Archive for January, 2008

O pequeno cajueiro

Na página do orkut da Francis, ex-orientanda do coração (todos eles são, né? Mas Francis ficou amiga-pra-sempre!).

Ela queria contar pra alguém, pois vai contar pra mais gente do que pensava…

No Natal, compramos cajus.
A castanha, em vez de torrar,
deixamos em cima da terra num vasinho preto.
Semana passada, ela se abriu
e apareceu uma folha verde retorcida ali dentro.
No dia seguinte, duas folhas
estavam em pé, do lado de fora.
Daqui a cinco anos, a pequena
terá pelo menos cinco metros.
Tudo isso tirado da terra.
Impressionante.

Não tenho blog ainda, mas queria contar a historinha pra alguém…

(Da Francis França, jornalista, que um dia vai se permitir ser cronista - texto e espírito pra isso, ela tem!)

E eu não vou à praia

Ao Flávio José Cardozo, guru de crônicas, que forneceu a pauta/ Ao Scotto, que forneceu o viés necessário

Gosto de praia, gosto muito de praia. A coisa mais legal do mundo é caminhar de manhã cedinho pela areia dura, o ar ainda fresco, muitas vezes lavado por uma chuva noturna. É maravilhoso poder cair nágua limpa, azul, nas horas mais quentes do dia.

O melhor de tudo, porém, é aquela caminhada no final da tarde, sozinha ou acompanhada, as crianças brincando ao redor, e apreciar o pôr-do-sol. É o fecho ideal para um dia agradável, e a introdução promissora para a noite que chega.

Tudo isso é muito prazeroso, mas quando se pode dar em um ambiente que se possa chamar de civilizado… O progresso é benvindo, há série de benefícios advindos do progresso, do movimento, do dinheiro rolando com mais fartura. Mas deve haver um limite, ou os malefícios acabam se tornando intoleráveis.

O litoral catarinense, de norte a sul, cada vez mais divulgado e concorrido, vê-se, então, na temporada, invadido pela mais completa e insana barbárie. (Na verdade, ela vai se mostrando um pouco ao longo do ano, pela construção acelerada, pela destruição do que havia antes, pela cegueira dos adeptos da moeda verde). E essa barbárie se manifesta de todos os lados, tanto dos turistas como dos locais. Aqueles, porque vêm pra se divertir, pra gastar, não interessa muito como; estes, porque querem ficar ricos em apenas uma temporada, e não medem as conseqüências maléficas que trazem para seu próprio futuro.

Os nativos constroem pra todo lado, abrem lojinhas, tendinhas, botequins em todo e qualquer canto, além das casinholas precárias, pousadas mal-acabadas, para ampliar seus lucros, neste ano. Os aluguéis vão às alturas. Qualquer “pé-sujo” se acha no direito - talvez até no dever! - de cobrar 4,00 reais por uma latinha de cerveja que no supermercado custa 1,35 e até nosso restaurante de praia favorito que costuma trabalhar com preços bem razoáveis o resto do ano, sofre aumentos inexplicáveis… Da última vez que veraneei em Canasvieiras, faz alguns anos, a argentina da casa ao lado me pedia pra comprar algumas coisas para ela, sabendo que era um preço pra mim, e o dobro pros “hermanos”. Eu ficava com vergonha pelos conterrâneos, e atendia com presteza. Precisa ser assim?

Isso sem contar as praias lotadas, sujas, poluídas; as festas, bares e boates com som a todo volume, raramente um tratamento acústico adequado, até a madrugada. E os transtornos no trânsito, especialmente nos dias de chuva, em que os veranistas se dirigem todos para os shoppings,e vão se afunilando, afunilando, quilômetros de pressa que não se mexe pra lado algum. E os furtos, roubos, assaltos, porque ladrão também veraneia – e fica-se sitiado no meio disso tudo.

Um amigo comentava, numa rara noite em que nos atrevemos a sair em grupo prum chopinho, e enfrentar boteco superlotado, que nós todos, moradores da Ilha e das outras cidades litorâneas, começamos a nos entocar no verão, e nos comportamos como se fôssemos habitantes do interior. “Não aproveitamos nada da temporada, e não diferimos de alguém que mora em Chapecó”, diz ele, indignado por não usufruir do que tanto ama.

O que posso lhe dizer? Se morássemos em Chapecó, nosso cotidiano seria o habitual, não ficaríamos tão revoltados… Tou com inveja, juro, dos chapecoenses!

E repito a pergunta já feita: o progresso é bom, mas não poderia ser de outro jeito? Com cautela, com calma, sem cupidez, para que o rastro de destruição não se instale em nosso futuro próximo, e não venhamos a chorar feito o rei Midas, sobre a filha petrificada em ouro…

(Publicado no Anexo do AN, 31/01/2008. p.3)

Procura-se

Procura-se

(pra Leila)

Para carência afetiva
recomenda-se
que se adote um gato
fulvo, preto, branco, amarelo
de raça, vagabundo,
não importa!
O que importa
é que se esfregue em suas pernas
se estenda em seu colo
pedindo afago
e ao recebê-lo
feche os olhos com prazer
(aquela luzinha lá no fundo)
e ronrone
e se estique
feliz…
Adote um gato
e dê carinho
e ronrone
se estique
e fique feliz.

