Archive for February, 2008

E todos são Tito…

(Pra Roberta, atendendo a seu pedido! Tá bom desse jeito?)

Cada família tem uma característica ou uma coincidência que lhe é própria, né? Na minha, pululam os Titos.

Meu avô paterno se chamava Tito Carvalho (Tito Lívio Gomes de Carvalho), nascido em Orleans, ali no pé da serra do Rio do Rastro, e era jornalista e escritor. Meu avô materno se chamava Tito Gevaerd (Tito Vieira Gevaerd - os Vieira, açorianos; os Gevaerd, belgas, e sim, os Gevaerd somos todos parentes), e era marítimo da companhia Hoepecke de Navegação. Tenho um primo chamado Tito, e um cunhado cujo apelido é Tito…

Nenhuma semelhança entre eles todos, além do nome. O Tito Carvalho era homem culto, que lia em várias línguas, desenhava e pintava muito bem (herdei um pouco de sua habilidade pra escrever, não a de desenhar, infelizmente…). Amigo dos amigos, por quem seria capaz de dar a vida, e acho que isso também herdei dele. Aliás, muitas vezes me assusto com o quanto sou parecida com ele, até no temperamento. Segundo a família, eu era a neta favorita, mas ele não deixava transparecer, de tanto que brigava comigo e me exigia coisas, o que me fazia pensar que não gostava muito de mim… Foi aluno do Colégio Catarinense, colega de turma do Celso Ramos, que mais tarde foi governador do Estado, e Celso me reconhecia na rua como “a neta do Tito”, por causa do nariz, da testa e das sobrancelhas, iguaizinhos aos do teu avô, dizia ele…

O Tito Gevaerd era homem simples, semi-analfabeto, e me chamava de Gininha - a única pessoa no mundo a me chamar assim…(Inácio me chama de Gigininha, não é a mesma coisa!). Mané da Ilha, nasceu e se criou no Itacorubi, e contava histórias da Ilha, de bruxas e “lambisômis”, que povoaram minha infância desse imaginário que Franklin Cascaes reproduziu tão bem. Como andou embarcado durante a Guerra - a Segunda, seus! Não foi na do Paraguai! - tinha medalha de herói de Guerra, e contava histórias de navios afundados por submarinos alemães, de recolhimento de náufragos, de muito medo e muito susto… Coisa engraçada, da qual só agora me dou conta: em sua simplicidade, era também um contador de histórias, e ajudou a forjar essa Regininha que vocês conhecem.

Ele tinha rotacismo, não conseguia pronunciar o “l”, substituindo-o pelo”r”, e isso fazia as delícias de muitas pessoas. Contava que, quando tinha sentado praça na PM, o sargento fazia com que ele pronunciasse “arma”, mostrando o fuzil, e queria que dissesse “alma”, em seguida. E ria: o Tito não distingue a alma da arma…

O vô Gevaerd era de antes da construção da Ponte Hercílio Luz, e contava como se transportava o gado nos barcos, de e para o continente, e de como isso podia ser assustador, quando caía vento forte e o mar estava picado.

Contava ainda de como vinha lá do Itacorubi a pé, por uma picada no meio do mangue (onde hoje é a avenida da Saudade), para aprender a ler e escrever com uma professora ali no bairro da Penitenciária: pra sua família, bastava que os filhos soubessem ler, escrever e fazer as quatro operações, e a educação formal estava completa. Ria muito ao lembrar que, na casa da professora, ao lado da sala de aula, havia um quarto sem janelas onde punham os cachos de banana pra amadurecer, e era ali que ela fazia os alunos rebeldes ficarem de castigo. Assim, quando batia a fome, eles aprontavam alguma, e iam felizes pro quartinho, atacar as bananas…

Eram aulas particulares, na verdade:cada aluno pagava um tostão por mês, e não faço a mínima idéia do valor do tostão, nem sei se o vô fazia… Dava como exemplo de coisa barata, apenas isso. E parece que a educação continua sendo encarada assim, né? Como se qualquer um pudesse ser professor, e nenhum merecesse o estímulo de um bom salário…Coisa mais triste, sô!

Ficar triste

Tristeza não tem fim/ felicidade, sim, diz Vinicius, em canção famosa, intitulada “Felicidade”…

Pois Heitor leu minha crônica Ser feliz, e resolveu me pedir que falasse da tristeza, provavelmente por ele mesmo estar triste, naquele momento, e não entender muito bem minha alegria toda. Achei que cabia, só duvido da minha capacidade de fazê-lo, sou sincera ao dizer.

