Archive for June, 2008 Page 2 of 4



Murphy e Poe

Tenho uma camiseta cuja estampa é do filme O Gato Preto, com Boris Karloff. Acho linda, mas tou evitando usar: me perguntam por que não é estampa de sapo, primeiro. (Tenho uma de sapo, já se sabe: beija eu, da Arte na rua, de Sampa, e é uma graça…) Depois perguntam por que gato preto. E levaria beliscão se Clóvis estivesse por perto: ele diz que dou aula até nas festas, até depois de aposentada. Tenho culpa? O pessoal me rodeia e se põe a perguntar coisas, e vou respondendo. Pra mim, tou só batendo papo. Mas Clóvis teima que não…

Pois me perguntam do gato preto, e começo a falar do conto do Poe. Quando vejo, até o homem do frigorífico tá parado, pernil congelado nas costas, e ao invés de entrar pra despejar aquilo no freezer do açougue, fica ali, olhos brilhando, até saber como termina a história. E nem falo do Boris Karloff, nem do cinema mudo, nem do Ed Wood, com medo de juntar mais gente e brigarem comigo, dizendo que não estou deixando que trabalhem. É coisa fantástica o que o pessoal gosta duma historinha… desde que não esteja por escrito, é claro… Por escrito, só notícia policial. Tá na cara que adoram o gato preto do Poe, com sua cena final de irretocável vingança…

Acho que pra próxima preparo “Os assassinatos da Rua Morgue”, um enigma de crime em quarto fechado, mas confesso que gostaria mesmo é de falar da Filosofia da Composição, onde Poe conta como compôs o poema The raven, O corvo… Aquilo, sim, é uma aventura pelo intelecto como poucas.

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O inverno muda tudo, até a Lei de Murphy vira do avesso. A vida passa a ser mais dentro de casa, com cortinas cerradas, horários mais diurnos, um vinhozinho acompanhando as refeições de fim de semana, tricô, TV. E, pra minha surpresa, até o condomínio fica mais silencioso, e o silêncio dura até mais tarde. Hoje eram nove horas quando fui na banca do Afonso, pegar o Estadão de todo domingo, com seu ótimo caderno de cultura, e mais o Anexo- Idéias do AN. Na volta, cruzei com o simpático casal do andar de baixo: saiu cedo, hoje, heim? me dizem. E tem que rir: se fosse no verão, tanto eu como eles já teríamos ido e voltado há horas…

E todo dia olho a programação do cinema do CIC, e me digo: hoje pego um cineminha… Mas às quatro da tarde a Trindade já começa a ficar na sombra, vai esfriando, ponho uma sopinha no fogo, ligo o aquecedor, às cinco começa Law & Order: Criminal Intent, no AXN… Pego o tricô, macunaimicamente bocejo ai que preguiça, e fico por casa, assim, encolhidinha e feliz!

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Na revista portuguesa, linda receita de minestrone. Vou fazer, vou fazer… Mas tem que traduzir: pôr o tacho ao lume é dose… E não sei o que é “courgette”, google nela… E tem gente que acha que falamos a mesma língua, arre égua! [Ah,e antes que perguntem, "courgette" é abobrinha - fui conferir.]

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Poema para Elisabeth

“Parte: não te separas! Que jamais

Sairei de tua imagem.”

(Elisabeth Barret Browning)

Parte: te separa.

De cada momento

em que nos amamos

(leito ou  não leito,

prazer  ou não prazer)

que nos fique

esta lembrança assim leve,

assim floating,

assim talvez doída,

porque não se repete,

não se repetirá.

Seremos dois,

a ilusão perdemos de ser um,

o andrógino   perfeito,

a conexão de cada hora, cada instante,

desfeita  pelo olhar que não olha,

pelo sonhar que não sonha,

pelo tocar de outra pele,

pela cor que é outra cor

que não aquela

pela melodia alegre que entristece,

pela cama desfeita na solidão,

pelo odor que resiste

mas não está na página do livro

que não se vai abrir…

Parte: te separa!

