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O jeito mané de ser

Na ilha dos ocasos raros, que a gozação tornava ilha dos acasos rasos, os manés eram  apenas aqueles que viviam aí pelo interior da ilha, meio isolados, atrasados, caipiras mesmo. Era termo depreciativo. Foi Aldírio Simões, mané do norte da ilha, quem elevou a palavra a um novo patamar,  estendendo-a para todos os que partilhavam dessa mesma herança cultural, aquela do olholhó, tax tolo!

Inserido já numa cidade submetida a contínuas ondas de invasões “alienígenas”, Aldírio buscava revalorizar a cultura local, seus hábitos, seu linguajar, seu jeito de ser. Em crônica que adoro, dizia que mané que é mané só atravessa a ponte pra comprar pneu… É, é mais ou menos isso.

Porque não basta ter nascido aqui pra ser mané. Há novas gerações de florianopolitanos, filhos de gaúchos, cariocas, paulistas, paraenses e outros, que são apenas isso: florianopolitanos de nascença. Não têm o jeito mané de ser, porque isso é aprendido em casa, absorvido, mamado com o leite materno. Não conhecem as histórias que originaram as expressões famosas, não falam manesês, não têm aquele espírito debochado do verdadeiro ilhéu…

E já ando meio cansada de explicar isso, de falar disso, e esta aqui é minha tentativa derradeira de alcançar público maior que nos entenda. Quem me ouvir falando não vai dizer que sou mané. Morei no Rio aos 13 e 14 anos, morei mais 12 anos no interior de Sum Paulo - onde aprendi a falar com maior lentidão - e não falo mais manesês; não naturalmente, ao menos. E quase 30 anos de professora universitária alteram o registro de qualquer um.

Tem gente que jura que sou paulista, porque de fato o paulistês tem forte influência no meu jeito de falar. E digo sempre que me sinto feito mestiço de filme faroeste americano: não sou branca nem sou índia, sabem como é? Mané não me percebe mané, paulista logo vê que não sou de lá. Lingüisticamente não sou nada.

Mas mantenho o jeito mané de ser. E gosto dele. Mas é difícil quem é de fora entender.

Amiga brasiliense comentava, meio escandalizada, que achava o jeito do pessoal daqui meio duro de engolir. E contava que no ônibus, vindo do Campeche pro centro, o cara que estava do lado dela abre a janela e grita pra alguém da calçada: “ei, ixtepô! Teu time é uma naba, heim? Já  víssi o horror que foi o jogo de ontônti? Também, né, nego? Com torcedor que nem tu…” E daí se encostou no banco e riu, deliciado.

Ouvi a história e também ri, deliciada. Eles se gostam, eu disse, pra espanto dela. Mané só goza de quem gosta. E isso é que os aliens não entendem. Se a gente não gosta de alguém,é gentil, mas  não “intica” com ele. É maneira delicada de ignorar.

Na fila da lanchonete, o dono, atendendo no caixa, me vê, e diz:  lá vem a baixinha me incomodar! Mandem ela embora! Os outros fregueses olham pra mim chocados, e  estou rindo: pára de encher o saco, cara! Quem freqüenta essa lanchonete de quinta categoria merece respeito!

É uma declaração de amor, a gente se ama.  O que há de complicado nisso? Isso é troca de afagos, entendam, por favor!

Zeca Pires me apresenta seu filho, o Aníbal, que tem o mesmo nome de seu avô, meu querido professor em Letras. E meu comentário, bem típico, é: Tens certeza de que é teu filho? Ele é tão bonitinho! O Zeca riu, bom mané que é, entendendo o espírito,  mas quem estava conosco na mesa me pediu pra reformular a fala.

Ah, tou cansada de ter que reformular a fala.  Façam o favor: falo paulistês, mas sou mané. Quem não entender o espírito, que vá morar noutro lugar! E mofe com a pomba na balaia!

(publicada no Anexo do AN, 2/10/2008).

