Viver é lutar

(pro Silva)

 Não está morto quem peleia, dizem os gaúchos. Meu pai declamava Gonçalves Dias:Não chores, meu filho / Não chores, que a vida / É luta renhida:/ Viver é lutar./ Se a vida é combate/ Que aos fracos abate/ Aos bravos, aos fortes/Só pode exaltar!

Por que estou falando isso, hoje? Simples: fui  militante petista durante muitos anos, e brinco sobre isso dizendo que meu passado me condena…

Embora não tenha participado da fundação do partido em Floripa, sou considerada petista histórica. Sou, ideologicamente, anarco-sindicalista, e contrariei nossos princípios básicos me filiando a partido político. Naquele momento isso parecia – a mim e a alguns outros semelhantes – algo que precisava ser feito, algo essencial.

Quando Lula se elegeu presidente a primeira vez, considerei a missão cumprida, e pedi  desfiliação.

Velho companheiro das velhas lutas dos primeiros tempos me cobra falar disso. Demorei um pouco, pois não achava o viés adequado. Encontrei ontem, pela somatória de papos e emails de outras pessoas. Aí vai.

Antes eu era muita emoção e pouca razão, em questões que envolvessem posições políticas. Além disso, tinha que estudar um bocado para as minhas aulas e cursos de pós, e não me sobrava tempo nem pique para estudar política. Havia, porém, companheiros que o faziam, e me ensinaram muita coisa. Estávamos no calçadão, sol a pino, distribuindo panfletos, tentando conversar com as pessoas (muitas vezes ouvindo desaforos), sacrificando lazer, família, repouso, pra trabalhar pela construção da utopia em que acreditávamos. Conversávamos entre nós, também, partilhando idéias, visões, soluções, encorajamentos.

Éramos pessoas as mais diversas: professores de todos os níveis de ensino, funcionários públicos,  bancários, pessoal ligado à Igreja Católica, um ou outro padre, trabalhadores (poucos) do setor privado. Tínhamos os mais diferentes matizes ideológicos: leninistas, trotskistas, maoístas, alguns anarquistas – e mesmo esses, diferentes entre si. Um balaio de gatos, briguentos e incansáveis, mas ao fim e ao cabo cheios de afeto uns pelos outros. Discussões as mais ferrenhas entre tendências me ensinaram muitas coisas, inclusive a discutir, a balancear emoção e razão, a aceitar razões mais adequadas, encaminhamentos melhores para os problemas a enfrentar. No partido, na política… e na vida. Aprendi a aceitar o diferente não como inimigo, mas como alguém que vê o mundo de outra maneira, e merece respeito. E  a ficar triste ao perceber que muitas vezes era um semelhante que não o merecia…

Aprendi a lutar – a defender posição quando a julgasse  a mais correta, a discutir sem me enraivecer, a aceitar filosoficamente as derrotas: umas se ganha, outras se perde, fazer o quê!

E assim é também na vida. Muita gente acredita que o ser humano realmente bravo é aquele que nunca esmorece. Ora, este só pode ser é louco de pedra!

O verdadeiro bravo vai dormir derrotado, desanimado, pensando em desistir de tudo, porque a vida apronta cada falseta que ninguém merece… E daí acorda renovado e canta pra si mesmo: afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo! Pensa em novas táticas, em novos argumentos, em ações diferentes. E vai à luta.

Existem vitórias que nos prejudicam terrivelmente, existem derrotas que nos ensinam muita coisa. A toda essa aprendizagem sou demais de agradecida, graças a ela me tornei a pessoa que sou hoje. Estou de bem comigo; isso é difícil de alcançar, na vida, mas é muito bom.

