Archive for August, 2008 Page 2 of 7



A bronca do Amílcar

Fui citada na crônica do Amilcar Neves desta semana, usando uma frase de discussão que tivemos, via email.

Uma honra, sem dúvida! Mas nada ofendida!

A honra ofendida

Se eu publicar algo assim, “O Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra é, hoje, um dos mais notórios torturadores da ditadura militar brasileira”, corro o sério risco de ser processado por injúria, calúnia e difamação, podendo ser condenado a pagar expressiva indenização pelos danos irreparáveis que terei causado à sua honra. E se eu não tiver - como não tenho - o dinheiro necessário para, sem cinismo, “honrar” essa pálida reparação do estrago que deliberadamente provoquei, irei preso por um bom tempo, até aprender a não ficar falando mal das pessoas, porque isso, além de ser muito feio, é coisa tal de não restar impune. Deverei dar-me por muito satisfeito quando, preso, não for “interrogado” pelo Coronel, agora na reserva, com os métodos que ele usava e de que abusava durante aquele negro período da vida nacional.

Se, porém, ocorrer a desgraça com que a vida às vezes nos surpreende e o Coronel Brilhante Ustra vier a falecer (sem que, por hipótese, eu tenha qualquer participação no insucesso), minha situação haverá de ser muito pior e bem mais triste. Porque aí haverá de surgir ao menos um neto dele, ou uma sobrinha, ou algum descendente qualquer, que não se conformará com o impacto que as minhas irresponsáveis palavras terão causado em sua vida pelo abalo emocional indescritível que terá sofrido ao ler coisa tão ultrajante sobre o seu amado e carinhoso ancestral - sujeito que, morto, já não mais poderá defender-se por si mesmo, coisa que o distinto fazia de forma tão desabrida e corajosa durante a ditadura militar (chamada também de “regime de exceção”) contra presos políticos algemados - e alegará desconfortos inenarráveis sofridos no convívio com vizinhos, amigos e colegas de trabalho por conta das minhas aleivosias, das quais eles todos indubitavelmente terão tomado conhecimento, estabelecendo de pronto a relação familiar e passando a olhar de lado para o já tão sofrido parente.

Como se sabe, indignação de parente é causa para verdadeira guerra santa, para uma cruzada incansável contra o infiel que conspurca (suja, infama, corrompe) dessa forma a memória do falecido, que mancha assim levianamente, e assim indelevelmente, a sua reputação.

Um processo judicial desses terá boas chances de prosperar e chegar a bom termo (do ponto de vista do proponente, aquele que supostamente se viu ofendido). E por dois singelos motivos: porque o Coronel Ustra já declarou textualmente “Eu nunca fui torturador” e porque, apesar de todas as provas, indícios, documentos, testemunhos, depoimentos, evidências e singularidades, o processo aberto contra ele “ainda não transitou em julgado, esgotados todos os recursos que a Lei permite”. Desta forma, a presunção é que o sr. Brilhante seja inocente. E, se ele é inocente por enquanto, nem eu nem ninguém pode chamá-lo de torturador, encargo que as Forças Armadas, à época, reservavam apenas aos machos das suas fileiras, coisa que hoje procuram dissimular, dizendo que nada houve além de uma “guerra suja” e, simultaneamente, protegendo e homenageando os sádicos que, sob codinomes criativos (grande macho das casernas, de 1970 a 1974 o Coronel, durante o seu comando do DOI, o maior centro de tortura de São Paulo, encarnou o Doutor Tibiriçá), se entregavam com gosto e prazer ao ofício de arrancar confissões como quem arranca unhas - arrancando-as também, en passant.

Como comentava a Regina Carvalho outro dia, sobre a crescente proibição de livros por supostos danos morais, “o que mais assusta nesses casos todos é observar que eles ocorrem não pelo teor calunioso que possa haver nas obras, mas sim para evitar que chegue ao conhecimento público aquilo que as pessoas de fato fizeram”.

Durma-se com uma honra dessas…

Me divertindo…

… e fazendo escândalo! Com quem? Com Hélio Schuch, a quem ainda chamo de “amado chefe”… Ele não é mais Chefe de Departamento,e  eu não sou mais chefiada de ninguém, mas o tratamento permanece.

