Archive for the 'Crônicas' Category

Sem medo da vida

Na adolescência eu era muito “cinemeira”. Lembro claramente da sessão de estréia do Cine São José, em Floripa. Passaram aquela obra linda do Vitório de Sica: Milagre em Milão. Em preto e branco, com aquela estética que apenas os filmes em preto e branco conseguem ter.(Hoje os cinemas estréiam não mais com filme de arte, mas com algum grande sucesso de bilheteria. Sinal inequívoco dos tempos…) Mais tarde assisti a um filme do qual recordo muito pouco, mas cujo título, pela beleza e pelo significado, jamais esqueci: O que a vida nos tira…

E de tanto em tanto, nos balanços pessoais da vida, é necessário que me ponha a contabilizar isso. Aprendi, com o tempo, que se tira muito proveito da vida ao se admitir que ela é o que ela é, e não lhe exigirmos coisas impossíveis. Para isso declamo o poema preferido do Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Alberto Caeiro: “Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo./ E gosto  porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.”

Acredito piamente que, em sua trajetória normal, a vida é aquilo que acho que ela seja - ou, em outras palavras, não há outra forma de alguém encarar os acontecimentos que não seja com a subjetividade de cada um. Vemos com nossos olhos, processamos com nosso conhecimento de vida, e tentamos alguma objetividade, tanta quanto nos seja possível. É óbvio? Sim, é o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Criamos um repertório próprio, uma filosofia e uma psicologia que seja adequada a nós, e tocamos em frente.

E cada dia é um dia…

Há fatos que fogem ao controle, mas há que enfrentá-los. Uma amiga me disse uma vez, ao me ver de baixo astral: não fica triste! E olhei-a meio escandalizada, como se tivesse dito uma grande bobagem,e eu não esperasse isso. O que, aliás,  a meu ver, tinha feito. Apesar de todas as mensagens enviadas pelos livros e gurus de auto-ajuda, não se é feliz o tempo todo. Os nirvanas - exceção feita aos monges budistas, talvez - são momentâneos e esporádicos.

Há coisas que nos deixam tristes, há coisas que nos deixam zangados(as), há coisas que nos causam revolta. Há coisas que nos deixam completamente impotentes, e isso paralisa a gente … por uns tempos. Porque não está morto quem peleia, e somos lutadores. E alegres. Mas não o tempo todo, que não somos doidos nem nada…

Restaurações de dentes caem, o banheiro do vizinho de cima vaza no meu, alguém passa conversando alto pelo corredor,na madrugada e me causa uma insônia zangada… O 13º. salário não é pago na data certa, perdemos ação na justiça - e lá se vai uma parte do salário, uma grana que estamos recebendo há 17 anos… “Não existe direito adquirido”, argumentam… E ficamos muito indignados, mas se o estupro é inevitável, já se sabe. Cortam-se refeições fora, não se compra roupa nova, diminui-se o gasto com livros - só se diminui, porque livro é essencial, e roupa nova não é…

O que sobra do salário dá pra passar o mês, e há os projetos que estão sendo encaminhados, e os dias azuis, bentevis gritando no jardim, a vizinha doceira indo entregar suas caixas para os clientes, sempre animada e ligeira, violetas florescendo na sacada, o cheiro bom da muda de tomilho, e Suzana falando com graça, na crônica desta semana, do sapinho de 2 reais que lhe dei. Há este carinho que se manifesta de maneiras muito diversas, do jeito de cada um, sem que precisem dizer “gosto de ti”, ou “te amo”. E que bom que eu perceba e valorize!

A vida é o que  a vida é, e Oswald de Andrade tinha toda a razão: A alegria é  a prova dos nove.

(Publicada no Anexo do AN. 28/8/2008. p. 3)

Em Brusque

Estive em Brusque a convite da cronista Suzana Mafra, para participar de eventos do aniversário da cidade: Brusque completa 148 anos.Lancei a coletânea de contos O Novo Conto Catarina e dei Oficina de Crônicas. Foi demais de bom.

