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Leonor Scliar-Cabral:a poesia da sapiência

VELHOS JORNAIS

Talvez um pão dormido,

jaz o jornal embaixo da soleira.

Mãos iletradas magras,

Mercúrios sorrateiros,

dobraram silenciosas as notícias.

Transpõem a madrugada

a tinta a celulose o antimônio

o sangue do tipógrafo

tossindo sobre as caixas.

O vai-e-vem que esmaga da impressora.

A imprensa era tão livre

quanto a memória arquivada e traçada

pelo Assis Chateaubriand.

Olhos virgens do foca:

a história é como o diretor a vê.

(IN-: O sol caía no Guaíba)

Para mim ela é e sempre será a “Professora Leonor”, mestra que me foi em duas disciplinas de pós-graduação e, mais que isso, mulher viajada e culta, admirada por isso. Gaúcha de Porto Alegre, radicou-se em Florianópolis há mais de 20 anos, aposentando-se como professora da UFSC, onde ainda está ligada ao Pós-Graduação de Lingüística, sua área acadêmica.

Mas uma parte de nosso conhecimento literário vem disso, das relações pessoais, daquilo que conhecemos das pessoas, tanto das que escrevem, como das outras. E nisso tenho sido pessoalmente premiada. Para melhorar, escritores e gente famosa não me constrangem: costumo vê-las como gente igual às outras, mas com um talento especial.Algumas sentem agudamente, e têm, agudamente desenvolvido, o sabor e o talento da palavra, coisa mais maior de boa…

E assim é minha relação com Leonor Scliar Cabral, essa admiração pela inteligência e pelo talento, e um grande afeto pela pessoa, uma pessoa tão completamente diferente de mim mesma. Afinal, Leonor é elegante e formal, e eu sou informal a ponto da deselegância…

Sobre sua obra, diz ela mesma: “Meus temas têm sido: o erotismo na mulher e, mais recentemente, na velhice; o judaísmo e a memória sefardita; a linguagem, em suas mais variadas formas e processos, culminando com a invenção do alfabeto. Meus poemas também são autobiográficos.”

Quero lhes mostrar poemas de seus dois últimos livros, e para isso começo com BUS STOP

Sob o neon fiquei horas parada/ na parada que me transporta ao nada /e o ônibus chegou sem passageiros, /condutor.// Desfilam os sobrados com seus palcos / onde ao redor da mesa iluminada / conversam as famílias com seus pratos./ Eu lá estou:// a criança me acena conivente / e no escuro do carro em que viajo / eu retribuo o gesto de quem parte / consigo só. (IN-: De Senectude Erotica)

O ônibus é sem dúvida uma metáfora da vida, seu trajeto é nosso viver e o bus stop, o ponto de ônibus, os momentos de reflexão, de introspecção, de análise. A criança é lindamente, trafalmadorianamente ela mesma. Lembremos Machado de Assis: “o menino é o pai do homem”. O que somos quando criança mostra o que seremos ao crescer, e sempre há um pouco ou muito da criança que fomos em cada um de nós. E como esta criança – e criança é palavra que serve para os gêneros todos – se diz para si mesma, ela parte consigo só…

Há neste poema uma imagem que me agrada particularmente, por sua força expressiva, resultante da ambigüidade com que está construída: “ao redor da mesa iluminada/ conversam as famílias com seus pratos.” Os membros da família conversam entre si enquanto têm os pratos à sua frente, ou conversam com os pratos, na incomunicabilidade que tanto faz sofrer todos os seres humanos? O clima do poema faz pensar na segunda hipótese, mas a primeira não se exclui: podem conversar entre si como se falassem com os pratos, pois na verdade não se conhecem, não se vêem, não se sabem…

Do mesmo livro, a dor do envelhecimento:

ÁGUAS PARADAS

O meu olfato aos poucos vai morrendo./Sem saber que estou surda, da janela, /surpreendo o badalar de um velho sino / que não me chega // e a brisa em sopro faz tremeluzirem / as corolas douradas dos jacintos /e os cachos de glicínias pendurados,/ quase inodoros.// Os frascos de perfume estão vazios / e as gotas esparzidas sem vestígio,/ sem encontrar abrigo nos meus poros,/ envelhecidos. E nem eu sinto o que eu própria transpiro,/ um odor acre em jarra enferrujada,/águas paradas no odre com sua pátina,/e com seu mofo. (IN- De Senectude Erotica)

