Casou de calças curtas

(Finalizei o capítulo do Flávio José Cardozo para o livro didático sobre os cronistas catarinenses. E não resisto a dividir esta gracinha de crônica com vocês!)

Manuel Bandeira, passeando pelo interior de Pernambuco, pediu água numa casa e ouviu a mãe gritar para o filho: “Anacoluto, traz água pro moço, Anacoluto!”. O menino obedeceu, Bandeira bebeu a água e saiu dando pulo: não é todo dia que alguém tem a fortuna de dar com um nome desses. Anacoluto é um senhor nome e descobri-lo é quase como descobrir a América. Feliz Manuel Bandeira.

Estou me imaginando na padaria e de repente escuto a mocinha que me atende chamar a colega: “Dispnéia!”. Ou então verifico que o caixa do banco é um sonoro Contubérnio Alves. Ou constato que o guarda que me pede os documentos atende pelo limpo nome de Sapóleo Ferreira. Está no crachá dele: Sapóleo Ferreira. Felicidade. Mas, no meu caso, mera ficção. No duro mesmo, não tenho tido muita sorte. Minhas descobertas são desimportantes: Floripes, Radagázio, uma velhinha Vivência. Apenas nomes diferentes. Nada como Anacoluto, que é pura sofisticação, que é puro arroubo verbal.

Quem se farta mesmo, conforme leio num desses agradáveis almanaques que as farmácias distribuem no início do ano, é o cara que maneja arquivos populosos como o do INSS, por exemplo. O arquivo do INSS é uma joalheria.

Alguns brasileiros veridicamente recenseados pelo almanaque:

Cafiaspirina Cruz. Beleza de imaginação. O sobrenome Cruz é pesado, machuca as costas, lembra sofrimento e morte. Cafiaspirina baixa a febre, corta o resfriado e não ataca o coração. Sutil compensação. Um nome engenhoso, sem dúvida.

Céu Azul do Sol Poente. Um pai que aplica no filho um nome desses é um poetão de merecer vaga de academia. Há coisa mais bonita? Se um dia eu tivesse de mudar de nome, não sei não - acho que seria capaz de partir para uma solução semelhante, tão ao gosto, aliás, dessa gente fina que são os orientais. Que tal Raio de Luz na Superfície dum Balde d´Água Cardozo?

Antônio Três de Julho de Mil e Novecentos e Dezessete. Gostei demais: é um nome prático, informativo, econômico. Na mesma lambada já vai um dado sempre exigido em qualquer ficha de crediário, que é a data de nascimento. Podia ser ainda mais explícito. Podia trazer também o local em que Antônio nasceu, mas quem sabe Antônio nasceu em Santa Rita do Passa Quatro e o pai entendeu que aí também ia ser um exagero.

Na mesma linha, mas com um pouco mais de criatividade, está este: Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco. Nas duas palavras inventadas e rimadas há humor dos melhores.

Noutros nomes transparece é um pouco de boa malícia. É o caso duma senhora chamada Graciosa Rodela e dum cidadão chamado Joaquim Pinto Molhadinho. O pai dessas criaturas devia ser um sujeito brincalhão às pampas, amigo de duplos sentidos, trocadilhos e empulhações. Na verdade, porém, um inofensivo. Podia ter sido grosseiro mesmo. Podia ter dado pra rachar. Joaquim Pinto Molhadinho, por mais que se esforce na vida, há de carregar sempre certa aparência infantil.

Inocêncio Coitadinho é um nome desastrado, acredito. O portador pode deixar-se influenciar por ele e assumir na vida uma postura sofredora e passiva. Como pode também, só pra contrariar, revelar-se um salafrário prepotente, nunca se sabe. De qualquer forma, eta mancada, no meu fraco entender.

João da Mesma Data é um tanto misterioso: que data? E João Cara de José é arriscado: que José? Há tanto José espalhado por este mundo. E se a cara de José pai não estiver de jeito nenhum na cara do dito João?

Já este outro nome aprecio muito: Lucas Casou de Calças Curtas. É mentira minha, não existe um Lucas com tal sobrenome? O leitor tem até razão em duvidar, mas o almanaque diz que existe. Como não acreditar num almanaque de boa procedência? Por isso, acredito também em Lança Perfume Rodometálica da Silva, concebida evidentemente durante as alegrias de Momo.

Esta senhora eu queria conhecer: Manuelina Terebentina Capitulina de Jesus do Amor Divino. Deve ser do Apostolado da Oração, cabelinhos na venta, um porte austero, pouco riso, uma voz grossa e mandona. Não é de espantar se bate no marido. De modo que, pensando melhor, mudo de idéia: não quero nem de longe saber de Dona Capitulina.

Leio também que são associados do INSS uma Maria Barba de Jesus e uma jovial Maria Passa Cantando. Bem como uma Pedrinha Bonitinha da Silva, provavelmente de corpo roliço, pernas grossas, toda amiga de se enfeitar, namoradeira. Do INSS não vazou nada além do nome, eu é que estou aqui pintando a moça. Mania minha de intrometido.

Um pouco lúgubre é uma tal Restos Mortais de Catarina. Não entendi a morbidez. Nem atino com a forma ideal de falar com semelhante mulher: será chamando de Restos? Será chamando de Restos Mortais? Restos Mortais, prega um botão na camisa! Não, não funciona.


16 Responses to “Casou de calças curtas”


  1. 1 Malu Echeverria

    O Brasil é um país de criativos!
    Beijos.