Pois ontem à tarde saí de casa um pouco antes das duas, e fui pela Lauro Linhares em direção ao CIC - queria comprar ingressos para o Bolshoi de Joinville, que se apresenta aqui na sexta, dia 29. Tem feito dias lindos, e é gostoso caminhar ao sol, com essa temperatura amena.

Num ponto de ônibus, Hélio Schuch, impaciente, por causa do ônibus que não vinha. Ele numa calçada, eu do outro lado. Não me viu, a andar pra lá e pra cá, lançando olhares furibundos pro lado de onde o ônibus deveria vir.

- Hélio Shuch, grito eu, por cima dos carros que passam (a voz, a voz, não eu, hehehe…)

Ele me olha com a fingida cara de desagrado que sempre faz quando me vê:

- Que fazes aí, criatura? grito de novo.

E ele, naquele tom de voz de derrubar paredes que sempre usa:

- Tou indo trabalhar!

E aumentando ainda mais o volume:

- Porque eu trabalho, não sou como este bando de vadios que não trabalham!

E faz eco pra si mesmo:

- Vadios! Vadios! Vadios!

Paro do lado de cá, na pose de mané, mãozinhas na cintura:

- Aposentadinha, meu lindo! Morra de inveja!

E ele gostou do seu estribilho (ele sempre adora seus refrões, né?), e grita, mais alto ainda, se isso é possível:

- Vadios! Vadios!

Uma mulher pára, na entrada da Imobiliária Guerreiro, a nos olhar, escandalizada (quem serão esses dois a se ofender mutuamente? Devem se odiar!)

E eu pego seu mote:

- Ora, por que não vais a pé? Vadio és tu, querendo ir de ônibus!

E ele não desiste:

- Vadios! Vadios!

Saio rindo pra lá, ele fica rindo aqui… E nem nos passa pela cabeça explicar pra espectadora - ainda de boca aberta com o entrevero - que na verdade a gente se gosta muito…Ela que pense o que quiser!

A lista do Mário

The evil of the thriller
É, tava ficando feio já. Mal criei um novo blog e ele fica um bom tempo cheio de teias de aranha, sem novos posts para dar um pouco de movimento à página. Mas, ao ler um texto da minha querida orientadora na UFSC, a Regina, fiquei com vontade de fazer o mesmo. O retorno veio no estilo Rob Flemming, com mais uma listinha para a galera discutir. Desta vez, filmes de terror.

Quem me conhece sabe que eu adoro o gênero, desde os psicológicos até os de zumbis, passando pelos B e sobrenaturais. Então veja bem: essa listinha não tem nada de objetiva. São apenas pensamentos e sensações ao ver as fitas. Ah, também não vai ter ordem, eles estão aqui aleatoriamente formando meu top 5 (afinal, as listas de Rob Flemming tem apenas cinco itens).

5- O massacre da serra elétrica
(The Texas chainsaw massacre, 1974. Direção: Tobe Hopper)
Ele começa com a produção do filme avisando que a história é real e que teria acontecido anos antes nos EUA. Claro, depois de assistir, você sabe que tudo aquilo ali é ficção, baseado muito de leve na história do Ed Gain, serial killer norte-americano do início do século passado. O massacre da serra elétrica é o grande filme do sub-gênero slasher, aquele em que um assassino sai matando todos que vê pela frente da maneira mais sádica possível.

4- A noite dos mortos-vivos
(Night of the living dead, 1968. Diretor: George A. Romero
O grande mérito do Romero é ter conseguido com essa singela fita formar um outro sub-gênero dos filmes de terror: o de zumbis. A pretensão inicial era bem menor: o que ele queria mesmo era fazer um libelo contra o preconceito usando mortos-vivos. De Resident evil a Extermínio, passando por Zombie strippers e Boy eats girl, nenhum deles existiria se não fosse por Romero. É um dos filmes que eu deixo no topo da prateleira, volta e meia pego para assistir. Indispensável.

