Fui citada na crônica do Amilcar Neves desta semana, usando uma frase de discussão que tivemos, via email.
Uma honra, sem dúvida! Mas nada ofendida!
A honra ofendida
Se eu publicar algo assim, “O Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra é, hoje, um dos mais notórios torturadores da ditadura militar brasileira”, corro o sério risco de ser processado por injúria, calúnia e difamação, podendo ser condenado a pagar expressiva indenização pelos danos irreparáveis que terei causado à sua honra. E se eu não tiver - como não tenho - o dinheiro necessário para, sem cinismo, “honrar” essa pálida reparação do estrago que deliberadamente provoquei, irei preso por um bom tempo, até aprender a não ficar falando mal das pessoas, porque isso, além de ser muito feio, é coisa tal de não restar impune. Deverei dar-me por muito satisfeito quando, preso, não for “interrogado” pelo Coronel, agora na reserva, com os métodos que ele usava e de que abusava durante aquele negro período da vida nacional.
Se, porém, ocorrer a desgraça com que a vida às vezes nos surpreende e o Coronel Brilhante Ustra vier a falecer (sem que, por hipótese, eu tenha qualquer participação no insucesso), minha situação haverá de ser muito pior e bem mais triste. Porque aí haverá de surgir ao menos um neto dele, ou uma sobrinha, ou algum descendente qualquer, que não se conformará com o impacto que as minhas irresponsáveis palavras terão causado em sua vida pelo abalo emocional indescritível que terá sofrido ao ler coisa tão ultrajante sobre o seu amado e carinhoso ancestral - sujeito que, morto, já não mais poderá defender-se por si mesmo, coisa que o distinto fazia de forma tão desabrida e corajosa durante a ditadura militar (chamada também de “regime de exceção”) contra presos políticos algemados - e alegará desconfortos inenarráveis sofridos no convívio com vizinhos, amigos e colegas de trabalho por conta das minhas aleivosias, das quais eles todos indubitavelmente terão tomado conhecimento, estabelecendo de pronto a relação familiar e passando a olhar de lado para o já tão sofrido parente.
Como se sabe, indignação de parente é causa para verdadeira guerra santa, para uma cruzada incansável contra o infiel que conspurca (suja, infama, corrompe) dessa forma a memória do falecido, que mancha assim levianamente, e assim indelevelmente, a sua reputação.
Um processo judicial desses terá boas chances de prosperar e chegar a bom termo (do ponto de vista do proponente, aquele que supostamente se viu ofendido). E por dois singelos motivos: porque o Coronel Ustra já declarou textualmente “Eu nunca fui torturador” e porque, apesar de todas as provas, indícios, documentos, testemunhos, depoimentos, evidências e singularidades, o processo aberto contra ele “ainda não transitou em julgado, esgotados todos os recursos que a Lei permite”. Desta forma, a presunção é que o sr. Brilhante seja inocente. E, se ele é inocente por enquanto, nem eu nem ninguém pode chamá-lo de torturador, encargo que as Forças Armadas, à época, reservavam apenas aos machos das suas fileiras, coisa que hoje procuram dissimular, dizendo que nada houve além de uma “guerra suja” e, simultaneamente, protegendo e homenageando os sádicos que, sob codinomes criativos (grande macho das casernas, de 1970 a 1974 o Coronel, durante o seu comando do DOI, o maior centro de tortura de São Paulo, encarnou o Doutor Tibiriçá), se entregavam com gosto e prazer ao ofício de arrancar confissões como quem arranca unhas - arrancando-as também, en passant.
Como comentava a Regina Carvalho outro dia, sobre a crescente proibição de livros por supostos danos morais, “o que mais assusta nesses casos todos é observar que eles ocorrem não pelo teor calunioso que possa haver nas obras, mas sim para evitar que chegue ao conhecimento público aquilo que as pessoas de fato fizeram”.
Durma-se com uma honra dessas…
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