(publicada no Anexo do AN, 3/4/2008.p.3)

18 Responses to “Viver é lutar”


  1. 1 Fatima de Laguna

    Cara fessora Regina aqui na capital da República Juliana são quase 8 (am eheheh)e estou saindo para orientar remendos numa casa com mais de século e meio. Prometo: não serei prolixa, só um tiquinho.
    Gostei imensamente desta crônica.
    Ela está incompleta, emboramente heheheh.
    Pôxa penso que é bom pra saude mental viver-se a história
    do tempo no qual estamos inseridos, não necessáriamente que vivenciemos o tempo político, apesar de tudo ou quase
    tudo, ser política, num sentido amplo, se e´que me compreendes. Sua petezisse confessa é muito bonita, bem de acordo com o tanto de coerência que enxergo no que a olho nu pode parecer tresloucamento em sua cabeça.
    Não tenho visitado os blogues por conta dos reparos que estou orientando numa velha casa minha, que será alugada
    a uma amiga. A crônica de hoje está incompleta porque voce poderá escrever mais um cento dentro deste mesmo tempo de militância e tem coisas muito divertidas, verdadeiras,
    curiosas, provocadoras, esclarecedoras, importantes
    para narrar. Não sou uma pessoa que faça
    coisa alguma em política partidária. Não dá tempo eu tô sempre de boca aberta olhando o mar, as estrelas, os botos,
    e não dá tempo de ir pra briga.Mas fiz greve de professores e até passeatas, então estou absolvida. Sou limpinha né?
    Pôxa eu queria escrever tantas coisas, mandar tantos recados de afeto aos seus leitores e amigos falar da margarina,da gasolina mas vai fechar, o sinal vai fechar,
    olá como vai eu vou e vc…BJúúúúúúúúúúúúúúúúús.Fatima.
    P.S. Ontem encontrei um livro lá na casa velha:
    O título era maomeno assim:”o barranco na formação sexual do gaúcho” HAHAHAHHAHAHAHHAAHHHAH

  2. 2 Fatima de Laguna

    Errata - eu queria dizer :”vai abrir”
    de SINAL FECHADO do Paulinho da Viola
    “Olá, como vai
    Eu vou indo e você, tudo bem?
    Tudo bem, eu vou indo, correndo
    Pegar meu lugar no futuro, e você?
    Tudo bem, eu vou indo em busca
    De um sono tranqüilo, quem sabe?
    Quanto tempo…
    Pois é, quanto tempo…
    Me perdoe a pressa
    Eu procuro você…
    Vai abrir!!! Vai abrir!!!
    Eu prometo, não esqueço, não esqueço
    Por favor, não esqueça(…)”
    ============ ============
    “Você precisa saber da piscina
    Da margarina, da Carolina, da gasolina
    Você precisa saber de mim
    Baby, baby, eu sei que é assim
    Baby, baby, eu sei que é assim
    Você precisa tomar um sorvete
    Na lanchonete, andar com a gente, me ver de perto
    Baby, baby, há quanto tempo
    I love you(…)”
    (in “BABY” de Caetano Veloso)

  3. 3 cris

    até hoje, nunca me filiei a partidos e sou meio avoada politicamente falando. e vou dizer que tenho uma certa aversão a pessoas muito engajadas. me parece um pouco com o fanatismo religioso. tenho medo.

  4. 4 regina

    Cris:
    mas de mim não tens, nem nunca tiveste medo, né? Sou light, e nunca fui de fazer proselitismo em sala de aula… Capaz de rir das nossas “petezices”…E sem cobrar nada de ninguém, a não ser da própria “companheirada”. Tenho amigos bem conservadores, e isso não me incomoda, pois acho que cada um acredita - seja em política, em religião, em futebol - naquilo que bem quiser.Basta que não façam pregação! Como tu,sou contra qualquer tipo de fundamentalismo! beijinho.

    Fátima:
    bom te ver de volta! Tava com saudades. Não, não pretendo falar mais dessa militância.Deixo pros colegas cronistas que gostam - Amílcar Neves, Fábio Brüggemann - este tipo de crônica que trata de questões políticas. A minha trata das subjetividades, é mais pessoal - é outro tipo de política…Mas satisfiz a vontade do Silva,acho eu…
    E só sei da margarina e da Carolina (que aliás, é nome da minha neta estudante de Jornalismo, mais uma a cumprir a sina familiar…).Mas infelizmente não sei da piscina!
    beijinho, também.

