Zweig, última personagem trágica

Vamos falar sobre Lost Zweig, filme de Sylvio Back. Mas, antes de começar, vou me dar o luxo de repetir uma historinha que vivia contando pros meus alunos.

Na Roma Antiga, um pintor romano expunha seus quadros numa galeria da cidade, e gostava de se esconder atrás das cortinas que havia a um canto, para ouvir a opinião mais livre dos visitantes. Um dia, ele escondido, passou por lá o sapateiro vizinho, a quem ele conhecia bem. O sapateiro olhou atentamente quadro por quadro, e em todos criticou detalhes das sandálias que as personagens retratadas calçavam. Após sua saída, o pintor foi olhar os quadros, e concordou com ele: as sandálias não estavam bem, poderiam ser melhoradas. Trabalhou nelas duramente, e uma semana depois, o sapateiro voltou. Ao re-examinar os quadros, ficou tão orgulhoso de ver que seus palpites tinham sido seguidos, que se pôs a criticar todos os outros elementos dos quadros.

links para o treiler: http://tvuol.uol.com.br/cinema/trailers/2006/03/14/ult2489u727.jhtm

Mas o pintor se indignou com isso, saiu de trás da cortina e lhe disse, zangado: NE SUTOR ULTRA CREPIDAM. Não vá o sapateiro além da sandália.

A frase virou famoso provérbio latino, significando que cada um deve falar apenas daquilo que entende.

Deixemos isso bem claro. Minha área de atuação sempre foi leitura e produção de textos. Minha área de formação é Teoria Literária. Pesquiso MPB e literatura catarinense. Em cinema sou simples espectadora; apaixonada, sim, e espectadora há tantos anos que há um acúmulo de informações e muita polifonia em relação a filmes: dentro de mim, os filmes conversam uns com os outros. Ao dizer isso, estou me qualificando para vocês e com isso estou também dizendo: vou me ater à sandália…

Na sua última fala na peça Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, vista aqui no CIC no domingo passado, diz Joana/Medéia, filicida e suicida:“O tormento de viver na tragédia todo dia é pior do que a morte por envenenamento.”

Essa fala me forneceu o mote, o viés necessário (na verdade, vários vieses ) para esta manifestação – mote que eu buscava há dias, sem encontrar… Meus agradecimentos, pois, pro Chico e pro Paulo…

Dividi esta intervenção em quatro partes, as partes que estruturam e subsidiam minha leitura do filme. E vou cometer a temeridade de não fechar: deixo isso por conta de vocês…

1a. parte: a tragédia.

Na trilogia dos Labdácidas da autoria de Sófocles – considerado por Aristóteles o melhor dos trágicos gregostalvez seja em Antígona que o Jornalismo tenha se baseado para ampliar o sentido do termo “tragédia” para qualquer acidente de grandes proporções, com alto número de mortes, ou para um assassinato de cunho passional, executado com crueldade. Embora a primeira tragédia dessa trilogia seja a mais famosa – Édipo Rei - é Antígona a que considero a mais bonita, talvez por ser a mais política. Mas seu final é meio exagerado, meio cômico, para um leitor/espectador de hoje, e morre tanta gente que dá para contar nos dedos das mãos o número de sobreviventes.Vai daí…

Lost Zweig se baseia no livro Morte no paraíso, do jornalista Alberto Dines. O subtítulo deste é justamente A tragédia de Stefan Zweig; o do filme é Os últimos dias de Stefan Zweig no Brasil. E o subtítulo do livro, em contraste com o mais funcional do filme, me fez ficar pensando nisso, já que Georg Steiner, o estudioso húngaro, defende que houve A MORTE DA TRAGÉDIA, nos tempos modernos. De fato, havemos de concordar com ele, que não há mais tragédias, pelo menos nos moldes da significação do termo no classicismo greco-latino.

Se formos relembrar os elementos essenciais da tragédia clássica, porém, ficaremos em dúvida, como eu fiquei … Um, por exemplo, é a NÊMESIS. O outro, a HYBRIS. Em termos de comparação, em minha leitura, cria-se uma ironia terrível, e Dines se deu conta dela: “Matou-se para serenar e fabricou um estrondo. Pretendia sossego, ganhou tormentos. Escreveu sensualmente, morreu seco. Descobriu um paraíso, isolaram-no num inferno. Pedia reconhecimento, ofereceram desdém. Sonhava com a segurança, viveu atocaiado. Almejava a renúncia, mas faltou-lhe estofo para ser marginal.// Não conseguiu acomodar-se ao exílio e os exilados condenaram sua capitulação. Encontrou tardiamente seu judaísmo e enterraram-no longe dos seus. Matou-se porque desejava respeito, produziu elogios fáceis, palavras gasosas, amáveis encômios, inclusive velhacarias. Reconheceu-se impaciente, sepultaram-no com pressa. “ (p.515)

