Archive for July, 2008 Page 2 of 5



A porta e Mondrian

Tive que trocar as portas cá do moquifo, cada dia menos moquifento: tá ficando uma graça. Gosto de decorar a casa, de planejar armários e enfeitar,de pensar em cores e paredes. As portas velhas estavam com cupim, mandei fazer novas. A que dá pro hall da escadaria do prédio comprei pronta, e escolhi uma com quadrados e retângulos, porque lembrava os quadros do Mondrian. É uma porta linda e pesada, apesar de o modelo ser de porta interna.

Do lado de fora ela foi pintada do gelo padrão do condomínio, não pode ser de outro jeito. As internas vou pintar de creme, seguindo um esquema já pensado faz tempo. (Zezé, a parede grande não vai ser vermelha, mas terracota, lamento informar! Talvez laranja, porque a de trás do sofá vai ser um verde sóbrio, meio azeitona… As outras - não muitas, que o apê é pequeno! - serão todas creme…) Trabalho em casa, preciso de cores e de beleza a meu redor, pra que eu tenha mais prazer ainda no enclausuramento necessário.

Mas eu olhava pro lado interno daquela porta e pensava: não, creme, não. Vai ser um desperdício daquelas possibilidades todas. Pois criei coragem, e ela está virando um quadro de Mondrian, aquele mais conhecido, com um quadrado vermelho em cima, um retângulo azulão no meio e outro amarelo-vivo em baixo; o resto em branco, com filetes pretos. Tá ficando lindo, eu tou me lambuzando toda - talvez precise de um banho de aguarrás, mais tarde, apesar dos aventais e das luvas, desajeitada e apressadinha como sou - mas tou gostando do resultado. Tive que planejar a pintura passo a passo, para que as tintas não escorram umas sobre as outras. Comecei pelo vermelho de cima, cobri com fita e jornal o resto. Mão por mão, duas “demão “, como dizem os pintores, em cada parte, devagarinho.

O cheiro de tinta tá de matar, mas é cheiro bom, cheiro de coisa nova e limpinha… Faz frio e sou friorenta, mas vou deixando tudo aberto, para que o cheiro vá saindo como der. À medida que as cores vão se fixando, secando e cobrindo o fundo, e começo a ver que vai ficar como eu queria, me animo mais um pouco.

O marceneiro que veio instalar as portas não conhecia Mondrian, tá na cara. Fui pra internet, mostrei para ele. Achou lindo, e comentou que o filho tinha adorado aquela porta, queria uma igual pro quarto dele. E o pai disse: ah, meu filho, esta porta é só pra quem pode! E agora dizia pra mim, gozador que só: e nem vou dizer pra ele que Dona Regina gosta muito desse “Mandrião” - jeito que achou de memorizar o nome - pois ele vai se assanhar em dobro… E quero ver a cara dele, quando vier me trazer as mesinhas de cabeceira e olhar o “Mandrião” já pronto na porta!

Novo blog no ciberespaço!

É com imenso prazer que tenho lido os emails da ex-aluna Malu Echeverria dos Santos, que mora em Portugal, atualmente.  Acompanha o marido, e aproveita pra fazer  alguns frilas, e aprender muito.  Temos conversado principalmente sobre a literatura lusa e luso-africana. Ela acha que sei mais do que ela, e a princípio parecia que era isso mesmo: indiquei-lhe alguns nomes, na verdade muitos, mas ela já está alguns anos-luz à minha frente…

Em mensagem desta semana, manda contar que andou lendo Agualusa e Inês Pedrosa, e no momento lê Mia Couto, e ri: achava que Mia fosse nome de mulher…(Isso eu sabia: Mia é diminutivo de Emílio,  e  o autor é ótimo, além de lindo!) E eu com uma certa inveja. Só tenho lido catarinas, um ou outro policial,  pra descansar da dita “literatura séria”… Mas tenho os últimos de cada um deles ali, na boca de espera, pra quando fechar os livros didáticos.