Silvana

Um dia, chega e-mail do Ben-Hur: estava alugando uma caixa postal, lembrava dos bons tempos em que se escreviam cartas, ao invés de e-mails. Gabava as delícias de se receber uma cartinha escrita à mão, com marca da pessoa que escreveu, do prazer de seguir todo o ritual de pegar o papel de cartas, redigir a resposta, sobrescritar o envelope, dar um passeio até o correio, às vezes até se dar o luxo de escolher um selo mais bonitinho, e devolver a gentileza. O e-mail é mais rápido, mais barato, até mais eficiente, mas não tem esse cunho de pessoalidade que se vê nas cartas.

Na mesma hora fui pegar papel. Comecei: “O amigo pede carta/ uma carta ele terá…”. Fiz-lhe um poema, tolinho, mas pleno de afeto.

Hoje, o correio só entrega avisos de banco e propaganda, raramente uma carta. Sou privilegiada com algumas da Clarisse da Costa, de Biguaçu, e respondo lhe enviando um livro novo junto. Clarisse manda cartas com desenhos e muito carinho. Uma graça!

Morar em condomínio com porteiro 24 horas significa perder totalmente contato com o pessoal dos correios - a correspondência é distribuída nas caixas de cada prédio, pelos empregados da casa. Facilita a vida, especialmente com sedex ou registrados, mas não se tem o prazer de cantar “quando o carteiro chegou/ e meu nome gritou/com uma carta na mão…”.

Antes existiam apenas os carteiros. Apenas homens exerciam a função e todo ano eu lhes dava um presente no Natal, e contava que tinha o tio Walter, que foi um pai e tinha sido carteiro. Homenageava pois o tio, sempre bem humorado, contando de problemas de entrega e cachorros ferozes. Obviamente um conhecedor dos detalhes da geografia da cidade, cada rua, cada casa… e cada cachorro.

Ainda morava na casa, um dia fui atender a campainha e lá estava, com aquele chamativo uniforme dos correios, uma moça. Bonita, pequenina, simpática, a Silvana. Perguntei-lhe o nome, quis saber quando o correio admitira mulheres, o que ela achava do trabalho. Não deve ser muito fácil caminhar tudo que caminham diariamente, subir todos aqueles morros da Trindade ou de outros locais, carregando a pesada sacola com a correspondência de seus setores de entrega.

Ela já ia saindo quando tive uma dúvida: que nome se dá às mulheres que entregam cartas? Pra homem é carteiro, mas chamar vocês de carteiras parece estranho. Pois é mesmo de carteiras que elas se chamaram, mais um sema foi acrescentado à palavra já existente, não mereceram um neologismo que as homenageasse.

Silvana e eu batemos alguns papos, rápidos, amigáveis, cada vez que ela passava lá em casa e eu estivesse; a maior parte dos dias estava fora, no trabalho. Ao me encontrar em casa, era comum me pedir um copo dágua, não sei se por sede ou para dar uma descansada, que a subida não era nada fácil - pra baixo, todo santo ajuda, dizem - numa rua cheia de cães barulhentos. Mansinhos, mas alvoroçados. E cachorro adora calcanhar de carteiro e de motoqueiro.

Semana passada, por acaso, encontrei-a na padaria. Parecíamos velhas amigas, se reencontrando depois de tempos - tinha me encontrado com ela apenas uma vez, na praça, um ano atrás. Embora o setor de distribuição e triagem dos Correios seja quase aqui do lado, e passe ali constantemente para ir ao banco, nunca mais a tinha visto. Cruzo sempre com outros carteiros, mas não com ela.

Está cursando letras - português na Unisul, gosta muito do curso, e como este também foi meu curso na UFSC, e fui muito feliz na profissão, me deixa satisfeita saber isso dela. Pra mim, agora, a palavra carteira tem o jeito e o sorriso da Silvana!

(publicada no Anexo, AN, 25/9/2008)

Histórias de palavras

Palavras são seres vivos, e vivem vida parecida com a do ser humano: nascem, crescem, morrem. Mas são organismos social e culturalmente motivados, surgindo sempre para dar conta de uma ação, um momento, uma necessidade.