3- O bebê de Rosemary
(Rosemary’s baby, 1968. Diretor: Roman Polasnki)
Obra-prima do terror psicológico. Não vemos nada, não ouvimos nada. Mas o roteiro, os closes, as sombras e a crescente loucura da personagem principal fazem o clima do filme aumentar a cada minuto. Polanski acertou na mão. E ainda, no fim, deixa uma mensagem que já virou chavão: amor de mãe supera tudo. Mesmo que a criança seja filho do coisa ruim.

2- O iluminado
(The shining, 1980. Diretor: Stanley Kubrick)
A Regina escreveu bem: ele é uma obra muito mais kubriquiana do que kinguiana. As diferenças entre filme e livro se acentuam a partir da metade de cada um. É como se Kubrick e Stephen King tivessem pego bifurcações que os levassem cada vez mais longe um do outro. Para mim, claro, o cineasta entrou na estrada certa. Ele mostra Jack Torrance cada vez mais como vítima do seu meio, enlouquecendo pela pressão de estar isolado no Overlook Hotel em pleno inverno. A cena que eu mais gosto é a de Nicholson arrombando a porta do quarto com o machado, enquanto grita as frases do lobo mau para os três porquinhos e termina com o “here’s Johnny”.

1- A profecia
(The omen, 1976. Diretor: Richard Donner)
MEDO. Esse é o filme mais assustador de todos os tempos. O que dizer do menino, quase sem falas e que assusta todo mundo. A cena final, depois da dúvida de quem morre, é de arrepiar. Já perdi as contas de quantas vezes vi a fita. Mesmo assim, toda vez levo sustos e mais sustos. O que Donner fez está além das palavras.

Mais frases!

Estas foram presentim de segunda - pra alegrar a semana! - do compadre Flávio José Cardozo. Gostei tanto, que trouxe pra vocês. E com uma observação: não pode haver ninguém chamado Frangonildo, acho que Flávio inventou este nome!

- O casamento é o preço que os homens pagam pelo sexo;o sexo é o preço que as mulheres pagam pelo casamento. (Anônimo)

- Não confio em produto local. Sempre que viajo, levo meu uísque e minha mulher.
(Fernando Sabino)

- É graças a Deus que o Brasil tem saído de situações difíceis. Mas, graças ao diabo, é que se mete em outras. (Mário Quintana)

- Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.
(Luis Fernando Veríssimo)

- Política tem esta desvantagem:de vez em quando o sujeito vai preso em nome da liberdade.
(Stanislaw Ponte Preta)

- Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas
profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro,
decorador de interiores e estivador. (Luís Fernando Veríssimo)

- Ninguém faz tudo bonito sempre. Até Deus. Ele fez o cavalo e também o rinoceronte.
(Vinicius de Moraes)

- O primeiro economista do mundo foi Cristóvão Colombo: quando saiu, não sabia para onde ia;
quando chegou, não sabia onde estava. E tudo por conta do governo.
(Ronaldo Costa Couto) (BOA DEMAIS, BOA DEMAIS!)

Democracia neste país é relativa, mas corrupção é absoluta.
(Paulo Brossard)

- A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.
(Jô Soares)

- Nunca se ache demais, pois tudo o que é demais sobra, tudo o que sobra é resto e
tudo o que é resto vai para o lixo. (Anônimo)

- Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele.
Um dia a gente se encontra. (Mário Lago)

- Fuja das tentações, mas devagar, para que elas possam te alcançar…
(Anônimo)

- O homem é um ser tão dependente que até pra ser corno precisa da ajuda da mulher.
(Anônimo)

- O isopor é meu pastor e a cerveja não faltará.
(Anônimo)

- Existem três tipos de mulher: as bonitas, as inteligentes e a maioria.
(Anônimo)

- Época triste a nossa… mais fácil quebrar um átomo do que o preconceito!
(A. Einstein)

- Uma mentira pode dar a volta ao mundo… enquanto a verdade ainda calça seus sapatos.
(Mark Twain)

- A família é como a varíola: a gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida.
(Jean Paul Sartre)

- Nunca se explique. Seus amigos não precisam, e seus inimigos não vão acreditar.
(Anônimo)

- Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles.
(A. Stevenson)

- Não se ache horrível pela manhã:acorde ao meio dia!!!
(Anônimo)

- Em dia de tempestades e trovoadas o local mais seguro é perto da sogra, pois não há raio que a parta.
(Anônimo)

- Se um dia, a pessoa que você ama lhe trair, e você pensar em se jogar de um prédio, lembre-se:
Você tem chifres, não asas… (Anônimo)

- A mulher deve sempre sonhar com um homem fiel e obediente…Só não deve querer transformar o sonho em realidade. (Anônimo)

- Não gosto de enterros. Se eu for no meu, vou a contra gosto. (Frangonildo Barbosa)(NÃO ACREDITO NESTE NOME, PÔ!)

