Archive for December, 2007

Férias do blog!

regina-abracaoPois meus caros acompanhantes desta vida internética, o blog vai ficar livre dessa (ir)responsável escrevinhadora por uns dias, já que ela vai passar o Reveillon em Xarraguá, com os amigos queridíssimos que tem lá. Poderia fazer de lá, é claro, mas ela diz que tá precisando dum descanso.

Tou levando uma garrafa de champagne très brut, como gosto (pra me garantir! Odeio vinho suave, ou champagne suave), o maiô e DOIS frascos de bronzeador - se não chover, é piscina direto, que no vale dos três rios faz um calor dos infernos…

Na sacola, Vinte e Dois Contos Escolhidos, do Emanuel Medeiros Vieira, contista catarina (dos bons!) que mora em Brasília e teve a gentileza de me enviar um; a biografia que o Sérgio Cabral fez do Grande Otelo; O Exército Iluminado, romance de um mexicano porreta chamado David Toscana; Quem de nós - uma história de amor, do uruguaio maravilhoso que é Mario Benedetti… Muita MPB no MP3, João Bosco especialmente, e a máquina digital, brinquedo novo, na bolsa, pra garantir documentação do que houver de legal…

Mas não festejem muito, não: dia 3 estarei de volta, cheia de ânimo e de novidades…e isso é uma ameaça! E já sabem: se comportem, na minha ausência!

Um abraço bem grande pr’ocês!

Os Olhos de Sylvio Back

“Do passado volto com mãos afanando
Do futuro antecipo o imperecível.”
(Sylvio Back:Inadvertência)

Na apresentação desta autora, ao pé da página, escreve-se: escritora. Mas o grande orgulho é o de ser poeta, embora bissexta. Cada poema feito, bom ou ruim, não importa, é enviado por email para os amigos com o título: felicidade existe! E não consigo dormir sem antes ler algum poema, dos poetas mais variados, Drummond o mais percorrido, sempre, e as mulheres poetas, especialmente Hilda Hilst e Adélia Prado.

Apesar dessa paixão toda – talvez justamente por causa dela – acho difícil escrever sobre a obra dos poetas. Não admito, porém, ter tal tipo de limitação, e estou me obrigando a superá-la. Para tanto, preparo palestra e livro didático sobre a poesia atual em Santa Catarina, com um objetivo mais divulgatório do que analítico, na crença de que cada poema DIZ a si mesmo de maneira tão perfeita que nenhuma análise dará conta dele. Lembre-se aqui a repetida afirmativa do mestre Antonio Candido, de que a leitura de um poema é a soma de todas as leituras feitas sobre ele.

Minha seleção começa pelos livros de poemas do cineasta Sylvio Back, catarina de Blumenau, cujos filmes acompanho – com os percalços enfrentados pelo cinema não-comercial – desde Aleluia, Gretchen ( o longa anterior, Lance Maior, só vi muito depois, em retrospectiva de cineclube paulista). Como não me envergonho de confessar ignorância, pois a partir dessa aceitação é que se aprendem coisas novas, sequer suspeitava que Sylvio também “cometesse” seus poemas, como nós outros, membros do clube dos que se dizem, contaminados pelo vírus da palavra mordida, saboreada, perseguida, erotizada, muitas vezes também odiada…

Se saber que Sylvio Back é poeta causa estranhamento, ler seus poemas causa um estranhamento ainda maior. Um imenso susto, na verdade: o que é isso? São poemas duros, sem muita musicalidade, sem muito ritmo, na imensa maioria extremamente contextuais – poemas daquele momento, daquele sentimento, daquele cotidiano. E o que parece uma limitação acaba se expandindo e DIZENDO, por mais que o poeta lui-même se esconda atrás dessa dureza da palavra e do verso. O também poeta e jornalista Anelito de Oliveira declara, em artigo sobre o livro Eurus, que são poemas do ver, não do dizer: perfeito! Os poemas de Back são cenas montadas, rodadas, mas sem trilha sonora perceptível, e daí a perplexidade de quem os lê.

