Sábado foi a formatura da última turma do Jornalismo/UFSC pra quem dei Redação VI e, portanto, uma disciplina obrigatória. Fui à formatura, e saí de lá meio mal - uma terrível sensação de perda, a noção de ter deixado de lado uma das melhores coisas da vida acadêmica. Minha relação com os alunos foi sempre muito boa, e gostava muito de dar aula (gosto de aprender e, conseqüentemente, gosto de ensinar…)
À noite, ontem, fui à Sanduicheria da Ilha com um grupo de remanescentes - que se formam no próximo semestre - e uma das “formadas”, senhora jornalista, agora trabalhando em São Paulo. E ela contava da conversa com colegas e da queixa deles também dessa sensação de perda, pelo afastamento dos colegas e amigos, pela entrada no mercado de trabalho, com tarefas muito mais pesadas do que as que tanto os faziam sofrer no decorrer do curso.
Falamos disso - de como eles se sentiam, de como eu estava me sentindo - e chegamos à conclusão do óbvio, sabendo perfeitamente que na vida cotidiana é o óbvio que, muitas vezes, custamos mais a perceber. Posso sintetizar no velho dito de que não é possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos (nem mesmo um de avestruz, né, Pri?). Partimos para novas etapas da vida precisando deixar de lado algumas ou muitas coisas que nos faziam bem e das quais gostávamos. Mas é necessário…
Se eu não tivesse parado de lecionar, não estaria escrevendo como estou, não teria iniciado o blog, não estaria cronicando no AN… Porque entre a leitura dos textos todos, mais as aulas, mais a reuniões, mais as correções e orientações, a cabeça ficava alugada demais, e a criatividade ia pro fundo do poço. Essa disponibilidade FÍSICA de poder se dedicar a apenas um foco de criação, em cada momento , não existiria. Estou feliz, muito feliz, com o rumo que minha vida tem tomado. Mas devo reconhecer que houve perdas, algumas delas dolorosas. Faz parte.
Dia 2 de maio completo meu primeiro ano de aposentada. Os primeiros meses foram difíceis, apesar da sensação de liberdade. Foram 28 anos dedicados ao magistério, com planejamento, calendário, contato diário com muita gente, essa troca de conhecimento e afeto com alunos e colegas - e muita incomodação…Também faz parte: a burocracia é chata, a política salarial é inexistente, lidar com gente é difícil. Daí passei ao recolhimento do ninho, à possibilidade de concretizar o sonho de ler e escrever à vontade, e isso não é fácil de alcançar. Não sabia administrar o tempo - agora que podia fazer TUDO, que tinha TODO o tempo do mundo, uma ilusão. Comecei quinze coisas, me estressei, me perdi - mas me achei novamente. Nunca desisto, ‘cês sabem, a menos que avalie que não vale a pena…
Percebo, agora, que estou adaptada, finalmente. E vendo que foi uma continuidade de aprendizagem. Aprendi a administrar o tempo, só que sem precisar trabalhar com horas marcadas e exatas - uma grande fluidez nisso. Mas alguns dead-lines pra não me deixar perder o contato com a responsabilidade: o dia de mandar a crônica pro jornal, de enviar o artigo pra revista, de preparar o parecer ad hoc, de fazer a palestra, de ir ao debate. E o dia de ir ao boteco, o dia de fazer um almoço pro pessoal, o dia de ir conhecer a casa nova, o filho novo, de ir à livraria saber das novidades, o dia de namorar, que namorar é preciso…
Aprendi a fazer novos amigos e a cultivar as velhas amizades que valessem a pena - e agora isso significa cultivar mesmo, de propósito, com carinho e cuidado, porque o roteiro cotidiano não nos põe mais em contato. Mas eu dizia que queria conhecer o mundo real, a vida real, pois achava que a universidade é um invólucro, que nos separa da realidade da maioria das pessoas por uma muralha de teorias e constructos teóricos… Corremos o risco de virar simulacros. Bem, meu contato com a realidade não é mais tão ingênuo, jamais será. A universidade me fez, o estudo me fez, as conversas com intelectuais amigos e não-amigos me fizeram - meu repertório está posto, e ainda em construção, sempre em construção. E isso é bonito pra chuchu!
Tirando fora o título que é ótimo mas remete ao título de um livro (o que tbm não tira o valor deste teu texto), a cronica da semana está EXCELENTE .Precisa ir pro A Notícia.