Minhas passagens por Brusque são sempre relacionadas ao circuito de compras, que é ótimo. Mas minha relação com as cidades se dá em função de pessoas, que é o roteiro turístico que interessa. E, antes de Suzana, os brusquenses que conheci e conheço não moram mais lá.

Fui com carro da prefeitura , que veio buscar a mim e a Inês Mafra, irmã de Suzana, escritora também.Foi viagem muito agradável, um motorista muito simpático, o Tiago. A tarde estava bonita, num dia que tinha amanhecido com chuva, e estava quente, mas não demais. Fomos por dentro, por Tijucas, e quando subimos a serra após São João Batista, a neblina se espalhava bonita pelas encostas. Eram seis horas da tarde, estava escurecendo, e eu ia ficar no Hotel Veneza, no centro, e Inês na casa da mãe dela.

O Hotel Veneza é bom, simples, limpo, quartos bem modernizados, ar condicionado, TV a cabo. E TV a cabo com a maioria dos canais, nada daquele engodo chamado “Pacote para hotel”. Um único defeito: o posto ao lado fica aberto durante a noite, tem loja de conveniências e quando não é o som dos carros a mil decibéis, é papo de bêbados também a todo volume.

Quando fui para o local do evento, a Fundação de Cultura e Biblioteca Municipal, num prédio lindo, Suzana tinha ido em casa se arrumar, e eu não conhecia ninguém. E ninguém me conhecia. Por sorte, Inês chegou logo, e fiquei me sentindo menos desamparada… Havia uma exposição de ilustrações da Márcia Cardeal, mostrando a linha do tempo de sua carreira, gostei demais.

Mas depois foi ótimo. De início me olhavam sobressaltados - professora da UFSC, escritora, cronista do AN - parece que assusta as pessoas. Mas depois que me ouviram falar, me acharam muito simples e simpática (foram dizer isso pra Suzana), adoraram o que eu disse e vieram falar comigo feito um enxame…. Um senhor, casado com uma japonesa de Sampa (eles moraram lá muitos anos, até sua aposentadoria) fez questão de vir apertar minha mão - era a primeira professora da UFSC que ele conhecia.Eu ri: somos mais de dois mil, não é nada difícil encontrar algum por aí… Ele não queria acreditar!

Pela manhã caminhei pelo centro, atravessei a ponte, fiz fotos, fui ao Banco do Brasil. Parei num café da praça, tomei uma média enquanto lia o Santa que tinha comprado na banca em frente .

Ás onze as irmãs Mafra vieram me pegar no hotel e fomos almoçar no Schuma, lá em Guabiruba. O Schuma é abreviação carinhosa de Schumacker, e é restaurante tradicional ali, que serve todo dia uma maravilhoso “mareco com r-epolho r-oxo” (o r sempre como vibrante simples…) O restaurante foi reformado, mas manteve o mesmo formato, muito agradável - o pessoal que atende, também. O almoço é servido quase imediatamente, e a fartura do que vem pra mesa é simplesmente espantosa!AFE! Chegamos com ele vazio, saímos com ele lotado.

A Oficina à tarde (das duas às cinco) foi bem legal, lá num salão do sótão da casa da Fundação - que é linda, repito! Um pessoal pra lá de animado e simpático, todos dispostos a se tornar cronistas, uma atividade que, se não paga bem, ao menos dá muita visibilidade. E, em dando visibilidade, abre caminhos para muita coisa. Agora nos correspondemos por email. Encomendei três crônicas, e o pessoal está enviando. Assim, poderemos escolher as melhores e publicar, com as ilustrações feitas numa oficina dada pela Márcia. Vai ser jóia!

