Archive for April, 2008 Page 2 of 6



Meu dia de cão

Chegada de viagem, cinco dias fora, nada pra comer em casa… A faxineira tinha vindo, estava tudo limpo, arrumado, cheiroso. Com esse lado, nada para me preocupar. Fui ao mercadinho e, junto com frutas e verduras, trouxe uma lasanha congelada para o almoço – lasanha à pizzaiolo, linda foto na caixa.

Sem pressa, achei melhor descongelá-la no forno a gás, a bandeja dentro de uma assadeira metálica, como mandam as instruções. 45 minutos depois, já com o estômago soando o alarme, fui retirá-la. A assadeira entortou um pouco… e a bandeja com a lasanha começou a escorregar, e foi lasanha pra todo lado, especialmente pela porta do forno (tão limpinho!) adentro, um desastre completo. Ainda tentei segurar, mas só o que consegui foi encostar as costas da mão direita na assadeira pelando. Linda queimadura, oh dor!

Tive que deixar esfriar, e foi uma trabalheira insana limpar aquilo, o queijo derretido grudando em tudo, inclusive nas esponjas e panos de limpeza, depois de frio. Meia hora de esfregação (e alguns palavrões pra desabafar, que desabafar é preciso) e consegui dar jeito…

Mas como dizia a Velha Tida, minha vó, com seus provérbios onipresentes, desgraça pouca é bobagem: o vaso sanitário resolveu entupir. Ninguém merece! Mão queimada, lambuzada de ungüento de picrato de butezim, andava eu de Diabo Verde em punho, lidando com aquilo… Um frasco e meio de desentupidor e dois panelões de água quente depois, consegui, consegui! Mas ainda era preciso limpar aquela sujeira mal-cheirosa, e o que não tem remédio, não tem remédio, né? Sapóleo líquido, desinfetante, escova…mais palavrões (preciso aumentar meu vocabulário deles, não sei em número suficiente!). Maravilha! Limpo, cheiroso, desinfetado.

Daí tomei belo banho, fiquei eu limpa e cheirosa, e fui dar pulinho na editora da UFSC, para buscar os convites de papel para o lançamento da coletânea do novo conto catarina que organizei, lançamento que vai ser dia 29 próximo.

Me disseram: estão com o Fernando, na sala dele. Fui até lá e Fernando, menino carinhoso, vem me dar um beijo, e me pega na mão. Justo onde? Na queimadura, é claro. Lei de Murphy, Lei de Murphy…Vi estrelas, e ele deve ter saído com a mão meio cheia de ungüento, também…Bem, pode se queimar hoje, já está medicado com antecedência.

E esses dias assim tiram a gente dos esquadros, um acidente se mistura com outro, porque fica-se irritado e cuidadoso demais… A tábua de passar roupa não quer abrir, e quando abre é com tal sofreguidão que derruba toda a roupa da cadeira, que embola toda e tem que ser dobrada outra vez. Mas tudo bem: dois palavrões, dos velhos e já batidos, dão conta… O janelão da sacada emperra, força daqui, jeitinho dali… e ele se abre lindamente pro dia azul e ensolarado, mas levando a cortina junto. Imagino a amiga costureira dizendo: já te disse que esta cortina está comprida demais, vai dar problema… Bem, ela tem razão, mas gosto da cortina assim, meio que se amontoando pelo chão… Dois ganchos se soltaram, escada em ação, com medo, porém: será que me arrisco a subir, num dia assim, de um sol assim? (e de um azar assim?) Mas me arrisco, subo, e… nada aconteceu, não deu problema, não.

Já arrumadinha a cortina, se embolando lindamente pelo chão, começo a pensar: isso dá uma crônica. Tem dias em que a gente nem deveria se levantar da cama, dizem… Só que os desastres acontecem DEPOIS que estamos levantados, né mesmo? Como saber ANTES?