As melhores histórias nem sempre são das palavras, mas de seus conglomerados, as expressões, especialmente as conhecidas como expressões idiomáticas. Todas as línguas as têm, apesar de já termos ouvido falantes de outras línguas dizerem que a sua não , imaginem… Bobagem pura, apenas eles foram criados a ouvi-las, estão acostumado com elas e a seu significado… Talvez não com a sua origem.

Já dei aula de Língua Portuguesa para alunos estrangeiros, no início de minha carreira na UFSC, e a maior dificuldade  era lhes explicar as tais expressões. Porque para eles  não bastava saber seu sentido, sempre figurado: faziam questão de saber onde tínhamos arrumado aquilo. Algumas eu sabia explicar, outras não; essas ia pesquisar. Me divertindo: é incrível nossa capacidade de transformar piadas em expressões  cotidianas, e nos esquecermos da sua origem. “Amigo da onça”, por exemplo, é uma delas. De uma nunca encontrei a explicação: “no mato, sem cachorro”.  (Se alguém aí tiver achado, favor me mandar!)

Minha favorita é antiga, aqui da região de Floripa, não sei se se usa em outros locais: “mais teimosa(o) que a mulher do Piolho”. Vivo contando essa história, porque uso a expressão em relação a mim mesma, e me perguntam o porquê. É o seguinte: o cara se chamava Luís, mas seu apelido era Piolho. Ele odiava o apelido, e virava bicho quando o chamavam assim. E sua mulher fazia isso, quando brigavam: Piolho isso, Piolho aquilo! Numa das brigas, ele perdeu a cabeça  e, para obrigá-la a parar, jogou-a dentro do poço da casa (não havia água encanada, naqueles velhos tempos…), segurando-a na superfície pelos cabelos.

Puxava sua cabeça para fora da água, e perguntava: como é mesmo meu nome?

E ela, sem se entregar: Piolho!

Na água outra vez, e assim várias vezes, sem que ela se amedrontasse e dissesse seu nome de batismo. Da última vez, quase se afogando, ele puxa sua cabeça e pergunta, em mais uma tentativa: como é meu nome? Já se afogando, ela põe as duas mãos para fora d’água, e une os polegares, no gesto de quem está matando um piolho… “Mais teimosa(o) que a mulher do Piolho”, é muito,muito bom!

Outra expressão dos velhos tempos, que o pessoal mais novo não conhece, é “parece cavalo de padeiro”… ou “feito cavalo de padeiro”. Os padeiros (e os leiteiros, também, mas não se usa a referência a eles) entregavam pão, diariamente, nas casas que os encomendassem, de carroça. O roteiro era sempre o mesmo, as paradas sempre as mesmas, de modo que os cavalos aprendiam o trajeto, e o seguiam, mesmo quando o dono não estivesse a guiá-los… Usa-se quando uma pessoa se distrai, e volta a procedimento que costuma repetir, seja em termos de caminho, seja em outros.

Amiga me ofereceu carona, e saímos em direção a seu carro. Fomos para o local onde costuma estacioná-lo, não estava. Ela se pôs a rir: estou parecendo cavalo de padeiro… Não tinha vaga aqui, quando cheguei, de modo que tive que deixar o carro em outro lugar.

Os humorísticos de TV são pródigos em fornecer esse tipo de expressão. As propagandas, também. “Pequenina, mas resolve”, de antigo anúncio de analgésico, amigo me diz , quando esclareço suas dúvidas de Português.

Hoje, na portaria, o Alemão me pergunta: vai à festa, Dona Regina? E eu:  sem chinelo, eu não vou! (onde é que fui buscar isso, meu Deus?)

Mondrian e a porta

Pra Adriane

A casa ficava no alto do morro, morei lá por 30 anos. Quando a compramos, o filho tinha cinco anos; a filha, dois. A vista é linda, lá de cima: toda a Trindade, Santa Mônica, Itacorubi, Saco Grande (que sofreu censura e virou João Paulo, não me conformo), o morro da Lagoa e um bom pedaço da Baía Norte. Com os anos fui reformando, ajeitando, aumentando, enchendo de estantes. Foi ficando com a minha cara, acho.