  2. 2 regina

    Malu:
    isso dito por brasileiro parece ufanismo, mas amigo que fez doutorado na Europa, na área de Informática, conta que os professores e orientadores daí adoravam os alunos brasileiros, justamente por causa disso - por serem criativos, cheios de inventividade. Os professores se queixavam dos estudantes europeus, dizendo que não saíam do previsível.
    Em compensação, já não diríamos isso dos artistas, né? Artistas são fora de série, qualquer que seja sua parte do mundo!
    beijão, linda. Te cuida!

  3. 3 Júlia

    Adorei!!
    Não dá para acreditar nesses nomes mesmo… O maio já disse, filho dele vai se chamar Maionese Júnior! Mais um pra lista.
    beijos

  4. 4 regina

    Bem, pelo menos escapo de dar aula pra esse e orientar seu TCC, hehehe… Vai ser mais praga que o pai!
    beijinho, guria!

  5. 5 Cláudio B. Carlos (CC)

    Maravilha!

    Tenho um amigo que quer ter uma filha de nome Neura. Imagina a neura da criança, hehehehehehehehe.

  6. 6 ilaine

    Regininha! Que saudades!
    Que bom voltar e encontrar você!

    Beijos
    Ila

  7. 7 regina

    Cláudio:
    um amigo meu diz que a filha vai se chamar Órbita…Vai dar mais voltas que uma biruta de aeroporto?
    E Neura vai ser centradíssima, hehehe…Tranqüilex…. O mais legal é que a pessoa entre em contraponto com o nome. Tem um conto do Flávio (José Cardozo) em que colocam na guria o nome de Restituta, e ela vira prostituta, mesmo (Flávio é mau!).Mas uma coisa é pôr nome em personagem, outra em filhos, né?
    Ilaine:
    puxa, tava com saudades… Retomaste o blog?
    Ele até sumiu da minha lista, o pobre, tão abandonadinho o deixaste…Ponho de novo, pó deixar!
    bj pros dois.

  8. 8 Stella

    Tem louco para tu Regininha (nossa, quanto tempo não xeretava o teu blog. Tava com saudade já).

    Beijooooooooooooooooo.

  9. 9 regina

    Eu já andei xereteando o teu…
    Mas entendo o problema; tem épocas em que a gente mal dá conta das tarefas cotidianas, quanto mais de andar fazendo xeretices pelaí.
    Andei em fase assim,e agora tou entrando nela, traveis…
    Mas aparece, tá legal?
    bj

  10. 10 cris

    Coitadinhos desses filhotes de pais tão criativos…
    Estou tentando retomar a minha criatividade. Mas não vou repassá-la à próxima geração. Pelo menos não assim, tão evidentemente…

    Beijos

  11. 11 regina

    Cris:
    te dou toda a razão… Acho que precisa ODIAR o filho de alguma forma meio torta, para “premiá-lo” com nomes assim, não achas?
    Um nome pode ser uma carga pesada…ou um lindo presente.
    Mas, tirando isso, vamos e venhamos: são engraçados.E deram ótima crônica…
    Conheço pessoas com nomes exdrúxulos , daqueles de família, que o aceitam bem: é homenagem a meu avô ou avó, dizem.Amavam o avô/ó e, conseqüentemente, amam o nome. E tem gente com nome bonito, mas que não gosta dele: queria outro. Coisas da vida.
    Nomes de pessoas não significam nada, são só a marca daquela pessoa.Gosto de me chamar Regina: éramos cinco em minha turma de curso primário (que era isso, na época). Depois houve tempos sem Reginas, e agora elas estão aparecendo traveis. Coisas da vida, ou modismos…
    Gosto de teu nome, tanto que é o de minha filha (o dela, com -a no final…). Nomes dão muita crônica de matizes os mais variados possíveis. É tema muito interessante e produtivo (já acendeu faísca cá dentro…)
    bj

  12. 12 regina

    Vejam se pode: o tal ruído que tem me acordado não é no terminal urbano, não. É curto-circuito na caixa de interfone do B3…Haja saco!
    Zelador e vizinho andaram por lá, mas não tem jeito de desligar…
    E é engraçado que ninguém do B3 tenha se queixado, ainda.Dormem feito pedras, pelo jeito!
    Vou é ver TV, terminar um cachecol, tomar café, não dá pra dormir, com o barulho: as teclas de digitar os números ficam tocando, e aquele barulho de interferência. Agora parece um interfone chamando.ARGH!

  13. 13 cristine

    Vixi maria, que horror! E, sim, os nomes deram uma ótima crônica. Amei. Daquelas que tu vê a pessoa contando a história oralmente. Muito boa!

  14. 14 regina

    O segredo do cronista - o maior deles - é parecer estar conversando com o leitor, às vezes sussurrando ao pé do ouvido - como se estivessem batendo papo na varanda de casa, com uma cerva ou um chimarrão…
    É uma questão de alcançar o TOM adequado… Nem sempre se consegue, mas tentar é preciso.
    bj

  15. 15 Renato Rizzaro

    Tenho um Sapo Azul comigo, guardadinho da silva e tbem uma gravação de um Concerto de Sapos fantástico! Não te mandei por falta de vergonha na cara e do novo endereço…
    Te convido para uma audição no Teatro onde a saparia se apresenta todo fim de tarde. Entrada franca.
    ADOREI esse negócio de blog! Já era teu fã, agora, depois das histórias dos butecos, gamei.
    Beijos

  16. 16 regina

    Renato:
    pois depois que vocês foram lá pra reserva a gente se perdeu de vista…Pena, né?
    Tou pensando em fazer nova edição d’O Sapo Azul, ano que vem.
    Ando “fora da sede”, quando voltar, faço contato, e te passo endereço.
    beijão.

Leave a Reply