Eis aí a estréia do grande amigo Cristóvão Tezza na crônica paranaense, crônica que peguei da Gazeta do Povo de ontem:
Antigamente a desgraça das crianças na escola eram os gibis. Coisa pesada, só péssimos exemplos: o Tio Patinhas, aquela figura mesquinha, de um egoísmo atroz, interesseiro e aproveitador, explorador de parentes; o histérico Pato Donald, um eterno fracassado a infernizar os sobrinhos; Mickey, um sujeitinho chato, namorado da também chatíssima Minnie; Pateta, um bobalhão sem graça. O estranho é que não havia propriamente “família” – só tios e tias misteriosos, todos sem pai nem mãe. Walt Disney, esse complexo mundo freudiano, sob um certo ângulo, ou esse paladino do imperialismo capitalista, sob outro, foi a minha iniciação nas letras.
O tempo passou, os marginais de Disney substituíram-se pelos integrados Cebolinha e seus amigos, todos vivendo pacificamente vidas normais, engraçadas e tranqüilas em casas com quintal – e o vilão da escola passou a ser a televisão. Foram duas décadas, a partir dos anos 70, agora sim, ágrafas. Com a conivência disfarçada de pais e mães (um alívio!) as crianças passavam horas diante da telinha. Estudar que é bom, nada – é o que diziam. Acompanhei essa viagem desde a TV Paraná, canal 6, com transmissões ao vivo (não havia video-tape) no estúdio da José Loureiro. Eu colecionava a revista “TV Programas”, assistia ao seriado Bat Masterson e aguardava ansioso a chegada de Chico Anysio, todas as quartas. Depois vieram a TV em cores, as redes nacionais, o barateamente do mundo eletrônico e a famigerada telinha passou a ser o próprio agente civilizador do país – boa parte do Brasil via uma torneira pela primeira vez no cenário de uma novela das oito.
E agora, com a internet, a palavra escrita voltou inesperada ao palco de uma forma onipresente. Não há uma página na internet sem uma palavra escrita; não há um só dia em que não se escreva muito no monitor, e não se leia outro tanto. Os velhos diários dos adolescentes de antanho voltaram em forma de blogues – a intimidade trancada na gaveta de ontem agora se escancara para o mundo. E com ela, a maldição: ora já se viu – em vez de estudar, dá-lhe orkut! O Tio Patinhas era melhor? Não sei dizer, mas acho que há vilões muito mais graves que a internet. E sou suspeito: também fiquei fascinado pela novidade. É verdade que nunca me converti aos blogues, que sugam tempo e precisam ser alimentados todo dia, como gatos e cachorros. Mas cá estou eu, enfim, blogueiro à manivela, inaugurando minha vida de cronista.
Cristovão Tezza é escritor.
Eu mesma:
invejei este título, pô!
É uma grande analogia, que só poderia mesmo sair da cabeça privilegiada do Tezza!
bj
O Tezza mandou bem!
Traz uma reflexão muito importante e própria para os dias que vivemos.
E podemos nos reportar a um post anterior seu, e a comentários que já fizemos, sobre a idéia (boa, cremos nós) de trabalhar com a leitura e a produção escrita dos alunos a partir dos blogs.
Concordo com o Tezza nessa de que há males em se utilizar a net somente para orkuts e afins. Mas há também bens que podem ser conquistados, e o blog (quando existente visando à leitura, à escrita, e não a bobagens sem fim), é um dos exemplos.
Tô devendo a mim mesmo ainda não ter lido o Tezza. Gostaria também de conhecê-lo
beijão,
Í.ta**
Ítalo:
o Cristóvão é amigo de mais de vinte anos, e gosto demais dele.E da família toda, todos seres especiais além da conta!
Vais ler na marra: vou te levar O FILHO ETERNO de presente!
Mereces!
beijão.
hahahaha!!!
tá bom, então! Vai ser na marra mesmo! Mas será com muuuuuito gosto
beijão
Ainda bem que tens espírito esportivo!
bj,
Regina
Muito boa, mas poderia estender-se um pouco mais.
Não: não poderia, não: há um limite em caracteres, como 3600 é o que tenho no AN. Agora já estou exímia em deixá-las mais “redondinhas” para o espaço que tenho, mas no início a gente apanha um pouco.
A dele está bem acabada, bem redonda, mesmo. Li uma de suas primeiras tentativas em crônicas, anos atrás, encomenda para jornal de Lages, sua cidade natal, e era pesada, ele achava que não iria conseguir fugir da linguagem do romance. Pois está conseguindo, sim, e lindamente.
Vivendo e aprendendo a jogar… e a cronicar.Não é tão fácil como parece pro leitor. Escrever crônica e ainda ter uma marca, num gênero enganosamente “leve”.
bj.
É que fiquei curiosa em saber mais sobre a opinião dele sobre o assunto. Talvez aí a crônica seria substituída por um estudo, sei lá. Sei que fiz “AAAAAAh, que pena que acabou” quando veio o último ponto final.
Também senti isso, Cris. Talvez pelo fato do assunto permitir esse alongamento que esperávamos.
E concordo com a Rê, no que diz respeito ao limite de espaço, e ao saber utilizá-los. Creio que tal tema poderia também ser escrito, não necessariamente pelo Tezza, em forma de artigo. Aí, sim, haveria possibilidade de estendê-lo e de abranger outras perspectivas ao mesmo.
beijos,
Í.ta**
Até entendo teu interesse: ele é bom articulista, e entende um bocado do assunto que queres. Mas daí fugiria ao gênero…
Ele me dizia, na terça, que anda até meio assustado - e muito surpreso - com a grande repercussão da crônica.Por maior que seja o sucesso de um romance, não se tem tantos leitores assim, nem os leitores se sentem muito à vontade pra comentar.E as crônicas obtêm de fato muito retorno.
Pra teres uma idéia, minha crônica de hoje mereceu email de alguém da PM, que gostou muito dela, dessa idéia de que viver é lutar… E o Fabiano Melatto a colocou no seu blog…Por razão completamente diferente. Coisas da vida!
Cristóvão observou que todo mundo lê jornal. Respondi que o jornal, não sei, e tenho dúvidas a respeito. Mas as crônicas, sim.
bj