E nem é meu inferno astral, ainda…

(publicada no Anexo do AN, 24/4/2008)


Poema do Emanuel

O Emanuel Medeiros Vieira é escritor e poeta, mané da Ilha, mas morando em Brasília há muitos anos. Mandou aviso deste poema no blog LESMA LERDA, e senvergonhamente me apossei. Pela razão muito simples de que me encheu os olhos de lágrimas, saudades dessa Desterro de que ele fala… E da infância, em que a gente é outra pessoa… Machado disse: “O menino é o pai do homem”, e estava certo, como sempre. Mas não sabíamos ainda que adulto se gestava em nós, e brincávamos por uma cidade pequena, livres e à vontade como o vento…

DESTERRO

Desterro cumpriu-me
e cumpriu-se.
O rio começava atrás de casa
(como eu),
e foi embora – afluentes.
Vento sul, Campo do Manejo, Rita
Maria, Rio da Avenida, Miramar,
bala queimada, Catecipes, Praia do Muller,
procissão do Senhor Morto, Cine Rox,
gibis, Grupo Escolar Dias Velho,
Chico Barriga D’Água, paixão camuflada pela menina
da Rua de Cima – ela nunca soube.)
Só enuncio: acumulo – sobrecarregado.

O rio foi embora.
Casa demolida, mãe na soleira da porta, pitanga no
quintal, regata na Baía Sul, matracas, turíbulos, trapiche da
Praia de Fora, gaita-de-boca, groselha, tainha frita,
fogão de lenha, beliches, pé de amora.

Perdeu-se o rio: não sei do seu delta.
Perdi-me: tiro certeiro na gaivota.
A rua pequena, era a maior do mundo – coração.
Desterro inunda-me:
outrora/agora.

Basta um dia

Esta é minha música favorita, na peça Gota d’Água, e é do Chico Buarque, sem parceiro. Na peça, ela é cantada por Joana quando, na iminência de ser despejada de sua casa, se humilha na frente de Creonte, suplicando um dia de prazo, para procurar onde morar.Tem, naquele contexto, uma significação específica.  Mas a canção tem significado bem mais amplo que isso - como toda e qualquer composição do Chico…

Basta um dia 

Pra mim basta um dia

Não mais que um dia

Um meio dia

E eu faço desatar a minha fantasia

Só um belo dia

Pois se jura , se esconjura

Se ama e se tortura

Se tritura, se atura

E se cura a dor

Na orgia da luz do dia

É só que eu pedia

Um dia pra aplacar minha agonia

Toda a sangria

Todo o veneno de um pequeno dia

Só um santo dia

Pois se beija se maltrata

Se come e se mata

Se arremata, se acata

E se trata a dor

Na orgia da luz do dia

É só o que eu pedia,

Um dia pra aplacar minha agonia

Toda a sangria

Todo o veneno de um pequeno dia

(no CD Meus Caros Amigos, Polygram, 1976)

De Medéia e de Joana

Medéia é famosa figura mítica. Casada com rei, poderosa feiticeira, apaixonou-se loucamente pelo argonauta Jasão, auxiliando-o a conquistar o tal velocino de ouro que os argonautas buscavam. Quase todos os poetas trágicos têm sua versão da Medéia, mas a mais conhecida é a de Eurípedes - e foi nesta que Chico Buarque e Paulo Pontes se basearam para sua releitura, Gota d’Água. Reza a lenda que, para salvar Jasão em sua fuga da perseguição do marido dela, Medéia teria até sacrificado o próprio irmão, atirando-o ao mar.

Na versão de Chico e Paulo Pontes, Medéia vira Joana, e vive com Jasão, dez anos mais moço que ela, sambista ambicioso, autor de um samba chamado justamente “Gota d’água”. Têm dois filhos, e Jasão se envolve com Alma, filha do bicheiro Creonte, o capitalista do pedaço. Marcam casamento, ele abandona Joana, e com a ajuda imprescindível do futuro sogro, lança-se no caminho do sucesso, não hesitando nem mesmo em atraiçoar sua própria gente, sendo simpático, ambíguo às vezes, mas servil… e venal. Manteve-se a forma poética da tragédia grega, embora sem a mesma métrica, é óbvio.