Pois Malu está de blog novo, e manda endereço. Lança um olhar de brasileira arguta e inteligente sobre sua vida e suas viagens européias. Tem o que dizer! Vale  a pena dar uma olhadinha: Hoje é o dia é o nome do blog. O link: www.hjeodia.blogspot.com

Ratatouille, a comida

Nos últimos tempos tenho me posto a preparar pratos que antes só comia em restaurante… ou na casa dos outros. Tenho tempo, sinto prazer em fazer… AMEI este daqui!

Ingredientes

2 cebolas pequenas

2 dentes de alho, picados

4 tomates maduros

2 pimentões vermelhos ou amarelos

2 abobrinhas italianas

2 berinjelas pequenas

150 mil de azeite

3 folhas de louro

um pouco de tomilho

sal e pimenta a gosto

caldo de legumes

Preparo

Pique a cebola. Descasque os tomates, e pique. Limpe das sementes e película branca interna e pique os pimentões. Corte as abobrinhas e as berinjelas em cubos.Pique os dentes de alho.

Numa frigideira grande, ou panela de fundo grosso, refogue a cebola com o azeite e o alho (separe um pouco do alho, pra usar depois). junte os pimentões, refogue mais um pouco. Adicione os tomates, o louro e o tomilho.

Tempere com sal, pimenta e deixe cozinhar por cerca de 30 minutos, com tampa.

Enquanto isso, refogue as berinjelas com um pouco de azeite e metade do alho separado. Refogue as abobrinhas em outra panela, com o óleo e o alho restante.

Adicione as berinjelas e as abobrinhas à panela com os outros legumes, e cozinhe por mais 15 minutos. Ajuste o sal e a pimenta.

Tempere com sal e pimenta, e deixe

Resquícios do dia

Tava aqui me lembrando agorinha mesmo de alguns aspectos de minha rápida passada por Campinas, e pensei em falar deles.

Uma das coisas que mais me assusta é o tamanho da destruição ambiental naquela região. Conforme disse, Barão Geraldo é muito arborizado, mas é arborização feita sem planificação, espécies diferentes plantadas lado a lado, sem muita estética. Fica bonito? Fica, sim, mas elas não dão conta nem de limpar a atmosfera, nem de umidificar o ar: menos de 30% de umidade relativa do ar, pra quem está acostumado a mais de 80% o ano todo, é de lascar… Uma seca horrível, camadas de pó na copa das árvores, muito automóvel circulando, muita gente pra todo lado, argh!… (Notar que a arborização da UFSC, com seu projeto by Burle Marx, me deixou mal-acostumada… Nem a Unicamp escapa dessa mixórdia de tipos e espécies, largadas no chão de qualquer jeito, e crescendo lindamente, que as árvores são a coisa mais linda que existe no mundo!)

O setor de serviços é muito bom, o comércio idem. Em compensação, Campinas é grande, mas é interior: lentos, lentos, e, de modo geral, não compensam a lentidão com simpatia e boa vontade, com as honrosas exceções de praxe… As meninas da Any Any, em um dos shoppings, acho que no Dom Pedro,são uns amores e a Aline, que me ajudou a escolher um pijama pra Cris me dar de aniversário, vai receber uma Sapinha Meiga de presente pelo correio. Podem, por isso, avaliar que gostei mesmo da guria. E do mesmo jeito como estranham meu R uvular, eu fico meio ouriçada com aquele r flap deles… Eu era uma só, eles eram muitos, muitas po-r-tas e ca-r-tas, cês sabem!(como a gente estranha o sotaque, né? Falamos a mesma língua, com melodizações diversas - isso sem falar do pão de trigo, hehehehe…)

As livrarias fizeram minha delícia. Não gosto muito da FNAC, apesar do estoque. É fria, muita diversificação, mau atendimento. Na fila do caixa, envergonhei Cristina. Entrei pelo outro lado, pro atendimento preferencial. Havia só dois caixas. Um paulista “gentil” me cortou a frente, e entrou ali, pra uma troca. No outro caixa, um embananado que não acertava sua própria senha no cartão… Pra troca, a gerente teve que vir. Quando ela chegou, falei pra Cris, e alto, é claro: ainda tou pra ver a famosa eficiência paulista, de que se gabam tanto…Devia haver setor separado para as trocas. E só dois caixas, e uma fila. Se fosse nas Americanas, já teriam dado jeito!