No entanto, este mesmo envelhecimento não impede erotismo e paixão. Só que eles se tornam dolorosos:

PEDIDO

Mesmo que doa, quero que me rasgues,/que tu me lanhes e depois me afagues//lambendo as chagas como cães no cio,/pedindo perdão pelo desvario// de sentir prazer nas marcas que arrasto/ para não te esquecer no leito azul// quando sozinha eu fico e ouço os gemidos/que se misturam ainda ao farfalhar//do bosque e seus sussurros abafados./ Mesmo que doa, vem, meu doce amado.(IN-: De Senectude Erotica)

Seu último livro se chama O sol caía no Guaíba (Bestiário, de Porto Alegre, 2006), e conjuga sonetos e odes. Dele, vou citar o soneto que o crítico gaúcho Fábio Lucas, que faz a apresentação, considera o poema mais bem realizado :

SENTIMENTO DO TEMPO

Invisível em visível se torna,/ da esfera mais longínqua a harmonia./ Da estrela mais distante que luzia,/ embora extinta, a música retorna,// mensageira do que não é mais nada./ Somente luz, vagando, sobrevive,/ ressuscitada nos que ainda vivem/ a contemplar a noite iluminada // e a entoar canções já irmanados/ pela mesma saudade, a mesma espera/ de quem partiu no tempo, atormentado.// Assim teu olho azul ainda é/ entre o ser e as coisas que perduram/ ao som do piano, flauta e oboé.

Enquanto a tendência atual na poesia é não se utilizarem os sinais de pontuação, deixando por conta do leitor organizar essa fragmentação que é tanto sintática como semântica, Isso vai ocorrer mesmo nas chamadas formas fixas, das quais o soneto é a mais popular. Leonor, no entanto, segue as regras clássicas, e estabelece ela mesma o ritmo e a entonação da leitura. E se utiliza magistralmente do enjambement, tanto entre versos como entre estrofes, um verso encavalgando o outro, emprestando-lhes uma certa angústia, uma certa premência. Seu vocabulário é simples, mas a erudição da mestra não consegue se esconder: vai usar uma estrutura de frase que é exemplo da linguagem clássica, quando diz: “teu olho azul ainda é”. Porque aqui o verbo ser tem o sentido de ter existência. Pode haver coisa mais bonita?

Eros pode tudo?

Ler o artigo do poeta e cineasta Sylvio Back aqui, sábado passado, foi uma forte motivação a que me manifestasse sobre a questão dos poemas eróticos, ou pornográficos, ou fesceninos, como quer Sylvio Back. Vejam que utilizo os três termos como se fossem sinônimos, pois para mim o são. Organizo antologia de poemas eróticos de poetas de Santa Catarina e tenho pensado no assunto, inclusive porque organizar obra significa escrever uma introdução para ela, o que me obriga a ler sobre o tema, e a esclarecer para mim mesma como me sinto a respeito.

Na pesquisa que tenho feito, que inclui a leitura do seminal O Erotismo, do Georges Bataille, acabo topando com posições com que concordo e outras de que discordo.     Isso se dá porque olho a questão por dois vieses: pelo do produtor de textos, pois também faço poemas eróticos,  e o de leitora deles. Mas sou, ao mesmo tempo, profissionalmente portadora de deformação, a de professor, e gosto de tudo classificado e organizado.

Vamos ver se consigo colocar isso com clareza.

Há uma colocação de Dirceu Villa no site Germina Literatura (www.germinaliteratura.com.br) que ajuda a esclarecer isso: “ Tendo em vista evitar uma distinção de valor absolutamente ridícula, que vários teóricos e artistas propuseram (Boris Vian e José Paulo Paes, por exemplo) entre pornográfico e erótico, em que o pornográfico se destinaria pura e simplesmente ao estímulo sexual e o erotismo abocanharia a parte “nobre”, refinada e artística, entendamo-nos: erótico é um texto de poses, calculados subterfúgios que representam a sexualidade e pornográfico é aquele que fala francamente, com todas as tão temidas palavras. Ambos igualmente artísticos, ambos podem igualmente ser bons ou maus(…)”

Quanto à parte final, estamos concordes. Já quanto ao miolo, discordamos. Da forma como está colocado, e da forma como está colocado no artigo de Sylvio Back, parece que o que se classifica como erótico está apenas sendo hipócrita, ao menos na representação,  enquanto o que se classifica como pornográfico ou fescenino está sendo franco e sincero. E que,de uma forma meio torcida, porque implícita,  aquele  que faz poemas ou textos francamente pornográficos ou fesceninos é alguém que vive sua sexualidade de forma mais aberta e saudável, enquanto o erótico a vive de forma mais reprimida, menos saudável…Me parece, francamente, que não é por aí… E é neste ponto que reside minha discordância. Porque pode haver distorções dos dois lados, como pode haver sexualidade plena e bem vivida dos dois lados.