Gostei especialmente do arremate final:
“Mas eu dizia que queria conhecer o mundo real, a vida real, pois achava que a universidade é um invólucro, que nos separa da realidade da maioria das pessoas por uma muralha de teorias e constructos teóricos… Corremos o risco de VIRAR SIMULACROS. Bem, meu contato com a realidade não é mais tão ingênuo, jamais será. A universidade me fez, o estudo me fez, as conversas com intelectuais amigos e não-amigos me fizeram - meu repertório está posto, e ainda em construção, sempre em construção. E isso é bonito pra chuchu!”
Bonita pra chuchu tá esta crônica pelas reflexões que ela
remete/provoca/evoca ( e inté cavoca eheheh)
Ela precisa ser lida pelas pessoas que conviveram contigo
mas será valorosa para os que estão saindo da Universidade.
Tanto os mestres quanto os recém formados, de qualquer lugar/país.
Deixa eu IPARRUA que tem mó coisarada pá resolvê!bj
Gostei do comentário, guria, mas acho que o nome do livro (e do lindo filme baseado nele) é PERDAS E DANOS…Brinquei com ele, é claro!
Boa “parrua” pra ti!
bj
Eu nem sabia desta obra Perdas e Danos, referi-me ao livro de Lya Luft. Comprei o livro mas não li só de raiva porque ela é gaucha…hahahaha.Fato que eu tô sabendo de há muito mas vingança é assim: compra-se o livro e deliberadamente
NÃO SE LÊ, fica-se olhando sempre pra ele…
com RRRRAIVAAAAAa hahahaha. Alem disso ela respondeu um e-mail meu e escreveu Laguna com a letra éle minúscula. Ora ora… achas que vou ler obra de quem escreve o nome da nossa Laguna com minúscula?
Volto parrua. Mais pobrema a ser equacionado. bj
Podes ver que, por minha resposta, também não li este livro da Lya Luft… Gosto dela poeta, daí não perco nenhum!
Puxa, tou braba contigo, andas demais de rueira!
Vê se pára um pouco em casa, muié!
bj
Regininha,
Mais tarde tomei uma cerveja com o Galeno no Capitão e concluímos que essa liberdade toda dessa nossa fase - formados -, é quase opressora. Hoje já acordei pensando tudo diferente. Prossigo renovando minhas convicções a cada 48h… Beijão e valeu pela companhia!
Valeu pela tua também, guria, sempre quietinha…
Pois acho que na verdade a gente cobra mais de si mesmo do que os outros,por isso se sente oprimido, às vezes. Mas o desafio a enfrentar é/deve ser sempre um incentivo, e o constante renovar das convicções é mais que bom: é essencial.
A gente vai vivendo, fazendo, dando pequenas e grandes topadas, acumulando, avaliando… e aprendendo com isso. Faz parte.
Amanhã dou entrevista pro Prates, na CBN, viu que chique? Em outros tempos, nem dormiria… Agora, como não sei o que ele vai me perguntar, não fico mais supondo, inventando respostas, nada: deixo pra ver na hora…Depois de tantos anos “treinando” naqueles programinhas de vocês, aprendi a confiar na minha capacidade e perdi o famoso medo do microfone!
beijinho.
Oi, Regina
Adorei teu recado lá no Borboletras. Gostei da brincadeira. Olhei pra trás e percebi a possibilidade de um bosque. Expandindo-se a idéia para os desamores do planeta, viveríamos numa floresta densa, com frutinhas vermelhas, aqui e ali.
Um dia de cão, texto mais bão de ler. Vivenciei um parecidinho, com direito a poeira de cimento no olho e tudo. Nem gosto de lembrar.
Perdas e ganhos: ganho quando entro no teu blog, aprendo e me divirto.
Os convites chegaram e o livro também. Gracias.
Ah, saiu uma matéria hoje no jornal daqui (O Município).
Amanhã, conto catarina. Até.
Texto muito bom de se ler, mais uma vez.
São momentos marcantes, mesmo.
Eu ainda quero chegar à tua idade e fazer como tu: para para ler e escrever
beijão!
lindo post Regininha!! beijos
Pessoal:
já estou com o livrinho O NOVO CONTO CATARINA nas mãos,ficou uma graça. Tou louca de faceira! A minha apresentação na orelha tá bem gozadora, pegando meu jeito mesmo, só matando o debochado que fez!
