Vida de junkie

O ano era 1962,e eu acabara de completar 16 anos. Namorava um colega de classe, e ele achava lindo mulher que fumasse. Foi quem me deu o primeiro cigarro, foi quem me ensinou a fumar. As “moças direitas” não fumavam em público, mas essa era a única restrição, ao que me lembre.

Na época, nada se dizia do cigarro. Como, aliás, nada se disse durante muito tempo, ainda. Os professores fumavam na sala de aula, e na universidade os alunos também podiam fazê-lo. Tanto isso é verdade que, durante anos, as carteiras tinham cinzeiros no braço.

A primeira restrição encontrei na gravidez do primeiro filho: fui aconselhada a diminuir o número diário de cigarros; não foi proibido fumar. Na verdade, porém, eu andava sempre tão nauseada que nem me passava pela cabeça acender um cigarro. Já na segunda gestação foi diferente: após o terceiro mês, as náuseas passaram, e eu só poderia fumar cinco cigarros por dia. Mas era permitido, sim.

Não sei fazer nada fumando – só leio ou escrevo ou bato papo. Qualquer atividade mais “física”, digamos, sempre foi feita sem cigarro. E só passava de uma carteira diária nas festas ou nas insônias. Nas festas, porque a cerveja IMPLORA por um cigarro. Nas insônias, porque o cigarro distrai …

Aos poucos os danos que o cigarro causa foram sendo desvelados e divulgados, e os fumantes mais esclarecidos foram sendo levados a se livrar do vício. (Usamos a palavra vício, mas não com muita seriedade: é difícil encarar assim aquilo que é socialmente admitido – embora não mais bem visto! - e cuja venda é livre). Alguns conseguem isso com mais facilidade – amigos meus largaram com rapidez, porque já havia comprometimento dos pulmões. Um deles sofreu horrores, precisando até se internar em clínica especializada. Eu encontro muitas dificuldades para fazê-lo. Sou, como dizem em algumas regiões, “patife”…muito frouxa pra agüentar. No entanto, já passei cinco anos sem fumar…

Tinha feito tratamento, sofrido com a abstinência – noites de insônia, depressão e crises de choro, incapacidade de me dedicar a alguma atividade intelectual , y otras cositas más. Uma crise pessoal me fez recorrer novamente ao cigarro como suporte e consolo. Depois disso, várias outras tentativas infrutíferas. Ouvindo as piadinhas comuns dos fumantes: parar de fumar é fácil, todos nós já paramos mil vezes…

Só que eu não desisto de mim: mais teimosa que a mulher do Piolho, dou um tempo, e faço nova tentativa. Cada tentativa frustrada ensina lição nova, e desta vez estou no caminho certo. Medicada, resisti uma semana ao uso dos adesivos de nicotina, porque já os usei, e deixam um cheiro horroroso na gente. Foi uma semana sem dormir. O remédio tira a compulsão pelo ato de fumar, mas o corpo fica exigindo nicotina. Durante o dia, a gente arranja serviço, vai caminhar, vai olhar vitrines, bate papo com amigos – consegue ultrapassar o impulso. Quando ficamos a sós com os travesseiros, porém, fica difícil.

Percebi que estava sendo teimosa e burra, rendi-me às evidências,e coloquei os adesivos. Foi uma diferença brutal! Tem efeito complementar ao do remédio e, melhor que tudo, com seu uso voltei a dormir.

Não sou pessoa que goste de mentir pra si mesma. Também não minto para meu médico, pois a grande prejudicada sou eu mesma. E a preocupação dele é com o fato de eu GOSTAR de fumar. Pois gosto, de fato.

Só que não posso mais negar que levei este tempo todo de ensaio e erro até chegar a este momento e, de público, declarar: sou viciada em nicotina. Sou uma adicta, sou uma “junkie”. E não quero mais isso pra mim.

