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Brasília Revisitada

(Do correspondente Emanuel Medeiros Vieira)

Fragmentada crônica “poética” para os que aqui nasceram

Tomo o Grande Circular,

W-3 Sul,  W-3 Norte,

mangueiras em flor,  primeiras chuvas,

a grama ficando verde, penso na “Sinfonia da Alvorada”,

nos pioneiros, no barro vermelho,

não, não a capital do estatuto, dos maquiavéis planaltinos,

mas a urbe de Clarice e do Lucas,

de Renato Russo lecionando na “Cultura Inglesa” aos 19

anos,  indo a pé ao Cine Brasília, atravessando os verdes,

SQS, SQN,

(não SOS-  meu particular socorro nas noites do  hospital

“Santa  Lúcia - em que  ‘quase’ desmoronei),

da Feira do Guará, onde Clarice dançava  forró

ao som de Luiz Gonzaga, outros sábados,

o “Beirute”, o “Bar do Raul” e o finado “Bar do Afonso”,

o “Campo da Esperança”, onde deixarei os meus ossos, e

lá ficaram o Márcio, o Albino, o  Côrtes, o Elídio e tantos

outros, cidade das bandas de  rock, e onde vi Gláuber Rocha

no Festival de Brasília,

e  conversei carinhosamente com o

conterrâneo/cineasta Rogério Scanzerla, que foi interno no

Colégio Catarinense,

cidade de amores findos e tão belos,

cidade de amigos eternos,

das belas morenas aqui nascidas,

do SCS (agora “traduzo”- Setor Comercial Sul),

onde assisti ao comício pelas Diretas, Tancredo, Ulysses,

do belo campus da UnB,

das cidades-satélites, da riqueza concentrada,

do Plano Piloto (não “Pilatus”),

cidade deste meu andar,

desta escrita, desta manhã de segunda-feira (céu tão

belamente azul, e sem ressaca, pois não há álcool

há 17 anos…),

e leio no parque, escrevo na máquina elétrica,

encantos cerrados, florzinhas descobertas aos

poucos,  da louvação às primeiras chuvas,

do amolador de facas

(a cidade tem esquinas sim: é preciso decifrá-las.),

belos crepúsculos, o Parque da Cidade, a Água Mineral                                                ,                     a cidade real (não a da mídia) não vive nos palácios,

mas no rosto de muitos brasis,

ah, Clarice, Lucas,

um dia não estarei mais aqui (apenas estrume),

memória, e chegam as chuvas de outubro - amando,

pois só me resta amar.

(Brasília, setembro de 2008)

Divulgando Soninha!

Esta é minha nora, que faz belo trabalho sobre literatura com os alunos!

E o Bruxo vai pra galera

Com criatividade, trabalhar a obra de Machado de Assis na escola deixa de ser um bicho-papão

Eles vivem o agora. Sentados em frente ao computador, fazem amizade pela internet, conversam via MSN… Ele morreu há cem anos. Era do tempo em que as pessoas escreviam com pena e esperavam ansiosamente pelo mensageiro trazendo uma missiva. Mundos diferentes. Tempos diversos. Como eles poderiam fazer tornar-se íntimos?

Começa aí o trabalho do professor, ou mediador, como define Sônia Rivello, 49 anos, há 24 no ofício de conduzir conhecimento. Ela encontrou uma forma de aproximar Machado de Assis e seus alunos do ensino médio, em uma escola de Florianópolis.

Uma não. Na verdade, foram várias as técnicas que Sônia utilizou para trabalhar com os textos do Bruxo do Cosme Velho, no ano do centenário de sua morte. Entre elas, a dramatização de trechos de suas obras em espaços públicos. Outra foi o desenvolvimento de objetos poéticos (alguns estão nas imagens desta página) ilustrados com frases e versos de Machado. A professora de Literatura conta que inspirou-se na Catequese Poética do catarinense Lindolf Bell.

- Bell dizia que a literatura não precisa estar só no livro. Não gosto quando dizem que os jovens não estão lendo. Eles estão lendo de uma forma diferente. Antes de Santo Agostinho, todos liam em voz alta. Depois isso mudou. Hoje eles filmam esquetes com celular. Sou a favor de todas as técnicas: teatro, adaptação, filmagem, orkut - afirma Sônia.

Isto não quer dizer, entretanto, que “ler” Machado de Assis da forma convencional esteja descartado.