(Saiu no Anexo de 21/8/2008, p. 3. Já tinha feito este relato aqui, mas quis ampliar o alcance, mandando pro jornal. Tive que enxugar bastante, mas, afinal, Suzana e o pessoal de Brusque me receberam tão bem, que merecem!)

O professor de cerveja

Nunca fui grande apreciadora de cerveja, na maior parte de minha vida. Mas é o que a imensa maioria dos amigos bebe, quando temos atividades festivas juntos, e a gente acaba se acostumando. Com o tempo, se acostumando… e gostando. Mais algum tempo, gostando… e aprendendo a distinguir uma da outra.

Antes eu bebia apenas essas mais comuns, mas não das mais baratas. Delas, das mais baratas, se diz: isso não é cerveja…Atualmente, com tanta diversidade em oferta, já se diz isso das de preço médio, também. E há uma série enorme de cervejas artesanais por aí, uma melhor que a outra. Vamos experimentando, de vez em quando uma diferente, para poder comparar.

Quando me mudei para este apartamento, comecei a fazer algumas das compras na padaria que fica quase em frente, do outro lado da Lauro Linhares. Foi daí que conheci o Júnior, filho da dona Graça, os dois proprietários trabalhando na padaria, naqueles horários puxados que as padarias locais desenvolvem (têm a ajuda da Gil e da Arlene, mas é puxado pra todo mundo). E Júnior já virou amigo, quando notou que sou apreciadora de cerveja. É verdade que nos dias em que a pobreza ataca - normalmente no final de mês - levo bronca por levar aquilo que não é cerveja, mas nos domingos, naqueles em que decido experimentar alguma novidade, ele me dá aulas excelentes…

Me explica sobre procedência, composição, métodos de fabricação, até a distribuição.

Não sei se já existe denominação especial para o entendido em cerveja, como existe “enólogo” para entendido em vinhos, mas deveria, sim. É uma ciência, sem dúvida. E uma arte, também, especialmente fazer o freguês ficar sabendo o que deve sentir ao

saborear, quais os sabores que estão ali, e nada daqueles “frutados”, “o odor dos vinhedos sei lá de onde”, aquelas frescuras dos vinhos (gosto de vinho, mas pra beber, não para cheirar nem ter alucinações…Aliás, também detesto isso em relação à música erudita, mas deixa pra lá!)

Parece que na arte de se apreciar uma boa cerveja fica-se mais dentro dos ditames do bom senso e da simplicidade. Talvez para combinar com seus apreciadores… E Júnior faz isso muitíssimo bem. Vice-presidente da Confraria da Cerveja, representante da Eisenbahn para a região (a firma fica ali ao lado do Capitão Gourmet), é, além de tudo,

um gozador sem igual.

É mané ali do Estreito, e sou mané da Ilha, de modo que nos entendemos perfeitamente: debochamos um do outro na maior. Passei lá no domingo, peguei minhas cervejinhas, e perguntei:

- Não tem desconto, Júnior?

E ele, enfático:

- Dou desconto pra cerveja. Isso daí não é cerveja!

Fiquei sem resposta imediata, só o que pude dizer foi:

- Puxa, ninguém merece uma dessas num domingo lindo desses…E ainda sem desconto!

Mas tem dias em que ele está bem generoso. Quando passo no caixa, seja o que for que compre, ele soma e diz:

- Custa tanto pra ti… Um descontão.

Os outros clientes me olham curiosos, querendo saber quem é essa criatura de sorte, mas eu respondo, às vezes meio azeda:

- Estes teus descontos de ZERO por cento de fato ajudam nas finanças e me deixam muito comovida…

Mas, apesar de todos os seus esforços e dos meus, minha cerveja favorita continua sendo a Heineken.Uma vez ele perguntou: não vieste mais buscar aqui, por quê? E eu: porque aqui do lado é mais barata… Ganhei preço igual… E ganhei desconto no chope da Eisenbahn pro meu aniversário, e a festa foi mil vezes mais animada - embora os amigos que dirigem estejam sem beber.Mas os que não dirigem compensam e compensam muito e alegremente. Obrigadão, Júnior!