(publicada no Anexo do AN, 29/5/08. p.3)

19 Responses to “Vida de junkie”


  1. 1 Ana Paula

    “Não sei fazer nada fumando - só leio ou escrevo ou bato papo”. Fala sério, fessora, essas são três das tuas especialidades, né?

  2. 2 Fatima de Laguna

    Regina desde o primeiro dia que entrei aqui no teu blog eu fiz muita farra. Diverti-me muito. Escrevi asneiras de monte. Fui inclusive abusada. Mas posso dizer que aprendi coisas lindas e li matérias excelentes.
    Hoje vim pra te dizer com seriedade o que estou pensando
    desde cedo quando li a atualização do blog:
    esta crônica é teu retrato.
    Sim a Regina é esta pessoa que desnuda o problema para enfrentá-lo.
    Parabéns por este texto, pelos que foram, e os que virão!
    Se vais chegar onde desejas, se vais passar perto, se vais passar alem, não interessa agora.
    Interessa é que nos estimulas a vencer nossos fantasmas.
    A frase mais bonita? Taí:
    “E não quero mais isso pra mim.”

    Abraço grandalhão da Fatima.

  3. 3 regina

    Aninha:
    tirando cozinhar, acho que essas são minhas únicas especialidades, hehehe…
    Como nunca fumei cozinhando, dava pra fumar um bocado - ainda mais no computador, né? O pobre já tava ficando meio enfumaçado…
    Mas eu caminho, passeio, vou ao cinema, vou às compras, viajo…
    Até namoro um pouquim, lá de vez em quando… E sem fumar, ora.
    Agora é TUDO SEM FUMAR!!! Não gosto muito, não. Mas é preciso.
    beijão.

  4. 4 regina

    Fátima:

    acho que não sou isso tudo, não.
    Mas gosto que pensem isso de mim, hehehe…Pode continuar pensando!
    Obrigada pelo reforço!
    E Aleph veio almoçar comigo, discutimos o site, acho que pra julho estaremos com ele. Faremos a inauguração no meu 62o. aniversário!
    Não é uma maravilha?
    beijão.

  5. 5 Fatima de Laguna

    UEEEEEEBBBBBBBBAAAAAAAA!
    Então no dia de Santo Inácio teremos um site novo no ar?
    Que bom! Estamos esperando e torcendo!
    bj.

  6. 6 regina

    Segundo meu pai, que estudou em colégio jesuíta, e leu “A verdadeira História da Companhia de Jesus”, Santo Inácio não era lá muito santo… Não me arranjas padroeiro melhor, não? Deve haver outros, do mesmo dia.
    Não que faça muita diferença prum ateu, é até divertido, mas…
    bj

  7. 7 Ítalo Puccini

    Força, mulher!
    Tu dá a cara a tapa, mesmo. Admiro pra caramba isto.

    Uebaaa! Aniversário em julho! Então tamô aí se der ^^ (nada beirada, né…)

    beijão,
    Í.ta**

  8. 8 regina

    Que bom que continuas beirada, Ítalo!
    Afinal, tou pegando uma beiradinha no teu, também.
    Noblesse oblige! Te espero no meu, hehehe…
    beijão.

  9. 9 Carol

    dessa vez vai!

    beijos

  10. 10 Karla

    Regina,

    Parabéns pelo blog! SpaceMelato deu a dica.

    “Nas festas, porque cerveja IMPLORA por um cigarro.”

    Nunca me assumi fumante por que meu vício estava associado à cerveja. Mas comecei a fumar antes de entrar no curso de Jornalismo, em 90.

    Agora acho que parei de vez. Bebo uns pints de Guinness de vez em quando e nunca mais fumei. Estou morando em Dublin há mais de três meses e aqui o cigarro custa 7 euros. A patrulha tem proposta pra aumentar o preço da carteira todo ano. Fumar em pub ou em ambientes fechados nem pensar.

    beijos,
    Karla

  11. 11 regina

    Carol:
    desta vez vai! De certeza! Obrigada pela força!
    Karla:
    quando todos (ou quase…) ao redor fumam também, fica difícil a gente se assumir como junkie,com a seriedade que se livrar do vício merece. Só se vai tomar providências quando há sérias ameaças para a saúde.
    Quero me livrar antes disso…
    O governo brasileiro deve começar grande campanha anti-tabagista em breve. Tá mais do que na hora!
    Invejinha das tuas Guinness, mas não de Dublin: muito frio, muito frio. Já bato queixo aqui, com aquecedores e tudo, imagina eu por aí!
    Outra hora visito teu blog, hoje já estou de saída.
    beijinho.