Parte: não te separas!

Jamais sairei da tua imagem,

Jamais da minha imagem sairás.

Afinal, sou e és,

seremos,

não seremos talvez,

mas somos…

Atlântico

O Emanuel Medeiros Vieira, mané desterrado em Brasília, está virando colaborador costumeiro deste blog. Manda mais um de seus belos poemas. Aproveitem!

ATLÂNTICO

Imperfeitos,

singraram o Atlântico,

mãos ansiosas, mapeando novas terras,

bússolas afetivas,

acalentando sonhos distantes,

peles queimadas,

gosto de sal na boca

(tanto mar, tanto mar),

febre, malária, fibra e pranto.

Na cadeira de balanço -

depositário da memória da tribo,

contemplo a caravela de madeira, pai, mãe, tio violinista,

um agregado louco,

penso no Atlântico,

velas ao vento,

astrolábios,

à beira do poço do passado,

mais fundo do que o suportável pela memória – não acaba

nunca-, proclamo,

“terra à vista, terra à vista”.

(Alvíssaras)

O fusca 66

Semana passada li uma crônica intitulada “Meu carro inesquecível”, do romancista Cristovão Tezza na Gazeta do Povo, de Curitiba. Contava ele sua relação com um Lada, o carro russo que era vendido aqui por precinho camarada…e conduzia a problemas nada camaradas.

Comentei a crônica do Tezza com Alcides Buss e este se enterneceu: pois eu tenho um Lada, diz ele. Acho que fui o primeiro da ilha a comprar um, e gosto demais dele. Como tenho um mecânico na Costeira que faz milagres, tenho o carro até hoje, e ele está inteirinho…Pode dizer pro Tezza que, se ele quiser matar as saudades, está à disposição.

Fiquei pensando se eu poderia escrever uma crônica sobre o tema, pois não dirijo. Tentei aprender, mas foi um tal desacerto, que não insisti: o mundo já tem barbeiros que chegue, não precisa de mais um… Descartei a idéia da crônica, pois. Mas de repente me deu um estalo. Ora, claro que tenho um carro favorito, cuja história vivo contando, nas festas, porque é divertida demais. Não um carro meu, mas o fusca meia-meia do Marco Túlio!

O Marco foi meu orientando de Trabalho de Conclusão de Curso, fazendo um Cd-Rom sobre os compositores primeiros do samba: Donga, Sinhô, Pixinguinha e outros. Tivemos dificuldade de conseguir material sobre Carlos Cachaça, mas nos divertimos muito ouvindo os vinis que Marco conseguira, de Nelson Cavaquinho. Os discos com seu chiaço, Nelson com sua voz estragada pelo cigarro e pela bebida, e nós dois babando de prazer, achando a coisa mais linda…. Gosto é gosto!

Uma vez fomos almoçar juntos pra discutir seu TCC, e Marco me deu carona no seu Fusca 66, beigezinho. Quando saímos do restaurante, chovia torrencialmente. Sem limpador de pára-brisa, ele pegava um desses rodinhos de pia, e passava no vidro… Quando me deixou na UFSC, no ponto de ônibus em frente ao departamento, desceu para abrir a porta do meu lado, debaixo daquela chuva. As pessoas que estavam no ponto ficaram encantadas: que menino educado. Educado, nada: não havia “enrolador de vidro” nem trinco do lado de dentro, daí a função tão cheia de finesse do Marco…Eu não podia baixar o vidro e puxar o trinco, de modo que não havia remédio, ele tinha que descer e abrir a porta pra mim. Eu gozava: Marco, tu é que arrancaste a manivela de abrir, assim as meninas só saem daqui se deixares…

Uma tarde de sábado me liga: vem ver o que já fiz, fessora! E se ofereceu para vir me buscar na Trindade, pois ele morava na Lagoa. E eu, nada gentil: não, senhor! Operação Verão, já ouviu falar? Tá cheio de policial no morro da Lagoa, vão apreender aquele fusca, e vamos ficar a pé neste sol. Deusolivre! Deixa que eu me viro!