- Errar é humano, persistir no erro é americano, acertar no alvo é muçulmano.
(Autor anônimo)

- Crianças nós somos, a vida toda. O que muda são os preços dos brinquedos.
(Autor Anônimo)

- Roubar idéias de uma pessoa é plágio. Roubar de várias, é pesquisa.
(Autor Anônimo)

- Por maior que seja o buraco em que você se encontra, sorria, porque, por enquanto, ainda não há terra em cima. (Autor desconhecido)

- Só o Ctrl+S salva! (Autor Anônimo)

- Aquele que, ao longo de todo o dia: é ativo como uma abelha, forte como um touro, trabalha que nem um cavalo, e que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão… deveria consultar um veterinário.
É bem provável que seja um grande burro. (Autor Anônimo)

Recadim pros compadres blogueiros

Fui a Blumenau, ano passado, assistir a uma apresentação do João Bosco com uma banda alemã de jazz. Pedi socorro pro compadre (e amigo) cronista Maicon Tenfen, e ele gentilmente tirou o ingresso pra mim,e fez reserva no Hotel Glória - que fica perto do teatro. No dia seguinte, ainda me deu carona pro retorno, pois estava vindo a Floripa.

Chovia que era um horror, e viemos batendo papo animadíssimo, porque é algo que não faz falta a nenhum dos dois: assunto. Maicon tinha acabado de assumir a direção da editora da FURB (Fundação Universitária da Região de Blumenau) e me lançou isca sedutora: que tal fazeres uns livros didáticos sobre a atual literatura feita em Santa Catarina? (Sabia da coletânea de contos que organizei, da qual faz parte - O novo conto catarina, EdUFSC. 2008).  Fiquei de pensar,  mas caí na esparrela,  e topei.

Pensei em três livros, não muito grandes: poesia, prosa de ficção, prosa de não-ficção. Maicon pediu que pensasse num pras crônicas, também, franzi o nariz (não tinha pensado nisso…), mas tudo bem.

Comecei pela poesia, e fui fazendo. Selecionar poetas e poemas foi fácil e prazeroso, mas é difícil comentar, explicar, ser DIDÁTICA em nível de secundário - que nunca foi minha praia, porque sempre fui professora universitária, sem outro tipo de experiência. Uma “puta responsa”, como diz a gurizada.

Para os cronistas, ofereci parceria para o Italo Puccini, que mora em Jaraguá. Ele aceitou, trabalhamos juntos: faço os daqui, do litoral, ele faz os de lá,os do norte do estado (dos que publicam lá, of course - sou daqui  e publico no AN),  trocamos figurinhas pela internet. E falar de crônicas está sendo fácil e rápido. Escolher as três de cada um, as que entram no livro, é mais difícil, de vez em quando me embanano e peço socorro pro autor. E eles têm atendido prestamente, indicando suas favoritas.

Quero encerrar esta função o mais rápido possível - na pior das hipóteses, até 15 de setembro - pra poder revisar, juntar com  a parte do Italo, e me dedicar aos outros dois livros.  Mandamos este pras editoras interessadas (são duas) e esperamos que saia o parecer dos relatores.Se rejeitarem, partimos pra outras, que não somos de desistir. Mas confio no meu taco (expressão mais sacana!) e acho que está ficando muito bom, não vai dar problemas…

Como vocês sabem, atualizo o blog diariamente - o que demanda tempo,e costumo responder os comentários, mais um tempo. E dou sapeada (linda palavra!) nos blogs de amigos e outros. E tem a crônica semanal pro Anexo do AN, texto com dead-line rígido: escrevo normalmente nas segundas, reviso na manhã de terça e envio pra eles - sai na quinta. Antes tinha sempre algumas de reserva, e ainda tenho, mas acabo deixando lá - não gosto muito das que ficaram guardadas, e felizmente nunca me falta assunto…

Tudo isso pra dizer que vou passar uns tempos sem poder fazer visitinha procês, meus compadres e comadres blogueiros… Mas, quando eu voltar, vou pedir aquele cafezinho fresco e fumegante, e umas fatias de bolo ou cuca no capricho! Beijão, e confesso que vou sentir falta! (se puder, dou umas escapadinhas de vez em quando e apareço de repente!)