A gerente disse pra caixa: atende a senhora aqui, que ela tem direito (e ainda bem, pois já havia outra paulista gentil furando a fila, jovem de uns 25 anos, entrando pelo outro lado!)(Não, este comportamento não é monopólio paulista, existe no mundo todo. Só que como aquele estado é muito povoado, sua concentração é meio alta…). Cristina comenta: mãe, eu fico com vergonha, mas se não tivesses falado, não terias sido atendida…Eu sei disso, e por isso falei. E espero ter envergonhado o quarentão mal-educado que passou na minha frente, mas duvido: se se acha no direito de resrespeitar quem é mais velho, vai se vangloriar pros amigos de ter sido mais esperto que velhinha malcriada que deve ser nordestina…

Mas o prêmio de mau atendimento, o Prêmio Ananás do Ano, vou conceder pro pessoal de terra da TAM, os atendentes do aeroporto de Viracopos. Má vontade, lentidão, cara amarrada, PQP! Pra concluir, a moça se esqueceu de me entregar os tíquetes da bagagem, tivemos que voltar lá, quase na hora do embarque.É o único vôo direto que há, de Campinas pra cá e viceversa, mas da próxima vez, se a houver, vou pensar com carinho no pinga-pinga da Gol… Porque a Gol, mesmo em seu estilo trem de subúrbio, tem um pessoal bem treinado e gentil.

O vôo atrasou uma hora ( o avião vem de Brasília), e num dia muito bom, como estava, o trajeto foi de uma hora apenas, e de completa tranqüilidade. A tripulação deu uma nota cômica: a comissária que foi dar as boas vindas nos recebeu no vôo 8262, o que não era. Todos riram. O comandante, nos avisos em inglês, nos recebeu no vôo eight-four-seven-THREE e era seven-FIVE . Menos gente riu, mas foi engraçado. A meu lado viajava simpático bombeiro de Brasília, vindo pra fazer um curso, nada da atitude falsamente descolada dos executivos a bordo. Como ele também riu do aviso do comandante, eu lhe disse: só espero que eles saibam pra onde estão indo…

E foi ele quem me explicou que o avião estava atrasado porque tinham precisado convocar tripulação nova, já que a originalmente destinada ao vôo tinha ficado presa em aeroporto que não abrira. A tripulação devia estar ainda meio confusa. Mas a TAM de Viracopos não deu qualquer explicação…. Não, não vou me queixar à ANAC: já deixei reclamação na TAM de origem.Além disso, não quero que Tadeu tenha que preencher mais nenhum formulário, só por causa de mim!

Vou a pé!

Rua congestionada, fila de carros fluindo com lentidão. Alguém na minha frente pergunta ao guarda: que houve? E ele, enraivecido: é aquela praga do amarelinho, que pára em qualquer lugar!

Tive que me conter pra não rodar a baiana… Porque eu vinha em sentido contrário, e sabia que o problema tinha sido causado por um ônibus atravessado na pista da esquerda. E ele estava atravessado porque precisava entrar numa transversal, para ter acesso ao terminal urbano, e havia um carro estacionado bem na esquina. E cadê o guarda?