Em minhas mãos, três de seus sete livros do poemário: Moedas de Luz ( o próprio título já demonstra o que acabo de dizer, por sua nenhuma sonoridade e sua estranheza semântica), editado pela Max Limonad, São Paulo, 1988; boudoir (7Letras, Rio, 1999) e Eurus (Íbis Libris, Rio, 2006). Esta uma edição bilíngüe, com tradução dos poemas para o inglês feita por Thereza C. R. da Motta, de alguns poemas escolhidos. O livro completo é da 7Letras, Rio, 2004.

Ao se observar as datas de publicação, e lendo-se as obras na seqüência, como o fiz, podem-se notar alterações de estilo e de temática, o amadurecimento contínuo do poeta. Os poemas se tornam menos ligados ao cotidiano específico, vão se tornando mais livres, mais soltos, mais densos. Em boudoir, são poemas de cunho erótico, fesceninos em sua maioria, a que ele tem se dedicado cada vez mais.

Além desses, no formato livro, há os que estão à disposição nos sites www.cronopios.com.br e www.germinaliteratura.com.br. Em cronopios, vale a pena ler os kinopoems, por seu acabamento visual; em germina, os poemas fesceninos, que ele se recusa a aceitar sob o rótulo ali colocado de pornográficos, e protesta em artigo ali também exposto. Não quero entrar no mérito da discussão, pois se penetra em terreno de moralidade, embora tenda a concordar com ele: a arte não é terreno em que se devam aceitar ditames morais. Mas os poemas podem dizer melhor:

O desejo empurece
O verso do poeta
(fora de cena)
Pois, afinal
Amar é putear
(o desejo e o que seja)

Como não poderia deixar de ser, nem ele deixar de ser quem é, o cinema é referência constante:

antes fazendo fita
do que viver sem
Viveca Lindfors
(movie-junkie)

“Nenhum filme vale uma vida.”
(Diário de Mara VIII)

Antes que a gaze se insinuasse, foi rodando
(rondando) o derradeiro fotograma, bruxuleante.
(FIM)
“Teus filmes são os nossos filhos.”
(Diário de Mara V)

“Jamais dedique um filme a quem está vivo.”
(Diário de Mara X)

O filme
Da mente
Não mente
(demente)
(tem quem tenha visto)
24 horas depois, a imagem dela “congelava”.
(Dublagem)

E vai aparecer ainda em vários títulos:“…you only live twice…”,Film Noir, fill me (excelente trocadilho!), A propósito de Gilda, filmagem, na moviola… Alguns exemplos, apenas, dentre muitos.

As referências à morte são uma constante, seja à morte ela mesma, seja à petite mort, o orgasmo, sua forma (talvez!) mais prazerosa:

“Se eu morrer, cortem meus pulsos. Não quero
ser enterrada viva”
(Diário de Mara IV)

“Alguém que me acuda: estou de bem com a morte.”
(Diário de Mara VI)

A vida é um brinde da morte.
(E vice-versa)

Essa foi a única vez que não acabamos juntos.
(Imperdoável)

Me
masturbo
saboreando
-te
(no céu
da boca)
algas
que
nos pertenciam
(sobressalto)

E o mais significativo deles, quanto a esse aspecto:

nada mais
erótico
que a morte
nada menos
coveiro
do que
o tempo
(confidência)

Filho de pai suicida, o suicídio e o suicida acabam sendo figuras persecutórias:

feito um frio suicida
deixe sempre tudo atado
(críptico)
silêncio
hara-kiri
zen
(silenciário)

(este poema é um belíssimo jogo de imagens e contrastes, da crueldade extrema do haraquiri à serenidade do zen, impostos à voz que se cala: um curtíssima metragem que diz tudo).