(publicado no Anexo, AN, dia 14/8/2008. p. 3)

Os homens de ontem

OS HOMENS DE ONTEM

No curso de Letras, não há queixas para o aluno que goste de literatura. É claro que os que não gostam, sofrem – mas deveriam então estar em outro curso. Lê-se muito, e de tudo. Mas se lê atabalhoadamente, três ou quatro livros por semana, um atrás do outro, para provas, trabalhos, seminários.

Além disso, o aluno é muito jovem. Com o tempo é que acumula experiência de vida suficiente e um maior acúmulo de informações, que lhe permitirão não só julgar melhor o que está lendo, mas também aproveitar melhor o lido.Assim, a releitura do que foi lido aos 20 anos pode proporcionar um prazer que não se poderia supor, quando lidos na faculdade.

Passei recentemente por isso e por sorte não foi com um livro apenas, mas com quatro deles. E fiquei tão encantada, tão completamente apaixonada por obras e autores, que tenho que dividir meu entusiasmo com vocês.

Há um chavão meu que meus alunos conheciam bem: vinham se queixar de que eu os estava obrigando a ler um livro muito chato, naquele semestre. Esperavam, provavelmente, que eu brigasse com eles, falasse de sua incapacidade de entender direito o que estavam lendo, ou uma defesa acalorada da não-chatice da tal obra. Mas não: eu simplesmente começava a rir, e dizia-lhes com toda a sinceridade, que também achava aquele livro muito chato. E daí , sim, minha voz se enchia de calor, ao acrescentar: “é chato, mas é muito, muito bom! O que vocês querem? Nem tudo que é de muita qualidade é comedinha de TV, pra distrair a gente ou um filme de entretenimento…” E então começava a enumerar as qualidades de obra e autor, sua contribuição para a área e o mundo. Terminava dizendo: agora vai lá, enfrenta o que há de chato, e aproveita o que ele tem de bom, que é muita, muita coisa…

Pois o que reli de nariz franzido foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Ajudou ter a edição comemorativa, linda, e ter quarenta anos de vida a mais. A parte introdutória, necessária na época, envelheceu, caducou, é insuportável. Mas o assunto do livro é uma maravilha completa, uma exposição clara, perfeita, detalhada, um olhar minucioso e isento do panorama da época. O capítulo que trata da retirada dos sobreviventes de Canudos é digno de um livro de terror de Stephen King, pelo ritmo, pela visualização, pela vida que apresenta. Moderno até demais.

Em seguida me perdi na invenção de Sir Thomas More: Utopia. Não dá para ler este livro com os olhos e o saber de hoje, precisa-se uma pesquisinha básica que contextualize a época, para se entenda melhor o que está feito ali. Mas depois, um deslumbramento só. Que homem brilhante que foi o More, barbaridade! Organizar um universo daquela maneira, com os não muito extensos conhecimentos de seu tempo, e com aquela clareza toda, me deixou de queixo caído. Passei uma semana inteirinha elogiando o livro, ninguém agüentava mais.

Na seqüência peguei Maquiavel, O Príncipe. Não me lembrava dele em absoluto, um ou outro trecho apenas, que usávamos em aula sobre recursos argumentativos (“Os que ascendem ao trono pelo crime”, se não me engano). Minha filha leu, no curso de Direito, queria discutir, mas ele estava apagado de minha memória, ou escondido sob camadas e camadas de leituras mais recentes. Outra inteligência brilhante, em retrato perfeito da política de seu tempo. E, o pior, a percepção assustadora de que o ser humano e a política não mudaram grandes coisas…

Para fechar, Cândido, do Voltaire. E muita, muita risada. Estou apaixonada por esses caras, simplesmente excepcionais – não há mais do tipo, por aí…

(publicado no Anexo, do AN, aos 7/8/2008)

