O pessoal do Paraná elogia muito, na hora tu até te interessas, mas dali a pouco esqueces. E há sempre tanta coisa pra ler e pra comprar, em termos de leitura, que dás de ombros e deixas pra lá. A isso se deve somar um certo tédio causado por anos de leitura obrigatória e continuada de todo e qualquer tipo de periódico, e vai-se compreender perfeitamente minha relutância…
Mas Ben-Hur não deixou passar, e me empurrou uma assinatura do jornal Rascunho goela abaixo. Deixou alguns exemplares aqui, levou meu endereço e email pra eles, não tive mais desculpas: assinei (pelo menos é mensal, a assinatura não é cara…) Recebi o primeiro exemplar “ontônti”, e é jornal, sacumé? Tamanho, cheiro, obrigação de dobrar pra poder ler ou de abrir bem os braços, tudo que um jornal DE VERDADE deve ter… Uma delícia. Pus na bolsa, pra ir lendo pelaí, nas esperas, no ponto de ônibus (mesmo correndo o risco de nem ver o ônibus passar…), nas mesas de café.
Faço leitura seletiva. Não leio, por exemplo, resenhas sobre livros que pretendo ler , mas ainda não pude fazê-lo, para que não dirijam minha opinião. Deixo pra ler depois. Mas leio os ensaios e a opinião sobre o que já li - aprofunda, sedimenta. Às vezes concordo, às vezes discordo, mas isso faz parte. E - lamento, Ben-Hur! - pulo o caderno dos textos literários. O livro é que é o lugar deles, acho horrível um conto grande num jornal, aquele tijolaço, mesmo com ilustração… Poema ainda dá, mas prosa de ficção, num güento. Mesmo que o título do caderno seja Dom Casmurro, e seu símbolo seja lindo sapo, hehehe…
Acabo de receber o número de maio, e devo agradecer a insistência do menino que veio de Ponta Grossa, PR: ex-aluno é cultura, ajuda bastante, mesmo os cronistas peripatéticos…
Rascunho é bem diagramado, e as pautas são variadas. Este número, por exemplo, tem boa entrevista com o jornalista Fernando Molica - que lança seu terceiro livro de ficção. E a entrevista com Antônio Carlos Viana, escritor sergipano e professor preocupado em trazer os alunos para o mundo da leitura, tarefa compartilhada por mim, e encarada do mesmo jeito, me fez um bem danado.Tem ótimo ensaio sobre poesia , do Pedro Lira, especialista na área. Discordo dele num monte de coisas, mas é muito bom ler - sedimentam-se opiniões antigas, aprendem-se algumas coisas novas, revêem-se teorias e conceitos.
E há aqueles montes de resenhas, e eu pulando as que são sobre livros que ainda não li… O Paulo Krauss, de Curitiba, fala do último livro do Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado. Paulo não gostou muito do livro, embora ache que não desmerece a obra do Hatoum. Pois eu AMEI o livro, achei danado de bom, especialmente o emprego que faz dos mitos da região amazônica, explícita e implicitamente. Considero as críticas que Paulo faz ao livro como críticas de alguém cujo viés de leitura passa mais pelo jornalismo do que pela literatura… Mas já concordo plenamente com ele, quando considera que a obra-prima do escritor amazonense é Dois Irmãos. E Paulo Krauss fecha com muita graça esse texto:
” Órfãos do Eldorado é um bom livro de um bom autor. O mito de melhor escritor brasileiro, no entanto, cabe sempre na piada de Cristovão Tezza, que diz não ser nem o melhor escritor de seu bairro, onde também mora Dalton Trevisan.” (no. 97, C1, p. 6)
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