O filho casou, veio meu divórcio, a filha foi fazer doutorado na Unicamp. Fiquei sozinha na casa, grande demais pra mim, agora. Não tinha medo de morar lá sozinha, mas era muito trabalho, muita despesa. Levei quatro anos me decidindo, até vender. Doeu: muitas lembranças, inclusive os dias finais de meu pai, que morreu ali. E muitas festas com as turmas do jornalismo.

Comprei apartamento na Lauro Linhares, em condomínio grande, apartamento pequeno, mas meio antigo, peças boas, bem dividido, temendo não me acostumar. Pois me ajeitei logo, para minha própria surpresa…

Sempre alugado para estudantes, o dono não investiu nele, estava meio detonado: piso gasto, encardido apesar da pintura recente, o mármore dos peitoris enegrecido pelo tempo e pela falta de cuidados. E quase nenhuma tomada, tripolar nem pensar, não havia como ligar computador nem lavadora de roupas. Fui fazendo, que remédio!

Mas gosto de lidar com isso, de planejar, escolher, reformar, mandar fazer. Tenho a pachorra de selecionar uma foto de armário de uma revista, e guardar, até ter dinheiro e poder encomendar.

Ano passado não deu pra fazer quase nada nele, pela falta de grana mesmo. Só investi numa estante grande para o quarto, pros livros abençoados, companheiros de todas as horas. Mas 2008 já me encontrou mais tranqüila, e fui tirando as fotinhos da gaveta, e deixando o “cafofo” do meu jeito. Ainda falta muito a fazer, mas está ficando bem bonito, e isso é animador.

As portas internas tiveram que ser jogadas fora, comidas de cupins. A externa, mais pesada, resistia bem, mas estava muito feia. Há um marceneiro de confiança, o Jair da Silva, lá da Palhoça, que costuma trabalhar pra mim. Sua mulher, a Silvana, é a sua ajudante, e adoro os dois, são umas figuras. Caprichoso, meticuloso, metódico, Jair às vezes me enlouquece: discute detalhes que me são ininteligíveis, e perdemos tempo em conversa de surdos …

Eu queria trocar a porta da frente e isso foi assunto pra uma dessas. Ele usa madeireira lá da Palhoça, me recusei a ir até lá, longe demais. Deu jeito: trouxe fotos para eu escolher. Me apaixonei logo: quadrados, retângulos, sulcos, parece um quadro do Mondrian. É com essa que eu vou! Me liga: “é porta interna!” E eu: “Sem problemas, vai dar pro hall, não pra rua. Pode trazer”. Me liga de novo: “Olho mágico?” Começo a rir: se puser lá em cima, não alcanço; se puser em baixo, vou ver o umbigo das visitas. Sem olho mágico.

Instalada a porta, mandei pintar por fora, o gelo padrão do condomínio. Mas dentro ia virar quadro do Mondrian: quase toda branca, um quadrado vermelho, um retângulo azul, outro amarelo, frisos negros. Mandei fazer e o pintor levou vários dias, uma mão de cada vez, para que as cores não vazassem. Jair veio instalar a bancada do banheiro, viu a porta começada, não conseguia gravar o nome do pintor holandês, foi de ouvido: a porta do Mandrião!

Na sexta veio trazer a estante da sala. E eu: a porta do Mandrião está pronta. E Silvana, toda encantada: “Que alegre ficou! Dona Regina tem pinturas lindas na parede e mais uma obra de arte na porta!” Pois tenho: um Mandrião legítimo!

(Anexo do AN, 11/9/2008. p.3)

Brincar de cachorrinho…

(Fui dar entrevista para o programa  da Univali, de Ensino a Distância - EaD - com a Profa. Adair, de Teoria Literária, e falei desta crônica pros alunos. Pus aqui de novo, para que eles não precisem procurar…)

(Por razões óbvias, não vai pro jornal. Mas vale  a pena ver de novo, pois daria  uma crônica muito divertida! E, como já disse aquele rei francês, honni soît qui mal y pense!)

