Archive for March, 2008

Quem canta seus males espanta, diz estudo

Viena, 31 de Março de 2008 - Cantar não é apenas uma das formas de expressão mais antigas do ser humano, mas também pode curar muitos males, garantem cada vez mais médicos, que recomendam a prática do canto com regularidade, embora os estudos sobre os efeitos benéficos do canto sejam recentes.Até pouco tempo, não existiam estudos científicos a respeito do assunto, mas resultados de pesquisas recentes confirmam inclusive que cantar deveria ser receitado pelos médicos, afirma a doutora Gertraud Berka-Schmid, psicoterapeuta e professora da Universidade de Música e Artes de Viena.

A especialista critica pais e professores que tentam proibir as crianças de cantar porque não sabem, pois assim as privam de sua capacidade de personificação e o acesso à experiência do som.

“Isso faz com que a consciência da personalidade mude, reduzindo seu desenvolvimento, porque poder levantar a voz, ser ouvido, ser reconhecido e aceito é de importância vital para um ser eminentemente comunicativo como o ser humano”, afirma Berka-Schmid em declarações à revista de medicina austríaca Medizin Populär.

“Cantar é a respiração estruturada”, afirma a médica, explicando o efeito fisiológico da respiração abdominal - a mais profunda -, que prevalece quando se canta e que se transforma em massagem para o intestino e em alívio para o coração. Além disso, garante a doutora, essa respiração fornece ar adicional aos alvéolos pulmonares, impulsiona a circulação sanguínea e pode melhorar a concentração e a memória.

Na opinião da especialista, cantar é um ótimo remédio para os males específicos do nosso tempo, porque equilibra o sistema neurovegetativo e reforça a atividade dos nervos parassimpáticos, responsáveis pelo relaxamento do corpo.

Cantar gera harmonia psíquica e reforça o sistema imunológico, importantes frente a problemas tão freqüentes hoje, como transtornos do sono, doenças circulatórias e a síndrome de burnout - a exaustão emocional.

As conseqüências de um estímulo nervoso excessivo são típicas dos tempos atuais, afirma a especialista: as pessoas não agüentam os próprios impulsos, se isolam, se bloqueiam e paralisam ou acumulam agressividade. Por meio da voz, o ser humano é capaz de expressar seus sentimentos de tal maneira que pode se desfazer de uma série de más sensações.

Em algumas ocasiões, isso não é possível apenas falando normalmente e, por isso, o canto desempenha um papel essencial. Lembrando o ditado “quem canta, seus males espanta”, não há diferenças em cantar sozinho, em dupla, em coro ou no banheiro, assim como não importa se a pessoa desafine, garante Berka-Schmid.

O corpo é o instrumento de que dispomos para nos comunicar e jogar fora a ira acumulada. A respiração varia de acordo com as emoções, pois quem está agitado, por exemplo, tende a respirar de forma diferente de quem está triste.

(Gazeta Mercantil - EFE)(retirado do noticiário do yahoo)

Segunda é recomeço

Tolos vão

onde anjos temem ir

canta João Bosco sua versão para Fools rush in, do Mercer, parceria com o filho Chico Bosco. MP3 afinadinho, lá vou eu, pela estrada afora, às seis da manhã, sol nascendo. A classe operária, diligente, se encaminha pro paraíso, pouco tráfego - esta é a melhor parte de se caminhar assim cedo. Nada de barulho, sustos, espera nos semáforos, nada de aspirar todo aquele gás carbônico…

O céu está carregado, talvez chova. Mas segunda é dia de recomeçar. Aquelas intenções que se costuma listar pro ano novo, eu as faço às segundas, mas em menor escala: são pra semana, apenas. E comecei bem: levantei e fui caminhar. Nos outros dias tenho vindo pro computador, pensando em fazer o cooper depois. Daí me enleio: é o blog, são mensagens pra responder, mensagens pra enviar, crônica que vai terça pro AN a revisar (a última revisada)… Quando vejo, tá na hora de cuidar do rango, a manhã voou, e não saí. Deixo a caminhada pro final da tarde, e muitas vezes chove…

Tolos vão

em passos de amador

por isso estou aqui, amor

de coração na mão…

Amador = ama + dor, paranomásia das boa. O amador é aquele que faz as coisas intuitivamente, não é nada escolado - faz por amor. Assim como Pessoa diz que o poeta é um fingidor, o que finge a dor, mas é a dor que deveras sente, o amador ama a dor, porque ama sempre… Bom, isso. A figura da suprassegmental tem cara de ser do Chico Bosco, que costuma fazer dessas, em suas letras. É bom pensar nas letras caminhando, e anotar as descobertas na chegada.