O motorista do coletivo não se alterou. Deixou o ônibus assim, atravessado para descer, ocupando sua pista, se encostou no banco e se pôs a beber água na garrafinha. Na maior calma. Ao mesmo tempo, pensei: deve passar por isso mil vezes por dia, está vacinado. Como se não bastasse o trajeto repetido trinta vezes por dia …

Minha bronca com o guarda, porém, continua vigorando. Porque, vejam bem, o amarelinho, transporte seletivo, faz o que a lei lhe permite. Ele tem o direito de parar fora do ponto, para que o passageiro suba ou desça. E atrasa o fluxo de carros um pouco, às vezes, nos momentos de pico, mas é só. As calçadas estão cheias de carros estacionados em cima, em local proibido, com o som a mil decibéis, com canos de dez metros amarrados, sem sinal algum. Isso parece não incomodar o guarda. Carro pode tudo…

Nos dias da greve dos motoristas de ônibus, foi uma coisa de louco. Todo mundo tira carro da garagem, e estaciona em qualquer lugar. Pedestres, espécie urbana e bípede de inseto, salvem-se como puderem! Fui ao banco, e na minha frente ia senhora com seqüela de ACV, caminhando com dificuldade. Entre nós e a entrada do banco, três automóveis ocupando a calçada. Calçada estreita em rua estreita e congestionada, mas que remédio: vamos para o meio da rua. Se já me zangara por minha causa, fiquei zangada em triplo por causa dela.

Não sou modesta, não sou humilde. Não sei se é o “petismo” sempre latente; não sei se é saber que poderia ter automóvel, se quisesse; não sei se é muita auto-estima. Sei, de certeza, que é pelo fato de que não me envergonho de brigar, quando acho que devo.

Mas os motoristas folgados e desrespeitosos não estavam ali, nem havia guarda por perto. Aliás, nunca há - não patrulham as ruas de bairros, só as do centro…

Na entrada de meu condomínio, uma mocinha num carro atravessado na calçada. A senhora seqüelada vai para o meio da rua, outra vez. E minha paciência foi pro brejo: “moça, tire esse carro daí”. E ela: “já vou sair”. Fiquei mais zangada: “enquanto a senhora não sai, os pedestres têm que passar numa rua entupida de automóveis.” Porque, observem, minha bronca tinha razão de ser: o condomínio tem estacionamento com bom espaço pra manobra. Seria fácil ela entrar e fazer a volta. Do jeito como estava, teria que sair de ré no meio daquele movimento todo. Desrespeitosa, barbeira e burra. Mas ela, raivosa, fez a bobagem de responder: “não vou demorar, dona!”

Fiz a pose mané conhecida. Mãos na cintura, disse-lhe, com a franqueza habitual: “se não sabes dirigir, minha querida, não dirige!”

Quando entrei o porteiro veio me dizer: “tadinha ela, a moça não ia demorar”. Sobrou pra ele: ” dizes isso porque ela é moça e bonitinha. Por que não a mandaste entrar e fazer a volta aqui dentro?”

O que há com o povo? Calçada é para pedestre, não é para carro estacionar porque quem o usa tem preguiça de caminhar, ou está atrasado, ou está com a mãe, o pai, o papagaio na UTI. Já ouvimos todas, né? Respeito é bom, e a gente gosta.

(publicado no Anexo do AN, dia 24/7/2008. p. 3)

Barão sem bentevis…

Meus poemas de domingo, uma série metida a besta que comecei a fazer, começam sempre (ou quase sempre…) com bentevis cantando… Pela simples razão de que, em meu condomínio, são os bentevis que me acordam, todo santo dia, enxeridos que são. Se não forem eles, serão os ônibus do terminal, de modo que sou mais os bentevis…Ainda mais quando me lembro do grande amigo Flávio (José Cardozo) e seu infanto-juvenil e da crônica da Cecília Meireles, todos os dois tratando de um bentevi gago… (querem bem-te-vi? Tudo bem, tenham!)(sim, pode escrever dos dois jeitos, não me chateiem!)

Estive durante cinco dias em Barão Geraldo, distrito de Campinas onde se situa a Unicamp, em encontro com a filha, que veio de João Pessoa trabalhar num projeto, em suas férias escolares. Conheço Campinas desde a década de 1960, uma cidade bonitinha que era, a maior da região, mas muito agradável.(Hoje tem mais de dois milhões de habitantes, e não está lá muito agradável…) Conheci Barão Geraldo apenas quando a Cris se mudou pra lá, pro seu mestrado, e continuou por lá pro doutorado - faz cerca de dez anos.