E como o ressentimento é uma dor que nunca cicatriza, ele é claramente notado em poema sintomaticamente chamado de pai e Zweig (o nome do escritor austríaco sendo a única palavra escrita com inicial maiúscula em Eurus):

aos pósteros haver-se
para o que der e vier

Esta preocupação com o suicídio como temática está presente também em vários de seus filmes, a partir de Aleluia, Gretchen, quer consciente, quer inconscientemente. Lost Zweig é o mais evidente, mas eu diria que, indiretamente, ela está também em Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro, e até na luta inglória (e gloriosa!) de A Guerra dos Pelados.
Como não poderia deixar de ser, o cotidiano pessoal habita flashes:

Ainda bem que fiquei com a tua passagem
de volta.
(Previdente)

E ainda em remissões à música popular e seus instrumentos, como no título pequei-te cavaquinho, um bom intertexto. E muitas vezes em contrastes bem colocados, até na apresentação gráfica do poema:

rouco                        afônico
de                            de
tanto                        tanto
ficar                         falar
calado                      sozinho
(loquaz)                   (falaz)

Para falar de seu poemário, porém, nada melhor – continuo acreditando nisso! – do que o próprio poeta, ainda mais um com características tão próprias, para cuja fruição o leitor habitual da poesia precisa se deslocar do seu eixo do dizer para o do ver.

queimei o filme
queimei o poema
queimei se amei.
(movie-junkie)
E nada mais precisa ser dito…

(publicado do Diário Catarinense, de Florianópolis, SC. Caderno de Cultura, p. 4. 29/9/2007)

Os oráculos não morreram

“Diga ao rei isso: o templo glorioso caiu em ruínas; Apolo já não tem um teto sobre a sua cabeça; as folhas dos lauréis estão silenciosas, as fontes e arroios proféticos estão mortos.” Este foi o recado que os últimos sacerdotes do Templo de Delfos, o mais famoso oráculo de todos os tempos, mandaram ao rei apóstata que queria marcar uma consulta. E o Templo de Delfos durou séculos, com suas profecias ambíguas o bastante para estarem sempre certas…

Mas os sacerdotes erraram esta: os arroios e fontes proféticos nunca morreram, talvez porque os homens andem sempre desesperados atrás da esperança. E existem horóscopos, tarôs, búzios… e as sortes diárias no orkut. Essas são as que mais me divertem.

Vamos analisar algumas (que rodam indiferentemente de página em página):

- Você nunca vacila ao enfrentar os problemas mais difíceis… (Sou de fato pessoa decidida, apenas porque não gosto de ficar chocando problema. Mas que vacilo, vacilo, podem crer!)

- A felicidade está no horizonte da sua vida… (Puxa, preferia que ela estivesse na minha vida. O horizonte é sempre mais além, não se chega nele nunca. Desanimadora profecia!)

- Você vai ganhar roupas novas… (Disse e repito: uso M, e fico bem de amarelo!)

- O nosso primeiro e último amor é… o amor-próprio… (nem sempre, nem sempre… Às vezes precisamos abdicar dele, pra alcançar o horizonte e catar um pouco de felicidade.)

- Você terá uma velhice muito confortável… (Já estou na velhice, confesso que ela de fato está sendo confortável… e alegre. Mas isso não é uma profecia, é uma constatação).

- Há uma carta ou mensagem alegre chegando para você… (ainda não sei o que há de alegre em avisos de vencimento e cobranças,as únicas cartas que recebo… A não ser o fato de que as contas de telefone e luz foram menores que as do mês passado. Isso de fato foi boa notícia! Mas o condomínio aumentou!)

- O coração é mais sábio que a razão… (O meu, não: só faz bobagem!)

- Só prometa o que pode cumprir … (Bota aí bom senso e clichê. Odeio clichês!)