Na tragédia original, Medéia envia à noiva de Jasão um manto envenenado. Enrolando-se nele, a noiva morre. Para tornar mais completa sua vingança, Medéia mata os próprios filhos, sabedora de que isso seria motivo de imensa dor para ele. Com tal ato, faz mais do que apenas fazê-lo sofrer: priva-o completamente de descendência, sem noiva e sem filhos.

Há na releitura uma atualização necessária: passa-se para uma vila pobre no Rio, e um pessoal simples, desbocado, realista. Ser um musical, com inolvidáveis canções de Chico, torna a versão ainda mais interessante. O texto original da peça é alterado nesta encenação - há mudanças grandes, com personagens e trechos suprimidos,e um acrescentado, para equilíbrio cênico. Duas canções a mais foram inseridas nela, sem serem da peça: Deus lhe pague e À flor da pele. E ficaram perfeitas!

Releve-se que o fator trágico permanece, mas atualizado, e sem a grandeza da Medéia inicial. Lembre-se aqui que Eurípedes foi, cronologicamente, o último dos grandes poetas trágicos, e é aquele em que os mitos são trabalhados de forma mais isenta, conduzindo a uma libertação do humano. Em Gota d’água, Joana é mulher intensa, ligada também à feitiçaria, com fama de macumbeira, e age com força: contra o abandono, contra a exploração, contra a opressão. E perde todas as sua batalhas: o que podem os pobres contra os poderosos, ainda mais contra um que consegue cooptar (aconselhado por Jasão, que conhece sua gente…) os seus vizinhos e possíveis apoiadores? Mata os filhos e se mata com veneno: pena que aí se perca o alcance do trágico clássico. Mata os filhos porque Jasão os ama, vai sofrer, é vingança de mulher desprezada. E como Alma, alertada pelo pai, não come do prato envenenado, essa parte também se perde. ( Nessa época de morte de Isabelle, o filicídio parece ser menos desculpável ainda…)

A atriz que faz Joana é muito boa, dona de voz maravilhosa, e foi aplaudida várias vezes em cena aberta. Toda a encenação está muito dinâmica, segurando o interesse e atenção em uma peça tão longa… Todos os atores cantam muito bem, e a cena se segura apenas com praticáveis e um andaime. No final, os músicos, que acabam ficando meio ocultos pelos andaimes, são apresentados para os aplausos - bom; os técnicos, também - melhor ainda.

4a. feira no Café dos Araçás

Atenção amigos:

O Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril, em homenagem à data de nascimento de Pixinguinha, uma das figuras exponenciais da música popular brasileira, e em especial do choro.

Então venha comemorar com a gente:
Quarta, 23 de abril, 21:30 no Café dos Araçás
Uma noite de Música e poesia em Homenagem ao choro.
Um show com Músicas de Pixinguinha, Cartola e Lupicínio Rodrigues.
com Cesinha na poesia
Raphael Galcer no Violão
e Luciana Alves cantando

Imperdível!

Gota d’água

Ontem, 20/4, teve A Gota d’água no CIC, encerramento do Festival Isnard de Azevedo. A peça, de autoria de Chico Buarque e Paulo Pontes, é uma releitura da Medéia de Eurípedes.

Falarei dela amanhã, depois de eu mesma fazer minha re-leitura das duas…

Por enquanto, fica de registro a letra da canção-título.E agradecimentos mil ao Ben-Hur, que me fez presente dos ingressos: exemplo de como um presente bem escolhido não precisa ser caro (pago meia entrada, custava 5,00) e pode ser PERFEITO!

A gota d’água

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor…

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água…(2x)

NEMANUNGÁRA

Um poema de Olga Savary, que é de Belém do Pará. Nasceu em 1933.O título é tupi, e significa ” nada de novo”.

NEMANUNGÁRA

Coração, animal selvagem,

não foste a arma do crime

e a bem dizer nem houve vítimas

mas se vítimas houvesse é como

se foras a arma do crime.