Eu hoje acordei doce…

Esta noite sonhei com o homem que amo. Esta noite, o homem que amo – que não é meu, nem nunca será,e é justamente por isso que o amo, porque ele é o homem de minhas fantasias mais bonitas – veio me ver, e ficou comigo.E em meu sonho eu punha a cabeça em seus joelhos, e ele me alisava os cabelos, meio pai, meio irmão, meio amigo, meio amante, me beijava a testa, fazia cócegas em minhas orelhas. E daí, com vergonha de estar sendo carinhoso, me soprava os cabelos, desmanchava-os brincando, e me fazia as propostas que se diverte fazendo.

Esta noite sonhei com o homem que amo, e ele foi doce comigo E o sonho contaminou de tal forma meu ser inteiro, com seu clima de extrema satisfação e completude, que foi bom demais acordar e ficar me sentindo ainda dessa maneira.

Eu hoje acordei doce… E a doçura por que estou contaminada, hoje vai me fazer também distribuir essa mesma doçura pelo mundo.

Eu hoje acordei doce… E docemente vou prestar atenção em tudo aquilo em que não costumo prestar atenção, nos outros dias: no cheiro do ar, na leveza da atmosfera, no jeito de olhar das pessoas, na sonoridade de cada coisa, sua cor, sua função, sua beleza. E vou tratar de retribuir em dobro.

Assim, como hoje acordei doce, vou gostar da cara do dia, qualquer que seja ela: com sol, chuva ou cerração; com frio ou com calor; com ou sem lindo pôr-do-sol; com agenda infernal, com agenda light;

como hoje acordei doce, vou acreditar que o transporte público vai se tornar mais barato, eficiente e confortável, que motoristas e cobradores serão responsáveis e tolerantes, e os passageiros bem-humorados e pacientes;

como hoje acordei doce, vou sorrir para todas as crianças e lhes contar divertidas e inteligentes histórias de sapinhos, mesmo que as crianças estejam sendo birrentas e chatas e vou lhes cantar o Sapo Cururu se forem alegres e queridas;

como hoje acordei doce, vou acreditar que todos os vôos vão partir e chegar na hora, e as companhias aéreas vão servir gostosos lanches quentes com um café gostoso, nada de amendoins e barras de cereal, e que seu pessoal de terra vai ser tão simpático e gentil quanto o de bordo costuma ser;

como hoje acordei doce, vou crer piamente, feito a Velhinha de Taubaté, que não vai mais haver inflação nem corrupção, que os impostos vão baixar, e os juros, idem;

como hoje acordei doce, vou ter plena certeza de que os agricultores não vão mais precisar usar agrotóxicos nem nada parecido, porque as defesas saudáveis estarão a seu alcance – de seu bolso e de sua capacidade de se responsabilizar seriamente por seu produto e de se preocupar com o futuro do planeta em que vivem, resguardando-o para as gerações futuras e por amor a estas e à Mãe Natureza;

como hoje acordei doce, vou achar que os motoristas não vão beber, quando tiverem que dirigir, e verão que assim é bem melhor – e todos vão achar jeito de se divertir sem pôr a vida de ninguém em risco;

como hoje acordei doce, não vou implicar com a programação dos cinemas, e vou me conformar em ver uma daquelas atoleimadas comédias românticas, estreladas por lindas mocinhas siliconadas e idiotas, e achar que está tudo muito bom, e que a vida é assim mesmo;

como hoje acordei doce, vou achar doce que motorista afoito tente me atropelar na calçada, pedestre indefesa que sou.

Eu hoje acordei doce… Mas tão doce, tão doce, que antes de sair espalhando pelo mundo esta doçura toda, vou primeiro passar pela farmácia mais próxima, e tomar uma injeção de insulina, só pra garantir…

(publicado no Anexo, do AN, aos 31/7/2008)

Vou a pé!