O que acho que seja tristeza? Já passei por muitas, como todo mundo, e há montes de coisas que me deixam triste. Não por muito tempo, felizmente …. Então não vou falar de ser triste, mas de estar triste ou ficar triste, das coisas da vida ou do mundo que me deixam assim.E são muitas, e são tantas…

Fico triste quando interpretam com maldade alguma coisa que eu tenha dito por brincadeira, pois levo as brincadeiras às últimas conseqüências, e me divirto com ambigüidades e malicia – sou dessas pessoas que perdem o amigo, mas não a piada;

Fico triste quando vejo amigo triste, enrolado com problemas que não consegue resolver, de mal com os outros e consigo mesmo;

Fico triste quando vejo gente sem rumo na vida, batendo cabeça, sem se achar , sem coragem de procurar alternativas, sem possibilidades de achá-las;

Fico triste com o mangue poluído, ocupado, cheirando horrorosamente, e lembro que ali se reproduzia muita espécie marinha, especialmente o camarão, e agora só há sacos plásticos, garrafas, lixo e o deságüe de esgotos clandestinos e casas e shoppings;

Fico triste quando vejo ou ouço proselitismo de qualquer espécie, pessoas tão autoritárias que se acham donas da verdade e acreditam que deve haver só uma fé, um só pensamento ou um só comportamento na sociedade humana;

Fico triste quando vejo gente mentindo, se escondendo em falsidades, sendo hipócrita;

Fico triste com as pessoas absorvendo a atual cultura do medo, sem nem perceber que estão fazendo isso, esquecendo que a notícia é formada, normalmente, por fatos desagradáveis, e a imprensa tenta alertar para eles, mas não assustar tão cabalmente ;

Fico triste com as injustiças da vida, com crianças sofrendo, com fome, miséria, guerra, violência, fundamentalismo de qualquer espécie, preconceito, dor;

Fico triste quando converso com alguém que só encontra aspectos sórdidos nas outras pessoas, e mesmo nas mais generosas só encontra razões mesquinhas;

Fico triste quando vejo as pessoas que nos ajudam , nos servindo de alguma maneira, sendo olhadas como se fossem transparentes, sem nome, sem identidade, de tal maneira que podem ser destratadas por qualquer motivo;

Fico triste com o machismo, com aqueles homens que acham que as mulheres são inferiores, menos inteligentes, menos aptas, e não passam de objetos a serem consumidos, ou que existam apenas para servi-los;

Fico ainda mais triste com o machismo embutido nas mulheres, e vejo que elas mesmas se acham inferiores, menos inteligentes, menos aptas, e se tratam a si mesmas como objetos a serem consumidos, ou que existem apenas para servir a algum amo e senhor…

Pode-se ver, pois, que não me faltam razões fortes e cotidianas que me tirem do sério – e meu “sério”, aqui, é a capacidade da alegria dos fatos simples, de ver que os filhos estão bem, que os amigos crescem com a vida e são felizes, que há gente generosa e competente, que podemos ter esperança no amanhã, que há perspectivas na vida.

Acredito, e faço questão de continuar acreditando nos versos de Oswald de Andrade: “a alegria é a prova dos nove”.

Assim seja, AMÉM!

Acesse o blog: http://coisasderegininha.ciberarte.com.br

hipócrita;

Fico triste com as pessoas absorvendo a atual cultura do medo, sem nem perceber que estão fazendo isso, esquecendo que a notícia é formada, normalmente, por fatos desagradáveis, e a imprensa tenta alertar para eles, mas não assustar tão cabalmente ;

Fico triste com as injustiças da vida, com crianças sofrendo, com fome, miséria, guerra, violência, fundamentalismo de qualquer espécie, preconceito, dor;

Fico triste quando converso com alguém que só encontra aspectos sórdidos nas outras pessoas, e mesmo nas mais generosas só encontra razões mesquinhas;

Fico triste quando vejo as pessoas que nos ajudam, nos servindo de alguma maneira, sendo olhadas como se fossem transparentes, sem nome, sem identidade, de tal maneira que podem ser destratadas por qualquer motivo;

