(Pra Roberta, atendendo a seu pedido! Tá bom desse jeito?)
Cada família tem uma característica ou uma coincidência que lhe é própria, né? Na minha, pululam os Titos.
Meu avô paterno se chamava Tito Carvalho (Tito Lívio Gomes de Carvalho), nascido em Orleans, ali no pé da serra do Rio do Rastro, e era jornalista e escritor. Meu avô materno se chamava Tito Gevaerd (Tito Vieira Gevaerd - os Vieira, açorianos; os Gevaerd, belgas, e sim, os Gevaerd somos todos parentes), e era marítimo da companhia Hoepecke de Navegação. Tenho um primo chamado Tito, e um cunhado cujo apelido é Tito…
Nenhuma semelhança entre eles todos, além do nome. O Tito Carvalho era homem culto, que lia em várias línguas, desenhava e pintava muito bem (herdei um pouco de sua habilidade pra escrever, não a de desenhar, infelizmente…). Amigo dos amigos, por quem seria capaz de dar a vida, e acho que isso também herdei dele. Aliás, muitas vezes me assusto com o quanto sou parecida com ele, até no temperamento. Segundo a família, eu era a neta favorita, mas ele não deixava transparecer, de tanto que brigava comigo e me exigia coisas, o que me fazia pensar que não gostava muito de mim… Foi aluno do Colégio Catarinense, colega de turma do Celso Ramos, que mais tarde foi governador do Estado, e Celso me reconhecia na rua como “a neta do Tito”, por causa do nariz, da testa e das sobrancelhas, iguaizinhos aos do teu avô, dizia ele…
O Tito Gevaerd era homem simples, semi-analfabeto, e me chamava de Gininha - a única pessoa no mundo a me chamar assim…(Inácio me chama de Gigininha, não é a mesma coisa!). Mané da Ilha, nasceu e se criou no Itacorubi, e contava histórias da Ilha, de bruxas e “lambisômis”, que povoaram minha infância desse imaginário que Franklin Cascaes reproduziu tão bem. Como andou embarcado durante a Guerra - a Segunda, seus! Não foi na do Paraguai! - tinha medalha de herói de Guerra, e contava histórias de navios afundados por submarinos alemães, de recolhimento de náufragos, de muito medo e muito susto… Coisa engraçada, da qual só agora me dou conta: em sua simplicidade, era também um contador de histórias, e ajudou a forjar essa Regininha que vocês conhecem.
Ele tinha rotacismo, não conseguia pronunciar o “l”, substituindo-o pelo”r”, e isso fazia as delícias de muitas pessoas. Contava que, quando tinha sentado praça na PM, o sargento fazia com que ele pronunciasse “arma”, mostrando o fuzil, e queria que dissesse “alma”, em seguida. E ria: o Tito não distingue a alma da arma…
O vô Gevaerd era de antes da construção da Ponte Hercílio Luz, e contava como se transportava o gado nos barcos, de e para o continente, e de como isso podia ser assustador, quando caía vento forte e o mar estava picado.
Contava ainda de como vinha lá do Itacorubi a pé, por uma picada no meio do mangue (onde hoje é a avenida da Saudade), para aprender a ler e escrever com uma professora ali no bairro da Penitenciária: pra sua família, bastava que os filhos soubessem ler, escrever e fazer as quatro operações, e a educação formal estava completa. Ria muito ao lembrar que, na casa da professora, ao lado da sala de aula, havia um quarto sem janelas onde punham os cachos de banana pra amadurecer, e era ali que ela fazia os alunos rebeldes ficarem de castigo. Assim, quando batia a fome, eles aprontavam alguma, e iam felizes pro quartinho, atacar as bananas…
Eram aulas particulares, na verdade:cada aluno pagava um tostão por mês, e não faço a mínima idéia do valor do tostão, nem sei se o vô fazia… Dava como exemplo de coisa barata, apenas isso. E parece que a educação continua sendo encarada assim, né? Como se qualquer um pudesse ser professor, e nenhum merecesse o estímulo de um bom salário…Coisa mais triste, sô!
Pouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz.
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