Dennis retrabalhando Gregório:
À Inconstância
das Coisas desse Mundo
nasce o Sol e some brusco no soneto
sem nenhum dos decassílabos de heróis
nem cesura ou rimas raras em bemóis,
versos brancos entre negros no Soweto.
se de Luz a sua cruz, por que a chaga?
como o Metro a sua língua enclausura?
como foi sua Razão mudar-se em burla?
se é um ser de Forma Fixa, por que vaga?
pois no Sol e sua Luz falta grandeza
dessa sky-line de Xangai, insolente,
que escarnece Nova York e a natureza,
antes nasce do que o Sol e para sempre
com sua forma fixa e rara, na certeza
da firmeza desse World Trade Center.
Gregório de Matos Guerra:
MORALIZA O POETA NOS
OCIDENTES DO SOL A INCONSTÂNCIA
DOS BENS DO MUNDO
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Dennis Radünz: a poesia em estado de perfeição
Tem poeta de todo o tipo, como tem todo o tipo de pessoa: tem poeta careta, tem poeta junkie, tem poeta avançado, erudito, simples…Tem aqueles que alguém diz que não são poetas, mas simples “versejadores”… Não são dos piores, não, ao menos têm alguma noção de poesia, têm espírito de poeta. E Dona Poesia é mãe generosa, a todos acolhe em seu fecundo ventre e oferece seus fartos e generosos seios. Só não dá pra agüentar poeta ruim e que se acha o máximo…E eles existem aos montes, por aí: põem uma frase embaixo da outra, e acham que fizeram um poema… Estão estuprando Dona Poesia, e nem se dão conta disso, o que é pior.
Dennis Radünz corteja o universo do erudito; é o universo do qual, declaradamente, gosta mais. Mas não corteja só o erudito, corteja também a perfeição, uma senhora já não tão generosa como a Poesia… Por esta razão, em dez anos, três livros: Exeus (EdUFSC/Letras Contemporâneas, 1998); Livro de Mercúrio (Letra d’Água, 2001) e Extraviário (Letra d’Água, 2006). Todos têm um projeto gráfico muito apurado, todos muito bonitos, em que o visual é explorado na sua relação com a significância, e adquirem valor semântico dentro da obra, no seu total e em cada parte delas. E há ainda poemas seus no site www.mafua.ufsc.br
Nascido em Blumenau, em 1971, Dennis é mais que poeta: é também cronista do DC, às segundas-feiras, com aquilo que chamou de Jornalirismo. Começou muito presunçosamente, fazendo crônicas repletas de uma literatice meio absurda e obscura, que não honrava o gênero modesto que é a crônica. Aos poucos, foi se adequando a ele, e hoje continua sendo cronista, um gênero nada fácil de ser feito com qualidade - e ele sem dúvida chegou a um ponto em que não abdicou de suas idéias iniciais, mas conseguiu um meio termo, adequando meio e texto. Além disso, é um performer de primeira qualidade, e não há nada mais bonito que vê-lo DIZER um poema, seu ou alheio, com aquela voz privilegiada e calma com a qual foi dotado pela natureza, esta uma senhora não muito justa: uns com tanto, outros tantos com algum, mas a maioria, sem nenhum, como canta o poeta popular…
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção, nos livros de Radünz, foi o ecletismo de suas epígrafes. Começa com Joyce (A child is sleeping:/an old man gone/ O, father forsaken/Forgive your son!) e passa por Cioran, Vitor Ramil, Girondo, D. Dinis, uma canção dos Goliardos, referências à música de Stockhausen, Lou Reed… E isso demonstra claramente a diversidade de interesses do Autor, que é muito grande inclusive nos assuntos científicos de todas as áreas, chegando a fazer, em Exeus, poemas experimentais com o emprego de números. E um belo poema visual, “Exumação”. E, como diz Lindolf Bell na apresentação, Dennis “propõe uma ilimitada investigação da palavra: polir, deflagrar, desfazer, religar, decifrar, celebrar, podar, plirupartir.”
Se não, vejamos:
(chamam-me dennis;/ não os chamo exagerados)
Mimese
Dennis é antropônimo derivado de Dionísio, significando servo de Dionísio. Nada mais adequado, pois, que alguém com tal nome nele anteveja seu destino!