Rua congestionada, fila de carros fluindo com lentidão. Alguém na minha frente pergunta ao guarda: que houve? E ele, enraivecido: é aquela praga do amarelinho, que pára em qualquer lugar!

Tive que me conter pra não rodar a baiana… Porque eu vinha em sentido contrário, e sabia que o problema tinha sido causado por um ônibus atravessado na pista da esquerda. E ele estava atravessado porque precisava entrar numa transversal, para ter acesso ao terminal urbano, e havia um carro estacionado bem na esquina. E cadê o guarda?

O motorista do coletivo não se alterou. Deixou o ônibus assim, atravessado para descer, ocupando sua pista, se encostou no banco e se pôs a beber água na garrafinha. Na maior calma. Ao mesmo tempo, pensei: deve passar por isso mil vezes por dia, está vacinado. Como se não bastasse o trajeto repetido trinta vezes por dia …

Minha bronca com o guarda, porém, continua vigorando. Porque, vejam bem, o amarelinho, transporte seletivo, faz o que a lei lhe permite. Ele tem o direito de parar fora do ponto, para que o passageiro suba ou desça. E atrasa o fluxo de carros um pouco, às vezes, nos momentos de pico, mas é só. As calçadas estão cheias de carros estacionados em cima, em local proibido, com o som a mil decibéis, com canos de dez metros amarrados, sem sinal algum. Isso parece não incomodar o guarda. Carro pode tudo…

Nos dias da greve dos motoristas de ônibus, foi uma coisa de louco. Todo mundo tira carro da garagem, e estaciona em qualquer lugar. Pedestres, espécie urbana e bípede de inseto, salvem-se como puderem! Fui ao banco, e na minha frente ia senhora com seqüela de ACV, caminhando com dificuldade. Entre nós e a entrada do banco, três automóveis ocupando a calçada. Calçada estreita em rua estreita e congestionada, mas que remédio: vamos para o meio da rua. Se já me zangara por minha causa, fiquei zangada em triplo por causa dela.

Não sou modesta, não sou humilde. Não sei se é o “petismo” sempre latente; não sei se é saber que poderia ter automóvel, se quisesse; não sei se é muita auto-estima. Sei, de certeza, que é pelo fato de que não me envergonho de brigar, quando acho que devo.

Mas os motoristas folgados e desrespeitosos não estavam ali, nem havia guarda por perto. Aliás, nunca há - não patrulham as ruas de bairros, só as do centro…

Na entrada de meu condomínio, uma mocinha num carro atravessado na calçada. A senhora seqüelada vai para o meio da rua, outra vez. E minha paciência foi pro brejo: “moça, tire esse carro daí”. E ela: “já vou sair”. Fiquei mais zangada: “enquanto a senhora não sai, os pedestres têm que passar numa rua entupida de automóveis.” Porque, observem, minha bronca tinha razão de ser: o condomínio tem estacionamento com bom espaço pra manobra. Seria fácil ela entrar e fazer a volta. Do jeito como estava, teria que sair de ré no meio daquele movimento todo. Desrespeitosa, barbeira e burra. Mas ela, raivosa, fez a bobagem de responder: “não vou demorar, dona!”

Fiz a pose mané conhecida. Mãos na cintura, disse-lhe, com a franqueza habitual: “se não sabes dirigir, minha querida, não dirige!”

Quando entrei o porteiro veio me dizer: “tadinha ela, a moça não ia demorar”. Sobrou pra ele: ” dizes isso porque ela é moça e bonitinha. Por que não a mandaste entrar e fazer a volta aqui dentro?”

O que há com o povo? Calçada é para pedestre, não é para carro estacionar porque quem o usa tem preguiça de caminhar, ou está atrasado, ou está com a mãe, o pai, o papagaio na UTI. Já ouvimos todas, né? Respeito é bom, e a gente gosta.

