Costumo dizer, leitora habitual de biografias, que quem lê biografia gosta de fofocas. E estudos recentes encaram a fofoca como um mecanismo social da maior importância, de modo que podemos assumir o gosto por ela sem grandes culpas ou vergonhas. E estou aprendendo, pelos retornos - sempre simpáticos, felizmente - às minhas crônicas, que leitor de crônica também é grande apreciador… Ficaram me cobrando: agora explica porque o nome do cavaquinho é Flávio.
Não custa nada, contarei. Mas aviso que é íntimo e pessoal…
Estou trabalhando num livro de contos, ainda sem título. Pretendo que seja composto por histórias de amores que não deram certo. Acho que são as melhores, que esses são os melhores - não se desgastaram pela rotina, pelo desamor, são casos que terminaram no “alto”, por assim dizer.
Um dos contos era autobiográfico, mas como a história real estava em curso, ainda não sabia como terminaria. Dei ao conto o título de “Um homem chamado Flávio”, que não é, obviamente, o nome real dele… Flávio e eu estávamos em crise, à beira da ruptura, e no auge da paixão. E eu ficava mal, me questionando se não conduzia o namoro para isso. Ao escrever, ia revendo o início, os primeiros momentos, descrevendo a figura dele. E ia percebendo, também, que aquele Flávio que descrevia era o homem ideal. Não que fosse perfeito, mas havia uma compreensão, uma cumplicidade, uma aceitação de defeitos entre os dois, já maduros, difícil de se achar. Uma forma de lidar bem humoradamente com a vida muito semelhante, o que deveria reforçar a relação com ele, é claro.
Mas à medida que ia escrevendo, ia acontecendo o imprevisto: o Flávio de verdade perdia o contorno, e ia me apaixonando pelo de mentira … Quando o Flávio de verdade ligava, me irritava, porque, apesar das compatibilidades todas, ele não estava de acordo com o “script” traçado para ele… Era a autora/narradora e, portanto, Deus… E estava gostando disso. Ao mesmo tempo, o Flávio de mentira tinha uma certa autonomia, se inventava, sempre baseado no de verdade, mas com toques que não são dele (escritores dizem sempre isso: personagens tomam a rédea da história, por sua própria lógica, que não pode/deve ser contrariada).
Aquilo que começara como um conto curto foi se estendendo, pois não queria me desligar dele, e vivia em função dele. Conversava com ele para inventar seus diálogos, criava e descriava as falas, começava de novo, brigava, desbrigava, tecia inserções de fatos reais, de momentos vividos. Só que também fantasiava outros…
No conto, acabava preferindo o Flávio de mentira, e me afastando do Flávio de verdade. E brincava com isso: tenho sempre em casa um Flávio à minha espera… Que só faz o que eu quero, que se comporta como desejo, o homem ideal - e podia ainda acrescentar, sendo literal da forma mais exata: é uma personagem…
Quando comprei o cavaquinho maravilhoso de que falo na crônica anterior, voltava sempre para ele, fazia carinhos nele, tinha longas conversas, muitas vezes musicais, com ele, e nada me pareceu mais adequado do que lhe dar o nome de Flávio. Muito, muito justo.
E podia continuar a fazer as mesmas observações anteriores: tenho em casa um homem chamado Flávio… Só que este, diferentemente do de mentira, foi aquela paixão de me partir o coração e fazer sangrar os dedos, um Flávio malvado e duro.
Temos então três Flávios… O namoro com o Flávio terminou; a paixão pelo cavaco jaz no reino da impossibilidade. E o conto? Ih, o conto continua inacabado!
(publicada no Anexo do AN, no dia 20/12/2007)
Últimos Comentários