Rua congestionada, fila de carros fluindo com lentidão. Alguém na minha frente pergunta ao guarda: que houve? E ele, enraivecido: é aquela praga do amarelinho, que pára em qualquer lugar!
Tive que me conter pra não rodar a baiana… Porque eu vinha em sentido contrário, e sabia que o problema tinha sido causado por um ônibus atravessado na pista da esquerda. E ele estava atravessado porque precisava entrar numa transversal, para ter acesso ao terminal urbano, e havia um carro estacionado bem na esquina. E cadê o guarda?
O motorista do coletivo não se alterou. Deixou o ônibus assim, atravessado para descer, ocupando sua pista, se encostou no banco e se pôs a beber água na garrafinha. Na maior calma. Ao mesmo tempo, pensei: deve passar por isso mil vezes por dia, está vacinado. Como se não bastasse o trajeto repetido trinta vezes por dia …
Minha bronca com o guarda, porém, continua vigorando. Porque, vejam bem, o amarelinho, transporte seletivo, faz o que a lei lhe permite. Ele tem o direito de parar fora do ponto, para que o passageiro suba ou desça. E atrasa o fluxo de carros um pouco, às vezes, nos momentos de pico, mas é só. As calçadas estão cheias de carros estacionados em cima, em local proibido, com o som a mil decibéis, com canos de dez metros amarrados, sem sinal algum. Isso parece não incomodar o guarda. Carro pode tudo…
Nos dias da greve dos motoristas de ônibus, foi uma coisa de louco. Todo mundo tira carro da garagem, e estaciona em qualquer lugar. Pedestres, espécie urbana e bípede de inseto, salvem-se como puderem! Fui ao banco, e na minha frente ia senhora com seqüela de ACV, caminhando com dificuldade. Entre nós e a entrada do banco, três automóveis ocupando a calçada. Calçada estreita em rua estreita e congestionada, mas que remédio: vamos para o meio da rua. Se já me zangara por minha causa, fiquei zangada em triplo por causa dela.
Não sou modesta, não sou humilde. Não sei se é o “petismo” sempre latente; não sei se é saber que poderia ter automóvel, se quisesse; não sei se é muita auto-estima. Sei, de certeza, que é pelo fato de que não me envergonho de brigar, quando acho que devo.
Mas os motoristas folgados e desrespeitosos não estavam ali, nem havia guarda por perto. Aliás, nunca há - não patrulham as ruas de bairros, só as do centro…
Na entrada de meu condomínio, uma mocinha num carro atravessado na calçada. A senhora seqüelada vai para o meio da rua, outra vez. E minha paciência foi pro brejo: “moça, tire esse carro daí”. E ela: “já vou sair”. Fiquei mais zangada: “enquanto a senhora não sai, os pedestres têm que passar numa rua entupida de automóveis.” Porque, observem, minha bronca tinha razão de ser: o condomínio tem estacionamento com bom espaço pra manobra. Seria fácil ela entrar e fazer a volta. Do jeito como estava, teria que sair de ré no meio daquele movimento todo. Desrespeitosa, barbeira e burra. Mas ela, raivosa, fez a bobagem de responder: “não vou demorar, dona!”
Fiz a pose mané conhecida. Mãos na cintura, disse-lhe, com a franqueza habitual: “se não sabes dirigir, minha querida, não dirige!”
Quando entrei o porteiro veio me dizer: “tadinha ela, a moça não ia demorar”. Sobrou pra ele: ” dizes isso porque ela é moça e bonitinha. Por que não a mandaste entrar e fazer a volta aqui dentro?”
O que há com o povo? Calçada é para pedestre, não é para carro estacionar porque quem o usa tem preguiça de caminhar, ou está atrasado, ou está com a mãe, o pai, o papagaio na UTI. Já ouvimos todas, né? Respeito é bom, e a gente gosta.
(publicado no Anexo do AN, dia 24/7/2008. p. 3)
Oi, Regininha. Preciso retomar o mundo dos blogs… Vou escrever uma croniquinha então, deu vontade…
Cris:
faz favor, né. minha linda!
Escreve! Tens jeito pra isso, com essa visão nada ortodoxa das coisas do mundo!
beijão.
oi,
já disse no email e digo aqui: ri nessa cena: “Fiz a pose mané conhecida. Mãos na cintura” adorei…
não sei qual a tinta da minha caneta, talvez uma certa semvergonhice que não consigo aplicar na vida real, daí transfiro para literatura
Rubens, meu cravo:
poder transferir a senvergonhice pra literatura é bom demais, né?
Felizes de nós, que podemos fazer isso!
Todas as fantasias, todas as ilusões, todas as dores, transferidos pralgum lugar fora de nós mesmos… É bom demax!
bj.