A vida tem sempre razão

(Vinicius de Moraes / Toquinho)

Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é por exemplo
Que dá pra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida
Porque não há nada
Sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

A gente nem sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce
Antes que se acabe
E o sol que desponta
Tem que anoitecer
De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei não…

Meus dez filmes de terror!

Aceitei o desafio, e contribuo com meus dez favoritos. Espero a contribuição de vocês…(não estão em ordem de preferência, não…É uma ordem aleatória!) E, na apresentação dos filmes, há alguns trechos “chupados” do Google… Preguiça faz coisa, já dizia vovó!

1. Os Inocentes (The Innocents, Jack Clayton,1961)
Nem todos os filmes feitos com esta fórmula de sutileza eram fracos ou com pouco terror. Os Inocentes (The Innocents), de 1961, dirigido por Jack Clayton, tornar-se-ia uma honrosa exceção. O filme era baseado no livro A Volta do Parafuso (The Turn of the Screw), do escritor norte-americano Henry James, publicado em 1898. A temática principal desta obra (e da maior parte da produção literária deste autor) era a de mostrar a perda da inocência: a história gira em torno de uma governanta que, destinada a tomar conta de duas crianças num casarão no interior da Inglaterra, começou a desconfiar que fantasmas as estavam corrompendo. No conto nunca temos certeza da existência ou não dos fantasmas (que poderiam ser apenas frutos da imaginação da governanta) mas, no filme, cujo roteiro ficou por conta dos brilhantes William Archibald e Truman Capote (com diálogos e cenas adicionais do não menos brilhante John Mortiner), os fantasmas efetivamente existem.Deborah Kerr faz a governanta, Marlon Brando faz o mordomo…
O diretor (e também produtor) Jack Clayton, até então apenas uma promessa do cinema inglês, trabalhou nos famosos Shepperton Studios da Inglaterra para conseguir os climas soturnos e atmosfera claustrofóbica típica das mansões e castelos ingleses. A escolha não poderia ser melhor, pois estes estúdios permitiram que o diretor conseguisse captar os inúmeros detalhes e climas soturnos de um casarão velho e assombrado. Ao contrário dos cineastas que se utilizaram das técnicas expressionistas, ou seja, sempre enfatizando as diferenças entre o preto e o branco de maneira brusca, com as sombras carregando o mal para conseguir um clima “pesado” (vide os clássicos Drácula e Frankenstein), o diretor Clayton também apresentou estas diferenças, mas com leveza e suavidade. As sombras são suaves, mas carregadas do mal, como uma pena flutuando no ar, mas uma pena escondendo segredos terríveis - a leveza nos engana, pois carrega o peso do terror. Dentro desta atmosfera leve e aterrorizante, o mal se espalha pela casa, para as crianças e para a visão da governanta.
O número de cenas antológicas é enorme: a primeira vez que a governanta vê um dos fantasmas no alto de uma torre e, depois, numa inocente brincadeira de esconde-esconde, quando ela o confronta diretamente dentro da casa; o encontro da caixa de música que evoca um dos fantasmas, música esta (”O Willow Wally”, de Paul Dehn) cantarolada pela menina por quase todo o filme; a governanta perdida durante a noite, com uma vela acesa, no corredor dos quartos, entre muitos e aterradores barulhos; e o fantástico confronto final entre a governanta, o menino e o fantasma, produzindo um terror magnífico e um dos finais mais tristes da história do cinema.