Mas, voltando à tragédia clássica, explico: na acepção tradicional, a noção de hybris (excesso, excedência, incontinência, mais comumente traduzida por DESMEDIDA) integra a cultura do homem grego. O homem acometido pela hybris, que tentava ir além de suas medidas ou possibilidades humanas, era submetido ao castigo dos deuses. Dentro dessa perspectiva, qual seria a hybris de Zweig? Diferentemente da Grécia Antiga, onde os intelectuais eram muitas vezes escravos a serviço de algum senhor, Zweig era um homem livre… mas um intelectual brilhante, grande escritor e poeta – e de valor reconhecido postumamente. Desejar alcançar o saber e a perfeição na arte é cometer desmedida igual à de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens – e causou o surgimento das civilizações, com a diferença entre o cru e o cozido, como quer Lévy-Strauss. Para o regime nazista, seus deuses arianos, no entanto, sua hybris consistia em ser judeu, desmedida imperdoável, pecado original. Uma semelhança parcial, mas que ainda permite utilizar o termo tragédia. Assim, quando a nêmesis se procura fazer, justiça ou vingança, ela se faz da mesma maneira que nas tragédias, pela morte. E, mais que isso, aqui, como lá, é o homem sem possibilidade de administrar seu próprio destino, que fica à mercê das mãos inclementes e inconseqüentes dos deuses. Os deuses na Grécia ficariam reduzidos em nossos tempos aos deuses da Guerra, momento em que mesmo o homem moderno não tem a mínima chance de comandar coisa nenhuma…

Tendo isso em vista, e analisando o tratamento que lhe dão filme e livro, Zweig talvez tenha sido a última personagem realmente trágica…

2ª. Parte: O SUICÍDIO

Não se pode falar do suicídio sem passar pelo estudo sociológico de Émile Durkeim sobre o tema. Há dois aspectos importantes nesse estudo seminal: a definição e, a partir dela, a classificação.

Recapitulemos. Ele começa usando a definição habitual, mas questionando-a: “Diremos que só há suicídio quando o ato de que a morte resulta é realizado pela vítima tendo em vista esse resultado? Que só se mata verdadeiramente quem quer se matar e que o suicídio é um homicídio intencional de si mesmo?” Quanto a esse aspecto, ele vai questionar a intencionalidade REAL da vítima que, por não poder ser auferida, tira a cientificidade do estudo. Na seqüência, dá exemplos de casos em que a pessoa sacrifica sua existência pelo bem de outrem: a mãe que se sacrifica pelo filho; o soldado que corre ao encontro da morte certa para salvar seu batalhão; o mártir que morre pela fé. São pessoas que não desejam morrer, mas que se submetem à imolação por considerarem que ela seja necessária. E conclui: “Quando, portanto, o empenho leva ao sacrifício certo da vida, é cientificamente um suicídio; veremos mais tarde de que tipo.”

Considera ainda que “O que há de comum a todas as formas possíveis dessa renúncia suprema é o ato que a consagra ser realizado com conhecimento de causa; é a vítima, no momento de agir, saber o que deve resultar de sua conduta, seja qual for a razão que a tenha levado a se conduzir assim.”

E, a partir daí, vai formular sua definição: “Chama-se suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, realizado pela própria vítima e que ela sabia que produziria esse resultado.”

Durkheim evita entrar na questão da psicopatologia, que não é sua área: ne sutor ultra crepidam… Mas no estudo de causas, distribuição por religião, nações, etc. vamos ver que, se a incidência do ato é muito alta entre alemães, ela costuma ser, mesmo nas comunidades alemãs, mais alta entre protestantes do que entre católicos… e judeus.

Mas são três tipos básicos de suicídio, segundo o sociólogo: egoísta, altruísta e anômico, usando ele a palavra anomia no seu sentido etimológico de falta de lei ou ausência de norma de conduta. Aos problemas que ele observou na sociedade, considerou como patologia social, e chamou aquela sociedade doente de “Anômana”. No meu entendimento, o caso Zweig se encaixaria aqui. A forma como Back o encara não difere muito, embora ele tenda a atribuir-lhe, por razões específicas suas, uma grandeza que Durkeim não lhe atribui, e que seriam mais próprias do suicídio do tipo altruísta . Falemos agora da visão de Back.