Cozinho um pouco de feijão vermelho pro almoço, com um pedaço de abóbora de pescoço, como gosto. Mas vou ter que dar saidinha: acabou a cebola. Começou a chover, espero estiar pra sair, ouvindo João ainda:

Foi te ver

Não pude mais voltar

Pois deixa no teu coração

Um tolo entrar…

Eu amo João Ubaldo!

da crônica do João Ubaldo no Estadão de hoje, intitulada ” As causas da dengue”:

“O comportamento do aedes também precisa ser fortemente denunciado e se faz tardar um pronunciamento no Senado, mostrando como essa criatura delinqüente ameaça as instituições. Em primeiro lugar, a conduta da fêmea (sim, como muito se reitera, quem morde é a fêmea, o macho vive de vapores poéticos, como todo macho), que, além de não conter seus impulsos libidinosos, seduzindo os pobres machos ao pecado qual uma Eva díptera sequiosa de prazer carnal, se recusa a usar qualquer método anticonceptivo. Se não ficasse grávida, não precisaria de sangue. Coisa da Zelite perniciosa e libertina, que só pensa nos próprios interesses. Em segundo lugar, suas entidades se negaram até o último instante a admitir que estavam formando quadrilha, fazendo epidemia. A imprensa dizia que sim, os doentes mostravam que sim e nada de eles reconhecerem a patente verdade.
Agora estão aí desmascarados, certamente vem CPI, mas no fim vai dar tudo em poça, podem crer.Pouquíssimos mosquitos jamais foram punidos no Brasil, com a exceção dos que morderam certos políticos e jamais conseguiram zumbir uma verdade novamente.

” E o complô mundial da indústria farmacêutica, especialmente no setor de analgésicos? O aedes - Zelite é Zelite - não aceita Melhoral e contam aqui que os estoques de remédios, repelentes e inseticidas estão acabando. Quanto aos fabricantes de repelentes e inseticidas, já devem estar gerando empregos (olhem aí, isso ninguém fala) para contadores de dinheiro. Mas é claro que os preços vão baixar, não só, como qualquer um que procurou um repelente ontem verificou, porque as farmácias colaboram e os laboratórios idem e o governo vai retirar os impostos sobre eles (isso, claro, depois dos necessários estudos, que estarão concluídos assim que a epidemia acabar e já formos uns cem milhões de saudáveis sobreviventes).

” Deixei para o fim o principal culpado. Nós, o povo, não há discussão. Sem povo, não haveria epidemia e muito menos reclamações. É o povo que fica doente ou com medo de estar doente e é o povo que não faz o que devia para não ficar doente. A conclusão impõe-se: o povo é que é o grande problema dos governos, especialmente nas democracias.”

(IN- O Estado de São Paulo, Caderno de Cultura, p. 3)

Um dia de domingo

Especial pra hoje, de Michael Sullivan e Paulo Massadas,
pra ouvir com Gal Costa e Tim Maia cantando:

Eu preciso te falar
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar
Depois andar de encontro ao vento.
Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo sol que te bronzeia
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo
E voltar  num sonho lindo
Já não dá mais pra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo.
Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta
Que ainda é cedo
E deixa falar a voz do coração.

Ponto de Vista

O título do filme me seduziu. Em Teoria da Narrativa o ponto de vista é o viés pelo qual o narrador conta sua história. E, pelas repetitivas chamadas do filme na TV a cabo, este filme faria a somatória de vários deles, para chegar a solucionar o mistério do atentado à vida do presidente americano - um presidente fictício. Achei que poderia ser interessante.

Sabia o risco que estava correndo: é filme de ação,e acho-os todos parecidos, um ritmo acelerado, muita correria, personagens estereotipadas, a velha e batida ideologia americana. Aliás, neste caso, até os velhos e batidos atores: Sigourney Weaver, William Hurt, Dennis Quaid (ontem tão lindo, hoje tão emplasticado…), Forrest Whitaker. A exceção é o ator espanhol, que ainda está nas fraldas, uns 40 aninhos, só, hehehe… O diretor é Pete Travis.
O filme foi montado em cima de relógio, literalmente. O relógio digital volta à hora anterior ao atentado, e refaz aqueles cruciais momentos que antecedem os tiros e a bomba sob o palanque. E é claro que esta hora anterior não tem de fato uma hora, ou o filme não acabaria nunca…

A parte técnica é genial, fotografia fantástica, muitos ângulos diversos ao mesmo tempo. O pessoal aí que trabalha em TV deveria ir ver, só pra se babar de inveja diante do aparato todo com que a equipe americana conta… Mas a negra, linda e petulante repórter morre no atentado, e achei muito engraçado: livrou a diretora (Weaver) de ter que demiti-la. E não é politicamente correto, né?