Na classificação partilhada por Boris Vian e José Paulo Paes, o foco está dirigido para o PRODUTO final, a obra poética, e a partir desse produto é que se pensou a distinção. São duas abordagens diferentes, embora o objeto seja o mesmo. Para o leitor desse tipo de obra, a diferença é visível, e chega a ser gritante. Todas as “malas palabras” estão no pornográfico/fescenino?  Sim, sem dúvida. Há uma representação mais leve, mais suave, mais romântica, na sexualidade poetizada no formato que chamam erótico? Sim, também sem dúvida. Posso entender a diferenciação, posso entender as razões que levaram os poetas e teóricos a formulá-la. Posso também não concordar com ela…E não concordo.

Tenho participado de congressos e seminários universitários em que se discute o tema , e neles sempre há algum pândego que vai dizer que a diferença é que o texto pornô é aquele que se lê com uma mão só… Tal colocação pode até ser justa para com o texto em prosa, pois há textos em prosa da pior qualidade, mas é tremendamente injusta para com o poema. Poemas que tratam de sexo ou desejo, e de sua decorrência, são sempre eróticos, utilizando-se ou não das malas palabras, dizendo tudo às brutas, ou usando figuras e dando voltas. Como diz o próprio Back, citando Manoel de Barros, a poesia empurece  a palavra…Da mesma forma como o uso acaba por fazê-lo. Os jovens, hoje, usam “puto”, “caralho”, em outro contexto, e vão acabar por depurá-las até na linguagem cotidiana. Fica-se puto por alguma razão, e tudo é bom pra caralho, pelo menos pra eles…Para empregar termos que tenham cunho pecaminoso, terão que ser substituídas por outras… E provavelmente o serão.  Para muita gente o prazer sem culpa não é prazer, o prazer sem crime não é prazer…

Mas vou recorrer a Mikhail Bakhtin: a palavra é neutra, o falante é que  a recobre de intenções; direi eu, usando Bakhtin, haver malas palabras é viés cultural. Na nossa cultura judaico-cristã, permeada de culpas e interdições, as proibições todas parecem ter recaído na sexualidade. O prazer é sempre culpado, não é?

Falar do prazer com franqueza, dando os nomes aos bois, sem usar pseudônimos, é interpretado  como perversão, como se fosse algo criminoso. De Bocage citam-se as piadas, não os poemas, belíssimos sempre, o que é bem sintomático…

Por causa disso, acabamos por incorrer no terreno da moralidade, e esta acaba sendo a baliza que vai permitir o emprego deste ou daquele termo. E aí está o fulcro da questão.

Discutir o rótulo é questão bizantina: tentar dar à poesia desbocada, eivada das más palavras, impregnadas de prazer, um rótulo diferenciado, é se desviar do que é mais importante no caso, que é  a pureza, a beleza, a santificação que a palavra poética tem.

Todos os grandes poetas fizeram poemas desse tipo. Dêem o nome de eróticos, pornográficos, fesceninos, pouco me importa. Prefiro eróticos para todos, porque vem de Eros, e é mais sonoro: coisas de poeta. É, além disso, menos marcado. O que me importa, o que me dói, é ver os poetas perdendo seu tempo com o tentar legitimar o que estão produzindo, em uma cultura cheia de variáveis incertas. Gostaria mais que, ao invés disso, estivessem poetando…  

(publicado no Cultura do DC, 5/4/2008. p.4)

Dennis Radünz: o poeta da perfeição

Dennis retrabalhando Gregório:

À Inconstância

das Coisas desse Mundo

nasce o Sol e some brusco no soneto

sem nenhum dos decassílabos de heróis

nem cesura ou rimas raras em bemóis,

versos brancos entre negros no Soweto.

se de Luz a sua cruz, por que a chaga?

como o Metro a sua língua enclausura?

como foi sua Razão mudar-se em burla?

se é um ser de Forma Fixa, por que vaga?

pois no Sol e sua Luz falta grandeza

dessa sky-line de Xangai, insolente,

que escarnece Nova York e a natureza,

antes nasce do que o Sol e para sempre

com sua forma fixa e rara, na certeza

da firmeza desse World Trade Center.

