Ao Flávio José Cardozo, guru de crônicas, que forneceu a pauta/ Ao Scotto, que forneceu o viés necessário
Gosto de praia, gosto muito de praia. A coisa mais legal do mundo é caminhar de manhã cedinho pela areia dura, o ar ainda fresco, muitas vezes lavado por uma chuva noturna. É maravilhoso poder cair nágua limpa, azul, nas horas mais quentes do dia.
O melhor de tudo, porém, é aquela caminhada no final da tarde, sozinha ou acompanhada, as crianças brincando ao redor, e apreciar o pôr-do-sol. É o fecho ideal para um dia agradável, e a introdução promissora para a noite que chega.
Tudo isso é muito prazeroso, mas quando se pode dar em um ambiente que se possa chamar de civilizado… O progresso é benvindo, há série de benefícios advindos do progresso, do movimento, do dinheiro rolando com mais fartura. Mas deve haver um limite, ou os malefícios acabam se tornando intoleráveis.
O litoral catarinense, de norte a sul, cada vez mais divulgado e concorrido, vê-se, então, na temporada, invadido pela mais completa e insana barbárie. (Na verdade, ela vai se mostrando um pouco ao longo do ano, pela construção acelerada, pela destruição do que havia antes, pela cegueira dos adeptos da moeda verde). E essa barbárie se manifesta de todos os lados, tanto dos turistas como dos locais. Aqueles, porque vêm pra se divertir, pra gastar, não interessa muito como; estes, porque querem ficar ricos em apenas uma temporada, e não medem as conseqüências maléficas que trazem para seu próprio futuro.
Os nativos constroem pra todo lado, abrem lojinhas, tendinhas, botequins em todo e qualquer canto, além das casinholas precárias, pousadas mal-acabadas, para ampliar seus lucros, neste ano. Os aluguéis vão às alturas. Qualquer “pé-sujo” se acha no direito - talvez até no dever! - de cobrar 4,00 reais por uma latinha de cerveja que no supermercado custa 1,35 e até nosso restaurante de praia favorito que costuma trabalhar com preços bem razoáveis o resto do ano, sofre aumentos inexplicáveis… Da última vez que veraneei em Canasvieiras, faz alguns anos, a argentina da casa ao lado me pedia pra comprar algumas coisas para ela, sabendo que era um preço pra mim, e o dobro pros “hermanos”. Eu ficava com vergonha pelos conterrâneos, e atendia com presteza. Precisa ser assim?
Isso sem contar as praias lotadas, sujas, poluídas; as festas, bares e boates com som a todo volume, raramente um tratamento acústico adequado, até a madrugada. E os transtornos no trânsito, especialmente nos dias de chuva, em que os veranistas se dirigem todos para os shoppings,e vão se afunilando, afunilando, quilômetros de pressa que não se mexe pra lado algum. E os furtos, roubos, assaltos, porque ladrão também veraneia – e fica-se sitiado no meio disso tudo.
Um amigo comentava, numa rara noite em que nos atrevemos a sair em grupo prum chopinho, e enfrentar boteco superlotado, que nós todos, moradores da Ilha e das outras cidades litorâneas, começamos a nos entocar no verão, e nos comportamos como se fôssemos habitantes do interior. “Não aproveitamos nada da temporada, e não diferimos de alguém que mora em Chapecó”, diz ele, indignado por não usufruir do que tanto ama.
O que posso lhe dizer? Se morássemos em Chapecó, nosso cotidiano seria o habitual, não ficaríamos tão revoltados… Tou com inveja, juro, dos chapecoenses!
E repito a pergunta já feita: o progresso é bom, mas não poderia ser de outro jeito? Com cautela, com calma, sem cupidez, para que o rastro de destruição não se instale em nosso futuro próximo, e não venhamos a chorar feito o rei Midas, sobre a filha petrificada em ouro…
(Publicado no Anexo do AN, 31/01/2008. p.3)
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