Eu sou a lenda

Lá na Unicamp há uma tradição bem legal, criada pelos estudantes e encampada pela universidade: “a semana do saco cheio”. Nessa semana, escolhida pelos alunos, as aulas são suspensas, provas idem, e o pessoal aproveita pra fazer o que bem entender. Alguns até estudam, tem CDF pra todo lado, né?

Esta manhã fiz algumas voltas pelo centro, inclusive abrir a conta no Banrisul pra receber a grana das crônicas - o que ainda não tinha feito - e voltei pra casa cansada, e com dor de cabeça. Daí decretei que teria “a tarde do saco cheio”, e fui pro Shopping Beiramar. Andei pelas lojas, pelas livrarias, e fui à sessão das duas, assistir a Eu sou a lenda.

Tinha pensado em ir antes, mas a filha fez tal crítica negativa, que desisti. O livro, da autoria de Richard Matheson, é o meu favorito em termos de Science Fiction. Assisti às duas versões cinematográficas anteriores, preferindo especialmente a que recebeu o título de Omega Man, com Charlton Heston no papel do dr. Robert Neville. Estava curiosa pra ver as atualizações que fariam para este, com todos os novos recursos técnicos, embora ache o Will Smith meio xarope.

No livro, Neville tem mais sentimentos, mais paixão e filosofa mais sobre a questão na qual está envolvido, como o último ser humano a sobreviver. Sai nas empreitadas diurnas, matando vampiros, até que uma mulher aparece, e aos poucos lhe vai sendo revelado que há alguns que não se tornaram vampiros, por uma vacinação especial. O final é muito bom, quando, ao pesar o fato de não pertencer nem a uma espécie nem a outra, nem vampiro nem novo homem, ele é apenas o último ser humano. Na versão com Charlton Heston, o Omega Man. E ele se suicida, tomando pílulas para dormir.

Para minha surpresa, gostei muito dessa versão… até um certo pedaço. Will Smith atua direitinho, sem aqueles trejeitos todos que faz nas comédias, o roteiro é bom, a produção no capricho, mas tem um ponto em que há uma atualização mais que forçada: entram Bob Marley e suas mensagens pela paz, símbolos esotéricos feito borboletas, Deus se manifestando, e o dr. Neville se torna homem-bomba para salvar os “imunes”… Um pouquinho demax, sacumé?

Mas não estragou minha “tarde do saco cheio “, não. Me diverti bastante com o filme - gosto desse tipo de filme, ‘cês sabem - comprei um livro maravilhoso do Geneton Moraes Neto entrevistando Drummond [Dossiê Drummond, pela Globo], inclusive uma em que Drummond fala de coisas mais íntimas (Lygia, sua amante de muitos anos, estava junto) e só foi publicada agora (tem jornalista ético, né?). E ainda vim a pé do shopping até em casa, filosofando. Maravilha!

Agora sou fotógrafa!

Já sei que sou uma peça, que não existo, que sou bem maluquete, etcétera e tal…Mas é ótimo inventar moda, mesmo que engatinhando nela. Mas como diz o “velho deitado” (acho horrível essa expressão!): presunção e caldo de galinha não fazem mal pra ninguém…

Meu pai era fotógrafo amador, e em seu quarto havia sempre várias máquinas fotográficas (inclusive uma Roleiflex daquelas quadradinhas, linda!), e pilhas de revistas especializadas, importadas todas, que na época não se editava nenhuma no Brasil. Eu adorava aquelas revistas, tão bem diagramadas, com suas fotos artísticas do maior bom gosto.

Me perdoem os fotógrafos de verdade, com suas máquinas profissionais ou semi, e sua ciência toda. Mas vou me permitir brincar com minha Sony 7.2, montando ensaios temáticos, observando o mundo de outro jeito, mas sempre através do olhar, né? Sou meio “voyeuse”, mas sem sexualidade nisso…(acho…) Victor Carlson, Cristiane Fontinha, não se zanguem com a mestra, tá legal? Ela AMA a arte de vocês!

Prestem atenção: há uma nova categoria lá em cima, à esquerda, onde estarão esses primeiros ensaios. Temperadinhos com alguma literatura, é claro! O trecho que tempera este aqui é da canção GRANITO, de João Bosco, Antônio Cícero e Waly Salomão, e está no CD Zona de Fronteira.

Meme - brincadeira legal!

Do Rubens da Cunha pro Ítalo Puccini, do Ítalo pra mim.

Aí vão as respostas:

1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?

Ih, eu tinha acabado de completar 31 aninhos, e tava me sentindo a criatura mais velha do mundo, hehehe… (Não esqueçam que sou da geração que não iria confiar em ninguém com mais de 30 anos!) E agora, a caminho dos 62, me sinto jovem que só. Cuméquipode, né?