Mas teve vez em que não escapei: foi quando fomos gravar as sonoras do CD-Rom. Mendonça e eu fizemos a locução, saímos do Laboratório de Rádio depois das onze da noite… e chovia, uma daquelas chuvas torrenciais de verão. Marco foi buscar o fusca e me pegou quase na esquina, sem problemas. Mas desta vez o vidro não fechava, e tive que ir sentada no banco de trás, porque o banco do carona estava que era uma lagoa… E no banco de trás havia montes de roupa suja, que ele estava levando pra mãe dele lavar… Eu sumia no meio… Quando me deixou em casa, ensopada, me encostei na porta, e não parava de rir: o vidro do lado dele também estava aberto. E ele ia ao Morro das Pedras, levar material pro designer fazer os ícones do CD.Foi sentado numa poça d’água, mas merecia.

Por incrível que pareça, ele ainda tem aquele fusca, que ama de paixão. Agora está consertado, recuperado, pintado, lindo… Perdeu um pouco do encanto, sem dúvida…

(publicado no Anexo, AN, 19/6/2008. p. 3)

13 Cascaes

Convidamos ao lançamento do primeiro título da Fundação Franklin Cascaes Publicações, 13 CASCAES, coletânea de contos que inclui Adolfo Boos Jr., Amilcar Neves, Eglê Malheiros, Fábio Brüggemann, Flávio José Cardozo, Jair Francisco Hamms, Júlio de Queiroz, Maria de Lourdes Krieger, Olsen Jr., Pérciels Prade, Raul Caldas Filho, Salim Miguel e Silveira de Souza, com depoimento de Peninha e ilustrações de Tércio da Gama.

Lançamento no dia 19 DE JUNHO (quinta), às 19 HORAS, na CASA DA MEMÓRIA (Centro, rua Padre Miguelinho, 58, ao lado da Catedral Metropolitana).

Leonor Scliar-Cabral:a poesia da sapiência

VELHOS JORNAIS

Talvez um pão dormido,

jaz o jornal embaixo da soleira.

Mãos iletradas magras,

Mercúrios sorrateiros,

dobraram silenciosas as notícias.

Transpõem a madrugada

a tinta a celulose o antimônio

o sangue do tipógrafo

tossindo sobre as caixas.

O vai-e-vem que esmaga da impressora.

A imprensa era tão livre

quanto a memória arquivada e traçada

pelo Assis Chateaubriand.

Olhos virgens do foca:

a história é como o diretor a vê.

(IN-: O sol caía no Guaíba)

Para mim ela é e sempre será a “Professora Leonor”, mestra que me foi em duas disciplinas de pós-graduação e, mais que isso, mulher viajada e culta, admirada por isso. Gaúcha de Porto Alegre, radicou-se em Florianópolis há mais de 20 anos, aposentando-se como professora da UFSC, onde ainda está ligada ao Pós-Graduação de Lingüística, sua área acadêmica.

Mas uma parte de nosso conhecimento literário vem disso, das relações pessoais, daquilo que conhecemos das pessoas, tanto das que escrevem, como das outras. E nisso tenho sido pessoalmente premiada. Para melhorar, escritores e gente famosa não me constrangem: costumo vê-las como gente igual às outras, mas com um talento especial.Algumas sentem agudamente, e têm, agudamente desenvolvido, o sabor e o talento da palavra, coisa mais maior de boa…

E assim é minha relação com Leonor Scliar Cabral, essa admiração pela inteligência e pelo talento, e um grande afeto pela pessoa, uma pessoa tão completamente diferente de mim mesma. Afinal, Leonor é elegante e formal, e eu sou informal a ponto da deselegância…

Sobre sua obra, diz ela mesma: “Meus temas têm sido: o erotismo na mulher e, mais recentemente, na velhice; o judaísmo e a memória sefardita; a linguagem, em suas mais variadas formas e processos, culminando com a invenção do alfabeto. Meus poemas também são autobiográficos.”