2. Nosferatu ( Nosferatu, Murnau,1922)

O filme invoca em suas imagens trêmulas, as exóticas paisagens da Alemanha que muito se aproxima da beleza exuberante das regiões desconhecidas da Romênia, a antiga Transilvânia onde viveu na Idade Média o Drácula histórico Vlad Tepes Dracul.
Neste pitoresco cenário, o diretor F. W. Murnau encontrou todos os ingredientes básicos que invocam o vampirismo, montanhas, florestas densas, riachos, pontes, capelas, castelos em ruínas, aldeões ciganos, lobos, carruagens e, é claro, o talento de Max Schreck, que faz o papel do vampiro Nosferatu. E desta forma, a primeira versão para o cinema da obra de Bram Stoker revive todas aquelas imagens do horror de Drácula contidas nas páginas do livro. Tanto o horror como o erotismo são apenas sugeridos - o público da época não estava ainda corrompido pelo “realismo” do cinema americano, e usava a imaginação…

Quem for assistir Nosferatu na esperança de ver cenas fortes de violência e sangue num exagero aloprado e até ridículo, caracterizado pela idiotice da ideologia americana, vai com certeza ficar decepcionado, afinal Nosferatu é uma obra do expressionismo alemão e assim o caráter do horror dá-se num clima de sonhos maus e pesadelos.Tanto o horror como o erotismo são apenas sugeridos - o público da época não estava ainda corrompido pelo “realismo” do cinema americano, e usava a imaginação…

3. O Iluminado (The shining, Kubrick,1980)

Baseado no romance homônimo de Stephen King, o fime é mais Kubrick do que King, a ponto de King tê-lo refeito, à sua maneira, mais tarde. Mas o de Kubrick é uma obra-prima, e o de King, uma bobagem, versão literal do livro. (E sou fã do King escritor, ‘cês sabem…)

Jack Torrence (Jack Nicholson) consegue um emprego de vigia em um hotel no Colorado durante a temporada de inverno, e leva a sua família para lhe fazer companhia. Devido à baixa temporada e ao isolamento, Jack começa a ter visões e coisas estranhas passam a acontecer naquele lugar assombrado. Considerado por muitos o mais fraco dos filmes de Kubrick, para os adeptos do gênero é um filme genial…A cena da onda de sangue invadindo o corredor é simplesmente antológica…

4. Hellraiser - Renascidos do Inferno ( Hellraiser, Clive Barker, 1987)

Filmagem de um livro de Cliver Barker, custou 1 milhão de dólares, arrecadou 20 milhões apenas nos States.Os efeitos especiais estão superados, mas é filme com “clima”. Sofro até hoje, ao revê-lo…

Em Hellraiser, um homem inescrupuloso, Frank (Sean Chapman), comprou uma misteriosa caixa mágica e num ritual de magia negra ele descobriu uma forma de abri-la, permitindo dessa forma o contato entre o nosso mundo e uma dimensão paralela habitada por criaturas infernais chamadas cenobitas, que tinham como função capturar almas e proporcionar experiências fora da compreensão humana, através de horríveis torturas na carne, com o uso de correntes e ganchos pontudos, misturando dor e prazer.

5. O bebê de Rosemary (Rosemay’s baby, Polanski,1968)

1968 não foi apenas um ano de grandes agitações políticas e sociais, mas também de grandes momentos para o universo do terror: George Romero fez levantar, literalmente, os mortos para atacar os vivos no clássico A Noite dos Mortos-Vivos (Night of Living Dead), mostrando que o horror explícito e orçamento mínimo poderiam gerar uma obra-prima do cinema; os Rolling Stones colocavam Satã na ordem do dia com a música “Sympathy For The Devil”, onde o “Príncipe do Mal” era retratado como um Anti-Herói e suas maldades serviam como contraponto à ordem social “careta” e ao Establishment, imagens típicas da Contracultura da época; e o diretor polonês Roman Polanski trouxe nada mais nada menos do que o filho do Demônio, o próprio anti-Cristo, às telas no clássico O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby).
Filmagem de um romance homônimo de Ira Levin, lavra a seara da Demonologia, que não é aminha favorita Mas aqui, ah, aqui tá simplesmente genial… E com atores pra lá de bons!

