O banheiro do Papa

O Carrión mora no prédio em frente ao meu, e seu quarto dá para minha sacada. Cortinas azul-escuro, sempre fechadas. Por razões que desconheço, Speck e ele trocaram de quarto. Agora as cortinas estão sempre abertas - ou quase sempre. Hoje vi Speck ali,e fui falar com ele, pois combinamos discutir um CD do João Bosco. Só não poderia ser hoje, porque eu estava saindo pra ir ao CIC ver este filme, O banheiro do Papa, que ia passar às 18:15.

Ontem vi o Meireles recomendar o filme na TV, e me animei. Speck também recomendou: um belo reforço.

É uma co-produção Brasil-Uruguai, mas é um filme uruguaio, cuja história se desenrola em Melo, perto da fronteira dos três países do cone sul. O Papa vai visitar a cidade, e as pessoas fazem planos mirabolantes, esperando mais de 20.000 brasileiros, depois 40.000, depois 60.000, que iriam até lá para ver Sua Santidade. Ignoravam que o papa já estivera no Brasil, e entre Melo e uma grande cidade brasileira, os fiéis do Brasil iriam vê-lo por aqui, mesmo…

As pessoas pobres de Melo resolvem investir na visita: se endividam, se aplicam, vão fazer lanches para vender, ganhar algum dinheiro e melhorar de vida. Como diz o Negro, continuarão pobres, “pero con plata”…

Beto, o protagonista, um muambeiro, tem brilhante idéia, mais uma: os visitantes vão precisar de banheiro. Em sua casa o que existe é uma “casinha” daquelas mais antigas. Vende a alma ao diabo, e consegue construir. Mas falta o vaso sanitário, e ele vai a Aceguá comprar, no último minuto, sacrificando o futuro da única filha. A cena mais patética do filme, patética mas comovente, é vê-lo aparecer na TV, aos olhos de mulher e filha, atravessando a multidão com o vaso nas costas - a bicicleta confiscada pelo policial atrabiliário…

Comovente também é ver aquele povo , que mal tem pra comer, olhar desolado para os montes de pastéis , de lingüiça, de pão, tudo sobrando, e ainda fazer piada: vamos ter lingüiça até o Natal… E no dia seguinte começam a se reerguer, reiniciam a vida, e, usando o banheiro novo, Beto tem mais uma de suas brilhantes idéias… Que lugar poderia ser mais adequado?

Lindo, lindo filme, com alusões interessantes - como aos Diários da Motocicleta do Chê - boa fotografia, atores adequados pro seu papel. O ator que faz o Beto tem uma semelhança extraordinária com o Belchior… O Meireles recomenda, o Speck recomenda, eu recomendo. Não percam!

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