- Eu cobro leitura, entendimento do contexto social, estilo também. Faz parte do currículo - ressalta Sônia, que aplica novas técnicas de trabalhar com o escritor desde o início da década de 1990.

Porém, parece que tornar a obra do autor mais acessível, através de técnicas alternativas, influencia a aceitação do texto impresso, por parte dos estudantes.

- Depois do trabalho, cada um de nós desenvolveu um gostinho extra pela Literatura - diz Anderson Pavlacke, 15 anos.

- Foi uma oportunidade de aprender brincando. Antes a gente lia apenas para fazer a prova - confessa Mariana Manes, 16 anos.

- Considerando a nossa idade e a época em que ele escreveu, ainda conseguimos ler e gostar. Por isso acho que ele estava à frente do seu tempo - opina Luiza Neves, com a concordância de Lara Quevedo Oestrowski, ambas de 16 anos.

E não só Machado sai ganhando com esta mudança de opinião.

- A gente começou a ver com mais curiosidade as outras obras também - diz Marcela Moser, 17 anos.

Hoje, como eles próprios concluem, não julgam mais o livro pela capa.

( marcia.feijo@diario.com.br )

MÁRCIA FEIJÓ

IMAGINAÇÃO

(do Carlos Schroeder, no Anexo de hoje, 27/9/2008)

- Este será nosso primeiro jantar à luz de velas!

- Cadê a comida, então?

- Será um jantar imaginário, como se estivéssemos na Terra do Nunca.

- Putz… Lá vem você …

- Sério! Vamos brincar! Aproveitar que cortaram a luz. Imagine algo que você gostaria de comer agora.

- Lagosta.

- Mas você nunca comeu lagosta.

- E daí? Tenho vontade, deve ser bom.

- Não! Tem que ser algo que você já comeu!

- Por quê?

- Porque sim! Fui eu quem inventou a brincadeira e você deve conhecer o que vai comer imaginariamente, para fingir saboreá-lo. Se tiver sorte, até sentirá o cheiro da comida.

- Mas eu posso imaginar que o gosto de lagosta é igual ao do siri. Pronto, são crustáceos, devem ter alguma similaridade no sabor da carne.

- Está bem, está bem, te faço essa concessão.

- Certo, então, como começamos?

- Se imagine no melhor restaurante de São Paulo.

- Não posso.

Armando passa as mãos no cabelo.

- O que foi agora?

- Eu não consigo, eu nunca fui a São Paulo, eu nem sei como são os restaurantes de lá. Você disse que tem que conhecer para imaginar.

- Então tá! Serei mais didático. Você já viu filmes em que apareciam restaurantes chiques, não viu?

- Vi.

- Então pense num deles. Por favor, use a imaginação.

- Estou em Paris, numa limusine prata, a cidade se ilumina. Estou usando um vestido vermelho costurado por John Galliano, lindo, decotado; meus seios, muito maiores que os que tenho de verdade, reluzem ao luar.

- Mas você não está dentro da limusine?

- Fica quieto! Espere eu acabar de contar, o carro tem teto solar, pronto, está aberto.

- Ah, tá!

- A limusine pára defronte ao restaurante mais chique de Paris, o Lacoste.

Armando se agita e vai falar algo, Joana levanta a mão para que ele se cale.

- O chofer sai carregando um pesado tapete vermelho. Estende, abre a porta, desço eu, glamourosa, o vento faz com que meus cabelos sedosos balancem, espalhando uma fragrância irresistível; muitos homens, lindos, sarados, vem ao meu encontro.

- Pode parar. Você não pegou o espírito da brincadeira.

- Ficou com ciúmes, ficou com ciúmes… Hahahaha… Eu sabia…

- Eu não. Imagina. Deixe eu te contar o sonho que tive com uma loira, então. Hoje…

- Não quero saber. Você inventou agora.

- Chata.

- Chato.

Sísifo

Do correspondente poético em Brasília, Emanuel Medeiros Vieira, mais um lindo poema:

SÍSIFO

Incansavelmente

bordo a túnica do passado.

Exausto, teço e desteço.

Acumulo, nunca unifico: sigo a jornada -

Sísifo da solidão planetária.

Sim, teço.

Mas é próprio do meu barro destecer sempre.

(Resta-me a memória do mundo.)

Um pouco de Mozart, e este amanhecer azul.

Celebro o instante:

se não posso convertê-lo em sempre

(sou finito),

abraço-como um náufrago sorridente.