- Seus princípios valem mais para você do que dinheiro ou sucesso…(Isso é característica, não profecia. Seria melhor dizer: pela mania de achar que os princípios valem mais, você viverá entrando pelo cano…)

- Você aproveitará uma oportunidade em breve… ( Essa dói! Como resolver? Jogo na MegaSena? Me atiro nos braços do primeiro coroa que der bola? Procuro um novo emprego, que supra as deficiências da aposentadoria? Ou compro uma bicicleta? )

- Você é o charme e a cordialidade em pessoa… (Dessa eu gostei, pois concordo plenamente, é claro… Mas se for profecia, não vale, pois daí significa que não sou ainda, só que serei…)

- A vontade das pessoas é a melhor das leis… (A dos pedófilos, também? A dos assassinos ou estupradores em série, também? Essa é de assustar!)

- Você passará em uma prova de fogo que o tornará mais feliz… (Faz calor! Fogo, não! Fogo, não! E sou “o”, agora? Cruzes!)

- Você tem um novo negócio importante em fase de desenvolvimento… (Será que isso é bom? Pois deve ser algum negócio que está se desenvolvendo por conta própria, à revelia… Que será? Fiquei preocupada…)

- Você e sua mulher terão uma vida feliz… (Esta foi a que mais me divertiu! Me pôs num dilema terrível! Nunca tinha me passado pela cabeça casar com mulher, mas se for o preço da felicidade…)

Por sorte, pra safar a onça, tem comunidade do próprio orkut gozando disso: Madame Orkut é a pior…

Vou ficar velhinha!

Ai, que horror!

tava respondendo post da Keka, que foi passar as Festas lá em Campinas, SP, com a família, quando me dei conta duma coisa muito séria : aquela turma foi a última turma para a qual dei uma disciplina obrigatória! E foi em 2006/2! (que só terminou em 2007, mas …faz parte do nosso show!)

E meu pavor é o seguinte: os alunos, tão jovens, têm o mérito de nos manter jovens, também, ou no mínimo sabendo alguma coisa da variante jovem da língua, tipo assim, tá sabendo? Vou começar a falar como uma senhora da minha idade? Ai, que idéia mais horrível! Odeio os “tipo”, os “assim”, os “tá sabendo”, cês já sabem, porque os que usam já receberam bronca por isso, para se alertarem e não incorporarem nenhum bordão lingüístico. Mas o que achava legal eu ia incorporando - embora, neste exato momento, só me ocorra que foi bem fácil incorporar o “ficar puta” com alguma coisa, hehehehe… Talvez porque eu fique puta com alguma coisa de meia em meia hora, se tanto.

Daí, vejam só: faz 24 dias que não fumo; faz três dias que não bebo… (mas hoje tem um jantar de aniversário, e vai ter vinho Santa Helena, hehehe… Abstêmia pra sempre, não!) Tou me santificando!

O terapeuta tinha razão: eu tava bebendo um pouquinho além da conta pra “amaciar” a transição, mas na hora em que a superasse, eu pararia sem problemas, pois, na avaliação dele, o álcool não oferece riscos pra mim. Não deu outra: estar em casa, aposentada, já é minha rotina, não sinto falta da rotina de trabalho da ativa. Só sinto falta das pessoas, de muitas delas, mas como dizia vovó, quem é vivo sempre aparece…

O melhor de Gabo

O Gabo, ‘cês sabem, jamais me viu na vida. Mas eu falo dele assim: meu amigo Gabo… Porque amo a obra dele, leio tudo dele (seja literário ou jornalístico) e sobre ele, e não abrigo nenhuma das broncas que o chileno Roberto Bolaño desfia sobre esse tipo de literatura. É literatura de uma época, já superada, mas é linda e gostosa de ler… Eterna, por isso.

De seus romances, Gabo tem declarado, muitas vezes, que seu favorito é O Amor nos tempos do cólera. (O meu favorito, ‘cês também já sabem, é Crônica de uma morte anunciada). E ontem fui ao Iguatemi assistir ao filme O Amor nos tempos do cólera, mas meio preocupada: o filme tem que fazer jus à preferência do Gabriel García Márquez pelo romance, ele não pode ser desapontado. Parafraseando Drummond, taciturna, mas nutrindo grandes esperanças…

E tive um deslumbramento: o filme é lindo, mantém o espírito do Gabo em tudo, até no humor, naquela história que ele diz que é a história dos pais dele… E cores do Caribe, jeito do Caribe, trilha sonora ótima, sem falar dos atores. FernandaMontenegro tá fantástica, como sempre.