Tenho reconhecidamente um fraco pelos poemas metalingüísticos:
METAPOESIA
I
o fonema / fabula / e se fia/ na fábula / encadeia asas
II
o poema / incende/ insula / música / em miniatura
ULISSES PRÓDIGO
olhar de ida hidra / na clepsidra ilhar/ (de ítaca a circe)/a ira de ir-se/andar/ilhas/
andar a esmo/ o sal semear/ cisma de arar/ amaras sendas
Um do seus interesses, que na área cultural são muito intensos, e servem para alimentar uns aos outros, também se faz presente aqui:
TEATRO
( Quoth the raven: Nevermore
Edgar Allan Poe )
ente sem uso / o poema parece / estenografia /de deus/ abala-se a ara / o poema perece
ala-se em asas / de alvenaria
E mesmo o poema que parece falar de amor, usando a palavra “vir” tanto no seu sentido de verbo, como no da origem latina, o de “varão”, acaba se mostrando mais que isso, e homenageando Prometeu e seu mito:
r e s s u r r e i ç ã o
eu vivo / a alma a vir / pois amar / (é) fazer passar o fogo/ de mão em mão
POEM
açuda-se o solo / na solidez da água/ aram-se / (da aquosidade / à metáfora) / alma
acudam-nos selo / endereço / casa / casulo da metáfora: / morre a larva
Anamnese
O poeta é o cego que, de repente, vê
E o amor pela Ciência em seu sentido maior transparece, unindo o que é exato ao que é incerto, ambíguo, indeterminado, a Linguagem:
CIÊNCIA DE FICÇÃO
salvaguardo no guardado de salvados / um chumaço dos curativos ao contrário / uns tufos de inchaços bem imêmores / os invernos duma lágrima sem farmácia // conseqüência não me causa mais efeito / (o princípio dessas margens de hipótese) /
(o sereno das sirenes sem alarme) / (o espelho meu inteiro no grau máximo) // mas a chuva não me custa as horas mortas / em procuras pelas águas prematuras / eu dedilho dois tufões ainda filhotes / deixo vago o meu lugar para tormentas
DESVIO PARA O DILÚVIO
En el centro incólume del aguacero un pájaro cantando
- josé kozer
o ar baldio da chuva, às vésperas de abril, / as vértebras vasculha, vibra então as vísceras, /os tímpanos e as têmporas e os hímens do vazio
(PRIMEIRA PROVISÃO)
o nado é urgentíssimo / na travessia do sinal // o sol sem serventia – ventanias / se esfoliam no escuro da água falsa / e a cegueira as desossa: lascas / da lua fria nos alvéolos dessa rocha //
ar bravio estronda e estira-se o estio / nos rasos do baixio da gávea de vigília:/ eu, sem mais nenhum brevê de vida
(NENHUMA PROVISÃO)
o ninho às escondidas / no colo do temporal
Um de seus poemas mais reproduzido vem de Extraviário e é justamente o que tem a epígrafe de Reed. Mas não é isso que lhe causa a popularidade:
ÚLTIMA EPÍSTOLA AO IMPÉRIO
Manhattan’s sinking like a rock (…)
They said it was like ancient Rome.
lou reed
e a víbora da raiva – rápida – vibra em toda a relva, / talvez vestal, talvez, às vezes, máquina, / rebenta desde o centro o esconderijo do seu núcleo, /desmembra em torno o mundo e destroça / a linha-destra do destino e é como se estirasse, / rasgada de oleodutos, trânsitos, discursos,/ a escama da sua carne, carne-sem-sol, o sol à solta/ –
arrasta pelo ermo o turismo de desastres/ nessa indústria do destroço, no rastilho sem a órbita / a serpe do império – talvez o império serpe
Nele se nota, de maneira ainda mais visível, o gosto pelo musical que há na palavra, e não admira, pois, que vários de seus poemas tenham sido musicados. A maioria deles está no Livro de Mercúrio, e desses que brincam com as sonoridades e com sua semântica, reproduzo dois:
O AFOFIÉ E O ADARRUM
o afofié difícil e ínfimo e finíssimo / - arbusto de samba e de bossa: bonsai de sons /-
se drum-drum-drum de adarrum
e nele o nome do instrumento musical, simples flauta de bambu, se internacionaliza, vira bonsai e seu som vai demonstrar de onde veio o termo britânico
que designa tambor, não flauta (“drum”), para encerrar com o toque de atabaques e agogôs (ainda percussão) que se usa no candomblé (“adarrum”).
ALALIA
‘simplemente cansado del cansancio
del harto tenso extenso entrenamiento al engusanamiento
y al silencio’ (Oliverio Girondo)
o nojo da jugular jaz na língua/ (a náusea nascida no linguajar / das narinas). em lugar de gula / ou iguarias, o jaguar, na jaula,/ jejua - já não goza, só ejacula.
Sabendo-se que “alalia” é termo médico que designa comprometimento ou perda da fala por problemas psicológicos, o poema acaba sendo também metalingüístico.
Mas, como sempre, gosto que o próprio poeta se feche. Neste caso, um poema que transforma os fatos de polícia num metapoema, ainda, fixação minha (e, ao que parece, do próprio Dennis) :
BOLETIM DE OCORRÊNCIA
compareceu nesta delegacia de polícia / a vítima, / relatando que ao cruzar o limbo / de linguagens, sentido motins-cela, / foi rendido por elementos em fúria, / anônimos, na mudez do ermo,/ quais o jogaram ao solo,/ sob ameaça de revólveres de inventos / e, revirando-lhe os sentidos, / furtaram:// nomes numes / germes de crimes / cais no caos/
limo de leis / ruína de rio / vaus // após, ordenaram/ sussurros na anatomia do urro, / enquanto fugiam em direção / à palavra fuga. era o relato.
E nada mais precisa ser dito.
(publicado, com poemas a menos, no Idéias do AN, 24/02/2008. p. 4)
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