Archive for April, 2008

Balanço da coletânea de contos

A última semana foi praticamente toda dedicada ao lançamento da coletânea que eu tinha organizado para a EdUFSC - O Novo Conto Catarina. O pessoal da assessoria de imprensa fez seu trabalho com a eficiência de sempre, mas como a divulgação acaba se utilizando mais do nome de quem organiza, muita coisa acabou sobrando pra mim. Encaminhei fotos, dei entrevistas pelo telefone e fui à CBN-Diário na tarde de ontem, bater papo com o Luís Carlos Prates. Que, diga-se de passagem, não tem nada daquele ogro que faz na TV - é uma simpatia, um homem gentil, questionador e inteligente.

Hoje, depois da cerimônia sem muita cerimônia, aproveito a folga para fazer um balanço, e aprender com o que houve… (Cada louco com a sua mania, já se sabe…)

Agradeci publicamente o apoio cultural e financeiro da Mongeral, e o logístico que vem agora, com o seu pessoal distribuindo os livros a professores e funcionários, mas esqueci de agradecer ao pessoal da EdUFSC, que é de uma boa vontade a toda prova. Faço isso aqui, e com atraso, mas agradeço demais tudo que fizeram, sempre com um sorriso, uma piada, uma imensa gentileza…

E, como na canção do Gil, “estou fechada pra balanço/ meu saldo deve ser bom”… E é. Mais do que apresentar ao público um panorama do atual conto que se faz em Santa Catarina, vejo que busco divulgar autores que merecem ser divulgados, e motivar os novíssimos para que continuem produzindo. Isso é o mais importante, acho: que a literatura se faça, que a literatura se cumpra, a retratar nosso momento, nossa gente, nossa alma - momento, gente e alma de sempre e de todos os locais do mundo.

E como sou dessas pessoas que precisa encerrar uma etapa, ter uma “closure” claramente definida antes de poder se dedicar à etapa seguinte, o lançamento de ontem foi esse fechamento. Agora, a dedicação se volta para organizar de vez o livro da poesia catarina atual, encaminhar o dos poemas eróticos, e ir selecionando, devagarinho, com calma e respeito, o dos ficcionistas. Ao trabalho, pois. Com muito prazer.

Exorcismo

Dos demônios que me habitam

vou me livrando devagar.

Usando surra de açoite

Infusão de folhas

filosofia , sessão de análise e novenas

A cada demônio vou entendendo

de cada manha

fico sabendo

de suas garras no meu peito

me livrando

Não tens garras

nem cascos, nem chifres

e não existe reza braba

nem novena, nem açoite

nem folhas em banho

não existe análise que

consiga me livrar…

Dos demônios que me habitam és

- sem dúvida! -

o maior.

O novo conto catarina

O novo conto catarina

De perdas e ganhos

Sábado foi a formatura da última turma do Jornalismo/UFSC pra quem dei Redação VI e, portanto, uma disciplina obrigatória. Fui à formatura, e saí de lá meio mal - uma terrível sensação de perda, a noção de ter deixado de lado uma das melhores coisas da vida acadêmica. Minha relação com os alunos foi sempre muito boa, e gostava muito de dar aula (gosto de aprender e, conseqüentemente, gosto de ensinar…)

À noite, ontem, fui à Sanduicheria da Ilha com um grupo de remanescentes - que se formam no próximo semestre - e uma das “formadas”, senhora jornalista, agora trabalhando em São Paulo. E ela contava da conversa com colegas e da queixa deles também dessa sensação de perda, pelo afastamento dos colegas e amigos, pela entrada no mercado de trabalho, com tarefas muito mais pesadas do que as que tanto os faziam sofrer no decorrer do curso.

Falamos disso - de como eles se sentiam, de como eu estava me sentindo -  e chegamos  à conclusão do  óbvio, sabendo  perfeitamente  que na vida cotidiana é o óbvio que, muitas vezes, custamos mais a perceber.  Posso sintetizar no  velho dito de que não é possível  fazer uma omelete sem quebrar os ovos (nem mesmo um de avestruz, né, Pri?). Partimos para novas etapas da vida precisando deixar de lado algumas ou muitas coisas que nos faziam bem e das quais gostávamos. Mas é necessário…

Se eu não tivesse parado de lecionar, não estaria escrevendo como estou, não teria iniciado o blog, não estaria cronicando no AN… Porque entre a leitura dos textos todos, mais as aulas, mais a reuniões, mais as correções e orientações, a cabeça ficava alugada demais,  e  a criatividade  ia pro fundo do poço.  Essa disponibilidade FÍSICA  de  poder se dedicar a apenas um foco  de criação, em cada momento , não existiria. Estou feliz, muito feliz, com o rumo que  minha vida tem tomado.  Mas devo reconhecer que houve perdas, algumas delas dolorosas.  Faz parte.