Gregório de Matos Guerra:

MORALIZA O POETA NOS
OCIDENTES DO SOL A INCONSTÂNCIA
DOS BENS DO MUNDO

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Dennis Radünz: a poesia em estado de perfeição

Tem poeta de todo o tipo, como tem todo o tipo de pessoa: tem poeta careta, tem poeta junkie, tem poeta avançado, erudito, simples…Tem aqueles que alguém diz que não são poetas, mas simples “versejadores”… Não são dos piores, não, ao menos têm alguma noção de poesia, têm espírito de poeta. E Dona Poesia é mãe generosa, a todos acolhe em seu fecundo ventre e oferece seus fartos e generosos seios. Só não dá pra agüentar poeta ruim e que se acha o máximo…E eles existem aos montes, por aí: põem uma frase embaixo da outra, e acham que fizeram um poema… Estão estuprando Dona Poesia, e nem se dão conta disso, o que é pior.

Dennis Radünz corteja o universo do erudito; é o universo do qual, declaradamente, gosta mais. Mas não corteja só o erudito, corteja também a perfeição, uma senhora já não tão generosa como a Poesia… Por esta razão, em dez anos, três livros: Exeus (EdUFSC/Letras Contemporâneas, 1998); Livro de Mercúrio (Letra d’Água, 2001) e Extraviário (Letra d’Água, 2006). Todos têm um projeto gráfico muito apurado, todos muito bonitos, em que o visual é explorado na sua relação com a significância, e adquirem valor semântico dentro da obra, no seu total e em cada parte delas. E há ainda poemas seus no site www.mafua.ufsc.br

Nascido em Blumenau, em 1971, Dennis é mais que poeta: é também cronista do DC, às segundas-feiras, com aquilo que chamou de Jornalirismo. Começou muito presunçosamente, fazendo crônicas repletas de uma literatice meio absurda e obscura, que não honrava o gênero modesto que é a crônica. Aos poucos, foi se adequando a ele, e hoje continua sendo cronista, um gênero nada fácil de ser feito com qualidade - e ele sem dúvida chegou a um ponto em que não abdicou de suas idéias iniciais, mas conseguiu um meio termo, adequando meio e texto. Além disso, é um performer de primeira qualidade, e não há nada mais bonito que vê-lo DIZER um poema, seu ou alheio, com aquela voz privilegiada e calma com a qual foi dotado pela natureza, esta uma senhora não muito justa: uns com tanto, outros tantos com algum, mas a maioria, sem nenhum, como canta o poeta popular…

Um dos aspectos que mais me chamou a atenção, nos livros de Radünz, foi o ecletismo de suas epígrafes. Começa com Joyce (A child is sleeping:/an old man gone/ O, father forsaken/Forgive your son!) e passa por Cioran, Vitor Ramil, Girondo, D. Dinis, uma canção dos Goliardos, referências à música de Stockhausen, Lou Reed… E isso demonstra claramente a diversidade de interesses do Autor, que é muito grande inclusive nos assuntos científicos de todas as áreas, chegando a fazer, em Exeus, poemas experimentais com o emprego de números. E um belo poema visual, “Exumação”. E, como diz Lindolf Bell na apresentação, Dennis “propõe uma ilimitada investigação da palavra: polir, deflagrar, desfazer, religar, decifrar, celebrar, podar, plirupartir.”

Se não, vejamos:

(chamam-me dennis;/ não os chamo exagerados)

Mimese

Dennis é antropônimo derivado de Dionísio, significando servo de Dionísio. Nada mais adequado, pois, que alguém com tal nome nele anteveja seu destino!

