(pro Ítalo)
Sempre fui leitora, leitora voraz, mas sem direção nem disciplina, lendo o que me caísse nas mãos… Quase não havia livros na casa, e isso é, portanto, explicável. Lia Tarzan tanto em livros (presentes de papai, que os mandava do Rio), como em quadrinhos. Ouvia recriminações da família de não-leitores, pelos quadrinhos, e posso rir: aqueles Tarzan eram lindos, em preto e branco, e viraram Artes Gráficas…Os parentes, ao reclamar, apenas repetiam clichês, não sabiam nada dessas coisas.
O livro que melhores lembranças me traz, até hoje, foi presente também de meu pai. Ele lia muito em inglês, e uma vez me mandou livrinho infantil chamado Noah’s ark. Colorido, lindamente ilustrado, mas, mais que isso, na capa estava colado plástico com sulcos - um disco - e podia-se pôr na vitrola e ouvir a canção do livro. Uma canção alegre, da qual faziam parte as vozes dos animais que estavam embarcando na arca. Inesquecível!
Acho que este foi a única concessão de papai à infância da filha. Os outros livros todos eram de seu próprio gosto, e tinham feito a delícia de sua infância. Li, assim, quase toda a famosa coleção Terramarear e, como ele, adorava o Capitão Blood, “El Capitán Sangre”… De tanto ler os romances de Tarzan, sabia de cor a linguagem dos grandes macacos e, além de encher o quintal com os gritos de kreegah-bandolo (será que é assim?) ainda escrevia historinhas usando a língua deles, o vocabulário anotado todinho num caderno.
Quando fui morar com o pai, depois do desquite deles, a vida virou um paraíso: 8000 volumes nas estantes pela casa, a escolha não muito livre, pois vovô controlava, mas ainda assim muita coisa pra ler. Em francês, em espanhol, em inglês, em italiano…Eu tinha uns 13 anos quando o “Velho” (era como chamávamos o vô Tito Carvalho, jamais chamei meu pai assim, pois ele era um meninão…) me apresentou Lima Barreto: um dos maiores escritores do Brasil, disse. Li tudo dele, menos M.J.Gonzaga de Sá. E isso ocasionou minha grande decepção com a academia quando, em aula de Literatura Brasileira, o professor de Contemporânea comentou que estava-se “resgatando” (a academia adora certas palavras!) um escritor que tinha sido esquecido, seu Afonso Henriques de Lima Barreto… E o fato me fez bem: passei a aprender o que a Teoria Literária tinha pra me ensinar, mas a julgar por meus próprios parâmetros, a pensar por minha própria cabeça.
Na graduação se lê muito: poesia, prosa, teóricos, filosofia, às vezes sociologia. E é tanta leitura encadeada, é tanta juventude e inexperiência em nós, que não há tempo nem maturidade para se extrair daquilo tudo muito do que se poderia extrair. Mal não faz, porém, este primeiro contato. Houve um semestre, mais recentemente, em que precisei substituir Nilson Lage numa turma de Redação VI, e os seminários de leitura acabaram ficando por minha conta. Minhas listas de leitura costumam ser atuais, mas as do Nilson eram de clássicos: Os Sertões, Cândido, O Príncipe, Utopia, México Rebelde… Tive que reler todos, e fiz isso resmungando. Pois foi um deslumbramento! Uma leitura feita trinta anos antes, cotejada com uma de trinta anos depois - e Nilson e eu nos encostamos na parede do corredor, a tecer elogios rasgadíssimos a Thomas More e sua Utopia… Com a clareza de que o livro foi escrito com os conhecimentos de sua época, mas com um brilho e uma genialidade não mais encontráveis por aí…E a lamentar o não-transporte da experiência acumulada para os primeiros tempos. Dá pra entender Nelson Rodrigues: Jovens, envelhecei!
Porque esta é a grande lição: para se ler um livro deve-se também ler o mundo, como diz Paulo Freire; e à medida que se aprende de um se aprende de outro. E é a experiência de vida que enriquece a interpretação da obra escrita, e é a interpretação da obra escrita que enriquece a experiência de vida… Vai-se vivendo. Aprendendo… e lendo. Lendo livros, lendo filmes, lendo canções em sua linguagem mista, lendo situações, lendo pessoas. Deixando que a experiência dos outros enriqueça a minha… e que a minha enriqueça a dos outros. Mas com respeito ao universo de cada um.
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