Archive for the 'Livros' Category

Um lugar entre os vivos

Ernest Ripper (lê-se à francesa, mas a escolha do nome é proposital) é escritor fracassado, mora em Paris, tem amante provinciana e tola, adepta de calcinhas fio-dental que lhe causam alergia (a ela), e vive (mal!) traduzindo e adaptando para o leitor francês romances água com açúcar para uma editora chamada, sintomaticamente, Romance.

Há um serial-killer assombrando Paris, justamente nas cercanias de onde ele mora, e Ernest continua na angústia de sonhar com sua obra-prima… e traduzir as babaquices dos romancinhos de amor. Foi abandonado pela amante anterior, sua editora, Maryse, que não tolerava mais nem sua passividade diante da vida, nem sua falta de talento.

Um dia ele é procurado por um homem estranho, sem nenhuma característica particular (não, não era Macunaíma) que o leva a um restaurante caro, paga-lhe refeição fina, bebidas mais ainda e lhe faz uma confissão e uma proposta: ele, Joseph, é o último dos Arcimboldos (o Autor adora brincar com os nomes, pelo jeito…) e é o serial-killer. E deseja que Ernest seja seu ghost writer, e conte sua história, já que tinha tentado fazê-lo, sem conseguir.

Joseph põe sobre a mesa um envelope grande do qual retira 30.000 francos, e na pendura desgraçada em que se encontra, Ernest não resiste. Joseph deixa-lhe algumas anotações que fizera, conta-lhe alguns fatos de sua vida, e combinam se encontrar regularmente, para pagamento e leitura do que está sendo feito.

É claro que a vida de Ripper muda radicalmente, embora de forma lenta, e a narrativa se encaminhe para fatos que nos surpreendem a cada momento, pela mudança constante do foco narrativo. Mas pela originalidade da proposta, só poderia - ainda mais que se aproveita o gênero policial de forma up-to-date: em narrativa metalingüística.

O autor é Jean-Pierre Gattégno, nascido em 1944, filho de pai turco e mãe grega. É um dos poucos autores que conheço com formação na área de Letras. Já teve três policiais anteriores publicados no Brasil: A noite do professor, Neutralidade suspeita e Transferência mortal (que, aliás, vira autotexto num dado momento…)

Um lugar entre os vivos é tradução literal do título francês, Une place parmi les vivants.

SERVIÇO:

TÍTULO: Um lugar entre os vivos

AUTOR: Jean-Pierre Gattégno

TRADUÇÃO: André Viana e Antônio Carlos Viana

EDITORA: Companhia das Letras

PREÇO: R$42,50, no site da própria editora.

A Ilha dos Cães

”A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, dizem os famosos versos de Maneca Bandeira em Pneumotórax. E quem já se furtou de imaginar o que poderia ter sido, o que teria sido se?… Sabe-se que é bobagem, mas acaba se fazendo. É uma espécie de autopunição, muitas vezes, mas para um ficcionista pode e deve ser um prato cheio com o qual ele se regala. E isso me faz lembrar um livro americano que li, e ensina a escrever um romance, cujo exercício principal é “And what, if?…” (= “e o que seria, se?…”)

Em A Ilha dos Cães (Bertrand, 2005. R$27,00), Rodrigo Schwarcz faz este exercício, mas sem os intimismos que minha introdução aqui talvez faça pensar. O Autor aplica - mesmo sem o saber - o “and what, if…” à História oficial. E é um belo exemplo do que pode ser feito com ela… e com suas infinitas possibilidades.

Richard Burton (não o ator, mas o aventureiro e embaixador da Inglaterra no Brasil) sofre um naufrágio. Ele e um cego são os únicos sobreviventes, e vão parar numa ilha deserta, na qual, depois de bastante tempo, encontram uma cabana. Na cabana, papel, tinta, pena … e Burton se põe a escrever/reescrever a História. Como qualquer um que escreve, escreve sem saber se aquilo que está fazendo vai ter futuro, se vai ser lido por mais alguém - e seu único companheiro é um cego, alguém fisicamente inabilitado a ser leitor…

Mais do que um romance agradável de se ler, divertidíssimo nesse exercício do “and what, if?…” temperado por muita ironia, encontro uma preciosa alegoria sobre a escritura, alegoria esta que fez minhas delícias de leitora. Gosto de livros inteligentes, mas não herméticos; gosto ainda mais dos que surpreendem a cada momento. ODEIO enredos previsíveis, os romances em que na página 30 já se sabe como vão terminar…

Rodrigo Schwarcz é de Joinville, onde nasceu em 1976, e é jornalista, escrevendo no Anexo do AN. É jovem, e está apenas começando: antes deste romance tinha alguns contos publicados. Optar pelo romance já mostra que é audacioso - não é qualquer um que se arrisca pelos caminhos permeados de sombras e abismos da narrativa longa. No momento trabalha nos originais de seu segundo romance, do qual se recusa terminantemente a falar. Não tem importância: esperaremos, podes crer.