Suzana: que bom que vens. Estive na editora há pouco, e eles me perguntavam sobre os escritores de fora…Vai ser bem legal o lançamento, pois vamos deixá-lo bem animado!
Ítalo:chegar aos 61, quaix 62, assim alegre e animada não é muito comum, vai preparando o espírito, e levando a vida na leveza, mesmo quando ela te dá alguns pontapés. Já sabes meu lema: “a alegria é a prova dos nove”, roubadinho do Oswald, sempre maravilhoso!
Leila: a gente se vê no Hall da Reitoria, às 19 horas.Não se embananem por aí!
beijão.
Regina, o lançamento é amanhã, né?
Bjussss
Sabrina:
amanhã, às 19 horas, no Hall da Reitoria.
Vai ter comes e bebes, e Filipe Speck tocando e cantando!
Aliás, o vizinho Speck tá vindo aqui agora, pra me mostrar o repertório que vai apresentar amanhã.
Estejam lá, please - ou vou ficar chateada!
beijão.
Regininha, tu é uma bacaneza. Ailó, viu?!!! Croniquinha diliça.
Ô Negão, tou te esperanu no lançamento, hoje, tax sabênu?
Adispôsi nóis vai dançá forró, encaixando quadril e tudo - belo pobrema de logística, hehehe…
beijão.
Regininha, bem querida a tua crônica. E que pena que pra fazer algumas coisas temos que deixar de fazer outras, né? Eu mesma queria fazer tudo o tempo todo eternamente…
Cris:
a vida é assim, né? Não se pode ter tudo, e a gente passa o tempo todo fazendo escolhas, se adaptando, se readaptando, começando e recomeçando… Quem não se mexe é poste, e esse processo todo é bom, embora meio doloroso.
Atualmente o que mais me assusta é a idéia de me anquilosar, de me manter estática, de não poder fazer mudanças ou inventar moda…
Não pretendo sair voando com montes de balões, mas um voozinho de parapente seria legal de experimentar, não achas não? Com um instrutor junto, mas pra saber como seria se voássemos, e olhar a vista lá de cima.
beijinho.
Isso é lindo pra chuchu, querida! Deu até arrepio de ler, mas ao mesmo tempo deu ânimo pra sorrir diante das perdas e ganhos da minha própria mudança. Uich, queria tanto ir nesse lançamento. Saudadi di tu.
Drica, querida:
abençoados os que mudam, recomeçam, se questionam, se refazem…
Isso é viver, o resto é conversa fiada!
O lançamento tava bem alegre e bem legal, com muita gente conhecida.
Muito bom te ver aqui, na minha sala de visitas virtual, lindinha!
beijão.
Rê,
Poetas como você existem para nos mostrar o óbvio, que segundo o Caetano dos bons tempos, “teria sido oculto” aos olhos de quem o vê, cotidianamente.
Muitos “gigantes” da poesia já cantaram das fragilidades e universalidades contidas num fugaz momento, “a vida presente”, no verso de Drummond. Ou como diz o poetinha: “Na coisa mais divina que há no mundo/ que é viver cada segundo/ como nunca mais…”.
Na real, a vida se materializa no aqui e agora, na fragilidade de um “instante”, no boteco, no sagrado chão da sala de aula, num encontro de amigos/as para traçar um belo rango feito por ti (por exemplo), num café de fim de tarde, numa roda de viola, num sarau, num lançamento de livro de poesia da Rô Bion, na singela partilha de tua “sala virtual”,…
Tua crônica me deixou comovido “como o diabo” porquanto viva exatamente uma quadra de fim de ciclo profissional venturoso, com esse gosto de “perdas e ganhos”, um quê de melancolia no ar… Beijos n’alma!
Samuquinha:
se ajudou em alguma coisa, tá de bom tamanho, né?
E podes crer que teu comentário também me motivou bastante! E partir pra etapa nova na vida ajuda a gente a crescer (mesmo quando não se sai do 1,45m…).
E hoje tou faceira: recebi email da Ângela Bosco, pedindo meu material sobre o João,para usar na reformulação de seu site oficial. Fico me sentindo mais que feliz: me sinto reconhecida e aprovada… Isso é muito bom!
beijo, sapo azul!