Brincar de cachorrinho

Na crônica da semana passada, fez grande sucesso o item sobre brincar de cachorrinho. Me mandaram proposta (de brincadeira, é claro!)  de dar uma Oficina sobre isso, e montes de perguntas, pedindo esclarecimentos. Muita malícia e duplo sentido rolando, sem dúvida… Mas ficou muito divertido, e divido com vocês.

Pergunta 1: Fessora, a senhora poderia vir dar, aqui em nossa cidade, uma Oficina de brincar de cachorrinho?

Resposta 1: Primeiro vou treinar bem direitinho, estudar todas as possibilidades,com mordidas e sem mordidas, e depois monto oficina no capricho!Com osso e sem osso…Faz um bem danado pra coluna, fiquem sabendo! E deixa a gente num bom humor danado!

Pergunta 2:  No caso específico de brincar de cachorrinho, os ossos do ofício fazem parte?

R2: Em qualquer brincadeira, os ossos do ofício são sempre a melhor parte…

P3: Esse lance do cachorrinho é tipo assim em grupo ou a gente só brinca com outro cachorrinho de cada vez?

R3: Já pensei no assunto, mas brincar de cachorrinho em grupo, pra seguir tradição “cachorral”, exigiria vários cachorrinhos e uma cachorrinha só, né? Complicado! As cachorrinhas não gostam muito, não!

P4: No caso de você vir dar a oficina, temos que nos vacinar contra a hidrofobia antes? E focinheira, é pra levar?

P4: Os adeptos da versão “com mordida” devem tomar vacina, sim…Os outros ficam dispensados. Quem pode se divertir, usando focinheira? Focinheira fora!

P5: A professora tem pedigree? Usa coleira igual à que Luma de Oliveira usou uma vez?

R5:  A professora tem pedigree que vai ao mil avô; só não pode usar coleira, porque é de raça sem pescoço…

P6:  A professora tem pulgas, ou é limpinha?

R6: A professora não tem pulga, não, mas de vez em quando arranja algum cachorrinho pulguento, porque gosta de ter pulga pra se coçar.
P7:Cachorro molhado pode entrar na sala?

R7: A professora tem faro apurado, e não agüenta cheiro de cachorro molhado. Eles têm que estar secos, limpinhos e cheirosinhos.
P8: Vão usar lingüiça para amarrar os cães desobedientes?

R8: Amarra-se com lingüiça… e lingüiça de Blumenau, daquela especial, é claro, que é a mais mió;
P9: Quem estiver com a famosa tosse de cachorro pode participar?

R9: Depende da tosse: se for intermitente, brinca-se nos intervalos; se for contínua, impossível…

P10: O nado cachorrinho será um módulo à parte? Nesse caso,  vai ser em piscina ou em mar aberto?

R10: Nado de cachorrinho - ou qualquer outra atividade aquática - foge à especialização da fessora; ela nada cachorrinho, é claro, mas não fez curso de salva-vidas, e não sabe o que fazer, se alguém muito entusiasmado  se atrapalhar e engolir água.

P11: O que será feito com os alunos cachorros que estiverem no mato sem dono?

R11: Os cães sem dono são ótimos: são carentes e carinhosos, ótimos guardas, e serão benvindos; mas os perdidos no mato vão ter que vir limpinhos, sem pulgas, carrapatos ou carrapichos.
P12: Vai ser feita alguma performance com aquele rap que diz assim: ” Só as cachorras!”?

R12: A trilha musical é variada: vem de O Cachorrinho do Lalau,que late em Bossa Nova; passa por Waldick Soriano (Eu não sou cachorro, não), maravilha da música brega, e chega ao funk, glória de todas as cachorrinhas delicadas e de bom gosto…
Aviso importante: pitbulls são ilegais! São ligados demais em mordidas, e não se controlam!A fessora não aprecia brincadeira que acaba em hospital!