NÃO PERCAM!!! No Iguatemi! (tive uma boa estréia lá, como podem ver…)

Uma crônica do Amílcar!

No ano que vem, eu juro que vou mudar

Juro que, no ano que vem, serei uma nova pessoa. Não vou reclamar do governador do meu estado nem do prefeito do meu município: farei de conta que ambos têm secretários da cultura no primeiro escalão e que apóiam com entusiástico fervor as manifestações artísticas das gentes da terra, reconhecendo-lhes a importância do trabalho, e que tudo fazem para que crianças, jovens e adultos tenham acesso farto aos bens culturais, tornando-se cidadãos cada vez mais esclarecidos e conscientes da sua cidadania. É capaz que, abstendo-me de criticá-los, governador e prefeito deixem-se tocar pelas luzes espontâneas do saber e da grandeza.

Reservarei as censuras ao presidente do meu país, um sujeito que, afinal de contas, está lá muito longe (e que decerto mal vai ouvir os meus protestos, mesmo porque terá que somá-los às condenações que lhe chegarão de todos os rincões pátrios). Direi que ele, com instrução formal incompleta, fala um mau português, enquanto não me importarei nem um pouco que o presidente da maior potência do mundo, com curso superior completado de alguma maneira, fale um péssimo inglês. Aliás, nem eu me importarei nem os seus adversários, que jamais invocaram suas notórias dificuldades com a língua mãe como argumento político contra ele. Afirmarei de boca cheia, para estar de acordo com todo mundo (ainda que todo mundo não seja a maioria da população, segundo pesquisas de opinião sérias), que o presidente de todos os brasileiros fala mais erros do que português, fingindo desconhecer que muitos, muitíssimos professores brasileiros por aí afora, incluídos nesta imensa relação até professores de Português, usam o idioma cometendo erros crassos de doer ouvidos medianos e pouco exigentes.

Juro que, no ano que vem, somente lerei bestsellers estadunidenses e farei um alentado estudo para homenagear aquele que foi um excelente letrista de música, o nosso mago maior Paulo Coelho. No ano que vem, juro, somente assistirei a filmes que sejam campeões mundiais de bilheteria - o que, de quebra, me dá a vantagem de não precisar ver filme brasileiro e me livra da obrigação de ir a cineclubes. No ano que vem verei muita televisão e não perderei uma única peça de teatro com atores que saem pelo país até serem chamados para a próxima telenovela. A única exceção que farei ao consumo desenfreado da música estrangeira “de sucesso”, juro, será concedida ao Roberto Carlos, um indivíduo que não está aí para tolerar que escrevam sobre fatos - documentados - da sua vida, não se furtando a recorrer à Justiça para impedir a circulação de obras de pesquisa histórica que não lhe agradem à vaidade.

Juro que no ano que vem, neste meu meritório processo de renovação em direção ao objetivo imediato de mudar radicalmente e ser uma nova pessoa, passarei a declarar que esquerda e direita são conceitos obsoletos (aliás, apenas a direita é que faz esse tipo de proclamação, sem perguntar o que o outro lado acha disso), pois que a vida hoje é feita de sutilezas e “soluções de compromisso”. Aplaudirei o Delfim Netto (ex-ministro da ditadura e, agora, ex-deputado federal pelo partido que foi a oposição consentida pelo regime militar), que avançou nessa nova conceituação política segundo a qual todas as coisas são sempre a mesma coisa ao declarar que, “como a esquerda e a direita terminaram no buraco, é melhor ficar no centro” - como se fosse geometricamente possível existir o centro de algo que não tem extremidades.