  5. 5 Adriane Canan

    Bacana, vizinha. Te confesso que, em certos momentos, sinto falta da segurança que a militância intensa me dava. Aquilo de ter absoluta “certeza” era bom e desafiador. Não que eu tenha perdido certezas.Elas só se tornaram mais incertas.

  6. 6 cris

    Não tenho medo de ti não. E nunca pregaste nada em aula, mas era óbvio que eras petista. Eu sempre curti essas coisas meio anárquicas e lia muito sobre na faculdade. Utopicamente, acho lindo. Na vida real, tô mais pra direita mesmo…

  7. 7 regina

    Adri:
    gostei da colocação…Nós éramos cheias de certezas, mesmo, né? Isso nos dava mais segurança… e nos tornava mais chatas, hehehe… Mas a vida sem elas é mais interessante!
    Cris:
    admiro quem sabe onde está, o que pensa, e se situa com clareza. É bonito, isso.
    beijão pras duas!

  8. 8 Fabiano

    Nunca me aventurei em filiações partidárias, embora tenha chegado próximo a isso. Cruzes! O mote anarco “Hay gobierno? Soy contra!” (e o fato de ter sido editor de política - meu passado também me condena!!) protegem-me feito patuá… Beijos.

  9. 9 regina

    Feibi:
    (lembravas do apelido?)
    me fazes lembrar minha filha, a cientista política, e sua voz do bom senso: “como pode haver sociedade humana sem Estado e sem Governo?” Pois é, somos doidos, nós, os anarquistas, e sonhamos com isso. Mas, pra isso, precisaria haver um homem melhor…Ser anarquista é cultivar uma utopia muito melancólica, acho eu!
    O mote do “hay gobierno?” não pode ser interpretado ao pé da letra, como oposição a um governo específico,mas como oposição a todo e qualquer tipo de governo, regra,lei, qualquer coisa que cerceie a liberdade…Somos doidos de pedra, já sei. Mas prefiro assim!
    beijão.

  10. 10 Fabiano

    Sábias palavras, Regina. Anarquia é a utopia máxima e, como você colocou, depende de um “homem melhor” - uma possibilidade da qual ando cada vez mais descrente (adoro referências religiosas quando falo sobre anarquia, só para deixar a oposição mais confusa, hahaha!!). E o apelido grudou em mim até hoje. Vou puxar tua crônica maravilhosa para o meu blog, tá? Beijos, de novo.

  11. 11 regina

    Ai, que bom!
    estava com medo de estar sendo meio brega, mas se aprovaste é porque NÃO está, hehehe…
    E exposta naquele blog todo avançadinho que é o teu…
    Não poderia haver elogio maior!
    bj

  12. 12 Roberta Ávila

    Regininha querida, tá vendo como é verdade quando eu digo que já me basta saber que vc vai postar todo dia?!

    Acho que vc tem razão, faz parte a gente se sentir derrotado, o importante é acordar no dia seguinte e ter a coragem de sair da cama e deixar coisas boas acontecerem para a gente.

    Tb achei lindo! Posso roubar um pedacinho? hehehe

    Bjos

    Fátima que bom que vc voltou! hahaha

    Bjos

  13. 13 regina

    Roberta:
    Aceito ser roubada, numa boa!Se é para uma boa causa, hehehe…
    Sem querer, estivemos meio sintonizadas, né?
    Este mês andei meio fora dos eixos, também, por conta da perda da URP em nosso salário, pela injustiça disso, pelo horroroso sentimento de impotência que bate na gente…
    Se o estupro é inevitável, relaxe e aproveite? Tem hora que não dá, né? Mas a gente levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima. E começa tudo outra vez…
    Como dizia Bertold Brecht, em poster que habitava nossas paredes esquerdistas, na época em que posters eram moda em decoração, e ser esquerdista era mais aceito, há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis…
    Hoje encontrei linda jeune fille usando camiseta de grife com a foto famosa do Che Guevara…Não pude me conter: Pobre Che! Bem sei que ela não entendeu, mas tudo bem.
    Mudanças são aceitas, são esperadas, mas às vezes há mudanças demais ao mesmo tempo.Não precisamos de tanto, hehehehe, menos, menos! Precisamos de tempo para assimilar tudo, ganhos e perdas, e nem sempre dá. Mas amanhã vai ser outro dia… e a alegria é a prova dos nove!E croissant au chocolat ajuda, acho. (Nunca provei. É bom?)
    bj