(com agradecimentos especiais à Roberta da França, que pôs pilha, e à Fátima de Laguna, colaboradora essencial).

Não está morto…

… quem peleia, conhecido provérbio dos gaúchos, ficou dançando em minha cabeça, depois que encerrei a crônica da semana passada. Há motes assim, há temas assim, que são inesgotáveis, e ficam dando cria, uma depois da outra.

Porque essa coisa de lutar sempre, de precisar lutar a cada dia da vida, e vejo isso em muitas pessoas a meu redor, é sempre foco de minha maior admiração. E do meu maior respeito. Já notaram que só os muito encostados na vida é que se queixam de não ter o que fazer? Àqueles que peleiam, nunca lhes falta assunto, nem trabalho. Nem disposição pra isso, ou pra viver. Sou fã desse povo, e fã ardorosa.

Pensei em expressar essa admiração toda na crônica seguinte e, por causa disso, me lembrei de um lindo filme uruguaio que vi há pouco, com história de pobres que batalham, que não se entregam, que arregaçam as mangas e vão à luta. Mas quem disse que me lembrava do título? Revirei a memória, e nada.

Mas o filme é bonito demais, poxa, preciso achar o nome, tenho que citá-lo, de qualquer jeito. O remédio é pedir socorro para alguém! E para quem? Ora, pro cineasta e amigo Chico Pereira Filho, sem dúvida! Esse povo do cinema respira, come e dorme cinema, e Chico - outro batalhador, como todo cineasta brasileiro que se preze ( que remédio,  a não ser levantar batalhando e ir dormir do mesmo jeito, num país em que se valoriza pouco a cultura?) - sem dúvida vai saber.

Mas como perguntar pra ele de um filme cujo nome não lembro, cujo diretor não sei - o que não me permite recorrer ao Google - vamos lembrar a história, pra  lhe contar. A ação se desenrola numa cidade uruguaia fronteiriça com o Brasil, que vai receber a visita do Papa. Daí  a personagem masculina, vendo seus vizinhos fazerem montes de comidas para o tanto de brasileiros que vão vir para ver o Sumo Pontífice, chega à conclusão de que, após se empanturrar dessa forma, os visitantes precisarão se aliviar de alguma maneira, e decide então construir um banheiro, bem na entrada de sua casa.

É claro que daí o nome veio, fulgurante: “O Banheiro do Papa”! (Achei o título tão bobo que, por causa dele, quase nem assisti ao filme…) Bem nesse momento Chico atende o telefone, e a pergunta que me sai é: Chico, quem é o diretor de “O banheiro do Papa”?  Sei que ele é fotógrafo, e fez fotografia de um outro filme brasileiro… E Chico não precisou de corda alguma. Imediatamente respondeu: foi de “Cidade de Deus”! É o Charlone, o César Charlone. E lá veio, de brinde, uma linda aula sobre o cinema uruguaio renascido, e comentários sobre “O Banheiro do Papa”… E eu, agradecida: é, sabia que estava consultando a pessoa certa!

A cidade fronteiriça é Melo, e a imprensa anuncia a chegada de 20 mil brasileiros, que podem ser  40 mil, ou 60 mil… E.enquanto todos pensam em confeccionar bandeirolas, fritar pastéis e assar empanadas para vender durante a visita de João Paulo II,  Beto quer faturar em cima dos fiéis que virão de longe de outra maneira: ele vai construir um banheiro na frente de sua casa. E todos contraem empréstimos, se endividam e  vão à luta.

Mas o Papa já havia estado no Brasil, passado em algumas cidades. Os brasileiros que apareceram foram poucos, em apenas um ônibus, vindos de cidade próxima. Sobrou tudo, e o banheiro de Beto (César Trancoso) teve apenas um usuário…

E o filme se encerra com Beto usando seu “magnífico” banheiro, e lá de dentro gritando seu famoso bordão: Tive uma idéia… Cômico, ridículo e comovente ao mesmo tempo, um olhar cheio de afeto pelo povo que jamais entrega a peteca!