Meu único - e grande - receio é que, como muitas resoluções de Ano Novo, estas minhas deliberações tampouco resistam ao dia 2 de janeiro. De qualquer forma, nos veremos lá, com certeza. Pelo menos para ver como é que fica.

Fujam… ou entrem, sei lá!

Cinemeira como sou, mesmo assim tenho relutado em entrar nos cinemas novos. Não fui a nenhum deles; aliás, ainda nem conheço o Shopping Floripa. Tenho ouvido elogios às salas, mas nem assim me animo: penso no cheiro de chulé do cheetos, no barulho das latas de refri sendo abertas, na gurizada gritando gracinhas, olho a programação podre, e desisto. Continuo indo ao CIC, e só. Mas com dor no coração…

E daí fiquei sabendo uma “ótima” do Cinemark, que administra as salas do Floripa: eles criaram uma sessão cult, às três da tarde. A semana passada, atraído pelo “cult” no nome, um amigo foi assistir a um filme chamado Na cama. E me ligou pra contar que o título era adequadíssimo, pois era um pornô todo passado na cama, mesmo. Na sala, ele e um casal sentado lá na frente. Pior: na hora da finalização , do bem bom, a fita arrebentou, e ninguém veio arrumar… E ele, espirituoso, declara: poxa, nem gozar se pode mais!

Ontem mais dois amigos caíram na esparrela, e foram ver um filme francês chamado Os Anjos Exterminadores. O ingresso é barato (4,00 e 2,00) e a sala é ótima. Pois é mais um pornô de péssima qualidade, (e pornô-lésbico, segundo eles, a especialização na área) com duração de 100 minutos (cruzes!) e um pingo de gente assistindo.

Contando assim, pode ser engraçado, mas há duas coisas me preocupando. A primeira, é a corrupção do termo cult, tornando-o sinônimo de pornô. A segunda, e mais séria, é que o pessoal que administra os cinemas vai acabar alegando que as sessões cult não estão atraindo ninguém, e que portanto não há razão pra mantê-las…

Bota senvergonhice nisso! Essas coisas me deixam muito indignada!

O Natal dos Sapos - 3

Primeiro, porque as cozinhas se aquecem desde cedo, preparando a ceia: mosca ao molho de nozes, estrogonoff de insetos, musse de asa de besouro, gelatina de flor de manacá - linda! - o cardápio mais caprichado do ano inteiro!

Quando chega a noite, tudo pronto e arrumado, eles vão indo pra igreja, assistir à missa, missa cantada, com suas músicas especiais num órgão de tubos de bambu, e o coral de sapinhos-cantores desempenhando ali, no capricho…

Pros sapinhos que não têm pai nem mãe, eles se lembram de fazer um presente, cozinhar alguma coisa legal, e entregam na entrada da igreja, pros sapinhos terem sua festa especial depois. Pros sapinhos que são velhinhos e estão no asilo, também; pros doentes, no hospital, também.

Os sapinhos de Verde Charco são GENTE, e gente muito fina!

Depois da missa, eles se cumprimentam na saída: FELIZ NATAL! FELIZ NATAL! E vão pras suas casas, loucos pra comer aquelas comidinhas maravilhosas, e pra saber o que vão ganhar de presente, e cantar em casa suas músicas favoritas, e ir olhar o que os vizinhos ganharam e fizeram, e…e…e… mil outras coisas.

Por causa disso, no dia de Natal eles estão alegres, mas cansados. O Sapinho Rechonchudo riu uma porção com sua gaiola de moscas na ratoeira,mas ele também tinha aprontado com o presente do sapo Rinaldo, e os dois se divertiram à beça com a peça…

E o sapinho Padre, que é esperto pra daná, marca a missa do dia de Natal pras onze horas – pra dar tempo do pessoal dormir à vontade, e chegar bem descansadinho na Igreja.

E eles já chegam se coaxando FELIZ NATAL! FELIZ NATAL, contentes da vida!

UM FELIZ THE END