3ª. Parte: Sylvio Back

Em algumas de suas entrevistas, o cineasta conta que é filho de pai judeu húngaro e mãe alemã,e que o pai foi embora quando ele ainda era bebê. Foi criado por mulheres e diz literalmente, que” é a melhor coisa que pode acontecer a um homem.” É e não é, e sabemos disso, mas não é relevante aqui. Só bem mais tarde, quase adulto, foi que lhe contaram que o pai se havia envenenado, no Rio, em 1950. Teve que conviver com isso.

Num artigo chamado “O Gesto Insondável”, que apresenta o roteiro de Lost Zweig na versão para o inglês, Sylvio Back conta que leu Morte no Paraíso ainda nas provas, em 1981. Cito: “Para mim, naquele momento (e do qual jamais me recuperarei) houve um irrefreável feixe de coincidências. Era como se o redivivo escritor judeu austríaco Stefan Zweig (1881-1942), almejasse encontro com o desejo de exorcização memorial de um cineasta filho de um, digamos, seu igual na insondável ânsia de se antecipar ao destino. “Lost Zweig”, lost Back!” (p.182)

Tenho três amigos, incluindo Sylvio, que são filhos de suicidas – por coincidência, todos filhos de PAI suicida. Nos três, há uma característica semelhante, um certo frisson, uma voracidade pela vida, uma certa angústia subjacente, como se temessem uma possível herança. Mas, dos três, Sylvio Back é o único que vejo enfrentar a questão de frente, falar sobre ela, exorcizá-la, como diz, e na Arte, uma das funções desta,em qualquer de suas formas.

Em seu ensaio “O suicídio como protesto”, diz ele: “Ainda que desça ao inferno moral de Stefan Zweig e de Lotte, na ilusória tentativa de preencher os inúmeros ‘buracos’ negros que foram sendo deixados sem resposta ao longo dos seis meses que o casal passou no Brasil, Lost Zweig não vai atrás de explicações ou justificativas, como também não condena o suicídio. Apenas lhe dá a dimensão ontológica e ética que o próprio ato em si guarda.”(p.9)

E encerra este texto declarando: “Sua auto-morte, acompanhada pela jovem esposa, Lotte, é um ato de extrema coragem, talvez por isso, executado com requintes estéticos, até de poesia. O suicídio como protesto moral, como revolta política, como um ‘basta’ contra toda e qualquer opressão, como um chamamento à resistência, nem que seja através da própria imolação.” (p.11)

E em outro ensaio, “ It’s all Brasil”,

“Como o de Zweig e Lotte, o suicídio, nenhum suicídio, na verdade, mesmo que tão exumado e vilipendiado até hoje como o dele, tem explicação lógica. A meu ver o excitante desejo de alguma vez consumá-lo instala-se no espírito e emerge lenta ou repentinamente, como se um vírus fora. Zweig, a exemplo de um de seus biografados, o dramaturgo Heinrich von Kleist (1777-1811) e sua confidente Henriette Vogel, ambos suicidas, já ‘convidara’ sua ex-mulher Friderike para que juntos dessem cabo à vida por volta dos anos 20. Coube a Lotte o papel da obediente discípula, e ao vírus – eroticamente (ao menos para Zweig) se entregaram. Mais ou menos assim: a pessoa não se torna suicida, nasce suicida.” (p. 18)

Acrescente-se: os novos estudos dos geneticistas vão em direção dessa mesma assertiva.

4. As metáforas e liberdades poéticas (ou ficcionais) do filme

Orson Welles desembarcou no Rio em 8 de fevereiro de 1942. Zweig se matou aos 23 do mesmo mês. Nunca se encontraram. Mas Welles declarou à imprensa que admirava muito o autor austríaco, e pretendia visitá-lo no dia em que fosse a Petrópolis. E o ator Grande Otelo, que participou do It’s all Brasil, contou a Back que Welles andava sempre com o livro Brasil, país do futuro, detalhe que foi aproveitado no filme.

Primeira metáfora: o xadrez. Vida e morte, joga contra si mesmo – a decisão vem quando perde para Lotte, já tendo perdido para a potência sexual (e não tinha mais nem o consolo da petite mort).Cabe bem aqui a relação, já que Partida de xadrez foi o último livro de Zweig, mas a remissão conduz a O Sétimo Selo, de Bergman, em que o cavaleiro joga xadrez com a Morte. Ganha dela no início, mas vai perder depois…

Segunda metáfora: o fogo. No início (Farenheit 451, de François Truffaut), o fogo aparece queimando os livros dos escritores judeus, ainda na Áustria, e na cena em que o passaporte é jogado na fogueira (perda da identidade, de possibilidade de sair do país, ligação com os fornos crematórios europeus em que seu povo estava sendo exterminado). Minha deformação profissional de querer textos “redondinhos” me leva a lamentar que ele não tenha encerrado o filme aqui:seria perfeito!