Como aconteceu com a Trindade, que cresceu em função da UFSC, até se tornar o bairro mais populoso da Ilha, “Barão” (como eles chamam) foi se formando ao redor da Unicamp. Não vai crescer como aqui, porque a maioria dos professores não mora por lá, mas é um lugar agradável, arborizado, bem classe média, com casas bonitas e jardins tratados, mais os altos muros, imensos muros, preço que a paulistada paga pela prosperidade… Gosto de Barão. Não tem nada pra se fazer, diriam os jovens animadinhos, mas tem bons restaurantes, padarias ótimas, a pizza da Estação Santa Fé é divina (a de coração de alcachofra, então, nem se fala!) e os botecos são bons,segundo o pessoal (não fui a nenhum…) E alrededor existem aqueles shoppings ótimos, pra quem gosta - o Dom Pedro se gaba de ser o maior da América do Sul, desbancando o Iguatemi- Campinas. Imaginem se não me esbaldei nas livrarias. A Cultura, pra variar, é uma graça!

Ficamos na casa da Vera e do Fábio, que estão em Cornel, pro pós-doc dele. Tem jardim gramado, árvores, cachorro, pra felicidade da Cris: é uma cachorrinha vira-lata muito medrosa e feinha, chamada Leca, que se desmanchou de amores por mim apenas quando comecei a lhe dar uma fatiazinha de presunto, depois do café, escondida da “tia” dela… A casa foi projetada pela mãe da Vera, que é arquiteta - é bonita, up-to-date, mas é um exemplo daquilo que Domingos chamava de “achado de arquiteto”, pois não é nada aconchegante.

E no fim as cidades universitárias se parecem, isso é engraçado. Pouca gente na Unicamp (férias, né?), mas é um pessoal à vontade, relax, e ainda peguei o finalzinho do movimento da SBPC, fazendo questão de ficar bem longe… A Livraria do IFICH é legal, a atendente simpática, gastei um pouquinho lá - meu vício mais irrevogável…(Não posso ver livraria, crux! Mas comprei o Cinemateca, do poeta Eucanaã Ferraz, que li com o maior deleite, no vôo de volta… )

Em Barão conheci um casal de amigos da Cris e sua filha despachada, a Ana Luísa (”Ana, posso tirar uma foto tua?”, perguntei. E ela, saindo ligeirinho de perto de mim: “Não!”), pra quem tou mandando uma sapinha meiga… E o pai dela me fez o melhor, isso mesmo, O MELHOR elogio que já recebi na vida. Em email pra Cris, depois de um jantar e uma cervejinha no Tilly, disse assim: “tua mãe é a prova de que há pessoas que a academia não consegue estragar…” Fiquei louca de faceira, é claro! Isso é elogio, o resto é conversa!

Mas o que mais estranhei em Barão foi… a ausência de bentevis. Bem sei que a terra é de andorinhas;os bentevis, porém, são onipresentes em Catarina, minha Santa, e seu canto (?) fez falta… Havia uns passarinhos discretos pipilando discretamente na madrugada, e o bit-bit dos morcegos durante a noite, e só… Esta madrugada, quando ouvi os danadim dedando todo mundo na madruga, sorri e pensei: ah, estou mesmo em casa…

Beber a bordo

Esta é uma crônica do Amílcar Neves: corretíssimo, como [quase] sempre, hehehe…

Saiu no DC de 16/7/08, quarta.

Beber a bordo

Para ficarmos na mesma área - da legislação do trânsito -, quando foi implantada a obrigatoriedade de uso do cinto de segurança nos nossos carros, os arautos da democracia e dos direitos individuais botaram a boca no trombone. Muitos deles sequer se importaram com as barbaridades cometidas durante 21 anos pela ditadura militar: prisões arbitrárias, assassinatos, torturas, perseguições políticas, censura em todos os níveis e de todos os tipos, supressão das liberdades individuais, submissão da imprensa, mentiras, mistificações e, não achemos que não, muita, muitíssima corrupção e desvio de dinheiro público para bolsos privados.

