Os homens de ontem

OS HOMENS DE ONTEM

No curso de Letras, não há queixas para o aluno que goste de literatura. É claro que os que não gostam, sofrem – mas deveriam então estar em outro curso. Lê-se muito, e de tudo. Mas se lê atabalhoadamente, três ou quatro livros por semana, um atrás do outro, para provas, trabalhos, seminários.

Além disso, o aluno é muito jovem. Com o tempo é que acumula experiência de vida suficiente e um maior acúmulo de informações, que lhe permitirão não só julgar melhor o que está lendo, mas também aproveitar melhor o lido.Assim, a releitura do que foi lido aos 20 anos pode proporcionar um prazer que não se poderia supor, quando lidos na faculdade.

Passei recentemente por isso e por sorte não foi com um livro apenas, mas com quatro deles. E fiquei tão encantada, tão completamente apaixonada por obras e autores, que tenho que dividir meu entusiasmo com vocês.

Há um chavão meu que meus alunos conheciam bem: vinham se queixar de que eu os estava obrigando a ler um livro muito chato, naquele semestre. Esperavam, provavelmente, que eu brigasse com eles, falasse de sua incapacidade de entender direito o que estavam lendo, ou uma defesa acalorada da não-chatice da tal obra. Mas não: eu simplesmente começava a rir, e dizia-lhes com toda a sinceridade, que também achava aquele livro muito chato. E daí , sim, minha voz se enchia de calor, ao acrescentar: “é chato, mas é muito, muito bom! O que vocês querem? Nem tudo que é de muita qualidade é comedinha de TV, pra distrair a gente ou um filme de entretenimento…” E então começava a enumerar as qualidades de obra e autor, sua contribuição para a área e o mundo. Terminava dizendo: agora vai lá, enfrenta o que há de chato, e aproveita o que ele tem de bom, que é muita, muita coisa…

Pois o que reli de nariz franzido foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Ajudou ter a edição comemorativa, linda, e ter quarenta anos de vida a mais. A parte introdutória, necessária na época, envelheceu, caducou, é insuportável. Mas o assunto do livro é uma maravilha completa, uma exposição clara, perfeita, detalhada, um olhar minucioso e isento do panorama da época. O capítulo que trata da retirada dos sobreviventes de Canudos é digno de um livro de terror de Stephen King, pelo ritmo, pela visualização, pela vida que apresenta. Moderno até demais.

Em seguida me perdi na invenção de Sir Thomas More: Utopia. Não dá para ler este livro com os olhos e o saber de hoje, precisa-se uma pesquisinha básica que contextualize a época, para se entenda melhor o que está feito ali. Mas depois, um deslumbramento só. Que homem brilhante que foi o More, barbaridade! Organizar um universo daquela maneira, com os não muito extensos conhecimentos de seu tempo, e com aquela clareza toda, me deixou de queixo caído. Passei uma semana inteirinha elogiando o livro, ninguém agüentava mais.

Na seqüência peguei Maquiavel, O Príncipe. Não me lembrava dele em absoluto, um ou outro trecho apenas, que usávamos em aula sobre recursos argumentativos (“Os que ascendem ao trono pelo crime”, se não me engano). Minha filha leu, no curso de Direito, queria discutir, mas ele estava apagado de minha memória, ou escondido sob camadas e camadas de leituras mais recentes. Outra inteligência brilhante, em retrato perfeito da política de seu tempo. E, o pior, a percepção assustadora de que o ser humano e a política não mudaram grandes coisas…

Para fechar, Cândido, do Voltaire. E muita, muita risada. Estou apaixonada por esses caras, simplesmente excepcionais – não há mais do tipo, por aí…

(publicado no Anexo, do AN, aos 7/8/2008)

2 Responses to “Os homens de ontem”


  1. 1 Júlia

    Ah, esse professores…
    Nilson Lage pediu para a aula dele a leitura desses três últimos e outros tantos.
    Confesso que também dei boas risadas lendo Cândido. Inacreditável o mestre Pangloss (é isso?)
    beijão

  2. 2 regina

    Júlia:
    foi por causa do Nilson que tive que reler essas obras, e sou agradecida a ele por isso. E ele e eu tivemos conversa em que compartilhamos o mesmo deslumbramento por este brilho e genialidade dos caras!É muito bom poder aprender com gente cheia de inteligência!
    bj.

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