Terceira metáfora: os selos da amante negra. Simbolicamente, a única possibilidade dele, naquele momento, de viagem. Não viagem real, mas viagem virtual… De ir além das fronteiras do corpo, das fronteiras do Brasil, e do mundo que o aprisionava por algo que não era sua culpa: a hybris e a nêmesis. Único mecanismo de fuga, de evasão, de possibilidade de ação, insatisfatório, assustador: só a morte, naquele momento, seria libertação real. Nas palavras de Manuel Bandeira:”Bendita a morte que é o fim de todos os milagres!”

BIBLIOGRAFIA:

  1. BACK, Sylvio. “It’s all Brasil”. “O suicídio como protesto”. (ensaios). 2ª. ed. São Paulo: Memorial da América Latina, 2004. Coleção Memo.
  2. BACK, Sylvio e O’Neill, Nicholas. Lost Zweig. Os últimos dias de Stefan Zweig no Brasil. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  3. DINES, Alberto. Morte no Paraíso. A tragédia de Stefan Zweig. 3ª.ed., ampliada. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
  4. DURKEIM, Émile. O Suicídio. Estudo de Sociologia.trad. Mônica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
  5. ZWEIG, Stefan. Brasil, um país do futuro.(com prefácio de Alberto Dines).trad. Kristina Michahellis. Porto Alegre: L&PM, 2006. (apresentado para debate com a Escola Brasileira de Psicanálise, seção de Santa Catarina. 25/4/2008.)

7 Responses to “Zweig, última personagem trágica”


  1. 1 leilalampe

    Regininha,
    adorei a sua análise do Zweig. Quem dera eu poder participar desse encontro que deve ter sido muito legal. O livro do Durkheim que estou lendo é o “Formas elementares da vida religiosa”.
    Em outra oportunidade quero assistir este filme.
    Beijos e uma boa semana pra vc,
    leila

  2. 2 regina

    Leila:

    foi um debate interessante, que começou às nove, depois da projeção do filme, e foi até onze e dez.
    O público se animou e fomos indo, fomos indo… Foi muito legal!
    E também porque o debate se deu entre pessoas de áreas diferentes.Isso é muito enriquecedor.
    Tratar de um grande filme é sempre muito bom…
    Já leste o Durkheim que tinhas que ler? Ele é claro e bom demais.Capricha aí, guria!
    beijão.

  3. 3 leilalampe

    Li sim Regininha, e agora estou fichando… Gosto do discurso dele.
    Imagino que o debate foi interessante mesmo. O assunto é pra lá de interessante!
    Beijos

  4. 4 Alberto

    Oi, Regina!
    Realmente muito boa a tua análise!
    Valeu ter ido no encontro ter assistido tua apresentação,


    Me dá / Só um dia / E eu faço desatar /
    A minha fantasia (Chico Buarque)

  5. 5 regina

    Esse filme foi a última coisa que vi, da obra do SB - filmes, poemas, ensaios, roteiros. Já estava com um acúmulo de conhecimentos bom, acho. “Viajei” um pouquinho ali na parte da tragédia, mas assim mesmo gostei muito do que foi feito - não acho que minha colocação esteja desligada do que está posto.
    E com isso o item Sylvio Back está todo estudado, classificado, descrito… prontinho pra entrar no livro dos poetas (o resto da obra ajuda a analisar a poética).
    E agora vou ver o que houve de mudanças no site oficial do João Bosco, depois comento contigo.
    bj

  6. 6 luli

    Regininha
    Sou uma admiradora do cineasta Sylvio Back
    Assisti Lost Zweig,adorei o filme,um filme muito bem feito!
    Sylvio mais uma vez está de parabéns,pela sua competência,pela
    sua dinâmica.
    O assunto tratado é com certeza muito intrigante,pois o que leva uma pessoa ao suicídio?
    Nunca há uma resposta,sempre dúvidas pairam no ar.
    Bacana sua análise sobre filme!!!!
    Parabéns
    um abraço,luli

  7. 7 regina

    Luli:
    somos ambas admiradoras dos filmes do Sylvio, pelo jeito…
    O debate foi animado, pois o tema ajuda. Aliás, o Sylvio ajudou bastante, fornecendo material de apoio - o roteiro e os ensaios.O resto veio do meu “academicismo”.
    Irias gostar do debate, também.
    Havia uma senhora cujo pai também era suicida, e para ela funcionou como uma superação, ajudando-a a compreender o ato. Isso é sempre bom, não achas?
    bj, e obrigada pela visita! Volte sempre!

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