(publicado no Anexo do AN, dia 24/7/2008. p. 3)

Só em Jaraguá

A Feira do Livro, em Jaraguá, tem sempre alguma participação minha. Pela razão muito simples de que o Carlos Henrique Schroeder, meu querido editor (e cronista deste jornal aos sábados) não perdoa, e me bota para trabalhar.Eu e seus outros “editados”, não duvidem. Na Feira deste ano, fiquei encarregada de ser moderadora em duas mesas. A primeira, com o autor de livros infanto-juvenis Ricardo Azevedo, a quem não conhecia pessoalmente, e é uma simpatia. A segunda, presente que Schroeder me fez:cuidar da apresentação de meu amigo (faz exatos 24 anos, já!), o romancista Cristóvão Tezza, que nasceu em Lages e mora em Curitiba.

O cenário ficou legal: sobre o tablado, um banco de praça, desses de madeira. Conversávamos ali, para um público muito grande, nós muito à vontade, na quarta à noite. De repente, o tablado se põe a vibrar. Antes que Tezza se assustasse, achando que poderia ser algum terremoto, eu avisei: é o trem! A vibração foi aumentando, depois vieram as sirenes e os apitos da passagem de nível… Alguém da platéia diz: só em Jaraguá! E acrescentei, para esclarecer: ele passa ali na esquina…

Pois é: é só em Jaraguá que o trem passa assim, no centro da cidade, seis vezes por dia, fazendo o maior espalhafato. As pessoas se enervam, os motoristas se irritam, e não entendo muito bem o porquê… Acho a coisa mais linda! Aquele trem é importante para a cidade, e foi ele que lhe tornou possível o progresso que alcançou, trazendo matéria-prima, dando vazão aos produtos jaraguaenses. Atrapalha o trânsito? Ora, pior é pegar filas enormes na ponte, congestionamentos de mais de meia-hora em vias superlotadas, como nas cidades maiores. O trem termina de passar em cinco minutos, e que importância têm cinco minutos, diante de um ator ligado de forma tão positiva à história da cidade? Além disso, como vantagem adicional, o palestrante teve que parar dois minutos de falar, e aproveitou pra beber um pouco de água…

Na manhã seguinte, tive que ir a uma lotérica, fazer um depósito em conta da Caixa Econômica. Havia uma fila bem grande, alguns pagando conta da Celesc, outros fazendo alguma aposta. Atrás de mim, uma senhora explicava que queria comprar um bilhete da loteria, mas queria que fosse do cavalo, tinha que ser do cavalo, pois tinha sonhado com cavalos. E isso agitou todo o pessoal, vendedores e da fila, que se pôs a procurar pelas vitrines, tentando achar um número de bilhete que a satisfizesse. E desta vez fui eu quem pensou: só em Jaraguá…

À tarde fui a uma loja, comprar um edredon, e na hora de pagar deu problema: eles não tinham Redecard, não uso cheque, meu dinheiro não era suficiente. Além disso, o Banco do Brasil está migrando do Visa para o Mastercard, ainda não posso usar o cartão de crédito. Solução? Fomos à agência mais próxima, para eu sacar. Lá dentro, em frente aos caixas eletrônicos, quatro pessoas conversando. Entrei, fiz saque, peguei saldo, saí; eles num papo animadíssimo.Só em Jaraguá… Não sei se tinham se encontrado lá por acaso, e aproveitavam pra trocar as novidades, ou se isso é fato costumeiro. Jamais vi isso em minha agência cá da ilha, mesmo quando encontro amigos por lá: é vapt-vupt.

Adoro fazer compras em Jaraguá. Não sei se é mais barato ou não, isso não me importa muito. Mas me atendem bem, as lojas não são lotadas, e a lentidão de alguns atendentes é compensada - e com muita vantagem - por sua simpatia e boa vontade. Não tenho que pegar senha (uma ou duas exceções) nem encarar fila. Uma maravilha!

