Coisas da vida…

“Everywhere I go

I get slandered, libeled

I hear words I never heard in the Bible

And I’m so tired

I’m oh oh oh so tired

But I ‘m trying

to keep the customer satisfyed…”

E lá vinha eu cantando Simon and Garfunkel pela Lauro Linhares, faceira da vida, depois de boa sessão de musculação: fiz tudo direitinho, li dez páginas de O olho de Jade, de Diane Wei Liang, policial passado na China, com personagens chineses. Isso durante o aquecimento na ergométrica, coisa muito do chata. Mas hoje não tive que atender ninguém, nada nem ninguém me atrapalhou, pude ir pra academia e fazer a musculação nos conformes. Me sinto bem, e orgulhosa de mim, e isso é bom.

Pelo caminho de volta, além de cantar Simon and Garfunkel, faço um levantamento do que falta fazer: a crônica da semana já está pronta, a maior parte do material para a Oficina em Brusque já está montada (falta apenas uma, mas está escolhida, é só recortar e colar). Tenho que deixar pronto e mandar pra Suzana, para que providencie as cópias. Quero um café fresquinho, também, ora, que eu mereço. Mas não entrei na padaria pra comprar aquela baguete que adoro, porque tou de dieta, tou de dieta, tou de dieta.

Providenciado isso, começo a reler alguns escritores catarinenses, piroridades refeitas - para atender meu livro e o projeto do Chico. Mas nada que não dê pra fazer numa boa. Quando a cabeça cansa, arrumo prateleiras da estante grande - pintura das paredes pronta, até que enfim, posso reorganizar os livros. E ainda dá tempo de pensar: se repetirem o episódio de Law and Order - Criminal Intent, saio pra caminhar e aproveito o tempo.

Na portaria, seu Osmar avisa que tem um livro pra mim. Me lembro que Ben-Hur ia deixar livro para eu entregar para a Leila, que precisa dele pro seu projeto de mestrado, ou coisa assim. Ben-Hur mora em Canasvieiras, Leila no Kobrassol, suponho que minha casa seja o meio do caminho entre os dois pontos extremos onde este povo se esconde.

Mas toca o celular, é Michael, dono do Café dos Araçás. Faço-lhe a maior festa: meu aniversário estava ótimo, e o bolo tava divino. Mas ele está sério:

- Viste o noticiário do meio-dia?

Não, nunca vejo noticiários da TV, apenas leio o jornal. Pois deu no noticiário: um motorista alcoolizado atropelou, esta manhã, dois ciclistas, em Jurerê. Um deles era o Marcelo. Fiquei aflita, naquela calma dele, Michael me deixa assustada.

- Como está o Marcelo?

Pois o outro veio a falecer. Marcelo está hospitalizado, com fratura exposta, todo enfaixado. Michael ia visitá-lo, ligo mais tarde para saber notícias. Fez questão de me avisar porque sabe que tenho um carinho especial por Marcelo. Mando-lhe grande abraço, mas minha animação murchou…

Marcelinho, te cuida, guri! Nada de ficar muito fragilizado, nada de sentir culpa por ter sobrevivido: são coisas da vida. É duro, não é justo, mas é assim que é. Há que enfrentar, e tocar em frente.

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