Fico triste com o machismo, com aqueles homens que acham que as mulheres são inferiores, menos inteligentes, menos aptas, e não passam de objetos a serem consumidos, ou que existam apenas para servi-los;

Fico ainda mais triste com o machismo embutido nas mulheres, e vejo que elas mesmas se acham inferiores, menos inteligentes, menos aptas, e se tratam a si mesmas como objetos a serem consumidos, ou que existem apenas para servir a algum amo e senhor…

Pode-se ver, pois, que não me faltam razões fortes e cotidianas que me tirem do sério – e meu “sério”, aqui, é a capacidade da alegria dos fatos simples, de ver que os filhos estão bem, que os amigos crescem com a vida e são felizes, que há gente generosa e competente, que podemos ter esperança no amanhã, que há perspectivas na vida.

Acredito, e faço questão de continuar acreditando, nos versos de Oswald de Andrade: “a alegria é a prova dos nove”. Assim seja, AMÉM!

(publicada no Anexo do AN, no dia 28/02/2008.p.3)

Outra paixão argentina…

Esta, porém, está radicada em Montevidéu, do outro lado do Prata, há muitos anos. Chama-se Carlos María Domínguez. É , além de escritor, jornalista e crítico literário.(Ítalo, tá indo pra ti! Vais adorar!) Vejam outro começo inesquecível:

” Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.

” Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O tigre da Malásia e se transformaram em professores de literatura em remotas universidades. Sidarta levou milhares de jovens ao hinduísmo, Hemingway transformou-os em esportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi sua vítima.

” Mas não a única. O velho professor de línguas antigas Leonard Wood ficou hemiplégico ao receber na cabeça cinco tomos da Enciclopédia britânica, que se soltaram de sua prateleira; meu amigo Richard quebrou uma perna ao tentar alcançar Absalão, Absalão!, de William Faukner, mal localizado numa prateleira que o levou a cair da escada. Outro amigo de Buenos Aires pegou tuberculose nos porões de um arquivo público e conheci um cachorro chileno que morreu de indigestão com Os Irmãos Karamázov, depois de devorar suas páginas numa tarde de fúria.

“Cada vez que minha avó me via ler na cama, costumava dizer: “Deixe disso, os livros são perigosos”. Durante muito anos acreditei em sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez de minha avó alemã.”

Dá pra resistir?

(A casa de papel. trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: Francis, 2006. p.9-10)

Brincar de cachorrinho…

(Por razões óbvias, não vai pro jornal. Mas vale  a pena ver de novo, pois daria  uma crônica muito divertida! E, como já disse aquele rei francês, honni soît qui mal y pense!)

Brincar de cachorrinho

Na crônica da semana passada, fez grande sucesso o item sobre brincar de cachorrinho. Me mandaram proposta (de brincadeira, é claro!)  de dar uma Oficina sobre isso, e montes de perguntas, pedindo esclarecimentos. Muita malícia e duplo sentido rolando, sem dúvida… Mas ficou muito divertido, e divido com vocês.

Pergunta 1: Fessora, a senhora poderia vir dar, aqui em nossa cidade, uma Oficina de brincar de cachorrinho?

Resposta 1: Primeiro vou treinar bem direitinho, estudar todas as possibilidades,com mordidas e sem mordidas, e depois monto oficina no capricho!Com osso e sem osso…Faz um bem danado pra coluna, fiquem sabendo! E deixa a gente num bom humor danado!

Pergunta 2:  No caso específico de brincar de cachorrinho, os ossos do ofício fazem parte?

R2: Em qualquer brincadeira, os ossos do ofício são sempre a melhor parte…

P3: Esse lance do cachorrinho é tipo assim em grupo ou a gente só brinca com outro cachorrinho de cada vez?

R3: Já pensei no assunto, mas brincar de cachorrinho em grupo, pra seguir tradição “cachorral”, exigiria vários cachorrinhos e uma cachorrinha só, né? Complicado! As cachorrinhas não gostam muito, não!

P4: No caso de você vir dar a oficina, temos que nos vacinar contra a hidrofobia antes? E focinheira, é pra levar?

P4: Os adeptos da versão “com mordida” devem tomar vacina, sim…Os outros ficam dispensados. Quem pode se divertir, usando focinheira? Focinheira fora!

P5: A professora tem pedigree? Usa coleira igual à que Luma de Oliveira usou uma vez?

R5:  A professora tem pedigree que vai ao mil avô; só não pode usar coleira, porque é de raça sem pescoço…

P6:  A professora tem pulgas, ou é limpinha?