Tenho reconhecidamente um fraco pelos poemas metalingüísticos:

METAPOESIA

I

o fonema / fabula / e se fia/ na fábula / encadeia asas

II

o poema / incende/ insula / música / em miniatura

ULISSES PRÓDIGO

olhar de ida hidra / na clepsidra ilhar/ (de ítaca a circe)/a ira de ir-se/andar/ilhas/

andar a esmo/ o sal semear/ cisma de arar/ amaras sendas

Um do seus interesses, que na área cultural são muito intensos, e servem para alimentar uns aos outros, também se faz presente aqui:

TEATRO

( Quoth the raven: Nevermore

Edgar Allan Poe )

ente sem uso / o poema parece / estenografia /de deus/ abala-se a ara / o poema perece

ala-se em asas / de alvenaria

E mesmo o poema que parece falar de amor, usando a palavra “vir” tanto no seu sentido de verbo, como no da origem latina, o de “varão”, acaba se mostrando mais que isso, e homenageando Prometeu e seu mito:

r e s s u r r e i ç ã o

eu vivo / a alma a vir / pois amar / (é) fazer passar o fogo/ de mão em mão

POEM

açuda-se o solo / na solidez da água/ aram-se / (da aquosidade / à metáfora) / alma

acudam-nos selo / endereço / casa / casulo da metáfora: / morre a larva

Anamnese

O poeta é o cego que, de repente, vê

E o amor pela Ciência em seu sentido maior transparece, unindo o que é exato ao que é incerto, ambíguo, indeterminado, a Linguagem:

CIÊNCIA DE FICÇÃO

salvaguardo no guardado de salvados / um chumaço dos curativos ao contrário / uns tufos de inchaços bem imêmores / os invernos duma lágrima sem farmácia // conseqüência não me causa mais efeito / (o princípio dessas margens de hipótese) /
(o sereno das sirenes sem alarme) / (o espelho meu inteiro no grau máximo) // mas a chuva não me custa as horas mortas / em procuras pelas águas prematuras / eu dedilho dois tufões ainda filhotes / deixo vago o meu lugar para tormentas

DESVIO PARA O DILÚVIO

En el centro incólume del aguacero un pájaro cantando
- josé kozer

o ar baldio da chuva, às vésperas de abril, / as vértebras vasculha, vibra então as vísceras, /os tímpanos e as têmporas e os hímens do vazio

(PRIMEIRA PROVISÃO)
o nado é urgentíssimo / na travessia do sinal // o sol sem serventia – ventanias / se esfoliam no escuro da água falsa / e a cegueira as desossa: lascas / da lua fria nos alvéolos dessa rocha // :o ar bravio estronda e estira-se o estio / nos rasos do baixio da gávea de vigília:/ eu, sem mais nenhum brevê de vida

(NENHUMA PROVISÃO)
o ninho às escondidas / no colo do temporal

Um de seus poemas mais reproduzido vem de Extraviário e é justamente o que tem a epígrafe de Reed. Mas não é isso que lhe causa a popularidade:

ÚLTIMA EPÍSTOLA AO IMPÉRIO

Manhattan’s sinking like a rock (…)

They said it was like ancient Rome.

lou reed

e a víbora da raiva – rápida – vibra em toda a relva, / talvez vestal, talvez, às vezes, máquina, / rebenta desde o centro o esconderijo do seu núcleo, /desmembra em torno o mundo e destroça / a linha-destra do destino e é como se estirasse, / rasgada de oleodutos, trânsitos, discursos,/ a escama da sua carne, carne-sem-sol, o sol à solta/ –

arrasta pelo ermo o turismo de desastres/ nessa indústria do destroço, no rastilho sem a órbita / a serpe do império – talvez o império serpe

Nele se nota, de maneira ainda mais visível, o gosto pelo musical que há na palavra, e não admira, pois, que vários de seus poemas tenham sido musicados. A maioria deles está no Livro de Mercúrio, e desses que brincam com as sonoridades e com sua semântica, reproduzo dois:

O AFOFIÉ E O ADARRUM

o afofié difícil e ínfimo e finíssimo / - arbusto de samba e de bossa: bonsai de sons /-

se drum-drum-drum de adarrum

e nele o nome do instrumento musical, simples flauta de bambu, se internacionaliza, vira bonsai e seu som vai demonstrar de onde veio o termo britânico

que designa tambor, não flauta (“drum”), para encerrar com o toque de atabaques e agogôs (ainda percussão) que se usa no candomblé (“adarrum”).

ALALIA

‘simplemente cansado del cansancio

del harto tenso extenso entrenamiento al engusanamiento

y al silencio’ (Oliverio Girondo)

o nojo da jugular jaz na língua/ (a náusea nascida no linguajar / das narinas). em lugar de gula / ou iguarias, o jaguar, na jaula,/ jejua - já não goza, só ejacula.