(publicada no Anexo do AN, 4/9/2008.p3)

Sem medo da vida

Na adolescência eu era muito “cinemeira”. Lembro claramente da sessão de estréia do Cine São José, em Floripa. Passaram aquela obra linda do Vitório de Sica: Milagre em Milão. Em preto e branco, com aquela estética que apenas os filmes em preto e branco conseguem ter.(Hoje os cinemas estréiam não mais com filme de arte, mas com algum grande sucesso de bilheteria. Sinal inequívoco dos tempos…) Mais tarde assisti a um filme do qual recordo muito pouco, mas cujo título, pela beleza e pelo significado, jamais esqueci: O que a vida nos tira…

E de tanto em tanto, nos balanços pessoais da vida, é necessário que me ponha a contabilizar isso. Aprendi, com o tempo, que se tira muito proveito da vida ao se admitir que ela é o que ela é, e não lhe exigirmos coisas impossíveis. Para isso declamo o poema preferido do Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Alberto Caeiro: “Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo./ E gosto  porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.”

Acredito piamente que, em sua trajetória normal, a vida é aquilo que acho que ela seja - ou, em outras palavras, não há outra forma de alguém encarar os acontecimentos que não seja com a subjetividade de cada um. Vemos com nossos olhos, processamos com nosso conhecimento de vida, e tentamos alguma objetividade, tanta quanto nos seja possível. É óbvio? Sim, é o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Criamos um repertório próprio, uma filosofia e uma psicologia que seja adequada a nós, e tocamos em frente.

E cada dia é um dia…

Há fatos que fogem ao controle, mas há que enfrentá-los. Uma amiga me disse uma vez, ao me ver de baixo astral: não fica triste! E olhei-a meio escandalizada, como se tivesse dito uma grande bobagem,e eu não esperasse isso. O que, aliás,  a meu ver, tinha feito. Apesar de todas as mensagens enviadas pelos livros e gurus de auto-ajuda, não se é feliz o tempo todo. Os nirvanas - exceção feita aos monges budistas, talvez - são momentâneos e esporádicos.

Há coisas que nos deixam tristes, há coisas que nos deixam zangados(as), há coisas que nos causam revolta. Há coisas que nos deixam completamente impotentes, e isso paralisa a gente … por uns tempos. Porque não está morto quem peleia, e somos lutadores. E alegres. Mas não o tempo todo, que não somos doidos nem nada…

Restaurações de dentes caem, o banheiro do vizinho de cima vaza no meu, alguém passa conversando alto pelo corredor,na madrugada e me causa uma insônia zangada… O 13º. salário não é pago na data certa, perdemos ação na justiça - e lá se vai uma parte do salário, uma grana que estamos recebendo há 17 anos… “Não existe direito adquirido”, argumentam… E ficamos muito indignados, mas se o estupro é inevitável, já se sabe. Cortam-se refeições fora, não se compra roupa nova, diminui-se o gasto com livros - só se diminui, porque livro é essencial, e roupa nova não é…

O que sobra do salário dá pra passar o mês, e há os projetos que estão sendo encaminhados, e os dias azuis, bentevis gritando no jardim, a vizinha doceira indo entregar suas caixas para os clientes, sempre animada e ligeira, violetas florescendo na sacada, o cheiro bom da muda de tomilho, e Suzana falando com graça, na crônica desta semana, do sapinho de 2 reais que lhe dei. Há este carinho que se manifesta de maneiras muito diversas, do jeito de cada um, sem que precisem dizer “gosto de ti”, ou “te amo”. E que bom que eu perceba e valorize!

A vida é o que  a vida é, e Oswald de Andrade tinha toda a razão: A alegria é  a prova dos nove.

(Publicada no Anexo do AN. 28/8/2008. p. 3)

Em Brusque

Estive em Brusque a convite da cronista Suzana Mafra, para participar de eventos do aniversário da cidade: Brusque completa 148 anos.Lancei a coletânea de contos O Novo Conto Catarina e dei Oficina de Crônicas. Foi demais de bom.

