Exagero ao dizer que é um exemplo de vacuidade, e que não diz nada pra ninguém. Sou meio exagerada, ‘cês sabem, mas naquilo que o exagero tem de didático: o pessoal presta atenção no exagero, e por conta de ele ser tão rebarbativo, até acompanha seu raciocínio.
Quando falo em conjunto vazio ou discurso da vacuidade (quando quero ser mais chique e parecer mais culta) estou falando do discurso acadêmico, e aqui, definamos, acadêmico = universitário. E o discurso acadêmico-universitário não chega a ser um discurso da mais completa vacuidade: ele pode significar alguma coisa, sim, mas apenas para outro acadêmico. É besta, chato, tem pouca durabilidade, porque a teoria que se usa hoje vai estar em desuso amanhã, e será substituída por uma nova. Mais, porém, do que susbtituí-la, terei, também, e provavelmente, que abjurá-la e ver apenas seus defeitos, como a gente faz com amante desprezado… E não fala, por exemplo, talvez nem veja, que foi a teoria fora de moda que me deixou apto/a a compreender e utilizar a sua substituta. Do mesmo modo como o amante que desprezei e/ou aquele que me deixou me habilitaram para este novo amor, mais inteiro, desprendido e completo.
A trô de quê? Por causa da palavra OPACIDADE, que li no Cultura do DC, sábado passado. O conceito que o acompanha, em teoria literária, foi emprestado de Paul Valéry, o poeta dO Cemitério Marinho. Mas não se iludam: quem o utiliza vai utilizá-lo emsentido que apenas ele sabe muito bem qual é, pois conhece a palavra “opacidade” através não só de Valéry, mas de vários exegetas e teóricos que o explicaram, negaram, reforçaram o sentido, aprofundaram o conceito, mudaram-no pois. Ler artigo em linguajar acadêmico, assim, exige mais do que conhecer-lhe a semântica habitual e a terminologia específica: exige que sejam conhecidas as variações semânticas, as nuances que acompanham cada termo.
Quando quero ler artigo acadêmico, vou às revistas da minha área, de preferência às de renome ou bem classificadas no ranking. Quando quero ler artigo mais simples, vou à imprensa. E espero encontrar , nela, algo vazado no que brincando chamo de “língua de gente”. Assim, me irrita um pouco encontrar Valéry e sua opacidade num jornal, mesmo que num suplemento especializado. (Este termo é só um exemplo, poderia haver muitos outros. Foi escolhido porque cai como uma luva, e fica bem irônico.)
Há, me parece, a pretensão de acreditarem que publicar em jornal esse tipo de texto acaba por popularizá-lo. Ora, pretensão e água benta não fazem mal a ninguém? Bem, abençoado seja quem acreditar nisso, vai cair dum cavalo e tanto, belo tombo… Os estudiosos que conseguiram popularidade alcançaram isso SIMPLIFICANDO a sua linguagem, e não popularizando os termos e conceitos mais complexos. Pela razão muito óbvia de que um conceito científico tem uma uma história complexa atrás de si, e é preciso, mesmo que superficialmente, dominar essa história para chegar à plena compreensão do conceito e da utilização do termo.
Mas discurso que não alcança seu público leitor é um discurso vazio, sim. Assim, não é exagero, não, eu dizer isso. E, ao mesmo tempo, acho que os meninos devem fazer essa experiência e tentar alcançar esse objetivo. Pelos comentários que me têm sido feitos, o máximo a que se está alcançando é que as pessoas deixem de ler o caderno: tá chato demais, elas dizem. Nem abro mais, dizem outras. Mas só se chega a uma etapa depois de ultrapassar outra, e se não se está educando a ninguém, talvez se eduquem a si mesmos, e aprendam que há frases bíblicas muito corretas. Aquela que diz “A César o que é de César” pode ser uma delas…
Últimos Comentários