Dia  2 de maio completo meu primeiro ano de aposentada. Os primeiros meses foram difíceis, apesar da sensação de liberdade. Foram 28 anos dedicados ao magistério, com planejamento, calendário, contato diário com muita gente, essa troca de conhecimento e afeto com alunos e colegas -  e muita incomodação…Também faz parte: a burocracia é chata, a política salarial é inexistente, lidar com gente é difícil. Daí passei ao recolhimento do ninho, à possibilidade de concretizar o sonho de ler e escrever à vontade, e isso não é fácil de alcançar. Não sabia administrar o tempo - agora que podia fazer TUDO, que tinha TODO o tempo do mundo, uma ilusão. Comecei quinze coisas, me estressei, me perdi - mas me achei novamente. Nunca desisto, ‘cês sabem, a menos que avalie que não vale a pena…

Percebo, agora, que estou adaptada, finalmente.  E vendo que foi uma continuidade de aprendizagem. Aprendi a administrar o tempo, só que sem precisar trabalhar com horas marcadas e exatas - uma grande fluidez nisso.  Mas alguns dead-lines pra não me deixar perder o contato com a responsabilidade: o dia de mandar a crônica pro jornal,  de enviar o artigo pra revista, de preparar o parecer ad hoc, de fazer a palestra, de ir ao debate. E o dia de ir ao boteco, o dia de fazer um almoço pro pessoal, o dia de ir conhecer a casa nova, o filho novo, de ir à livraria saber das novidades, o dia de namorar, que namorar é preciso…

Aprendi a fazer novos amigos e a cultivar as velhas amizades que valessem a pena - e agora isso significa cultivar mesmo, de propósito, com carinho e cuidado, porque o roteiro cotidiano não nos põe mais em contato. Mas eu dizia que queria conhecer o mundo real, a vida real, pois achava que a universidade é um invólucro, que nos separa da realidade da maioria das pessoas por uma muralha de teorias e constructos teóricos… Corremos o risco de virar simulacros. Bem, meu contato com a realidade não é mais tão ingênuo, jamais será. A universidade me fez, o estudo me fez, as conversas com intelectuais amigos e não-amigos me fizeram - meu repertório está posto, e ainda em construção, sempre em construção. E isso é bonito pra chuchu!

Um poema pro domingo

É do Emanuel Medeiros Vieira, que anda com a corda toda…

INVENTÁRIO

Aquela manhã posterior:

qual?

Não a verei canto da cigarra matutina

morango na relva

grama orvalhada

O espelho me leva a outros espelhos.

Cumpri os rituais: afiei o lápis, contemplei a folha

branca

(ah, pureza inatingível/impureza inaceitável).

Palavra arrancada da pedra: esta a memória que ficará.

Não, não verei meus olhos no momento derradeiro,

nem o novo dia sendo fundado.

As guerras que vivi?

Já não importam.

(Aquele que foi feixe de ossos e de emoções,

segue – pacificado – o rio.)

Zweig, última personagem trágica

Vamos falar sobre Lost Zweig, filme de Sylvio Back. Mas, antes de começar, vou me dar o luxo de repetir uma historinha que vivia contando pros meus alunos.

Na Roma Antiga, um pintor romano expunha seus quadros numa galeria da cidade, e gostava de se esconder atrás das cortinas que havia a um canto, para ouvir a opinião mais livre dos visitantes. Um dia, ele escondido, passou por lá o sapateiro vizinho, a quem ele conhecia bem. O sapateiro olhou atentamente quadro por quadro, e em todos criticou detalhes das sandálias que as personagens retratadas calçavam. Após sua saída, o pintor foi olhar os quadros, e concordou com ele: as sandálias não estavam bem, poderiam ser melhoradas. Trabalhou nelas duramente, e uma semana depois, o sapateiro voltou. Ao re-examinar os quadros, ficou tão orgulhoso de ver que seus palpites tinham sido seguidos, que se pôs a criticar todos os outros elementos dos quadros.

links para o treiler: http://tvuol.uol.com.br/cinema/trailers/2006/03/14/ult2489u727.jhtm

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Ainda a Gota d’água…

A letra de Bem-Querer, do Chico Buarque, especialmente pro Inácio:

Quando o meu bem querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais

E quando o seu bem querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás

Memórias de Aprendizagem

(pro Ítalo)

Sempre fui leitora, leitora voraz, mas sem direção nem disciplina, lendo o que me caísse nas mãos… Quase não havia livros na casa, e isso é, portanto, explicável. Lia Tarzan tanto em livros (presentes de papai, que os mandava do Rio), como em quadrinhos. Ouvia recriminações da família de não-leitores, pelos quadrinhos, e posso rir: aqueles Tarzan eram lindos, em preto e branco, e viraram Artes Gráficas…Os parentes, ao reclamar, apenas repetiam clichês, não sabiam nada dessas coisas.

O livro que melhores lembranças me traz, até hoje, foi presente também de meu pai. Ele lia muito em inglês, e uma vez me mandou livrinho infantil chamado Noah’s ark. Colorido, lindamente ilustrado, mas, mais que isso, na capa estava colado plástico com sulcos - um disco - e podia-se pôr na vitrola e ouvir a canção do livro. Uma canção alegre, da qual faziam parte as vozes dos animais que estavam embarcando na arca. Inesquecível!

Acho que este foi a única concessão de papai à infância da filha. Os outros livros todos eram de seu próprio gosto, e tinham feito a delícia de sua infância. Li, assim, quase toda a famosa coleção Terramarear e, como ele, adorava o Capitão Blood, “El Capitán Sangre”… De tanto ler os romances de Tarzan, sabia de cor a linguagem dos grandes macacos e, além de encher o quintal com os gritos de kreegah-bandolo (será que é assim?) ainda escrevia historinhas usando a língua deles, o vocabulário anotado todinho num caderno.

Quando fui morar com o pai, depois do desquite deles, a vida virou um paraíso: 8000 volumes nas estantes pela casa, a escolha não muito livre, pois vovô controlava, mas ainda assim muita coisa pra ler. Em francês, em espanhol, em inglês, em italiano…Eu tinha uns 13 anos quando o “Velho” (era como chamávamos o vô Tito Carvalho, jamais chamei meu pai assim, pois ele era um meninão…) me apresentou Lima Barreto: um dos maiores escritores do Brasil, disse. Li tudo dele, menos M.J.Gonzaga de Sá. E isso ocasionou minha grande decepção com a academia quando, em aula de Literatura Brasileira, o professor de Contemporânea comentou que estava-se “resgatando” (a academia adora certas palavras!) um escritor que tinha sido esquecido, seu Afonso Henriques de Lima Barreto… E o fato me fez bem: passei a aprender o que a Teoria Literária tinha pra me ensinar, mas a julgar por meus próprios parâmetros, a pensar por minha própria cabeça.

Na graduação se lê muito: poesia, prosa, teóricos, filosofia, às vezes sociologia. E é tanta leitura encadeada, é tanta juventude e inexperiência em nós, que não há tempo nem maturidade para se extrair daquilo tudo muito do que se poderia extrair. Mal não faz, porém, este primeiro contato. Houve um semestre, mais recentemente, em que precisei substituir Nilson Lage numa turma de Redação VI, e os seminários de leitura acabaram ficando por minha conta. Minhas listas de leitura costumam ser atuais, mas as do Nilson eram de clássicos: Os Sertões, Cândido, O Príncipe, Utopia, México Rebelde… Tive que reler todos, e fiz isso resmungando. Pois foi um deslumbramento! Uma leitura feita trinta anos antes, cotejada com uma de trinta anos depois - e Nilson e eu nos encostamos na parede do corredor, a tecer elogios rasgadíssimos a Thomas More e sua Utopia… Com a clareza de que o livro foi escrito com os conhecimentos de sua época, mas com um brilho e uma genialidade não mais encontráveis por aí…E a lamentar o não-transporte da experiência acumulada para os primeiros tempos. Dá pra entender Nelson Rodrigues: Jovens, envelhecei!

Porque esta é a grande lição: para se ler um livro deve-se também ler o mundo, como diz Paulo Freire; e à medida que se aprende de um se aprende de outro. E é a experiência de vida que enriquece a interpretação da obra escrita, e é a interpretação da obra escrita que enriquece a experiência de vida… Vai-se vivendo. Aprendendo… e lendo. Lendo livros, lendo filmes, lendo canções em sua linguagem mista, lendo situações, lendo pessoas. Deixando que a experiência dos outros enriqueça a minha… e que a minha enriqueça a dos outros. Mas com respeito ao universo de cada um.