Rubens e a moto

Rubens da Cunha, na sua crônica de hoje, analisa a perda da moto vermelha, da qual andamos falando aqui:

Entrei para as estatísticas

Entrei para as estatísticas de roubo de carros e motos. Lá se foram minhas pernas de borracha. Numa inocente quinta à noite, levaram minha moto nova. Ainda não estávamos completamente acostumados um ao outro, ainda éramos homem e máquina se conhecendo. E fomos abruptamente separados. Eu continuo inteiro, mas ela já deve estar desmanchada por aí, servindo de peças a gente desonesta.

Muitos já tinham me contado da sensação que é ser roubado. Eu acreditava, mas não sentia. Agora sei. Sei da invasão, da impotência, do desgaste que é ir a uma delegacia e ver na cara do funcionário a mais absoluta indiferença. Ver que uma recuperação do bem roubado seria golpe de sorte e não resultado de um trabalho efetivo dos responsáveis pela segurança.

Para além do discurso já tantas vezes ouvido (todos os assaltados, roubados, seqüestrados o pronunciam, com maior ou menor ferocidade, mas todos justos em suas argumentações) fico a pensar o quanto a minha vida estava ligada a esse veículo. O quanto estamos todos ligados às nossas pernas de borracha. Dos compromissos que assumimos porque sabemos que vamos chegar a tempo ao simples status de ter um veículo, muita coisa passa a girar em torno desse bem. Será que vale a pena? Será que as cidades cada vez mais congestionadas não vêm dessa “necessidade” de possuirmos mais tempo, algo que, aparentemente, o carro, a moto nos dão? São coisas que me surgem, agora que tenho gasto algum tempo esperando ônibus.

Sempre andei de moto, porém nunca tive muito em mim a mística “moto e liberdade”. Sou mais adepto da praticidade, da economia, da velocidade com que a moto se movimenta. Enfim, era uma relação quase cartesiana. Lógica pura. Claro que em certos dias de chuva eu questionava as vantagens de se ter uma motocicleta, mas em certos retornos da praia nos domingos à tarde eu sempre agradecia por ser motociclista.

Por isso, é estranho ter que, de uma hora para outra, readequar todo o tempo, toda a rotina construída pela agilidade que a moto me dava. Novos horários, novo ritmo proporcionado pelo “busão”. Em mim, terá que nascer uma paciência que perdi há muito. A paciência do pedestre, do usuário do transporte coletivo caro, lento, cheio, apesar da propaganda alegando o contrário. Vou ter de aprender a esperar. Coisa ingrata para motociclistas, diga-se de passagem, mas espero que seja por pouco tempo, até conseguir adquirir novas pernas de borracha e sair contente por aí.

Outra coisa interessante é que muitos me disseram que poderia acontecer coisa pior. Que os desígnios de Deus são misteriosos. Esses consolos são atenuantes. Exercícios de suporte para a dor da perda, seja do objeto, seja de alguém. Há sempre a poliana fala de que poderia ser pior. Claro que poderia, mas também poderia ser melhor. Enfim, é o jogo do destino que nós, mesmo não sabendo muito bem as regras, insistimos em jogar.

(publicada no Anexo do AN, 24/9/2009, p. 3)

A crônica do Marcelo Rubens Paiva

Eis aí a cônica do Marcelo, publicada no Estadão de sábado passado ( 20/9), e que me pôs em crise…

Vende-se eu

Na semana passada, Zezé Polessa participava do programa Happy Hour (GNT), que debatia os traumas de uma separação. Em sua camisa, lia-se um paradoxo: “Não sou feliz, mas tenho marido”.

Me intrigou o significado e o capricho do figurino. Então, pensei, que excelente recurso! Da próxima vez que eu participar de um debate, terei no peito pinceladas do pensamento dialético, para polemizar e enriquecê-lo.

Foi uma decepção quando, no fim do programa, revelou-se que ela divulgava, na verdade, um espetáculo teatral que protagoniza chamado Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido.

Zezé tem o direito de divulgar o que quiser, como quiser. Mas inaugura um procedimento que causará um ruído visual na tevê brasileira. Então, atores, cineastas, músicos e escritores trarão no peito o logotipo da obra que pretendem divulgar, transformando o seu corpo num outdoor ambulante, que anuncia a si próprio, vende uma obra.

