Na ilha dos ocasos raros, que a gozação tornava ilha dos acasos rasos, os manés eram apenas aqueles que viviam aí pelo interior da ilha, meio isolados, atrasados, caipiras mesmo. Era termo depreciativo. Foi Aldírio Simões, mané do norte da ilha, quem elevou a palavra a um novo patamar, estendendo-a para todos os que partilhavam dessa mesma herança cultural, aquela do olholhó, tax tolo!
Inserido já numa cidade submetida a contínuas ondas de invasões “alienígenas”, Aldírio buscava revalorizar a cultura local, seus hábitos, seu linguajar, seu jeito de ser. Em crônica que adoro, dizia que mané que é mané só atravessa a ponte pra comprar pneu… É, é mais ou menos isso.
Porque não basta ter nascido aqui pra ser mané. Há novas gerações de florianopolitanos, filhos de gaúchos, cariocas, paulistas, paraenses e outros, que são apenas isso: florianopolitanos de nascença. Não têm o jeito mané de ser, porque isso é aprendido em casa, absorvido, mamado com o leite materno. Não conhecem as histórias que originaram as expressões famosas, não falam manesês, não têm aquele espírito debochado do verdadeiro ilhéu…
E já ando meio cansada de explicar isso, de falar disso, e esta aqui é minha tentativa derradeira de alcançar público maior que nos entenda. Quem me ouvir falando não vai dizer que sou mané. Morei no Rio aos 13 e 14 anos, morei mais 12 anos no interior de Sum Paulo - onde aprendi a falar com maior lentidão - e não falo mais manesês; não naturalmente, ao menos. E quase 30 anos de professora universitária alteram o registro de qualquer um.
Tem gente que jura que sou paulista, porque de fato o paulistês tem forte influência no meu jeito de falar. E digo sempre que me sinto feito mestiço de filme faroeste americano: não sou branca nem sou índia, sabem como é? Mané não me percebe mané, paulista logo vê que não sou de lá. Lingüisticamente não sou nada.
Mas mantenho o jeito mané de ser. E gosto dele. Mas é difícil quem é de fora entender.
Amiga brasiliense comentava, meio escandalizada, que achava o jeito do pessoal daqui meio duro de engolir. E contava que no ônibus, vindo do Campeche pro centro, o cara que estava do lado dela abre a janela e grita pra alguém da calçada: “ei, ixtepô! Teu time é uma naba, heim? Já víssi o horror que foi o jogo de ontônti? Também, né, nego? Com torcedor que nem tu…” E daí se encostou no banco e riu, deliciado.
Ouvi a história e também ri, deliciada. Eles se gostam, eu disse, pra espanto dela. Mané só goza de quem gosta. E isso é que os aliens não entendem. Se a gente não gosta de alguém,é gentil, mas não “intica” com ele. É maneira delicada de ignorar.
Na fila da lanchonete, o dono, atendendo no caixa, me vê, e diz: lá vem a baixinha me incomodar! Mandem ela embora! Os outros fregueses olham pra mim chocados, e estou rindo: pára de encher o saco, cara! Quem freqüenta essa lanchonete de quinta categoria merece respeito!
É uma declaração de amor, a gente se ama. O que há de complicado nisso? Isso é troca de afagos, entendam, por favor!
Zeca Pires me apresenta seu filho, o Aníbal, que tem o mesmo nome de seu avô, meu querido professor em Letras. E meu comentário, bem típico, é: Tens certeza de que é teu filho? Ele é tão bonitinho! O Zeca riu, bom mané que é, entendendo o espírito, mas quem estava conosco na mesa me pediu pra reformular a fala.
Ah, tou cansada de ter que reformular a fala. Façam o favor: falo paulistês, mas sou mané. Quem não entender o espírito, que vá morar noutro lugar! E mofe com a pomba na balaia!
(publicada no Anexo do AN, 2/10/2008).
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