  12. 12 jeanne

    Regina, eu também parei. De novo! Hehe.
    O Edu diz que nos dias de hoje é contra o espírito do tempo fumar. Afinal, se não se pode mais fumar nos pubs de Londres nem em restaurantes em Paris, é porque o zeitgeist mudou, não é mesmo?
    Saudadocê. Beijos!

  13. 13 felipe zylbersztajn

    oi, regininha. como vai?
    não sei a razão, mas ontem eu me lembrei muito de você. então passo aqui para deixar um beijo.
    beijo.
    felipe

  14. 14 regina

    Jeanne:
    no fim a piada está correta, né? Largar é fácil, hehehe. E é bom que o zeitgeist mude, mas gente mais ainda, poxa.
    Duro é não voltar a fumar, tu sabes. E quero nunca mais voltar (só lá muito raramente, aquele único cigarrijo ou uma cigarrilha - e por puro prazer, não por vício). Espero que tu, também.
    Saudades catarina-ilhoas dessa mineira-paulistana.
    E um abraço pro Edu, que qualquer dia irei conhecer!
    Planejo ir a Sampa em julho, quando a Cris desce de Jampa e vem passar uma quinzena na Unicamp.Fico lá em Barão Geraldo, com ela, mas devo dar uma bordejada pelaí.(Montes de gente conhecida por aí, tu sabes - e quase todos em Pinheiros) Daí marcamos alguma coisa, nem que seja uma esfiha no boteco da esquina (em lugar algum se faz esfiha tão boa quanto nos botecos de Sampa!)
    beijinho.

  15. 15 regina

    Felipe:
    é sempre engraçada esta confluência, né? A vida tem dessas coisas.
    Ontem fui ao Shopping Trindade a pé, tirar foto pra carteira de identidade.Na minha frente, pela Lauro Linhares, cabeludo magrinho, cabelo escuro amarrado… Pensei: Felipe…E tive sessão remembering, daquele semestre de um conto trabalhado e retrabalhado, lembras?
    São boas lembranças, essas…
    Beijão pra ti, beijão pra Amanda!

  16. 16 felipe zylbersztajn

    Rá! Que bacana. A vida tem dessas coisas mesmo.
    Amanda volta do Maranhão na quarta. O beijo será dado, pode deixar.
    Era um conto em que uma freira assassina preparava um sopão comunitário com suas vítimas para os sem-teto de Florianópolis, não era?
    Beijão

  17. 17 regina

    Era mesmo alguma coisa horrorosa desse tipo, hehehe…
    Só porque eu gosto de histórias de terror, vocês ficavam abusando desse jeito… Uma vez eu disse em sala que não agüentava só quando as histórias eram sobre crianças, e TODO MUNDO na sala se pôs a torturar criancinhas… Maldade pura!(com as criancinhas… e comigo!)
    bj

  18. 18 Suzana Mafra

    Regina, que texto mais lindo. Só você consegue contar desse jeito. Cem por cento cativada.

    Além disso, sou ex-fumante.

    Frio em Brusque e chuva respingada pelo ciclone.

    Beijo

  19. 19 regina

    Frio demax em Floripa e pessoal perguntando: cadê o ciclone?
    Acho que os tansinhos queriam mesmo que ele viesse. Decerto pra ter do que se queixar, hehehe…
    Apesar da chuva, fui à musculação, pois afinal não dissolvo na água; volto muito aquecida, mas infelizmente dura pouco…
    bj

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