Lembrei-me dos anos 80, em que condenávamos o culto à imagem pessoal. Éramos de corpo e alma concentrados politicamente numa causa, baseada no dito de Brecht: pobre do povo que precisa de heróis.

Herdeira de uma luta armada fracassada, de um projeto de utopia que deu no stalinismo e no maoísmo, órfã de ideais, a geração 80 não confiava em timoneiros ou comandantes, mas na revolução pelas arte e, principalmente, pela intervenção cultural. Por isso, foi tachada pela velha esquerda de Geração AI-5 ou Geração Coca-Cola. “A gente somos inútil”, foi a resposta.

O movimento punk foi uma das primeiras expressões do pós-modernismo que propôs o fim dos rótulos, das tendências, da técnica, a desconstrução da música, moda e razão. A cultura de massa passava a ser produzida pela massa. Morte ao glamour, pop star, ídolo. Viva a anarquia, pregavam.

Cada música tinha um debate por trás. Ciúme, do Ultraje, retratava a decadência do modelo de homem moderno. Nós Vamos Invadir Sua Praia, o fim do monopólio da cultura carioca, como espelho do País. Meus Heróis Morreram de Overdose, do Cazuza… bem, nem é preciso explicar.

Até Gilberto Gil aparecer maquiado de azul, na tevê, protagonizando um comercial de uma marca de jeans, cantando Índigo Blues.

OK, Marcel Duchamp propôs: toda obra é arte. Abandonaram o poder de mobilização da cultura de massa, especialmente da música. Roubaram a arte da arte. Veja, Torquato, no que a Tropicália se meteu.

Grandes pensadores e artistas não deveriam fazer comerciais de tevê, pensávamos, muito menos vender a sua história e talento para esse gênero menor, corrompido, chamado publicidade. A poesia não deve estar a serviço do capital.

Enquanto eu desencorajava adolescentes do ABC que queriam fazer o meu fã-clube, sugerido que não combinava comigo, que acreditava que fã, de fanatismo, era sintoma de fraqueza, meus colegas começaram a vender suas músicas e imagem para “reclames” de tevê. Alguns passaram a vender produtos.

Recusei uma proposta de R$ 150 mil para protagonizar um comercial de um laboratório farmacêutico, que anunciava um remédio contra impotência sexual, pois eu não queria manchar anos de luta para desassociar a imagem de cadeirantes da impotência - nem alimentar o preconceito que existe contra a vida sexual de portadores de deficiência.

Eu disse não à Rede Globo, que quis fazer uma minissérie de Feliz Ano Velho, por não querer expor demais uma obra que virara peça e filme. Disse não outra vez à mesma emissora, que quis fazer um programa sobre o meu pai. E, pelo visto, estou só na trincheira. Todos foram à luta.

O IRA! anunciou uma faculdade. Arnaldo Antunes, um supermercado. Seu Jorge, pinga. Jota Quest, Fanta! A família de Renato Russo vendeu uma música para um banco. O parceiro de Raul Seixas virou… Paulo Coelho.

Cultura virou chiclete. Conseguimos transformá-la num subproduto do comércio. O consumo virou cultura. Vender é arte.

Um livreiro me disse que, para vender livro, eu tinha de ter um programa de tevê. Eu o lembrei de que tive um programa de tevê diário, com banda e tudo, e larguei a emissora para estudar literatura em Stanford.

Quá-quá-quá. Como sou otário, anacrônico. Não tenho site. Nem blog. Fiquei meses no Orkut, até uma desconhecida me dar uma bronca, pois não a adicionei como “amiga”, e abandonei essa galeria virtual de excessos e carências.

Não tenho fotolog, nem nada no MySpace. Nunca postei um vídeo no YouTube. Eu não existo, caro leitor. Sou um mero escritor analógico, idealista, low profile, que nunca mostrou o seu lar em Caras e eletrificou a cerca que separa o público do privado.

Podem rir de mim. Acredito ainda no poder de transformação da literatura e liturgia da dramaturgia. Não faço livro sob encomenda. Nem teatro comercial. Vivo na contracorrente. Sou a piada da década.

Mas isso vai mudar! Começo logo logo um blog. E lanço um livro em novembro. Aparecerei de camiseta com o seu título, A Segunda Vez Que Te Conheci, na Caras, Chiques e Famosos, Flash!

