Minha paixão argentina

“Pouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sonho de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gatos movendo-se entre tições de negra luz”.

Dizem que o romance conquista o leitor pelo primeiro parágrafo, como se fosse um lead. Quem diz isso cita inícios, e há uma coisa engraçada neles: os melhores deles são mesmo leads, ou pelo menos seguem seu jeito e sua filosofia. Dois exemplos lapidares: A Metamorfose do Kafka, e Crônica de uma morte anunciada, do Gabo. Mas este início do último romance de Tomás Eloy Martínez, argentino de Tucumán, também nos pega pelo pé…

Sou declaradamente fã dos romancistas argentinos, e dizer isso me vale protestos de alguns leitores nacionalistas, como se eu estivesse depreciando - ou nem lesse - os autores brasileiros.Sim,tranqüilizem-se, leio, acompanho, aprecio. Tezza, Hatoum, Ruffato, Garcia-Roza, Tony Belotto são os favoritos, no momento. E Machado sempre, relido e treslido, e os poetas todos! Mas tenho tempo e paixão para ir para outras nações e outras realidades, também, façam-me o favor!

Dos argentinos, o preferido é Tomás Eloy Martínez, que acompanho pelas traduções que saem. Atualmente com 74 anos, Martínez tem trajetória interessante. Jornalista, filia-se à Fundación del Nuevo-Periodismo Iberoamericano, com García Márquez e outros novos jornalistas de renome. Professor universitário, leciona na Rutgers University, em New Jersey, onde também chefia o Departamento de Estudos Hispano-Americanos. Foi exilado político, na época da ditadura militar que campeou pela Sudamérica. Há alguns anos, ele e sua mulher corriam por uma estrada em Nova Jérsei, quando foram atropelados por um caminhão. A mulher, uma ensaísta venezuela de prestígio, morreu. Martínez sobreviveu, mas, além das mazelas físicas, enfrentou grave depressão.

Devia à editora brasileira Objetiva um romance para a série Sete Pecados Capitais, com o tema da Soberba. Por estar sem condições, atrasou a entrega, mas quando conseguiu terminar, o que nos chegou valia a espera: O Vôo da Rainha, em que aproveita o assassinato passional cometido pelo jornalista Pimenta Neves, d’O Estadão, ficcionalizando-o.

Dele eu tinha lido antes O Romance de Perón e Santa Evita, magistrais obras que tratam de fatos históricos do país vizinho. Apesar de tomar liberdades com a história e com o tema, ainda está muito ligado, no estilo, ao jornalístico. Daí veio O Cantor de Tango, que explora a lenda urbana, não sei se real, de haver um cantor de tango, meio clandestino, em Buenos Aires, que cantaria melhor que Gardel. Um estilo completamente diferente, num livro bom demais.

Agora sai tradução de A mão do amo, de 1991. Uma surpresa e tanto! Outro jeito, outro estilo, num relato onírico que sobressalta, conduzindo ao clima de pesadelo, e lembra O Gato Preto do Poe, num ambiente onde pululam os gatos: atores e motivo. Estou no meio, mas não vou agüentar NÃO FALAR nele. Me aguardem!

(A mão do amo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. tradução de Sérgio Molina.)

6 Responses to “Minha paixão argentina”


  1. 1 Roberta Ávila

    Partilho dessa paixão Regininha. Agora pro post ficar MUITO bom só faltava vc arranjar uns links de e-book para colocar aqui, porque se eu for comprar tudo que eu fico com vontade de ler quando vc comenta, vou à falência! Continuo com poder aquisitivo de estudante…. hahaha

    Bjão

  2. 2 regina

    Sabes que é uma boa idéia?
    Estou revisando uma tese, e sem tempo de ir atrás, mas logo que der, pesquiso.Só que acho que não vou achar em Português, ainda…
    bj,

  3. 3 Roberta Ávila

    Espanhol é mais saboroso mesmo. Aliás, acho que nosso amigo Galeno pode ajudar nesse setor de e-books (e-coisas no geral hahah).
    Bjo

  4. 4 regina

    Vou falar com Galeno, mas ele anda impossível, hehehe…Agora tá trabalhando e se ocupa demais com aquilo.
    Como gosta de achar essas coisas na internet, até pode ser.
    Tentarei!
    bj

  5. 5 Ítalo Puccini

    Os argentinos eu ainda não encarei. Tudo ao seu tempo ^^
    O Carlos passou uma lista para pegarmos pesado. Vou segui-la. Achei muito interessante.

    ficarei no aguardo pelos outros teus, sem dúvida :)
    Pintado algo por aqui, presenteio você também.

    beijos muuuito chuvosos,
    Í.ta**

  6. 6 regina

    Ítalo:
    1. tou na metade da arrumação,ainda, pode ser que pinte mais algum, güenta aí, tá bom?
    2. sou formada em Espanhol também, daí ter esse interesse pela literatura correspondente. Cortázar só li em espanhol, não consigo ler em Português, parece que não é ele…Os outros leio em Português mesmo.Mas eles têm gente muito boa - deve ter ruinzinhos, também, mas esses acabam não chegando aqui, sabes como é …( O Carlos e eu somos entusiasmados pelo César Aira, ele falou do cara pr’ocês? Quando lemos As noites das ruas de Flores entramos em êxtase, cada um do seu lado!)
    bj

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