Tive que trocar as portas cá do moquifo, cada dia menos moquifento: tá ficando uma graça. Gosto de decorar a casa, de planejar armários e enfeitar,de pensar em cores e paredes. As portas velhas estavam com cupim, mandei fazer novas. A que dá pro hall da escadaria do prédio comprei pronta, e escolhi uma com quadrados e retângulos, porque lembrava os quadros do Mondrian. É uma porta linda e pesada, apesar de o modelo ser de porta interna.
Do lado de fora ela foi pintada do gelo padrão do condomínio, não pode ser de outro jeito. As internas vou pintar de creme, seguindo um esquema já pensado faz tempo. (Zezé, a parede grande não vai ser vermelha, mas terracota, lamento informar! Talvez laranja, porque a de trás do sofá vai ser um verde sóbrio, meio azeitona… As outras - não muitas, que o apê é pequeno! - serão todas creme…) Trabalho em casa, preciso de cores e de beleza a meu redor, pra que eu tenha mais prazer ainda no enclausuramento necessário.
Mas eu olhava pro lado interno daquela porta e pensava: não, creme, não. Vai ser um desperdício daquelas possibilidades todas. Pois criei coragem, e ela está virando um quadro de Mondrian, aquele mais conhecido, com um quadrado vermelho em cima, um retângulo azulão no meio e outro amarelo-vivo em baixo; o resto em branco, com filetes pretos. Tá ficando lindo, eu tou me lambuzando toda - talvez precise de um banho de aguarrás, mais tarde, apesar dos aventais e das luvas, desajeitada e apressadinha como sou - mas tou gostando do resultado. Tive que planejar a pintura passo a passo, para que as tintas não escorram umas sobre as outras. Comecei pelo vermelho de cima, cobri com fita e jornal o resto. Mão por mão, duas “demão “, como dizem os pintores, em cada parte, devagarinho.
O cheiro de tinta tá de matar, mas é cheiro bom, cheiro de coisa nova e limpinha… Faz frio e sou friorenta, mas vou deixando tudo aberto, para que o cheiro vá saindo como der. À medida que as cores vão se fixando, secando e cobrindo o fundo, e começo a ver que vai ficar como eu queria, me animo mais um pouco.
O marceneiro que veio instalar as portas não conhecia Mondrian, tá na cara. Fui pra internet, mostrei para ele. Achou lindo, e comentou que o filho tinha adorado aquela porta, queria uma igual pro quarto dele. E o pai disse: ah, meu filho, esta porta é só pra quem pode! E agora dizia pra mim, gozador que só: e nem vou dizer pra ele que Dona Regina gosta muito desse “Mandrião” - jeito que achou de memorizar o nome - pois ele vai se assanhar em dobro… E quero ver a cara dele, quando vier me trazer as mesinhas de cabeceira e olhar o “Mandrião” já pronto na porta!
Últimos Comentários