Paixão, sofro de um mal

que não ouso dizer o nome.

Tão pouco amor para tanta morte,

tão pouco amor para tanta água,

tão pouco amor para tanta sede,

tão pouco amor para tanta fome

- e não poder matá-las na pele do meu homem.

(IN-: Berço Esplêndido. Rio de Janeiro: Palavra e Imagem, 2001. p.69)

Dissabores de blogueiro

Ao me aposentar, houve muitos pedidos dos alunos: sentimos falta das tuas conversas, das tuas historinhas, cria um blog… Demorei um pouco a me decidir, cheia dos projetos como sempre estou, mas acabei contatando e contratando o Aleph, que é designer pra lá de bom, pra me ajudar nisso. No início vai-se tateando, meio sem jeito, meio sem intimidade com a mídia, e aos poucos vai-se pegando vontade. Hoje atualizo diariamente - às vezes até mais de uma vez por dia, exagerada e faladeira como sou - e gosto desse azeitar cotidiano e fácil do ato de escrever. É um exercício, e muitas histórias vão ficando arquivadas aqui, para uso futuro.

Há ainda os comentários dos amigos e dos não-amigos, novos amigos entraram, velhos mantiveram contato. Marcamos encontros, trocamos textos, criamos um circuito blogueiro muito legal e produtivo. Tudo por aqui.

Mas às vezes acontecem coisas desagradáveis. Comigo foram duas. A primeira, por causa das brincadeiras sobre brincar de cachorrinho, trecho de uma crônica minha no AN, troca maliciosa de perguntas e respostas com a amiga da Laguna. Brincadeira pura, nós nos divertindo. No dia seguinte, para piorar, postei o convite para o lançamento do livro de poemas “fesceninos” do Sylvio Back - As mulheres gozam pelo ouvido, título retirado do Marquês de Sade. Para minha surpresa, começo a sofrer assédio! Ao primeiro, reagi brincando, achei engraçado. Depois, perdeu a graça: respeitem ao menos meus cabelos brancos, pô! Sou Regininha, mas não sou Poltergeist! Fiquei muito pê da cara!

A segunda, foram as agressões por causa de minha crítica negativa ao show do Ney Matogrosso. Foram agressões MESMO. Ora, opinião divergente é apenas sintoma de um gosto diverso, não é OFENSA. E pensar diferente é um direito que me cabe. Expor a opinião, também, pra isso criei o blog. O Felipe Lenhart colocou em seu blog, juntos, meu texto e o do Ben-Hur - com quem eu tinha ido ao show. Ben-Hur amou, eu odiei. Daí começou o bombardeamento outra vez, dessa vez mais específico: elogios pro Ben-Hur, porradas pra mim. Quem não pensa como eles é INIMIGO. Qualé? Engraçado é que entre mim e Ben-Hur, amigos que somos, não se criou o menor problema - respeitamos a opinião um do outro, ele gostou pelas mesmas razões por que não gostei, é uma questão de gosto pessoal. Simples assim.

Conversando sobre isso com amigos blogueiros, descubro que o fato é bastante comum. Amigas poetas usam o blog para expor seus poemas, e se o poema for erótico, recebem propostas indecentes. Aprenderam a deletar, a deixar de lado, mas ficam mal…Outros amigos tentaram criar um blog de vanguarda, cheio de irreverências com tudo, e foram tão agredidos e vilipendiados que um deles desistiu pra sempre disso. (Espero que supere, algum dia…)

O mesmo meio que nos oferece a oportunidade de trazer a público aquilo que queremos, com liberdade, oferece também liberdade para os furiosos, ignorantes e recalcados que não respeitam gosto nem opinião alheia. Pitbulls da internet.

Sei que é preciso aprender a conviver com isso, mas confesso que causa tremendo mal-estar suportá-lo. Muitas vezes dá vontade de desistir, de não me expor mais, de me acovardar. Já desisti antes de coisas que me faziam mal. O blog, porém, tem sido mais positivo do que negativo. Manterei. E sendo eu mesma, façam-me o favor!