Aprecio muito as pessoas espontâneas e francas, especialmente as que se aceitam como são, sem grandes frescuras. Se forem capazes de rir de si mesmas, então, me apaixono na hora. Está muito em voga corrente de pensamento positivo, em que cada um se vê como depositário de todas as qualidades do mundo – como se as palavras tivessem o dom de transformar o ser… E como se defeitos, em sendo ignorados, se corrigissem sozinhos, ou deixassem de existir. É uma espécie de politicamente correto em relação à existência, e a matriz americana está voltando atrás, pelo menos nessa história do politicamente correto e das tais ações afirmativas. Mas nós, sempre décadas atrasados, obviamente perseveramos nelas.
Encontrar pessoa que não fale de si mesma só em termos positivos, porque é lúcida e se aceita como é me encanta, mas constrange o povo em volta. Tenho colega que encara meu tamanho como defeito de caráter, por exemplo. Fica constrangida quando brincam comigo por causa disso, mas eu tenho gerações de ilhéus baixinhos atrás, e brinco com isso citando Quintana: sou portátil, como Bruna Lombardi, que é dois centímetros mais alta que eu.
Se digo que sou velha, idosa, então, parece que estou me xingando … Ora, quem tem mais de 60 anos é idoso, né mesmo? Sou velha, vou ficar mais velha ainda, espero que muito mais velha, e sou saudável, produtiva, alegre. A velhice está sendo a melhor fase da minha vida – embora preferisse evitar as rugas e os cabelos brancos, tá na cara.
Pois a velha senhora subiu no ônibus com dificuldade, mas rindo dela:”velha e, além disso, gorda”. Custou a passar na estreita porta do coletivo, alemã alta e pesada que é, carregando mais de uma sacola. Sentou-se a meu lado, na poltrona 4, e um rapaz colocou a seus pés mais uma maleta. Ela agradeceu a gentileza, acomodou-se, puxou conversa.
Éramos duas senhoras entradas em anos, sentadas ali na frente. Gosto de ver a estrada, viajo sempre na poltrona 3, se estiver disponível, e costuma estar: a neura coletiva aconselha que se evitem os assentos da frente do ônibus, para o caso de colisão frontal. Não se pensa nas colisões laterais, ou até nas que vêm de cima: filho de amigo sofreu uma, passando sob um viaduto…
Eu ia até o destino final, Jaraguá; ela ia ficar em Piçarras. Ia se encontrar com um primo que não via há mais de dez anos, e que descia de Curitiba apenas para se encontrar com ela e revê-la.
O nome dela é Hermenilde Boeing de Lima, e tem 83 anos. Nasceu em Armazém, mora em Braço do Norte. Antes morava em Brasília, com o marido paraibano, de Patos. Ela lecionava Enfermagem, ele era funcionário público. Não tiveram filhos, mas adotaram uma menina. Viúva há vários anos, sente muita falta do marido, que morreu no nordeste, numa visita à família; lá mesmo foi enterrado, conforme era seu desejo.
Fala dele com simplicidade, sem grandes exageros, histórias simples, cotidianas. Pelas histórias que conta, porém, percebe-se que eram muito dedicados um ao outro. A idade avançada faz com que tentem impedi-la de viajar sozinha, e ela se sente tolhida por isso. Como eu, que sou vinte anos mais moça, não gosta de se sentir dependente, ou incapaz. Mais ouvi do que falei, mas ela deve ter se sentido aprovada, pois na hora de descer em seu destino lamentou deixar o aconchego de nossa conversa.
Quando o ônibus saiu da rodoviária de Piçarras, pude vê-la sentando-se na lanchonete: uma velha senhora de cabelos brancos rareando, aberta, sincera, despachada. Gostei dela, gostei muito dela, e faço votos de que seja feliz, naquilo que lhe couber a ser vivido: em paz, em liberdade, com saúde, com afeto.
Lindo texto Regina. Vim aqui buscar inspiração. É sempre bom ler você.
Aleph, meu cravo:
espero que aches idéias, por mais que tenhamos estilos completamente diferentes…
bj
Regina!
É minha primeira vez aqui. Gostei.
Abraços,
*CC*
Cláudio:
obrigada pela visita, volte sempre.
E que nome bonito tem teu blog, cara. Fiquei com inveja!
Mais tarde serei eu a te visitar.
um abraço.
Já fui, e o site do Cláudio é bom pra daná.
Quem se interessar, dê uma olhadinha: http://www.balaiodeletras.blogspot.com
Só pode gostar, não tem como não…
bj pra todos
Valeu, Regina!
Beijos,
*CC*
Gostei também do layout do teu site, Cláudio. Muito bom.
bj
linda crônica, rê!
e o site do CC é bom mesmo!
melhor ainda os livrinhos dele
sempre bom passar aqui e lá ^^
abraços!
Já conhecias, pois. Eu, não. Mas tá aprovado.
Tou indo a Xarraguá, pro casamento do João, te ligo quando chegar.
bj
Ai Regininha conheci uma senhora muito parecida com essa em Granada… depois escrevo dela. O policial era O silêncio dos inocentes, do Thomas Harris. Na hora q eu vi Best Seller na capa achei que era porcaria, e mais engraçado ser em espanhol, mas li enquanto tava viajando de ônibus pra lá e pra cá e achei bem legal. Alias, o García lorca nasceu em Granada. A cidade tá cheia de homenagens para ele.
Tá bem gostoso seu blog. Mto bom voltar de viagem e ter vários textos pra ler… =)
Bjos
Roberta:
O Silêncio dos Inocentes é ótimo, tanto em sua versão literária como na cinematográfica. Li todos os livros do Harris, mas o último está melhor que o intermediário…
Ele diz que não queira mais entrar naquele universo massacrante.
Dá pra entender, né?
bj