Sabendo-se que “alalia” é termo médico que designa comprometimento ou perda da fala por problemas psicológicos, o poema acaba sendo também metalingüístico.

Mas, como sempre, gosto que o próprio poeta se feche. Neste caso, um poema que transforma os fatos de polícia num metapoema, ainda, fixação minha (e, ao que parece, do próprio Dennis) :

BOLETIM DE OCORRÊNCIA

compareceu nesta delegacia de polícia / a vítima, / relatando que ao cruzar o limbo / de linguagens, sentido motins-cela, / foi rendido por elementos em fúria, / anônimos, na mudez do ermo,/ quais o jogaram ao solo,/ sob ameaça de revólveres de inventos / e, revirando-lhe os sentidos, / furtaram:// nomes numes / germes de crimes / cais no caos/

limo de leis / ruína de rio / vaus // após, ordenaram/ sussurros na anatomia do urro, / enquanto fugiam em direção / à palavra fuga. era o relato.

E nada mais precisa ser dito.

(publicado, com poemas a menos, no Idéias do AN, 24/02/2008. p. 4)

 

Os Olhos de Sylvio Back

“Do passado volto com mãos afanando
Do futuro antecipo o imperecível.”
(Sylvio Back:Inadvertência)

Na apresentação desta autora, ao pé da página, escreve-se: escritora. Mas o grande orgulho é o de ser poeta, embora bissexta. Cada poema feito, bom ou ruim, não importa, é enviado por email para os amigos com o título: felicidade existe! E não consigo dormir sem antes ler algum poema, dos poetas mais variados, Drummond o mais percorrido, sempre, e as mulheres poetas, especialmente Hilda Hilst e Adélia Prado.

Apesar dessa paixão toda – talvez justamente por causa dela – acho difícil escrever sobre a obra dos poetas. Não admito, porém, ter tal tipo de limitação, e estou me obrigando a superá-la. Para tanto, preparo palestra e livro didático sobre a poesia atual em Santa Catarina, com um objetivo mais divulgatório do que analítico, na crença de que cada poema DIZ a si mesmo de maneira tão perfeita que nenhuma análise dará conta dele. Lembre-se aqui a repetida afirmativa do mestre Antonio Candido, de que a leitura de um poema é a soma de todas as leituras feitas sobre ele.

Minha seleção começa pelos livros de poemas do cineasta Sylvio Back, catarina de Blumenau, cujos filmes acompanho – com os percalços enfrentados pelo cinema não-comercial – desde Aleluia, Gretchen ( o longa anterior, Lance Maior, só vi muito depois, em retrospectiva de cineclube paulista). Como não me envergonho de confessar ignorância, pois a partir dessa aceitação é que se aprendem coisas novas, sequer suspeitava que Sylvio também “cometesse” seus poemas, como nós outros, membros do clube dos que se dizem, contaminados pelo vírus da palavra mordida, saboreada, perseguida, erotizada, muitas vezes também odiada…

Se saber que Sylvio Back é poeta causa estranhamento, ler seus poemas causa um estranhamento ainda maior. Um imenso susto, na verdade: o que é isso? São poemas duros, sem muita musicalidade, sem muito ritmo, na imensa maioria extremamente contextuais – poemas daquele momento, daquele sentimento, daquele cotidiano. E o que parece uma limitação acaba se expandindo e DIZENDO, por mais que o poeta lui-même se esconda atrás dessa dureza da palavra e do verso. O também poeta e jornalista Anelito de Oliveira declara, em artigo sobre o livro Eurus, que são poemas do ver, não do dizer: perfeito! Os poemas de Back são cenas montadas, rodadas, mas sem trilha sonora perceptível, e daí a perplexidade de quem os lê.

Em minhas mãos, três de seus sete livros do poemário: Moedas de Luz ( o próprio título já demonstra o que acabo de dizer, por sua nenhuma sonoridade e sua estranheza semântica), editado pela Max Limonad, São Paulo, 1988; boudoir (7Letras, Rio, 1999) e Eurus (Íbis Libris, Rio, 2006). Esta uma edição bilíngüe, com tradução dos poemas para o inglês feita por Thereza C. R. da Motta, de alguns poemas escolhidos. O livro completo é da 7Letras, Rio, 2004.