Quero ser entrevistado pelo Amaury Júnior e pela Luciana Gimenez. Quero ser jurado do Faustão e dar detalhes de A Segunda Vez que Te Conheci! Quero tirar o chapéu no Raul Gil. Rir com Hebe de A Segunda Vez Que Te Conheci. Guardou o nome? Aprendi a me vender? Quero chorar com Gugu, ter 1 milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…

Ser escritor

A crônica do Cristóvão Tezza desta semana, gentileza da Aninha (a perdida no tempo aqui nunca sabe em que dia está, e acaba perdendo…)

Um amigo me disse que acha o maior barato como sou definido na coluna: “Fulano é escritor”. Por incrível que pareça, essa profissão exerce uma misteriosa atração nas pessoas. Há algo de sobrenatural na condição de escritor, um “atestado de diferença” que põe o leitor imediatamente em guarda, ou com uma admiração inexplicável, ou com uma justificada desconfiança. O escritor, como o espião, exerce uma atividade secreta. Reconhecemos de imediato os advogados, os engenheiros, os enfermeiros, os garis, os médicos (e até mesmo os deputados e vereadores, por um deslocamento de sentido, já que eles apenas cumprem funções por um período de tempo) como profissionais regulamentados, definidos claramente por um conjunto de regras que vão desde o aprendizado formal, chancelado pelo Estado, até a entrega de um diploma que nos autoriza a ser o que somos: médicos, mecânicos, diplomatas, professores.

Mas quem nos “autoriza” a ser escritores? Começa por aí. Minha profissão é uma fraude, ou, dizendo de outro modo, somos livres-atiradores, mais ou menos como os bicheiros, mas felizmente sem sofrer nenhuma perseguição legal - pelo menos em tempos democráticos. No máximo uma carta furiosa para a redação ou um livro encalhado. Somos mais ou menos tolerados. Temos de assumir uma certa cara-de-pau, e declarar, sem vergonha: “Sou escritor”. Somos mais definidos pelo fim do que pelo início - um engenheiro é um engenheiro mesmo que jamais tenha erguido uma casa, mas um escritor sem obra pontificará no máximo na mesa de bar, que, aliás, é uma espécie incontornável de escola na formação de qualquer escritor que se preze. Escritores também são seres naturalmente clandestinos - em geral não gostam de pertencer a clubes e, como os ornitorrincos, resistem às classificações científicas. Claro que há as academias, as uniões de escritores, os grupos aqui e ali revolucionários, mas nada disso tem, nem de longe, a milésima parte do poder de um Crea, por exemplo, ou de uma OAB. Aliás, freqüentemente esses agrupamentos oficiais de escritores acabam na mesa do bar sendo objeto de escárnio implacável de escritores avulsos e desparceirados.

Do ponto de vista prático, ser escritor é um mau negócio. Se fosse bom, bastaria abrir os classificados desta Gazeta para encontrar dezenas de chamadas do tipo “Contratam-se romancistas; pedem-se referências”, “Precisa-se de um poeta concretista”, “Estamos aceitando contistas com carteira assinada; salário inicial R$ 3.500 + produtividade”, “Urgente: sonetistas para trabalhar nas férias, especialização em alexandrinos, contrato de 60 dias, assistência médico-odontológica incluída”. Claro que isso é um sonho. Ninguém quer um escritor para nada. E no entanto trabalhamos sem parar. Estou sempre na luta, para garantir meu espaço - antes que o jornal anuncie nos classificados: “Precisa-se de um cronista com assunto para as terças-feiras”.

Na Gazeta do Povo, Curitiba, 23/9/2008.

Sonata em verde maior

Esta é uma crônica do Mário Pereira, jornalista, contista,ensaísta e professor.Mário foi o orientador do TCC do Felipe Lenhart na graduação da Unisul; eu fui sua orientadora na Especialização, na UFSC. Por conta disso, fomos seus padrinhos no casamento com a Jade. Cada vez que nos encontramos - raras vezes, infelizmente, porque somos fãs declarados um do outro! - Mário garante que vai fazer um jantar e convidar o casal Lenhart e mais Clóvis Geyer, de quem é também grande amigo. E até hoje, hehehe… Continuo esperando, viu, Mário? Daí que ele entrou no meu livro sobre os cronistas, e achei outra compatibilidade: este amor pelas árvores, que acho que são a coisa mais linda que há na face da Terra…

Acordo com a esquisita sensação de que algo muito importante aconteceu enquanto eu dormia. Estremunhado, afasto as cobertas, pulo da cama, escancaro a cortina e dou de cara com ela. Sim, foi retorno dela que mudou o mundo durante o meu sono. Ela está de volta. Ela, a Primavera, que botou a correr o Inverno cinzento, úmido e tedioso, e me saúda com um sorriso ensolarado ali no meu jardim.