Minhas passagens por Brusque são sempre relacionadas ao circuito de compras, que é ótimo. Mas minha relação com as cidades se dá em função de pessoas, que é o roteiro turístico que interessa. E, antes de Suzana, os brusquenses que conheci e conheço não moram mais lá.

Fui com carro da prefeitura , que veio buscar a mim e a Inês Mafra, irmã de Suzana, escritora também.Foi viagem muito agradável, um motorista muito simpático, o Tiago. A tarde estava bonita, num dia que tinha amanhecido com chuva, e estava quente, mas não demais. Fomos por dentro, por Tijucas, e quando subimos a serra após São João Batista, a neblina se espalhava bonita pelas encostas. Eram seis horas da tarde, estava escurecendo, e eu ia ficar no Hotel Veneza, no centro, e Inês na casa da mãe dela.

O Hotel Veneza é bom, simples, limpo, quartos bem modernizados, ar condicionado, TV a cabo. E TV a cabo com a maioria dos canais, nada daquele engodo chamado “Pacote para hotel”. Um único defeito: o posto ao lado fica aberto durante a noite, tem loja de conveniências e quando não é o som dos carros a mil decibéis, é papo de bêbados também a todo volume.

Quando fui para o local do evento, a Fundação de Cultura e Biblioteca Municipal, num prédio lindo, Suzana tinha ido em casa se arrumar, e eu não conhecia ninguém. E ninguém me conhecia. Por sorte, Inês chegou logo, e fiquei me sentindo menos desamparada… Havia uma exposição de ilustrações da Márcia Cardeal, mostrando a linha do tempo de sua carreira, gostei demais.

Mas depois foi ótimo. De início me olhavam sobressaltados - professora da UFSC, escritora, cronista do AN - parece que assusta as pessoas. Mas depois que me ouviram falar, me acharam muito simples e simpática (foram dizer isso pra Suzana), adoraram o que eu disse e vieram falar comigo feito um enxame…. Um senhor, casado com uma japonesa de Sampa (eles moraram lá muitos anos, até sua aposentadoria) fez questão de vir apertar minha mão - era a primeira professora da UFSC que ele conhecia.Eu ri: somos mais de dois mil, não é nada difícil encontrar algum por aí… Ele não queria acreditar!

Pela manhã caminhei pelo centro, atravessei a ponte, fiz fotos, fui ao Banco do Brasil. Parei num café da praça, tomei uma média enquanto lia o Santa que tinha comprado na banca em frente .

Ás onze as irmãs Mafra vieram me pegar no hotel e fomos almoçar no Schuma, lá em Guabiruba. O Schuma é abreviação carinhosa de Schumacker, e é restaurante tradicional ali, que serve todo dia uma maravilhoso “mareco com r-epolho r-oxo” (o r sempre como vibrante simples…) O restaurante foi reformado, mas manteve o mesmo formato, muito agradável - o pessoal que atende, também. O almoço é servido quase imediatamente, e a fartura do que vem pra mesa é simplesmente espantosa!AFE! Chegamos com ele vazio, saímos com ele lotado.

A Oficina à tarde (das duas às cinco) foi bem legal, lá num salão do sótão da casa da Fundação - que é linda, repito! Um pessoal pra lá de animado e simpático, todos dispostos a se tornar cronistas, uma atividade que, se não paga bem, ao menos dá muita visibilidade. E, em dando visibilidade, abre caminhos para muita coisa. Agora nos correspondemos por email. Encomendei três crônicas, e o pessoal está enviando. Assim, poderemos escolher as melhores e publicar, com as ilustrações feitas numa oficina dada pela Márcia. Vai ser jóia!

(Saiu no Anexo de 21/8/2008, p. 3. Já tinha feito este relato aqui, mas quis ampliar o alcance, mandando pro jornal. Tive que enxugar bastante, mas, afinal, Suzana e o pessoal de Brusque me receberam tão bem, que merecem!)