Quando se parte para o ponto de vista do presidente (Hurt), vai-se descobrir que a Inteligência sabia do atentado, e ele tinha sido substituído por um dublê. (Boa fala: ele olha seu dublê subindo ao palanque, e diz: “ele nem ao menos se parece comigo!”, e é ele mesmo nos dois papéis, of course…). Mas daí ter um dublê foi demais pra minha paciência, levantei e fui embora. Sim, cheguei a ver que os terroristas também eram muito bem informados, invadiram o quarto do hotel e mataram o presidente de verdade.Não, ninguém precisa me contar o fim! Me poupem!

Órfãos do Eldorado

Milton Hatoum é amazonense de Manaus, onde nasceu em 1952. Professor de Teoria Literária na UFAmazonas, agora está aposentado (suponho eu…), e mora em São Paulo. A área de Teoria Literária é interessante, nesse aspecto, pois admite as mais variadas formações. Há engenheiro, matemático, filósofo, sociólogo. Hatoum é arquiteto…

O primeiro livro do Hatoum se chama Relato de um certo oriente, de 1989, mas não foi o primeiro livro dele que li. Comecei com Dois irmãos, de 2000, e fiquei tão encantada com ele que meus pobres alunos tiveram que ler. Entrou na lista de leitura do semestre, sem apelação. (Ainda me lembro da Jaqueline Griebeler dizendo: é uma história de incesto, professora. Abençoada seja! Foi a única da turma a ter maturidade suficiente para perceber que a relação de Caçula com a mãe é incestuosa, embora não se realize, e destrói a vida de todos…Mas não está dito, não tem nada explícito, o bom leitor tem que sacar… e pra isso tem que saber da vida, também).

Depois é que fui ler Relato… Em 2005 saiu Cinzas do Norte e todos tratam da imigração árabe no Amazonas. Milton não tem pressa, e só três anos depois vai publicar este Órfãos do Eldorado. O livro foge do universo anterior, mas uma outra temática subsiste: a relação familiar conturbada e dolorosa.

O pai se chama Amando, o filho se chama Arminto, brincadeirinhas do autor. A mãe morreu ao dar à luz, e o pai não perdoa jamais o filho por isso. Criado sem afeto e sem aprovação, não espanta que Arminto não se ache na vida, sempre buscando a aprovação paterna, sem consegui-lo. As personagens femininas são enigmáticas, misteriosas, cheias de perigosos desvãos, especialmente Dinaura.

Inserido na Coleção MITOS, foi justamente a utilização de lendas e histórias da região amazônica o que mais me encantou no livro. São histórias repletas de uma sexualidade explícita e cruel, como a da piroca [sic] que se estica e vai até a outra margem do rio (que é o Amazonas, hehehe) e volta. E a lenda em que se monta o enredo é justamente a mais bonita, a de uma índia tapuia, cujo discurso Arminto testemunha e que Florita lhe traduz:

“Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí, deixando-a sozinha na Aldeia. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. Agora ia morar com o amante, lá no fundo das águas. Queria viver num mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça.” (p.11)

O termo Eldorado assume múltipla significação, como deve ser, englobando desde o nome do barco comprado por Amando, barco que naufraga, até o fim da prosperidade da região, com o final do ciclo da borracha. Bom demais, bom demais!

SERVIÇO:

Título: Órfãos do Eldorado
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras, coleção Mitos
Preço: R$ 23,20 (site da Livraria Cultura)

Especial pros jornalistas

“Mergulhado na velocidade com que  a tecnologia despeja informações em sua máquina, o jornalista sente com impaciência a necessidade de também acelerar-se e, assim, mecaniza-se num processo em que se despe de ideologia e compromisso social.  A notícia ganha sabor de espetáculo, como a televisão já vem fazendo há décadas.  O papel social da comunicação perde espaço, porque a velocidade impõe critérios instantâneos e, assim, uma criança flagrada roubando  uma loja é notícia transitória, pouco interessando a causa que a levou a praticar o crime. O disse-disse ganha espaço para falsear uma célere eficiência, passando a afirmação ou denúncia, principalmente no campo político, a ser descartável, sem merecer discussão e muito menos crítica. Com isso, o jornalismo descompromete-se com soluções ou conclusões de problemas sociais, econômicos e, principalmente, políticos. A amnésia toma conta da comunicação de massa, hoje movida pela emoção do espetáculo. O jornalismo parece romper com um compromisso ainda maior, a história.” (p. 59-60)

