O Aurélio define civilidade como “conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos em sinal de respeito mútuo e consideração.” (p.333)
Esta semana houve dois episódios que me deixaram bem indignada. No primeiro, me contive; no segundo, perdi a paciência, mas dentro de certos limites. Me permiti protestar, sabendo que depois iria pesar, só que não queria mais uma vez levar a indignação a me bater no estômago…
O primeiro causo: entrei no mercadinho, como sempre brincando com as galegas e os meninos que trabalham lá, todos uns amores. Fui escolher geléia dietética, queria a de uva, e estava lá embaixo, pelo fundo. Tirei as de cima, peguei a que queria, pus as outras por cima. E uma delas escorregou e plaft!, se espatifou no chão. Ainda brinquei: ai, meninas, fiz um desastre.
E uma histérica que passava a meu lado se pôs a dizer, na maior angústia: não fui eu! não fui eu! Fiquei muito puta! O que estava achando, a retardada? Que eu iria culpá-la? Chamei em voz alta, mas calma: Diego, anota aí, quem quebrou a geléia foi Dona Regina. E ainda repeti o “mea culpa” no caixa. Mas me senti mal, porque fiquei pensando no tipo de vida que pode ter alguém tão completamente encagaçado ( o termo é esse, em bom português), que ao menor imprevisto entra em estado de histeria completa… Afe maria, não queria estar no lugar dela, seria melhor morrer, fora de brincadeira…
O segundo causo: a agência do Banco do Brasil aqui do lado tem sete caixas ali na frente. Os dois primeiros são pra depósito, o seguinte pra cheques. Os outros todos pra saques. Vou quase sempre perto das oito, porque não há quase movimento. Caso não haja ninguém, me encaminho pro último caixa, pra não atrapalhar ninguém, principalmente os cobradores da Transol, que vão pegar notas de 2,00 e 5,00. E hoje fui lá não para sacar, como de hábito, mas para depositar um cheque em minha conta.
Preenchi o envelope, lacrei, e fui pro caixa adequado. Em ambos, alguém pagando contas. No primeiro, um rapaz; no outro, uma moça… Os outros caixas todos desocupados. Me encostei na pilastra, me dispondo a esperar. Notei que o rapaz tinha vários boletos na mão; a mulher, não. Mas ela meteu a mão na bolsa, e tirou várias contas amarelinhas da Celesc. Pensei: ou essa mulher não paga a luz há meses (mas não, não pode ser, não se pode pagar conta vencida assim desse jeito) ou paga as contas da família toda.
Daí me indignei. Mas tentei segurar. Não ia calar a boca, não, pois era um abuso. Falei: escutem, meus amores, vocês notaram que estão monopolizando os únicos caixas pra depósito com seus pagamentos, quando há mais cinco deles desocupados?
Pois a mulher virou bicho! Respondeu, na maior grosseria: não havia ninguém quando entrei aqui,e a senhora fica tendo chiliques! E eu : não estou tendo chiliques, moça. Estou fazendo uma reclamação justa.
O rapaz: poderia ter pedido com educação! Ora, eu pedi com educação, moço.O mínimo que se pode esperar dos outros, aqui, é um pouco de civilidade… e de inteligência. Mas ele encerrou sua parte ali, e mudou de caixa, mesmo que de cara feia.
Ora, a mulher estava estressada por estar fazendo aquilo, até entendo. Mas vir com a desculpa de que não havia ninguém só mostra um tipo habitual de comportamento de quem não pensa no que faz… nem se preocupa com os outros. Ali é comum que não haja ninguém num primeiro momento, e dali a um minuto há fila… E toda aquela estupidez só mostra a arma habitual de quem se defende aos coices quando se vê apanhado em falta, principalmente quando não tem razão. Eu não tinha sido grosseira, ela estava sendo. E eu não poderia ter chiliques com ela, mas ela poderia perfeitamente ser estúpida comigo do jeito como foi, mesmo eu sendo a idosa que sou…
E tem um aspecto que me assusta, nessa história toda, que é observar que os jovens são cada vez mais mal-educados. E, para piorar, as mulheres são, muitas vezes, bem mais grosseiras que os homens… Depois voltei chateada pra casa, pensando que havia gastado o termo civilidade com eles, que obviamente não sabem o que é… nem irão ao dicionário procurar.
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