Ao se observar as datas de publicação, e lendo-se as obras na seqüência, como o fiz, podem-se notar alterações de estilo e de temática, o amadurecimento contínuo do poeta. Os poemas se tornam menos ligados ao cotidiano específico, vão se tornando mais livres, mais soltos, mais densos. Em boudoir, são poemas de cunho erótico, fesceninos em sua maioria, a que ele tem se dedicado cada vez mais.

Além desses, no formato livro, há os que estão à disposição nos sites www.cronopios.com.br e www.germinaliteratura.com.br. Em cronopios, vale a pena ler os kinopoems, por seu acabamento visual; em germina, os poemas fesceninos, que ele se recusa a aceitar sob o rótulo ali colocado de pornográficos, e protesta em artigo ali também exposto. Não quero entrar no mérito da discussão, pois se penetra em terreno de moralidade, embora tenda a concordar com ele: a arte não é terreno em que se devam aceitar ditames morais. Mas os poemas podem dizer melhor:

O desejo empurece
O verso do poeta
(fora de cena)
Pois, afinal
Amar é putear
(o desejo e o que seja)

Como não poderia deixar de ser, nem ele deixar de ser quem é, o cinema é referência constante:

antes fazendo fita
do que viver sem
Viveca Lindfors
(movie-junkie)

“Nenhum filme vale uma vida.”
(Diário de Mara VIII)

Antes que a gaze se insinuasse, foi rodando
(rondando) o derradeiro fotograma, bruxuleante.
(FIM)
“Teus filmes são os nossos filhos.”
(Diário de Mara V)

“Jamais dedique um filme a quem está vivo.”
(Diário de Mara X)

O filme
Da mente
Não mente
(demente)
(tem quem tenha visto)
24 horas depois, a imagem dela “congelava”.
(Dublagem)

E vai aparecer ainda em vários títulos:“…you only live twice…”,Film Noir, fill me (excelente trocadilho!), A propósito de Gilda, filmagem, na moviola… Alguns exemplos, apenas, dentre muitos.

As referências à morte são uma constante, seja à morte ela mesma, seja à petite mort, o orgasmo, sua forma (talvez!) mais prazerosa:

“Se eu morrer, cortem meus pulsos. Não quero
ser enterrada viva”
(Diário de Mara IV)

“Alguém que me acuda: estou de bem com a morte.”
(Diário de Mara VI)

A vida é um brinde da morte.
(E vice-versa)

Essa foi a única vez que não acabamos juntos.
(Imperdoável)

Me
masturbo
saboreando
-te
(no céu
da boca)
algas
que
nos pertenciam
(sobressalto)

E o mais significativo deles, quanto a esse aspecto:

nada mais
erótico
que a morte
nada menos
coveiro
do que
o tempo
(confidência)

Filho de pai suicida, o suicídio e o suicida acabam sendo figuras persecutórias:

feito um frio suicida
deixe sempre tudo atado
(críptico)
silêncio
hara-kiri
zen
(silenciário)

(este poema é um belíssimo jogo de imagens e contrastes, da crueldade extrema do haraquiri à serenidade do zen, impostos à voz que se cala: um curtíssima metragem que diz tudo).

E como o ressentimento é uma dor que nunca cicatriza, ele é claramente notado em poema sintomaticamente chamado de pai e Zweig (o nome do escritor austríaco sendo a única palavra escrita com inicial maiúscula em Eurus):

aos pósteros haver-se
para o que der e vier

Esta preocupação com o suicídio como temática está presente também em vários de seus filmes, a partir de Aleluia, Gretchen, quer consciente, quer inconscientemente. Lost Zweig é o mais evidente, mas eu diria que, indiretamente, ela está também em Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro, e até na luta inglória (e gloriosa!) de A Guerra dos Pelados.
Como não poderia deixar de ser, o cotidiano pessoal habita flashes:

Ainda bem que fiquei com a tua passagem
de volta.
(Previdente)

E ainda em remissões à música popular e seus instrumentos, como no título pequei-te cavaquinho, um bom intertexto. E muitas vezes em contrastes bem colocados, até na apresentação gráfica do poema:

rouco                        afônico
de                            de
tanto                        tanto
ficar                         falar
calado                      sozinho
(loquaz)                   (falaz)