  14. 14 Roberta Ávila

    Eu não gosto não. Mas tem a torta de chocolate… torta de maça… torta de damasco… essas ajudam demaaaais! hahah

    Uma amiga me deixou um scraps com um monte de citações de Brecht, entre elas essa que vc escreveu. Acho que a sintonia tá aí mesmo.

    Quanto a URP, sem comentários viu Regininha… Tenho chegado à conclusão que a grande diferença entre o Brasil e a França é a educação. O nível de consciência social deles é muito impressionante. No folheto do mercado vem escrito a origem de casa produto porque eles preferem consumir o que foi feito na França para o bem da França. Se a moda pega no Brasil, meu Deus do céu, era capaz até da gente se desenvolver… heheh

    Bjão

  15. 15 Silva

    Cara Regininha

    Não tem aquele pessoal no estádio de futebol que, quando o seu time ganha, levanta um cartaz “Ah, eu já sabia!…” para aparecer na tevê?
    Tô levantando um desses.
    Só que ao contrário do torcedor que, quando o time não vence, enrola o cartaz e leva prá casa (quem sabe em outra ocasião…) ou larga ali mesmo pelas arquibancadas, eu realmente sabia que se você pegasse na pena para escrever sobre esse assunto seria batuta.
    E não estava enganado, por isso lhe cutuquei naquela ocasião.
    Não tenho acessado o blog, tenho lido no AN. Hoje, ao ver a ilustração, a estrela, já pensei “pronto, taí a moça revolvendo os tarecos do porão…”
    Da primeira vez li de sopetão, na segunda com mais calma, saboreando. Como me fez bem.
    Ao contrário de você, que tirou de letra os agitos e refregas daqueles tempos heróicos (por que não dizer), eu ainda os rumino e vou digerindo aos poucos…e suas palavras vão me levantando.
    Então resolvi vir no blog para este toque e eis que vejo lá em cima “Pro Silva”… aí não deu prá segurar…
    Obrigado querida, continue assim…

  16. 16 regina

    Silva:
    jamais esqueci do teu pedido, cara! E que bom que gostaste!
    Tirei de letra aqueles nossos tempos heróicos DEPOIS, né, meu nego!
    Porque foram bons tempos, os tempos em que, como bem disse a Adriane, nós éramos só certezas…Mas também foram tempos de angústias, raivas,
    derrotas… Mas a gente se levanta…e não entrega a peteca!E VIVA NÓIS!
    E esse afeto continua, amplo, geral e irrestrito!
    Na vida, também, como deve ser.
    Sem aquilo, não seríamos o que somos, e somos gente boa pra caramba.
    (aliás, mandei agradecimento especial pro ilustrador, por aquela estrela-coração, que é bem nossa essência daqueles gloriosos tempos…O que a vida nos dá é também o que a vida nos tira, mas isso faz parte do jogo.)
    grande beijo.

  17. 17 regina

    Roberta:
    chegaremos lá, querida, chegaremos lá!
    Como cantava o Gonzaguinha, aquele que “apesar dos pesares/ ainda se orgulha de ser brasileiro” é que merece meu respeito.
    Brasileiro tem a mania de achar que temos só defeitos… Vamos parar com isso! Os outros países são cheios de corrupção e mazelas, também,
    mas parecem ter tido tempo de desenvolver um maior respeito pelo homem que vive nele. Temos que aprender isso, e aprenderemos.
    Somos cheios de afeto, de alegria, de capacidade de lidar com a vida…
    Mas a aprendizagem só se dá com a verdade,com encarar os defeitos de frente, com o não querer ser perfeitos… Porque isso, ninguém é!E não há vergonha alguma no fato…
    beijão.

  1. 1 Pequeno momento sentimental «

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