Este ano, ela chegou mais cedo, viajando no vento que descabela as ondas do mar lá adiante, levanta a saia da menina que passa a caminho do colégio, e espalha perfumes de flores distantes pelo ar. É sempre bem-vinda esta suave amiga que fecunda a terra, faz brotar a semente, colore o mundo, e renova o ciclo da vida ano após ano.

No jardim, a palmeira, que é a primeira visão que tenho ao abrir a janela todas as manhãs, dança faceira ao vento como se celebrasse um ritual pagão para anunciar a boa nova.

As árvores são filhas diletas da Primavera. E todos nós - suponho -  temos pelo menos uma árvore que, de uma ou outra forma, deixou marcas e lembranças em nossas vidas. Eu as tenho várias. E sempre as recordo quando a nova estação dá as caras. Algumas vezes com alegria, outras, com melancolia, mas sempre com emoção.

Das primeiras árvores no meu afeto foi um enorme umbuzeiro, que reinava num sítio que pertencera a meus avós no interior e onde, eu menino, às vezes passava as férias guardado por uma querida, mas vigilante, tia solteirona. Uma foto amarelada pelo tempo mostra-me de braços cruzados ao lado dele, de pés descalços, com um enorme curativo preso por esparadrapo no meu joelho esquerdo, e a cara lambuzada pelo sumo de suas doces frutinhas roxas.

Costumava subir até os galhos mais altos, e lá de cima ficar espiando o movimento da casa e dos arredores. Ou então apenas deixava a imaginação voar solta e longe por sobre a vastidão daqueles campos que se estendiam a perder de vista. A esta árvore velha e paciente devo muitas esfoladuras, e também muitos bons momentos em companhia de mim mesmo.

Anos mais tarde, tive como amigo e confidente dos meus anos de formação um solitário plátano plantado no centro do pátio do colégio dos padres jesuítas. Ele marcou as estações da minha adolescência atribulada. À sua sombra, nos intervalos das aulas, esforcei-me para decorar as declinações do Latim, guardar na memória os nomes dos principais rios da Amazônia, aprender a extrair a raiz quadrada…

No tronco nodoso, esta sábia árvore ostentava, como condecorações, dezenas de marcas gravadas a canivete por gerações de alunos que um dia se refugiaram na sua sombra acolhedora. O centenário prédio do colégio, com suas arcadas e os seus longos corredores, não mais existe. Foram ao chão, ele e meu plátano. No lugar ergueram um horrendo espigão de apartamentos, um supermercado, e um estacionamento.

Mas o meu saudoso amigo renasce a cada Primavera nas minhas melhores lembranças, como há de viver, também, na memória de milhares de garotos que um dia se abrigaram sob a sua frondosa copa.

No Central Park, à altura da Rua 74, onde fica o Museu Whitney de Arte Americana, no Upper East Side, vive outra árvore que faz parte de minha vida, embora só ocasionalmente nos encontremos. É um olmo com mais de 30 metros, que conheci há anos - mais tempo do que gosto de confessar - quando estive pela primeira vez em Nova York, cidade na qual acredito que tive uma vida passada porque com ela me identifico até demais.

Conhecemo-no durante uma tarde primaveril em que, cansado de tanto caminhar pelo parque, sentei no chão junto a ele. Fomos apresentados por um simpático esquilo que, com a família, mora numa toca no tronco dele, e que me espiava, curioso, encarapitado num galho baixo. Aquele olmo acolhedor passou a ser anfitrião e ponto de referência na “minha” Nova York. Jamais deixo de visitá-lo, e já o apresentei para outros amigos com os quais marquei encontros à sua sombra.

A brisa que anuncia a Primavera me traz lembranças vívidas dessas árvores amigas que pautaram minha vida. Para agradecer, vou até o pátio e dou um abraço no tronco do meu pé de jabuticaba que, coberto de frutinhas verdes, trombeteia a chegada da mais bela estação do ano. Neste abraço envolvo também o umbuzeiro da minha infância, o plátano dos meus tempos de colégio, o olmo das minhas andanças mundo afora, e outras tantas árvores que pautaram alguns dos melhores momentos da minha vida.