Este é um trecho de excelente artigo do Laudelino Sardá no livro lançado ontem na Saraiva do Iguatemi. O organizador foi o próprio Sardá, e mais  21 jornalistas contribuem com sua visão  das políticas e técnicas da notícia, nesta passagem da máquina de escrever para a era internética, das redações barulhentas para as de baias e silêncio sepulcral, segundo Caruso.

Está bem interessante, e é uma contribuição relevante para os profissionais pensarem - repensarem - criticarem seu fazer.

SERVIÇO:

Título: Da Olivetti à Internet (Política e Técnicas da Notícia) 

Autor: Laudelino José Sardá (org.) e mais 21 jornalistas

Editora: Unisul/Certi

Preço: R$ 15,00 (no lançamento)

Dropes da semana

* Poucas vezes tenho tido semana tão satisfatória, em termos de produção de texto. Terminei a crônica que saiu ontem, escrevi mais duas, já que as idéias brotaram, espontâneas. E estão prontinhas, mas devo burilá-las mais um pouco - tem tempo, felzmente.E redigi artigo pro Cultura do DC. Em compensação, nem uma linha do Cain ou do Byrnes foi traduzida…Não se pode ter tudo, né?

* Amanheceu chovendo, chuva leve, mais forte que uma “molha bobo”, porém. Fui à portaria buscar o jornal, que ainda não chegou. É a primeira vez, desde que estou aqui. Fiquei preocupada: será que o motoqueiro teve algum acidente?

* No caminho, encontro vizinha do A3, à beira das lágrimas: está sem água desde ontem, precisa ir trabalhar, tem hóspedes, e não sabe o que fazer. É o porteiro que me explica que lavaram a cisterna deles ontem, e a bomba não está funcionando. Já chamaram o técnico, que está a caminho. O que mais ele pode fazer? Só quando volto pro meu prédio é que noto aviso na porta: limpeza hoje a partir das 14 horas… Em caso de chuva, mudança de data. Bem, se parar de chover… melhor garantir! Já tinha tomado banho, mas trato de ligar a máquina de lavar roupa.

* Ontem vinham amigos almoçar, fui à Padaria buscar cerveja. Eram umas dez horas, queria garantir que estivessem bem geladinhas. O representante da Eisenbahn sempre mexe comigo: é pro café da manhã? Mas dessa vez não deixo escapar e aproveito pra reclamar das bolachas feias deles. Muito vintage, concordo, mas feias, e os rótulos das cervejas são tão bonitos… Prometeu trazer bolachas novas pra mim, e se esqueceu. Dai que prometo começar a tomar Eisenbahn no café da manhã, desde que me traga as bolachas…

* Planejo crônica sobre o Júnior da Padaria, que chamo de meu professor de cerveja. Comento isso com eles, e digo que falo da Eisenbahn, se ganhar uma caixa da de trigo, minha favorita… Daí que virou o mote para brincadeiras.O Júnior quer saber o que vou falar dele; o representante quer saber se duas garrafinhas e um monte de bolachas não pagam a divulgação, hehehe…

* Li o livro da Claudia Piñeiro e comentei aqui. Estou quase acabando o do Milton Hatoum, amazonense dos bão (mora em São Paulo) e comento amanhã. Depois deixo prontos os pareceres para a editora, e começo nova leitura: O Ventre da Baleia , de Javier Cercas, autor espanhol. E ainda quero voltar pras minhas traduções, e tirar o atraso, oh dor!

* Celso Vicenzi avisa de filmes ótimos no CIC. Irei no final de semana. Hoje, não: hoje tem happy hour com amigos dos quais estou com saudades. Além disso, hoje é dia internacional da cerveja. Na happy hour, não no café da manhã, hehehe…

* Recadinho pra Cris de Joinville: achei algo em que minha briga contra a preguiça não funciona,em que a preguiça ganha de mim. É consertar roupa… Tem três pecinhas ali pra dar uns pontos, e olho pra elas e digo: agora não, outra hora… Cuméquipode, sô!