6. A Noite dos Mortos-Vivos (Night of Living Dead, George Romero, 1968).

É filme B, com baixo orçamento, atores desconhecidos, muitas vezes beira o ridículo. Mas tem rimo, tem clima, é absolutamente perfeito… Há refilmagens e nenhuma passa perto…

7. Coração Satânico (Angels’s heart, Alan Parker, 1987).

Pra variar, eu já tinha lido o livro, quando assisti ao filme. Os dois são bons, mas o filme - híbrido de policial com terror - é fantástico. De Niro faz o demônio, e é antológica a cena em que descasca o ovo, rolando-o devagarinho - e lembremos que o ovo é o símbolo da alma… Passou meio despercebido, pouca gente viu, o que é uma pena. Rourke faz Angel, e ainda era grande ator, antes de se meter a lutador de boxe e ficar todo deformado.

Detetive trabalha para estranho cliente, que o incumbe de localizar um músico desaparecido. Ele segue pistas que o levam a vários personagens, que morrem de forma violenta à medida que ele se aproxima da verdade, levantando a desconfiança da polícia. Baseado em romance de William Hjortsberg.

8. Alien, o Oitavo Passageiro ( Alien, Ridley Scott,1979)

Também tinha lido o livro, antes…
Tripulantes de uma nave espacial são obrigados a desviar a rota para inspecionar um planeta. Lá encontram uma estranha plantação, de onde sai uma criatura que se agarra a Kane (John Hurt), um dos membros da equipe. De volta à nave, Kane parece ter se livrado da criatura, até que um alienígena sai de sua barriga, foge e começa a atacar humanos, espalhando morte e terror. Agora os tripulantes têm de enfrentar esta repugnante e perigosa criatura assassina.

E vamos dar uma folguinha pras comédias que fazem paródia dos filmes de horror, e são ótimas:

9. A Dança dos vampiros (The fearless vampire killers, Polanski, 1967)

Simplesmente imperdível!

10. Pânico (Scream, Craven 1996).

Divertido demais, divertido demais! E olhem que sou chata com comédias!

De sons e cacófatos

O amigo que mora no sítio, na serra, está lendo o livro do Gabriel Gómez - A culpa é dos livros - que lhe passei. Liguei-lhe pela manhã, pra falar de outras coisas, e ele me contava do que tinha lido até ali. Gostou da minha apresentação, levantou que Gabriel, na sua, conta de sua timidez de conversar com Jorge Luis Borges, das vezes em que o encontrou na rua, em Buenos Aires. Numa delas, Borges sentado num banco, queixo apoiado na bengala, na pose eternizada em fotos, sua pose mais famosa.

Por causa da timidez, Gabriel se queixa de ter ficado sem nenhum livro com autógrafo de Borges. “Mais adiante, porém, ele conta que tem três obras autografadas”, diz o amigo. E respondo: foram comprados em sebo, o autógrafo não é dirigido a ele. Se não me engano, Borges apenas assinava, não se dirigia ao leitor, não colocava seu nome também. “Isso não fica claro”, diz o amigo. “Parece contradição”. Bem, vou ter que conferir, mas o livro está pronto, não dá mais pra refazer isso.

E exigente que só ele, também questiona minha revisão: deixaste passar duas vezes o mesmo cacófato: por cada, nesta apresentação do Gabriel.
E começamos a discutir a questão da cacofonia. As discussões mais recentes admitem ser cacófato apenas os casos em que a união das palavras postas em ação formar alguma obscenidade. Me guio por ela. Além disso, é a sonoridade, a eufonia, que dirige o julgamento. Digo “pur cada” e não acho nada demais no caso… Aquelas regras mais rígidas, que colocam “alma minha gentil que te partiste”, do Camões, como exemplo primeiro de cacófato, não estão mais em vigor.

Conversamos tempão sobre isso, mas não consegui convencê-lo: acha “por cada - porcada” inadmissível… É engraçado isso, como muitas das regras que se guiam pela eufonia - e o que soa bem pra um pode soar mal pra outro - acabam por criar uma zona penumbrosa, em que não se atende a todos os julgamentos. Ou, então, tem-se que ser tão rígido/a, que se vai desfazendo todas as possibilidades que apareçam de que se instaure um cacófato.

Gabriel é falante nativo do espanhol e as palavras pra ele, mesmo em português, possuem sonoridade diversa da que possuem pra nós. A Gabriel o amigo desculpa - questiona é o meu ouvido, hehehe…