Então, restaurada a democracia, quando nós retomamos o direito - inalienável - de escolher aqueles que nos representarão em todos os níveis do Executivo e do Legislativo (sem a tutela de coronéis e generais que se achavam superiores aos demais mortais, mais patriotas do que qualquer cidadão), e abertos os canais para que todos pudéssemos dizer livremente o que pensamos e queremos, inclusive para criticar e denunciar criminalmente quem for pego fora da linha, esses defensores da liberdade clamaram contra o abuso ditatorial de uma lei que pretendia tolher o direito individual de cada qual andar de carro como bem entendesse, obrigando ao uso do famigerado cinto.

E as histórias de “insucesso” se multiplicaram: o cinto machucava, contabilizava-se o número de pessoas com costelas quebradas e daquelas que morreram estranguladas; de carros que caíram num lago ou num rio e as pessoas pereceram afogadas porque não conseguiram se desvencilhar em tempo hábil daquela fivela que travava nas piores horas; de gente que sucumbiu esmagada entre as ferragens do acidente porque, se não estivesse firmemente presa ao assento do veículo, teria sido jogada para fora, pela porta que se abriria (que se abriu) ou pelo vidro que saltou longe antes do impacto final.

Esquecia-se a contabilidade das vidas salvas pelo cinto. Hoje, por ocioso, ninguém mais discute a importância desse indispensável acessório de segurança. E todos o usamos.

Agora, com a drástica redução nas margens de tolerância com o álcool ao volante (e só ao volante, quem for passageiro pode viajar feito gambá), a história se repete. Não parece haver muita imaginação criadora para abordar o assunto de forma diferenciada. Criatividade mesmo tiveram os donos de um restaurante de Curitiba (sempre Curitiba, inovando nas idéias e nas práticas): ao invés de ficarem lamentando a queda no movimento, de ficarem chorando as perdas (financeiras, não de vidas humanas) nos noticiários de televisão, tomaram a iniciativa de colocar caminhonetes à disposição dos clientes, para buscá-los em casa e devolvê-los sãos e salvos ao final da noitada, e de manter atentos motoristas para levar a um feliz destino os carros dos clientes que chegarem motorizados. Estão faturando em cima da novidade.

Como antes, também agora correm (e, presentemente, nas velocidades da Internet) histórias de insucesso que nunca serão comprovadas, por fantasiosas: o incauto motorista, apanhado pelo bafômetro, que foi severamente punido porque havia comido dois ou três bombons de licor, ou que, momentos antes do teste, usou anti-séptico bucal à base de álcool, ou, doente da tosse, tomou um xarope para acalmar os brônquios excitados, ou, ainda, valeu-se de cinco ou dez esguichos de própolis para amenizar a dor de garganta que o assediava.

Como antes, também agora fecham-se os olhos para as estatísticas que comprovam, nestes poucos dias de vigência da lei, a brutal redução de mortos e feridos no nosso trânsito.

(Amilcar Neves, escritor)

palavras e poesia

(Andei em fase assim, agora estou em fase assada, infelizmente… Mas gosto do que foi feito na fase assim!)

 

De palavras sou feita

E só com palavras

Sinto e gozo

Se de puta me chamas

Choro

Chuto

Negaceio

Mordo

E depois, exausta,

Me entrego

E deixo que me pises

Uses

Lambuzes

De nomes sujos

Te apelido

e correspondo

à paixão

Mas se de puta

me tratas

já saímos prum leito

não de redondilhas

pétalas rosas

mas espinhos também

porque é prazer demais

que nos faz

partilhar outro prazer

e mais um

e mais outro

até o fim desta noite que é nossa

feita de algo que não se sabe o que seja