui, porque livro é essencial, e roupa nova não é…
O que sobra do salário dá pra passar o mês, e há os projetos que estão sendo encaminhados, e os dias azuis, bentevis gritando no jardim, a vizinha doceira indo entregar suas caixas para os clientes, sempre animada e ligeira, violetas florescendo na sacada, o cheiro bom da muda de tomilho, e Suzana falando com graça, na crônica desta semana, do sapinho de 2 reais que lhe dei. Há este carinho que se manifesta de maneiras muito diversas, do jeito de cada um, sem que precisem dizer “gosto de ti”, ou “te amo”. E que bom que eu perceba e valorize!
A vida é o que a vida é, e Oswald de Andrade tinha toda a razão: A alegria é a prova dos nove.
(Publicada no Anexo do AN. 28/8/2008. p. 3)
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