Eis aí a cônica do Marcelo, publicada no Estadão de sábado passado ( 20/9), e que me pôs em crise…
Vende-se eu
Na semana passada, Zezé Polessa participava do programa Happy Hour (GNT), que debatia os traumas de uma separação. Em sua camisa, lia-se um paradoxo: “Não sou feliz, mas tenho marido”.
Me intrigou o significado e o capricho do figurino. Então, pensei, que excelente recurso! Da próxima vez que eu participar de um debate, terei no peito pinceladas do pensamento dialético, para polemizar e enriquecê-lo.
Foi uma decepção quando, no fim do programa, revelou-se que ela divulgava, na verdade, um espetáculo teatral que protagoniza chamado Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido.
Zezé tem o direito de divulgar o que quiser, como quiser. Mas inaugura um procedimento que causará um ruído visual na tevê brasileira. Então, atores, cineastas, músicos e escritores trarão no peito o logotipo da obra que pretendem divulgar, transformando o seu corpo num outdoor ambulante, que anuncia a si próprio, vende uma obra.
Lembrei-me dos anos 80, em que condenávamos o culto à imagem pessoal. Éramos de corpo e alma concentrados politicamente numa causa, baseada no dito de Brecht: pobre do povo que precisa de heróis.
Herdeira de uma luta armada fracassada, de um projeto de utopia que deu no stalinismo e no maoísmo, órfã de ideais, a geração 80 não confiava em timoneiros ou comandantes, mas na revolução pelas arte e, principalmente, pela intervenção cultural. Por isso, foi tachada pela velha esquerda de Geração AI-5 ou Geração Coca-Cola. “A gente somos inútil”, foi a resposta.
O movimento punk foi uma das primeiras expressões do pós-modernismo que propôs o fim dos rótulos, das tendências, da técnica, a desconstrução da música, moda e razão. A cultura de massa passava a ser produzida pela massa. Morte ao glamour, pop star, ídolo. Viva a anarquia, pregavam.
Cada música tinha um debate por trás. Ciúme, do Ultraje, retratava a decadência do modelo de homem moderno. Nós Vamos Invadir Sua Praia, o fim do monopólio da cultura carioca, como espelho do País. Meus Heróis Morreram de Overdose, do Cazuza… bem, nem é preciso explicar.
Até Gilberto Gil aparecer maquiado de azul, na tevê, protagonizando um comercial de uma marca de jeans, cantando Índigo Blues.
OK, Marcel Duchamp propôs: toda obra é arte. Abandonaram o poder de mobilização da cultura de massa, especialmente da música. Roubaram a arte da arte. Veja, Torquato, no que a Tropicália se meteu.
Grandes pensadores e artistas não deveriam fazer comerciais de tevê, pensávamos, muito menos vender a sua história e talento para esse gênero menor, corrompido, chamado publicidade. A poesia não deve estar a serviço do capital.
Enquanto eu desencorajava adolescentes do ABC que queriam fazer o meu fã-clube, sugerido que não combinava comigo, que acreditava que fã, de fanatismo, era sintoma de fraqueza, meus colegas começaram a vender suas músicas e imagem para “reclames” de tevê. Alguns passaram a vender produtos.
Recusei uma proposta de R$ 150 mil para protagonizar um comercial de um laboratório farmacêutico, que anunciava um remédio contra impotência sexual, pois eu não queria manchar anos de luta para desassociar a imagem de cadeirantes da impotência - nem alimentar o preconceito que existe contra a vida sexual de portadores de deficiência.
Eu disse não à Rede Globo, que quis fazer uma minissérie de Feliz Ano Velho, por não querer expor demais uma obra que virara peça e filme. Disse não outra vez à mesma emissora, que quis fazer um programa sobre o meu pai. E, pelo visto, estou só na trincheira. Todos foram à luta.
O IRA! anunciou uma faculdade. Arnaldo Antunes, um supermercado. Seu Jorge, pinga. Jota Quest, Fanta! A família de Renato Russo vendeu uma música para um banco. O parceiro de Raul Seixas virou… Paulo Coelho.
Cultura virou chiclete. Conseguimos transformá-la num subproduto do comércio. O consumo virou cultura. Vender é arte.
Um livreiro me disse que, para vender livro, eu tinha de ter um programa de tevê. Eu o lembrei de que tive um programa de tevê diário, com banda e tudo, e larguei a emissora para estudar literatura em Stanford.
Quá-quá-quá. Como sou otário, anacrônico. Não tenho site. Nem blog. Fiquei meses no Orkut, até uma desconhecida me dar uma bronca, pois não a adicionei como “amiga”, e abandonei essa galeria virtual de excessos e carências.
Não tenho fotolog, nem nada no MySpace. Nunca postei um vídeo no YouTube. Eu não existo, caro leitor. Sou um mero escritor analógico, idealista, low profile, que nunca mostrou o seu lar em Caras e eletrificou a cerca que separa o público do privado.
Podem rir de mim. Acredito ainda no poder de transformação da literatura e liturgia da dramaturgia. Não faço livro sob encomenda. Nem teatro comercial. Vivo na contracorrente. Sou a piada da década.
Mas isso vai mudar! Começo logo logo um blog. E lanço um livro em novembro. Aparecerei de camiseta com o seu título, A Segunda Vez Que Te Conheci, na Caras, Chiques e Famosos, Flash!
Quero ser entrevistado pelo Amaury Júnior e pela Luciana Gimenez. Quero ser jurado do Faustão e dar detalhes de A Segunda Vez que Te Conheci! Quero tirar o chapéu no Raul Gil. Rir com Hebe de A Segunda Vez Que Te Conheci. Guardou o nome? Aprendi a me vender? Quero chorar com Gugu, ter 1 milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…
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