Quero lhes mostrar poemas de seus dois últimos livros, e para isso começo com BUS STOP

Sob o neon fiquei horas parada/ na parada que me transporta ao nada /e o ônibus chegou sem passageiros, /condutor.// Desfilam os sobrados com seus palcos / onde ao redor da mesa iluminada / conversam as famílias com seus pratos./ Eu lá estou:// a criança me acena conivente / e no escuro do carro em que viajo / eu retribuo o gesto de quem parte / consigo só. (IN-: De Senectude Erotica)

O ônibus é sem dúvida uma metáfora da vida, seu trajeto é nosso viver e o bus stop, o ponto de ônibus, os momentos de reflexão, de introspecção, de análise. A criança é lindamente, trafalmadorianamente ela mesma. Lembremos Machado de Assis: “o menino é o pai do homem”. O que somos quando criança mostra o que seremos ao crescer, e sempre há um pouco ou muito da criança que fomos em cada um de nós. E como esta criança – e criança é palavra que serve para os gêneros todos – se diz para si mesma, ela parte consigo só…

Há neste poema uma imagem que me agrada particularmente, por sua força expressiva, resultante da ambigüidade com que está construída: “ao redor da mesa iluminada/ conversam as famílias com seus pratos.” Os membros da família conversam entre si enquanto têm os pratos à sua frente, ou conversam com os pratos, na incomunicabilidade que tanto faz sofrer todos os seres humanos? O clima do poema faz pensar na segunda hipótese, mas a primeira não se exclui: podem conversar entre si como se falassem com os pratos, pois na verdade não se conhecem, não se vêem, não se sabem…

Do mesmo livro, a dor do envelhecimento:

ÁGUAS PARADAS

O meu olfato aos poucos vai morrendo./Sem saber que estou surda, da janela, /surpreendo o badalar de um velho sino / que não me chega // e a brisa em sopro faz tremeluzirem / as corolas douradas dos jacintos /e os cachos de glicínias pendurados,/ quase inodoros.// Os frascos de perfume estão vazios / e as gotas esparzidas sem vestígio,/ sem encontrar abrigo nos meus poros,/ envelhecidos. E nem eu sinto o que eu própria transpiro,/ um odor acre em jarra enferrujada,/águas paradas no odre com sua pátina,/e com seu mofo. (IN- De Senectude Erotica)

No entanto, este mesmo envelhecimento não impede erotismo e paixão. Só que eles se tornam dolorosos:

PEDIDO

Mesmo que doa, quero que me rasgues,/que tu me lanhes e depois me afagues//lambendo as chagas como cães no cio,/pedindo perdão pelo desvario// de sentir prazer nas marcas que arrasto/ para não te esquecer no leito azul// quando sozinha eu fico e ouço os gemidos/que se misturam ainda ao farfalhar//do bosque e seus sussurros abafados./ Mesmo que doa, vem, meu doce amado.(IN-: De Senectude Erotica)

Seu último livro se chama O sol caía no Guaíba (Bestiário, de Porto Alegre, 2006), e conjuga sonetos e odes. Dele, vou citar o soneto que o crítico gaúcho Fábio Lucas, que faz a apresentação, considera o poema mais bem realizado :

SENTIMENTO DO TEMPO

Invisível em visível se torna,/ da esfera mais longínqua a harmonia./ Da estrela mais distante que luzia,/ embora extinta, a música retorna,// mensageira do que não é mais nada./ Somente luz, vagando, sobrevive,/ ressuscitada nos que ainda vivem/ a contemplar a noite iluminada // e a entoar canções já irmanados/ pela mesma saudade, a mesma espera/ de quem partiu no tempo, atormentado.// Assim teu olho azul ainda é/ entre o ser e as coisas que perduram/ ao som do piano, flauta e oboé.