Para falar de seu poemário, porém, nada melhor – continuo acreditando nisso! – do que o próprio poeta, ainda mais um com características tão próprias, para cuja fruição o leitor habitual da poesia precisa se deslocar do seu eixo do dizer para o do ver.

queimei o filme
queimei o poema
queimei se amei.
(movie-junkie)
E nada mais precisa ser dito…

(publicado do Diário Catarinense, de Florianópolis, SC. Caderno de Cultura, p. 4. 29/9/2007)

O iluminador das sombras

jeito-de-regininhaMarco Vasques encerra seu livro de poemas Elegias Urbanas , editado pela Bem-Te-Vi, do Rio de Janeiro, em 2005, com este magnífico verso: eu sou o guardador de sombras Cada vez que passo por ele, penso duas coisas: a primeira, que lembra o mito da caverna de Platão, no qual ele diz isso de todos os homens, pela pobre percepção que temos uns dos outros; em segundo lugar, e contrariamente ao que está sendo dito, o poeta é, isto sim, o que ilumina as sombras, o que lhes empresta feições, clareza, grandiosidade.

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Ambrose Bierce: os múltiplos retratos

regina-noirREPÓRTER, s. Colunista que tateia o seu caminho até a verdade e a dispersa numa tempestade de palavras. (Bierce, n’O Dicionário do Diabo)

Ambrose Bierce, famoso jornalista e escritor, nasceu no interior do estado de Ohio, nos Estados Unidos, em 1842, e morreu - acredita-se - no México, onde tinha ido para se juntar às tropas de Pancho Villa, e assim cobrir a revolução, talvez em 1914. Até 1913 tiveram-se notícias dele. Em 1914, foi considerado desaparecido. Alto, loiro, bonito e, segundo ele mesmo, muito bem dotado pela natureza (jocosamente dizia que jamais tirava as roupas na frente de uma mulher, para não assustá-la…), Bierce foi um jornalista extremamente ácido, subcategoria bastante popular e numerosa naquele país da América do Norte, lembremos Mencken.

Sua obra ficcional, permeada pelo fantástico, coloca-o, segundo os críticos, ao lado de Edgar Alan Poe e H.P. Lovecraft. Sua obra jornalística e O Dicionário do Diabo em particular, por seu pessimismo, acidez e ceticismo, sem nenhuma crença no ser humano,colocam-no ao lado de Hawthorne, Melville e Poe (outra vez!), que partilham com ele essa cosmovisão amarga. E pode-se supor que o termo amargo designe, aqui, apenas uma visão realista, tornada ácida pelo testemunhar de uma guerra entre irmãos - e participar dela pelos mais nobres motivos, mas nela deixá-los todos, esses nobres motivos, mortos e enterrados. Isso Bierce declarou muitas vezes, das mais variadas formas.

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A famigerada lista

doeu!A educação brasileira tem inúmeros problemas. Verbas poucas, escolas sem condições, professores mal pagos e, portanto, mal preparados. Pior: uma profissão que já foi honrosa, e hoje é desprestigiada de forma terrível. Li no jornal, recentemente, que os deputados aprovam lei que proíbe que haja mais de 25 crianças por sala de aula… Fiquei muito pê da cara: a idéia está correta, mas é factível? Há salas de aula suficienetes? Há professores suficientes? Ta na cara que não. Então o que tem que ser feito é o que já sabe: construir escolas, contratar professores DECENTEMENTE pagos, cuidar primeiro do que é mais importante… Senão é brincadeira!

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A narrativa de terror

Regina DráculaPara a maioria das pessoas, ouvir dizer que uma professora universitária oferecesse um disciplina sobre narrativa de terror seria já um forte indício de que ela não leva sua profissão lá muito a sério… Mas para objeção tão boba só posso oferecer uma frase de Umberto Eco , em que ele declara que nenhum assunto é baixo demais para o homem de espírito.

A literatura de mercado merece ser estudada, merece inclusive ser desenvolvida, pois acredito que nos faz falta, no Brasil, não ter autores trabalhando com esta vertente, exceção feita a André Vianco e Walther Alvarenga, autores meio fraquinhos. Os filmes devem ser vistos de maneira mais séria, sem apenas gritar e aplaudir a ação, como fazem os meninos de 12 anos com as maldades de Jason, pela importância que têm para as bilheterias de praticamente todo o mundo. Vamos tentar fazer isso, sem dúvida.

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