R6: A professora não tem pulga, não, mas de vez em quando arranja algum cachorrinho pulguento, porque gosta de ter pulga pra se coçar.
P7:Cachorro molhado pode entrar na sala?

R7: A professora tem faro apurado, e não agüenta cheiro de cachorro molhado. Eles têm que estar secos, limpinhos e cheirosinhos.
P8: Vão usar lingüiça para amarrar os cães desobedientes?

R8: Amarra-se com lingüiça… e lingüiça de Blumenau, daquela especial, é claro, que é a mais mió;
P9: Quem estiver com a famosa tosse de cachorro pode participar?

R9: Depende da tosse: se for intermitente, brinca-se nos intervalos; se for contínua, impossível…

P10: O nado cachorrinho será um módulo à parte? Nesse caso,  vai ser em piscina ou em mar aberto?

R10: Nado de cachorrinho - ou qualquer outra atividade aquática - foge à especialização da fessora; ela nada cachorrinho, é claro, mas não fez curso de salva-vidas, e não sabe o que fazer, se alguém muito entusiasmado  se atrapalhar e engolir água.

P11: O que será feito com os alunos cachorros que estiverem no mato sem dono?

R11: Os cães sem dono são ótimos: são carentes e carinhosos, ótimos guardas, e serão benvindos; mas os perdidos no mato vão ter que vir limpinhos, sem pulgas, carrapatos ou carrapichos.
P12: Vai ser feita alguma performance com aquele rap que diz assim: ” Só as cachorras!”?

R12: A trilha musical é variada: vem de O Cachorrinho do Lalau,que late em Bossa Nova; passa por Waldick Soriano (Eu não sou cachorro, não), maravilha da música brega, e chega ao funk, glória de todas as cachorrinhas delicadas e de bom gosto…
Aviso importante: pitbulls são ilegais! São ligados demais em mordidas, e não se controlam!A fessora não aprecia brincadeira que acaba em hospital!

(com agradecimentos especiais à Roberta da França, que pôs pilha, e à Fátima de Laguna, colaboradora essencial).

Não há bom humor…

… que resista!

Os professores da UFSC ganhamos, na Justiça, em 1991, o direito a receber os 26,05% do Plano Verão, criação do Governo Sarney.

Na época, a sentença mandava até incorporar os ganhos ao salário, o que não foi feito. A sentença foi dada como tendo transitado em julgado, mas era brincadeirinha, naturalmente…

Os professores que ingressaram na universidade depois disso jamais conseguiram a isonomia com os colegas que lá já estavam e até se atribuem a jocosa denominação de des-URP-ados…

E temos sido submetidos, ao longo dos últimos anos, a uma terrível provação: vão cortar a URP este mês, no seguinte, no outro…No montante do salário, o índice não alcança os 26%, diminui um pouco. De toda maneira, é horrível receber um benefício por mais de 17 anos, e de repente ver a (IN) Justiça do Trabalho negar um princípio que a tem norteado sempre: alguma quantia recebida pelo trabalhador durante um certo período acaba por se incorporar ao orçamento familiar, não podendo nem devendo ser-lhe retirada. E, convenhamos, 17 anos não são 17 dias…

Isso sem contar que 50% dos atrasados da URP nos foram pagos, mas os outros 50%, já depositados pela UFSC na Caixa Econômica Federal, lá repousam, à espera do final desse imbroglio todo…

Há uma certa esperança de que os aposentados mantenham isso no salário, já que contribuíram com essa quantia por tantos anos, e ela entrou no cálculo do que percebem, mas é uma interpretação, não é uma certeza.

A indignação campeia entre os professores, com justa razão: o Governo não tem concedido aumento, a Justiça nos prejudica como pode, e os colegas “desurpados”, cuja única esperança de ainda verem estes 26,05 chegando a seus salários seria de que os mantivéssemos, podem se despedir dela…

Não fui só eu!

Do blog do Sérgio Rodrigues (todoprosa.com.br) :

Começos inesquecíveis: Tomás Eloy Martínez
eloymartinez.jpgPouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz.

O homem dormia de boca aberta e, quando ele adentrava o cone de escuridão onde pairavam os sonhos, uma manada de gatos saía de sua boca rasgada por berros de cio e mergulhava no rio dos engenhos de açúcar.