Enquanto a tendência atual na poesia é não se utilizarem os sinais de pontuação, deixando por conta do leitor organizar essa fragmentação que é tanto sintática como semântica, Isso vai ocorrer mesmo nas chamadas formas fixas, das quais o soneto é a mais popular. Leonor, no entanto, segue as regras clássicas, e estabelece ela mesma o ritmo e a entonação da leitura. E se utiliza magistralmente do enjambement, tanto entre versos como entre estrofes, um verso encavalgando o outro, emprestando-lhes uma certa angústia, uma certa premência. Seu vocabulário é simples, mas a erudição da mestra não consegue se esconder: vai usar uma estrutura de frase que é exemplo da linguagem clássica, quando diz: “teu olho azul ainda é”. Porque aqui o verbo ser tem o sentido de ter existência. Pode haver coisa mais bonita?

Dropes da semana

* Ela se chama Hermenilde Boeing de Lima, tem 83anos, nasceu em Armazém e mora atualmente em Braço do Norte. Já morou em Brasília, visitava num ano o sul, para  rever sua família, e no outro a cidade  de Patos, na Paraíba, para visitar a família do marido. A viuvez, primeiro, e a idade,depois, fizeram-na abdicar do que lhe dava tanto prazer. Mas viajou a meu lado,no ônibus, o “pinga”. Saímos de Floripa às 13 horas, e ela desceu em Piçarras, às 15. Ia se encontrar  com um primo que não via há mais de dez anos. Nestas duas horas me contou sua vida, e lamentou “perder o aconchego”, quando teve que descer. Quando o ônibus deixou a rodoviária, pude vê-la sentada numa cadeira da lanchonete: uma velha senhora de cabelos brancos rareando, saudosa do marido, meio triste com o que a vida lhe tem reservado, mas cheia de garra,ainda. Gostei dela.

* Amanheceu chovendo em Jaraguá. Quando abri a janela do meu quarto, às sete, pude ver a curva do rio Jaraguá, ali atrás, águas revoluteando pelas pedras, e depois se acalmando, mas sempre ligeirinhas. O trem passa ali na frente, apitando,imenso trem cargueiro, que adoro ver, já que são raros em SC.

* Pedi à Izabela de Liz, “minha” editora no Anexo, que dissesse ao Marcelo Henrique, o ilustrador das crônicas, que eu estava muito satisfeita com seu trabalho. Ela deu o recado, ele gostou. Mas amei especialmente o Gagarin no espaço e a Terra azul ao fundo (nada a ver com o fato real, já que o Gagarin não saiu da nave). Mas quem cria pode tomar certas liberdades, para tornar mais bonito o que está fazendo,né não? E ela avisa que meu artigo sobre Leonor Cabral vai sair no Idéias de amanhã.Fico bem feliz. Agora termino Alcides e Rodrigo de Haro, os dois quase prontos, à espera  dos retoques finais - só me animo quando o anterior é publicado…

* Ontem fomosjantar no Casarão,da Nice,aquela simpatia. Peixe no molho de mostarda, muito bom. Hoje iremos a uma feijoada  beneficente no Beira-Rio (o de Jaraguá, o de Jaraguá!). Mas antes, supermercado, prumas comprinhas básicas - à noite faço lasanha prum povo. E passo na Grafipel, pra dar um abraço no Gelson e no Bob - e olhar as novidades. Só não vou     ver  o Carlos (Schroeder) meu querido editor, que está em Xanxerê, dando Oficina pro SESC.  E amanhã tenho um churrasco - os 21 aninhos do Italo. Volto mais gorda pra casa,oh dor!

