Coisas da vida

Meu pai teve dois irmãos, a Lea, dois anos mais nova que ele e o Titinho, temporão. Titinho morreu na infância, por causas que jamais foram bem aceitas, nem digeridas: a empregada deixou-o cair da cadeira alta e escondeu o fato. Tinha fraturado a coluna… Era uma anjinho à moda dos Cascaes, lourinho, claro, cacheado, olhos azuis.

Tia Lea casou com Almiro Caldeira, funcionário do IBGE, e também escritor, como o pai dela. Tiveram quatro filhos, e o último batizaram de Tito, também, contra a vontade do “Velho”, o Tito Carvalho, que afirmava que era um nome que não nada sorte. E não deu: o Titinho Caldeira, também ele anjinho loiro e cacheado, morreu na infância…

Os primos Caldeira e eu convivemos muito na juventude, e Vânia, a mais velha, da mesma idade que eu, não desgrudava de mim. Nem eu desgrudava dela, é claro… Usávamos as roupas uma da outra, tínhamos que nos contar tudo, o mais breve possível, ríamos de tudo. Adolescentes. Só não estudávamos juntas, porque eu era uns meses mais velha e por conta disso tinha ingressado na vida escolar um ano mais cedo. E ainda bem, pois decerto fofoquearíamos o tempo todo, e nada de atenção nas aulas…

Daí fui morar em São Paulo, casei por lá, morei alguns anos no interior. Quando voltei, o tio era procurador da Sudesul, e tinha ido morar em Porto Alegre, os primos junto. Nos perdemos de vista. Fui fazer faculdade, com dois filhos pequenos, casa, marido, era uma barra. Formada, virei professora da UFSC, meu sonho. Ainda achava tempo e disposição para a militância petista…

Depois que o pai morreu, os contatos com o pessoal de POA ficou mais distante, pois a tia sofria ao me ver, se lembrando do irmão, com quem era muito ligada. Comecei a evitar vê-la. Imaginava que houvesse forte componente de culpa em seu mal-estar, porque ela não suportou enfrentar a doença do irmão, e todo seu acompanhamento foi feito apenas por mim… e foi muito barra pesada. É uma daquelas épocas da vida que a gente prefere nem lembrar.

Hoje, por causa da morte do tio, um ano atrás, e do lançamento de seu livro, retomo contato com os primos. E nos falamos como se jamais tivéssemos deixado de nos ver. Esta é uma das boas coisas da vida, os afetos que se mantêm, os laços que são tão fortes que não se desfazem pelo afastamento, qualquer que seja sua duração. Neste aspecto, não tenho queixas a fazer: recebo muito amor, tenho muito amor para retribuir… Gracias à la vida, que me ha dado tanto!

2 Responses to “Coisas da vida”


  1. 1 Malu Echeverria

    Que lindo, Regina! É muito bom amar e ser amado - coisa que o tempo não apaga.
    Beijos.

  2. 2 regina

    E é, né, Malu?
    Mas a gente parece ter vergonha de precisar disso, numa certa época da vida…E recolhe o afeto.
    Quando percebe isso, e libera, pô, dá uma cria danada, feito maria-sem -vergonha…E como é bom!
    beijão!

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