A Ilha dos Cães

”A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, dizem os famosos versos de Maneca Bandeira em Pneumotórax. E quem já se furtou de imaginar o que poderia ter sido, o que teria sido se?… Sabe-se que é bobagem, mas acaba se fazendo. É uma espécie de autopunição, muitas vezes, mas para um ficcionista pode e deve ser um prato cheio com o qual ele se regala. E isso me faz lembrar um livro americano que li, e ensina a escrever um romance, cujo exercício principal é “And what, if?…” (= “e o que seria, se?…”)

Em A Ilha dos Cães (Bertrand, 2005. R$27,00), Rodrigo Schwarcz faz este exercício, mas sem os intimismos que minha introdução aqui talvez faça pensar. O Autor aplica - mesmo sem o saber - o “and what, if…” à História oficial. E é um belo exemplo do que pode ser feito com ela… e com suas infinitas possibilidades.

Richard Burton (não o ator, mas o aventureiro e embaixador da Inglaterra no Brasil) sofre um naufrágio. Ele e um cego são os únicos sobreviventes, e vão parar numa ilha deserta, na qual, depois de bastante tempo, encontram uma cabana. Na cabana, papel, tinta, pena … e Burton se põe a escrever/reescrever a História. Como qualquer um que escreve, escreve sem saber se aquilo que está fazendo vai ter futuro, se vai ser lido por mais alguém - e seu único companheiro é um cego, alguém fisicamente inabilitado a ser leitor…

Mais do que um romance agradável de se ler, divertidíssimo nesse exercício do “and what, if?…” temperado por muita ironia, encontro uma preciosa alegoria sobre a escritura, alegoria esta que fez minhas delícias de leitora. Gosto de livros inteligentes, mas não herméticos; gosto ainda mais dos que surpreendem a cada momento. ODEIO enredos previsíveis, os romances em que na página 30 já se sabe como vão terminar…

Rodrigo Schwarcz é de Joinville, onde nasceu em 1976, e é jornalista, escrevendo no Anexo do AN. É jovem, e está apenas começando: antes deste romance tinha alguns contos publicados. Optar pelo romance já mostra que é audacioso - não é qualquer um que se arrisca pelos caminhos permeados de sombras e abismos da narrativa longa. No momento trabalha nos originais de seu segundo romance, do qual se recusa terminantemente a falar. Não tem importância: esperaremos, podes crer.

12 Responses to “A Ilha dos Cães”


  1. 1 Ítalo Puccini

    Bacana este teu escrito sobre o livro. Ainda não o li, mas gostei dessa “prévia”.

    beijos de boa-semana.

    Í.ta**

  2. 2 regina

    Oi, bebê!
    Tava sentindo tua falta!
    Aproveita a “prévia” e lê, que vale a pena.
    bj.

  3. 3 Stella Bousfield

    Oi Regininha. O conto dele que está no teu livro também está muito bom. É realmente um novo talento de Joinville para o mundo (rs).

    Beijo!

  4. 4 regina

    Joinville merece, né?
    E vocês, não vão querer escrever nada, não? Tu e a Cris poderiam perfeitamente fazê-lo, tu sabes!
    bj

  5. 5 Fatima de Laguna

    Estou lendo “O novo conto catarina”.
    Conto que me encantou foi o do Ivan J. Panchiniak,
    autor que eu desconhecia. A D O R E I !!!
    Outra dica boa? A crônica desta quarta
    (dia 7-hoje) no DC, do AMÍLCAR NEVES.
    Uauuuuuuuu! Gostei muito. Muitooooooooo!
    Arrombaxxxxte Amílcar!
    Bj proce, Regina!

  6. 6 regina

    A preferência por um conto ou outro depende muito do gosto pessoal. O Felipe Lenhart, por exemplo, adorou o do Rodrigo Schwarz, ” Em algum lugar já são sete horas”.
    Hoje fui assistir à Cidade Contada,e estavam lá alguns de nossos autores. Irias gostar, Fátima: além do Flávio José Cardozo, cujo conto era o mote para se lembrar o Mercado Público, estavam o Amílcar, o Boos Júnior (fazia tempos que eu não via o “Alemão”, e adoro ele…), Silveirinha, Jair Hamms, Salim Miguel, Júlio de Queirós…A velha guarda em peso, Amílcar era o mais jovem.
    O Dennis leu (maravilhosamente, como sempre!) o conto “Perturbação do rapaz das louças”, que está no livro Singradura, do Flávio, e fotos antigas e novas do Mercado foram projetadas no telão. Ficou muito bonito. Depois houve um papo rápido com Flávio.
    Gostei muito da idéia, e arrumei programa para a primeira terça de cada mês…E nesta quinta vamos ter reunião do Círculo de Leitura,cuja convidada vai ser Raquel Wandelli. A semana está sendo das mais legais, neste aspecto. E me dê licença, que vou ler a crônica do Amílcar!
    bj

  7. 7 cristine

    Vixi, eu nem no blog mais tô escrevendo. Ô, preguiça! Eheeheh

  8. 8 regina

    Cris:
    Ah, víssi o recadim, né, guria?
    Pois vale um puxãozinho de orelhas, bem de leve, tá?
    Tem que ir formando repertório, aprendendo os truques, olhando “alrededor”…
    E isso vocês já estão fazendo, atiladas como são. Só não espero que aguardem pela aposentadoria, feito eu, hehehe…
    beijão.

  9. 9 Gelson

    Olá Amore!

    Eu gostei da dica…do esquema “And what it?”, bem, nós meros mortais não temos esses poderes de visão além do alcance…um olho de tandéra literário eu diria…rsss
    muito bom

    Beso

  10. 10 regina

    Oi, amore!
    Saudades IMENSAS de ti.
    Este olho, criatura, a gente vai desenvolvendo, aprendendo a ter. Não se nasce com ele. E podes crer: cultivá-lo vale a pena!
    beijão.

  11. 11 Gelson

    Oi,
    Ah…sim eu estou preparando o solo primeiro… rsss
    Você tem a imagem do Conto Catarina para me mandar? eu vou postar no poracaso, eu posso ? eu postei sobre o Rota de Fuga do Gil e foi legal a manifestação do pessoal. Também vou postar A Ilha dos Cães, eu simplesmente estou fã do Rodrigo. Cê viu o Gato Preto? tem um post do Conto Catarina.
    beijo

  12. 12 regina

    Tio Gel:
    tou te mandando a foto da capa.
    Não, não tenho visitado os blogs amigos - muita coisa, coisa demais pra fazer.
    boa quarta!

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