* O espacejador aqui tá duro feito uma pedra. Palavras juntas ou separadas   demais, relevem. Tá de lascar!

 

 

 

O poder da moderação

Nasci logo após o final da Segunda Grande Guerra, e todo o meu olhar sobre o mundo é um olhar de interesse e acompanhamento, desde que percebi que havia aquele grupo de barbudinhos na Sierra Maestra lutando para tomar o poder – e conseguindo fazê-lo, derrubando a ditadura de Fulgencio Batista – em Cuba.

Uma das lembranças mais bonitas que tenho é a de Yúri Gagárin, o primeiro astronauta, chegando lá em cima e nos deixando descobrir algo que foi um alumbramento: a Terra é azul. O que hoje parece óbvio para todo mundo não era sequer suspeitado, naquela data – e essa frase deslumbrou tantos escritores que é epígrafe de vários livros e infinitos capítulos…

Tenho visto apelidarem nossa época de muitas coisas, ao longo da vida. Já foi a era da comunicação, a era dos extremos, a era da tecnologia… Não a vi chamarem daquilo que ela é: a era dos massacres, dos genocídios, das guerras (e guerrilhas) urbanas, da poluição e destruição ambiental. Porque, suponho, todas as épocas do ser humano na Terra sejam um pouco isso. E isso é uma constatação, ao menos no presente momento, não é uma crítica. Não somos uma espécie moderada.

Pois eu chamaria nosso tempo de “Era da Moderação”. Não porque nos tenhamos tornado assim, finalmente, mas porque nunca vi a moderação ser recomendada com tanto afinco, e para tudo.

Vejam na questão alimentar, por exemplo. Antes nos proibiam de usar manteiga, que deveria ser substituída pela margarina. Foi descoberto, então, que os problemas de uma ou de outra se equivaliam. O uso da manteiga foi liberado: mas com moderação. Acredito que o mesmo seja dito para quem prefira margarina. Assim aconteceu, também, com a gema de ovo. Colesterol demais, diziam; usem apenas a clara. Daí se viu que a gema tem nutrientes importantes, e ela deve ser ingerida, sim. Mas com moderação… O mesmo com a carne vermelha, que me foi “receitada” duas vezes por semana, já que não consumo muita proteína…

O vinho tinto faz bem, se usado com moderação. A cerveja faz bem, apenas um copo por dia, em alguma refeição. E um uisquezinho lá de vez em quando não faz mal pra ninguém, né mesmo?

Da janela da área de serviço vejo o pessoal que se exercita na avenida Beiramar, em Floripa. Desde as cinco da manhã, faça frio ou calor, chova ou dê dia ensolarado, tem gente caminhando, correndo, bicicleteando por lá. É claro que quando chove o ímpeto da maioria diminui muito, mas sempre há algum viciado em endorfina que não desiste de se exercitar. Eu mesma caminho meia hora por dia, porque detesto fazer esteira, mas faço musculação, programa especial para minha idade e condições físicas, no mínimo três vezes por semana; podendo, os cinco dias úteis. Aos finais de semana, como não há academia, uma hora de caminhada, desde que não esteja chovendo, nem frio demais. Não sou tão fissurada assim…

No auge da popularidade do dr. Cooper, ninguém poderia fugir ao dever moral de fazer exercícios aeróbicos, de preferência corrida, o mais completo deles. Hoje, mais moderados, se recomenda moderação… em toda e qualquer modalidade.

Continuo achando, hoje como há alguns anos, quando a li pela primeira vez, que a melhor colocação sobre isso é a de Millôr Fernandes, o grande filósofo brasileiro, em suas Reflexões sem dor: “ Se você viver com moderação, comer com moderação, beber com moderação, fizer amor com moderação, você pode viver de saco cheio. Mas uma coisa eu lhe garanto, meu amigo: você vai morrer na mais perfeita saúde!”

Grande Millôr!

(publicada no Anexo, AN, 12/6/2008. p. 3)