2. E em 1988, 20 anos atrás?

Criada ouvindo que “ruim com ele, pior sem ele”, pensava em me divorciar, mas temia fazê-lo - estávamos juntos desde que eu tinha 17. Pois não é que foi bem legal pros dois? Estamos bem felizes assim: eu escrevendo, como sempre quis; ele casado outra vez, com uma mulher que consegue entender… Maravilhoso, isso.

3. E em 1993, 15 anos atrás?

Eu tava começando a pensar em outra mudança na vida: passar do Departamento de Língua e Literaturas Vernáculas para o de Jornalismo. Minhas aulas era quase todas (havia semestre em que eram todas, mesmo) no Jornalismo, e eu achava que poderia “funcionar” melhor se estivesse mais próxima deles, no cotidiano. E andava entediada com o resto…

4. E há dez anos, 1998?

Já estava com o processo de mudança encaminhado, e quase no Jornalismo. Com medo, mas disposta a enfrentar os riscos, que sou pessoa desassossegada, mesmo…

5. E há cinco anos?

Mudar de departamento, de ambiente, de assuntos, foi bem complicado, mas valeu: o Jornalismo me ensinou a soltar o texto, a não ter medo de críticas, a discutir o que penso, a sentar na frente da máquina e “lead, sublead e toca ficha”… Nada daquele sofrimento atroz a que estava habituada em Letras, nem exageros de crítica: não tá bom hoje, vai melhorar amanhã; um texto é a semente do seguinte, e trazer os mecanismos azeitadinhos é o que importa, pois escrever é um mecanismo autoalimentado.

6. E hoje, 2008?

Tou fazendo o que sempre quis, mas não ousava, deixava, podia… Fazendo novos amigos, conservando os antigos que valham a pena… e vivendo, porque viver é muito bom!

Notinhas do sítio

1. O beija-flor entrou na sala três vezes no mesmo dia, e ficou se debatendo contra a vidraça. Peguei-o com cuidado, soltei-o lá fora. Como dizer do que senti, daquele coração pequeno e lindo a palpitar na minha mão? Três vezes no mesmo dia, e na terceira briguei com ele: “Olha, passarinho, gosto muito da tua visita, mas não faz mais isso, não! Podes te machucar!”

2. Ao levantar, abro a janela para um jardim de dálias, depois o pomar, e ao fundo o arvoredo, com uma araucária antiga e enorme, que me faz lembrar os quadros de que o Velho, meu avô Tito Carvalho, serrano do pé da Serra do Rio do Rastro, tanto gostava… A trilha sonora é o som do riacho…

3. No almoço, macarronada al sugo. O hospedeiro me trouxe vegetais frescos: beringela, pimentão, pepino. Fiz a beringela ao forno, com mil temperos frescos, azeite, sal, pimenta. Por cima, parmesão ralado. O resto virou salada, com aquele meu molho famoso. Maravilhosa refeição!

4. Duas horas de caminhada por dia, em duas vezes, pela manhã e no final da tarde. Pela estrada bucólica, MP3 com João Bosco, mais um capítulo do livro se gestando cá dentro. A estrada é solitária, só verde pra todo lado, raramente um automóvel, uma bicicleta, mais raramente ainda alguém a pé. Na volta, umas flores silvestres daqui, uma hortência dali, dálias dacolá: lindo vaso sobre a mesa, a alegrar leituras, escrituras, estudos. E de grátis!

5. Um bando de beija-flores rodeia as flores brancas da pata-de-vaca, álacres, velozes. Fico olhando, encantada: qual deles és tu, beija-flor cordial? Vem me visitar de novo, tou com saudades, não tava brigando a sério…

Al Di Meola

Gosto de jazz, do qual sou apenas uma curtidora, e não uma estudiosa, como na MPB. Ouvir jazz, pra mim, tem gosto de recreio, sabem como é…

Daí que tava viajando, tive que voltar antecipadamente na sexta, e Afonso (da banca ali da esquina…) tinha guardado o CD de jazz da Folha de São Paulo, como de hábito. O do domingo anterior.

Nunca tinha ouvido falar desse cara, e até fui ler o encarte, coisa que nunca faço, por achar desnecessário. É americano de New Jersey, apesar do nome ter me soado tão estranho, descendente de italianos, nascido em 1954, toca violão e guitarra, em jazz-rock e fusion.

Só daí, superado o estranhamento, fui ouvir o CD. O cara é muito bom, gamei no violão, especialmente, diria que é QUASE (mas só QUASE!) tão bom quanto João Bosco… Uma surpresa das boa, daquelas que a gente vive merecendo, mas recebe pouco, hehehe…

Na Coleção Clássicos do Jazz, da FSP, a 12,90. Nas bancas de revistas (e eu virando marqueteira, pode?). O deste domingo é Charles Mingus, que dispensa comentários…