(publicada no Anexo, do AN, p. 3. Dia 17/7/2008)

Meus eus sazonais

Chego à conclusão de que existem pelo menos duas de mim, de acordo com a estação do ano… Ou três de mim, quem sabe. Me dei conta disso há pouco, quando saí para caminhar nessa tarde de sábado, linda tarde de inverno com cara, cheiro, jeito de outono - fresco, mas com céu de brigadeiro, coisa muito demais de linda, suave e agradável. Nesta época as temperaturas mais frias tornam a atmosfera mais densa, e com isso o céu se torna mais azul. O sol faz trajeto mais baixo no céu, o que ajuda a dar uma coloração especial a tudo que ele ilumina.

As sombras são mais longas, e se espicham mais cedo pela paisagem. Gosto de vê-las, assim, se encompridando, sem pressa. Saí para uma caminhada de meia hora, em passo relaxado, que se vai amiudando à medida que o corpo se aquece.

Fiz todo o trajeto pensando: o ano inteiro devia ser assim… E foi então que me lembrei que acordo sempre muito cedo, independentemente da hora em que vá dormir. Um grande inconveniente dessa característica é que se durmo às dez, acordo às seis; se for dormir à meia-noite, do mesmo jeito. E idem se for pra cama às três da manhã… Meu sinalizador biológico não perdoa, e seu despertador apita estridentemente às seis, seis e meia o mais tardar.

No verão, acordo com toda a corda. Vou direto para o banho, dali para as tarefas do dia, e para a santa caminhada. (não precisam criticar: se voltar muito suada, tomo banho outra vez, podem ficar tranqüilos… ) No frio, levanto com a cabeça à toda, mas o corpo reclama, porque na cama está tão bom, tão quentinho.E já não tenho, infelizmente, o mesmo pique dos tempos calorentos. Fico roseteando pela casa, de pijama, robe grosso, pantufas. Fico esperando o sol aparecer, e a temperatura alcançar uma certa altura, que me dê coragem de enfrentar o chuveiro e o banheiro sempre tão gelado. Deixo para caminhar à tarde, antes que o sol, preguiçoso, comece a dar sinais de que vai se deitar cedo, ele também. Se estiver fazendo um daqueles vento “súli”, o bendito vento sul da Ilha, daquele que chega a assobiar pelos cantos e esquinas, nem vou, pois me racha a boca, a pele do rosto abre e chega a sangrar…mesmo com uma bela e protetora camada de creme.

Este jeito de meia-estação é que é uma maravilha! Amanhece frio, esquenta ao longo do dia, e como lá pelas quatro da tarde o sol boceja de leve e vai se escondendo por trás do morro, e começa a esfriar, vou caminhar um pouco antes. Nesses dias tão perfeitos, me derreto toda de amor pela ilha - é sua época mais bonita…

Assim foi no sábado. Pela manhã, a cabeça funciona legal - é meu período mais produtivo. Leio o jornal, leio os emails, respondo o que seja respondível, escrevo, muitas vezes aproveitando idéias que brotam dos sonhos, soluções que saem cristalinas dos sonhos, e entre as idéias e o trabalho doméstico a manhã voa. À tarde, porém, a cabeça fica mais desatenta, começo a cansar, e me disperso em outras coisas: caminhada, academia, TV, tricô, consertos de roupas, tábua de passar uma vez ou outra.

O poeta Mário de Andrade diz, em poema famoso: ” Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta”. Conforme o aspecto que se analise, vai haver vários de nós, mesmo. E, em termos de estação, somos três Reginas, sou três Reginas. A do calor, que se mexe mais, mas reclama, odeia suar (ladies não suam!) , ficar sonolenta, sentir cansaço e sede exagerados. Tem a do frio, que se espreguiça pela manhã, feito ursinho de pelúcia, hibernando, mole, mole… E tem essa da meia-estação, faceira , animada, feliz… A favorita, não precisa nem dizer!