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Estação Melodia

Tinha show do Luís Melodia no teatro Ademir Rosa, no CIC. Tadeu não quis ir, fui com Sabrina, “fazer programa de menina”, segundo seu gentil namorado… Mas ele vai ficar arrependido por ser tão CDF com seus horários: tava demais de bom!

O show tem o objetivo de divulgar seu novo CD, que se chama justamente Estação Melodia. Nele, o cantor e compositor carioca grava sambas da velha guarda: Jamelão, Geraldo Pereira, Cartola, Zé Kéti, Osvaldo Melodia, seu pai… Seus mesmos, no show ele canta “Estácio, Holly Estácio”, em lindo arranjo, e uma outra cujo nome esqueci. Mas Sabrina me pergunta: essa eu conheço, de quem é?” (é que daquelas “velharadas” todas ela não conhecia nada… ) Tive que rir, né? “É dele…” Ele parece estar em fase daquilo que Chico Buarque batizou ” de brochice”. Espero que passe. Enquanto não passa, vai se alimentando da fonte inesgotável de nossos compositores populares.

Melodia, carioca nascido e criado no Morro de São Carlos, como Gonzaguinha, homenageia seu povo cantando “Gente Humilde”, em interpretação comovente. Lindo, lindo!   E de Geraldo Pereira cantou “A cabritada”, bem crônica carioca, divertida… À tarde, hoje, não sei por qual razão, fui lavar  a louça do café cantando “O negrinho gostou da filha da madame/ que nós tratamos de Sinhá/ Senhorita também gostou do negrinho/ mas o negrinho não tem dinheiro pra gastar…”  E quando ele canta justo isso, do Noite Ilustrada, fiquei faceira, com a coincidência.

O público em Floripa é receptivo e quente. Bate palmas, grita, assobia, até ele voltar pro bis. E ele volta bem: Jorge Veiga, “eu sou o samba/ a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor/ Eu sou o rei dos terreiros…” E o final foi uma apoteose, fantástico: evoluções dele com os músicos pelo palco, mostrando samba no pé. Quando acabou “A Voz do Morro”, saiu ” O Bafo da Onça” e nós de pé, sacudindo e cantando junto.

Dessas noites de deixar a gente de alma lavada, e que fazem um bem danado.  Que venham outras… Cantando, na espera: “se alguém quer matar-me de amor/ que me mate no Estácio…” Que conduz a Noel: “Já fui convidada/ para ser estrela do nosso cinema/ ser estrela é bem fácil/ sair do Estácio é que é/ o X do problema…” E viva esse crioulo lindo que é Luís Melodia!

Sessão Nostalgia: Bossa Nova

Não me lembro, como os compositores todos da minha geração o fazem, do dia em que, pela primeira vez, ouvi João Gilberto cantando (e tocando, principalmente tocando!) o “Chega de saudade”. Não houve nenhum terremoto na minha vida, não tomei outro rumo em gosto musical, nem nada. Mas adorava as suas canções, e continuo adorando - tanto João Gilberto como a bossa nova Até as que vieram depois, baseadas nela, releituras meio fusion. Todas coisa danada de boa.

E todos sabem da minha ojeriza pelo jornal A Folha de São Paulo, por razões que vivo repetindo, e não agüento mais falar. Mas as coleções de CD da Folha são imperdíveis. Ontem, aqui em Floripa, chegou a de Bossa Nova, em comemoração aos seus 50 aninhos (tudo isso, Dio! O tempo voa!). São dois Cds pelo preço de um, oferta de lançamento (13,90). E começa bem: Tom Jobim (nosso Tomzinho, né, Daniele?) e Dick Farney. Os textos que acompanham são do Ruy Castro, grande autoridade no assunto e, como se não bastasse, ainda dono de uma escrita muito gostosa.

Passei o domingo ouvindo Dick Farney, sua correta postura musical de crooner perfeccionista e sua voz suave e doce. Que saudades! Há muito não o ouvia, e foi um prazer imenso. Do Cd constam Copacabana, Tereza da praia, Inútil paisagem (coimaxlinda!), Uma loura, Sábado em Copacabana, Aeromoça, Não tem solução, Chuva, Fotografia (adoro! Mas é Tom, né? Não tem como não gostar… E ainda tem Claudette Soares junto), Marina, Ponto Final, Nick Bar, O que é Amar e Apelo. Foi um domingo de frio e chuva com solaço musical dentro de casa. Di-lí-cia!

Hoje - ainda no frio e na chuva - é dia de Tom. Tom é eterno, tenho quase tudo dele, e confesso que meu prazer maior é ouvi-lo cantando. Não é grande cantor, já se sabe, mas é ELE… E a seleção está ótima: Chega de saudade, Sabiá, Samba do avião, Garota de Ipanema, Retrato em branco e preto, Eu não existo sem você (eu também não, Tom!), Águas de março (o samba mais bonito do mundo, garante o Nestrovski), Por causa de você, Inútil paisagem (traveis, coisa boa!), Samba de uma nota só, Wave (instrumental), Se todos fossem iguais a você, Lígia. Exigente, sinto falta de Dindi e Boto, que adoro. Mas fazer o quê, né? O que está aí tá bom demais.

Muitas das canções têm suas histórias, que os tarados por MPB, feito eu, conhecem. “Por causa de você”, por exemplo, foi dada pra Vinicius fazer a letra. Uma noite Dolores Duran ouviu-a tocada, se apaixonou, pegou seu lápis de sobrancelha, e fez a letra. E deixou bilhete pra Vinicus: outra letra é covardia! Cavalheiro, o poetinha amado abriu mão de usar a sua… E a letra é esse desbunde: Ah, você está vendo só/ do jeito que eu fiquei/ e que tudo ficou… (e aqui a impecável intérprete é Paula Morelenbaum).

Sabiá, uma irretocável obra-prima, releitura da Canção do Exílio, foi vaiada num Festival, e no entanto permanece. A outra, Caminhando ou Pra não dizer que não falei de flores, engajada, e por isso datada, ainda é cantada em passeatas, mas envelheceu, inclusive melodicamente. É bonita, mas não tem aquele fator de eternidade que Tom conseguia com o pé nas costas. A canção do Vandré tirou primeiro lugar junto com Sabiá, por exigência dos compositores, principalmente Chico, que se recusaria a receber o prêmio se assim não fosse. Mas nos DVDs da coleção do Chico, a perplexidade dos dois (e o mal-estar) é visível, diante daquela vaia interminável e injusta. Uma estudantada, na verdade… Virou história.

Na opinião da maioria dos críticos, a melhor gravação já feita de Lígia é a do Lúcio Alves. Aqui é usada é a gravação feita pelo próprio Tom - e Lígia é canção tão linda, a letra tão fantástica, que nada consegue estragar, nem a dificuldade do Tomzinho em sustentar algumas notas…

Vou me lembrando disso tudo, ao ouvi-las, e me lembro da maravilha que é, ainda nos DVDs do Chico, aquele aniversário do Tom em que todo mundo canta Se todos fossem iguais a você, e Tom, ao piano, se comove às lágrimas. Lindo, lindo! Pois é isso: se todos fossem iguais a você, que maravilha viver!