Archive for the 'Outras leituras' Category

Assim caminha a humanidade…

Leio a crônica desta semana do amigo Amilcar Neves - grande cronista, grande contista - e compartilho sua indignação toda, naquilo contra o quê protesta. Desta vez, o impedimento da circulação de mais um livro, circulação liberada em primeira instância.

Houve um caso parecido com Amilcar e Chico Pereira e sua peça de teatro sobre Eduardo Dias, processo altamente injusto. E a reflexão sobre tais casos me leva a fazer considerações sobre isso. Já as compartilhei com Amilcar e agora, desenvolvendo melhor, divido com vocês.

A história me fez lembrar de outros casos, especialmente o da biografia de Roberto Carlos feita por Paulo Cesar Araujo. E a indignação se faz muito forte, por constatar que quem entra com a ação não o faz, embora a alegação seja a habitual, calúnia e difamação, não por esta razão, na verdade. E sim para impedir que ações de fato realizadas venham a conhecimento público… Ora, publicar verdades não é incorrer em calúnia nem em difamação: é publicizar informações corretas, nada mais que isso.

O que me choca, na questão, é o fato de as pessoas envolvidas terem feito aquilo que é narrado, mas não admitirem sua divulgação. Quer dizer: desde que se mantenham os segredos, pode-se cometer todo e qualquer ato anti-ético, imoral, transgressor, sórdido… Falar dele, porém, é inimaginável - isso é que é imoral, parece.

“Assim caminha a humanidade” é bordão de amigo ligado a cinema. Pois é assim que caminha a humanidade: na mesma e batida trilha, sem alterar substancialmente seu comportamento. De Petrônio e seu Satiricon, rien a changé. Meu avô jornalista costumava repetir velho provérbio francês: plus ça change, plus c’est la même chose… Pior que tá certo!Ou, pra citar João Bosco, sempre com suas canções navegando pela casa: já vi este filme/ já vi o desenho/ já vi este treiler/ que saco!/ eu morro no fim!

Um jornal que é Rascunho

O pessoal do Paraná elogia muito, na hora tu até te interessas, mas dali a pouco esqueces. E há sempre tanta coisa pra ler e pra comprar, em termos de leitura, que dás de ombros e deixas pra lá. A isso se deve somar um certo tédio causado por anos de leitura obrigatória e continuada de todo e qualquer tipo de periódico, e vai-se compreender perfeitamente minha relutância…

Mas Ben-Hur não deixou passar, e me empurrou uma assinatura do jornal Rascunho goela abaixo. Deixou alguns exemplares aqui, levou meu endereço e email pra eles, não tive mais desculpas: assinei (pelo menos é mensal, a assinatura não é cara…) Recebi o primeiro exemplar “ontônti”, e é jornal, sacumé? Tamanho, cheiro, obrigação de dobrar pra poder ler ou de abrir bem os braços, tudo que um jornal DE VERDADE deve ter… Uma delícia. Pus na bolsa, pra ir lendo pelaí, nas esperas, no ponto de ônibus (mesmo correndo o risco de nem ver o ônibus passar…), nas mesas de café.

Faço leitura seletiva. Não leio, por exemplo, resenhas sobre livros que pretendo ler , mas ainda não pude fazê-lo, para que não dirijam minha opinião. Deixo pra ler depois. Mas leio os ensaios e a opinião sobre o que já li - aprofunda, sedimenta. Às vezes concordo, às vezes discordo, mas isso faz parte. E - lamento, Ben-Hur! - pulo o caderno dos textos literários. O livro é que é o lugar deles, acho horrível um conto grande num jornal, aquele tijolaço, mesmo com ilustração… Poema ainda dá, mas prosa de ficção, num güento. Mesmo que o título do caderno seja Dom Casmurro, e seu símbolo seja lindo sapo, hehehe…

Acabo de receber o número de maio, e devo agradecer a insistência do menino que veio de Ponta Grossa, PR: ex-aluno é cultura, ajuda bastante, mesmo os cronistas peripatéticos…

Rascunho é bem diagramado, e as pautas são variadas. Este número, por exemplo, tem boa entrevista com o jornalista Fernando Molica - que lança seu terceiro livro de ficção. E a entrevista com Antônio Carlos Viana, escritor sergipano e professor preocupado em trazer os alunos para o mundo da leitura, tarefa compartilhada por mim, e encarada do mesmo jeito, me fez um bem danado.Tem ótimo ensaio sobre poesia , do Pedro Lira, especialista na área. Discordo dele num monte de coisas, mas é muito bom ler - sedimentam-se opiniões antigas, aprendem-se algumas coisas novas, revêem-se teorias e conceitos.