Minha paixão argentina

“Pouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sonho de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gatos movendo-se entre tições de negra luz”.

Dizem que o romance conquista o leitor pelo primeiro parágrafo, como se fosse um lead. Quem diz isso cita inícios, e há uma coisa engraçada neles: os melhores deles são mesmo leads, ou pelo menos seguem seu jeito e sua filosofia. Dois exemplos lapidares: A Metamorfose do Kafka, e Crônica de uma morte anunciada, do Gabo. Mas este início do último romance de Tomás Eloy Martínez, argentino de Tucumán, também nos pega pelo pé…

Sou declaradamente fã dos romancistas argentinos, e dizer isso me vale protestos de alguns leitores nacionalistas, como se eu estivesse depreciando - ou nem lesse - os autores brasileiros.Sim,tranqüilizem-se, leio, acompanho, aprecio. Tezza, Hatoum, Ruffato, Garcia-Roza, Tony Belotto são os favoritos, no momento. E Machado sempre, relido e treslido, e os poetas todos! Mas tenho tempo e paixão para ir para outras nações e outras realidades, também, façam-me o favor!

Dos argentinos, o preferido é Tomás Eloy Martínez, que acompanho pelas traduções que saem. Atualmente com 74 anos, Martínez tem trajetória interessante. Jornalista, filia-se à Fundación del Nuevo-Periodismo Iberoamericano, com García Márquez e outros novos jornalistas de renome. Professor universitário, leciona na Rutgers University, em New Jersey, onde também chefia o Departamento de Estudos Hispano-Americanos. Foi exilado político, na época da ditadura militar que campeou pela Sudamérica. Há alguns anos, ele e sua mulher corriam por uma estrada em Nova Jérsei, quando foram atropelados por um caminhão. A mulher, uma ensaísta venezuela de prestígio, morreu. Martínez sobreviveu, mas, além das mazelas físicas, enfrentou grave depressão.

Devia à editora brasileira Objetiva um romance para a série Sete Pecados Capitais, com o tema da Soberba. Por estar sem condições, atrasou a entrega, mas quando conseguiu terminar, o que nos chegou valia a espera: O Vôo da Rainha, em que aproveita o assassinato passional cometido pelo jornalista Pimenta Neves, d’O Estadão, ficcionalizando-o.

Dele eu tinha lido antes O Romance de Perón e Santa Evita, magistrais obras que tratam de fatos históricos do país vizinho. Apesar de tomar liberdades com a história e com o tema, ainda está muito ligado, no estilo, ao jornalístico. Daí veio O Cantor de Tango, que explora a lenda urbana, não sei se real, de haver um cantor de tango, meio clandestino, em Buenos Aires, que cantaria melhor que Gardel. Um estilo completamente diferente, num livro bom demais.

Agora sai tradução de A mão do amo, de 1991. Uma surpresa e tanto! Outro jeito, outro estilo, num relato onírico que sobressalta, conduzindo ao clima de pesadelo, e lembra O Gato Preto do Poe, num ambiente onde pululam os gatos: atores e motivo. Estou no meio, mas não vou agüentar NÃO FALAR nele. Me aguardem!

(A mão do amo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. tradução de Sérgio Molina.)

Ensaio fotográfico: Araucárias

( homenagem ao amigo Guido Wilmar Sassi, amada e desbocada criatura, que já se foi… Um inesquecível amigo velho!)

” O pinheiro podia ser considerado um membro da sua família, um amigo velho e querido que deixava de existir. Aquela árvore estava ligada à sua pessoa com laços muito fortes: os laços da amizade, do costume. Desde pequenino ele se habituara a brincar à sua sombra, a vê-la carregar-se de grandes pinhas e a saborear-lhe os pinhões. Todos os invernos, bandos de maitacas em alarido vinham pousar nos seus galhos, à procura das sobras que porventura houvesse. Mas a família de João Onofre não deixava nada para as aves; limpava tudo. Era tão fácil conseguir alimento: bastava trepar pelo tronco onde os talhos de facão, feitos para facilitar a subida, já haviam cicatrizado, e então, lá de cima, fazer rolar as pinhas e debulhá-las. Era como que uma despensa, bem pertinho da casa, onde a comida estava armazenada com fartura.”

(IN-: Amigo Velho. 4a. ed. Porto Alegre: Movimento, 2005. p12-3)

Confira neste link o ensaio.