E há aqueles montes de resenhas, e eu pulando as que são sobre livros que ainda não li… O Paulo Krauss, de Curitiba, fala do último livro do Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado. Paulo não gostou muito do livro, embora ache que não desmerece a obra do Hatoum. Pois eu AMEI o livro, achei danado de bom, especialmente o emprego que faz dos mitos da região amazônica, explícita e implicitamente. Considero as críticas que Paulo faz ao livro como críticas de alguém cujo viés de leitura passa mais pelo jornalismo do que pela literatura… Mas já concordo plenamente com ele, quando considera que a obra-prima do escritor amazonense é Dois Irmãos. E Paulo Krauss fecha com muita graça esse texto:

Órfãos do Eldorado é um bom livro de um bom autor. O mito de melhor escritor brasileiro, no entanto, cabe sempre na piada de Cristovão Tezza, que diz não ser nem o melhor escritor de seu bairro, onde também mora Dalton Trevisan.” (no. 97, C1, p. 6)

Memórias de Aprendizagem

(pro Ítalo)

Sempre fui leitora, leitora voraz, mas sem direção nem disciplina, lendo o que me caísse nas mãos… Quase não havia livros na casa, e isso é, portanto, explicável. Lia Tarzan tanto em livros (presentes de papai, que os mandava do Rio), como em quadrinhos. Ouvia recriminações da família de não-leitores, pelos quadrinhos, e posso rir: aqueles Tarzan eram lindos, em preto e branco, e viraram Artes Gráficas…Os parentes, ao reclamar, apenas repetiam clichês, não sabiam nada dessas coisas.

O livro que melhores lembranças me traz, até hoje, foi presente também de meu pai. Ele lia muito em inglês, e uma vez me mandou livrinho infantil chamado Noah’s ark. Colorido, lindamente ilustrado, mas, mais que isso, na capa estava colado plástico com sulcos - um disco - e podia-se pôr na vitrola e ouvir a canção do livro. Uma canção alegre, da qual faziam parte as vozes dos animais que estavam embarcando na arca. Inesquecível!

Acho que este foi a única concessão de papai à infância da filha. Os outros livros todos eram de seu próprio gosto, e tinham feito a delícia de sua infância. Li, assim, quase toda a famosa coleção Terramarear e, como ele, adorava o Capitão Blood, “El Capitán Sangre”… De tanto ler os romances de Tarzan, sabia de cor a linguagem dos grandes macacos e, além de encher o quintal com os gritos de kreegah-bandolo (será que é assim?) ainda escrevia historinhas usando a língua deles, o vocabulário anotado todinho num caderno.

Quando fui morar com o pai, depois do desquite deles, a vida virou um paraíso: 8000 volumes nas estantes pela casa, a escolha não muito livre, pois vovô controlava, mas ainda assim muita coisa pra ler. Em francês, em espanhol, em inglês, em italiano…Eu tinha uns 13 anos quando o “Velho” (era como chamávamos o vô Tito Carvalho, jamais chamei meu pai assim, pois ele era um meninão…) me apresentou Lima Barreto: um dos maiores escritores do Brasil, disse. Li tudo dele, menos M.J.Gonzaga de Sá. E isso ocasionou minha grande decepção com a academia quando, em aula de Literatura Brasileira, o professor de Contemporânea comentou que estava-se “resgatando” (a academia adora certas palavras!) um escritor que tinha sido esquecido, seu Afonso Henriques de Lima Barreto… E o fato me fez bem: passei a aprender o que a Teoria Literária tinha pra me ensinar, mas a julgar por meus próprios parâmetros, a pensar por minha própria cabeça.

Na graduação se lê muito: poesia, prosa, teóricos, filosofia, às vezes sociologia. E é tanta leitura encadeada, é tanta juventude e inexperiência em nós, que não há tempo nem maturidade para se extrair daquilo tudo muito do que se poderia extrair. Mal não faz, porém, este primeiro contato. Houve um semestre, mais recentemente, em que precisei substituir Nilson Lage numa turma de Redação VI, e os seminários de leitura acabaram ficando por minha conta. Minhas listas de leitura costumam ser atuais, mas as do Nilson eram de clássicos: Os Sertões, Cândido, O Príncipe, Utopia, México Rebelde… Tive que reler todos, e fiz isso resmungando. Pois foi um deslumbramento! Uma leitura feita trinta anos antes, cotejada com uma de trinta anos depois - e Nilson e eu nos encostamos na parede do corredor, a tecer elogios rasgadíssimos a Thomas More e sua Utopia… Com a clareza de que o livro foi escrito com os conhecimentos de sua época, mas com um brilho e uma genialidade não mais encontráveis por aí…E a lamentar o não-transporte da experiência acumulada para os primeiros tempos. Dá pra entender Nelson Rodrigues: Jovens, envelhecei!

Porque esta é a grande lição: para se ler um livro deve-se também ler o mundo, como diz Paulo Freire; e à medida que se aprende de um se aprende de outro. E é a experiência de vida que enriquece a interpretação da obra escrita, e é a interpretação da obra escrita que enriquece a experiência de vida… Vai-se vivendo. Aprendendo… e lendo. Lendo livros, lendo filmes, lendo canções em sua linguagem mista, lendo situações, lendo pessoas. Deixando que a experiência dos outros enriqueça a minha… e que a minha enriqueça a dos outros. Mas com respeito ao universo de cada um.