“Mergulhado na velocidade com que a tecnologia despeja informações em sua máquina, o jornalista sente com impaciência a necessidade de também acelerar-se e, assim, mecaniza-se num processo em que se despe de ideologia e compromisso social. A notícia ganha sabor de espetáculo, como a televisão já vem fazendo há décadas. O papel social da comunicação perde espaço, porque a velocidade impõe critérios instantâneos e, assim, uma criança flagrada roubando uma loja é notícia transitória, pouco interessando a causa que a levou a praticar o crime. O disse-disse ganha espaço para falsear uma célere eficiência, passando a afirmação ou denúncia, principalmente no campo político, a ser descartável, sem merecer discussão e muito menos crítica. Com isso, o jornalismo descompromete-se com soluções ou conclusões de problemas sociais, econômicos e, principalmente, políticos. A amnésia toma conta da comunicação de massa, hoje movida pela emoção do espetáculo. O jornalismo parece romper com um compromisso ainda maior, a história.” (p. 59-60)
Este é um trecho de excelente artigo do Laudelino Sardá no livro lançado ontem na Saraiva do Iguatemi. O organizador foi o próprio Sardá, e mais 21 jornalistas contribuem com sua visão das políticas e técnicas da notícia, nesta passagem da máquina de escrever para a era internética, das redações barulhentas para as de baias e silêncio sepulcral, segundo Caruso.
Está bem interessante, e é uma contribuição relevante para os profissionais pensarem - repensarem - criticarem seu fazer.
SERVIÇO:
Título: Da Olivetti à Internet (Política e Técnicas da Notícia)
Autor: Laudelino José Sardá (org.) e mais 21 jornalistas
Editora: Unisul/Certi
Preço: R$ 15,00 (no lançamento)
Quando vi que iam lançar esse livro, me interessei. Isso deve ter durado um minuto, até ler o nome dos envolvidos. Os nomes que eu conhecia, e eram quase todos, têm pelo menos 20 anos de profissão. Ou seja, ninguém exatamente ali poderia falar sobre a relação do jornalismo com os meios de hoje. Aí eu vejo o trecho escrito pelo Sardá no teu blog e ele só confirma a segunda impressão: ia começar aquela velha lamúria que o jornalismo das décadas passadas era melhor por conta disso ou daquilo.
Depois, entro no blog do Cesar Valente e ele escreveu sobre o lançamento do livro: “O clima estava tão bom, que se alguém tivesse convidado todos para sair dali direto para uma redação de jornal, topariam na hora. Aposto que fariam a gurizada comer poeira. Como nos velhos tempos”. Só faltou ele dizer que “no meu tempo a gente usava uma cebola no cinto, e o mar vinha até o mercado, o miramar era o local de encontro”…
Posso estar errado, mas as redações sempre foram jovens. Talvez tivessem uma faixa etária um pouco maior antigamente. Mesmo assim, garanto que não difere muito de hoje não. A grande maioria dos que hoje reclamam começaram muito cedo na profissão. Meu pai começou com 17, por exemplo. E ele sempre reclamava da galera que saía da faculdade crua.
A grande diferença, ao meu ver, é a mudança de mentalidade. O povo de antigamente era mais romântico. Hoje, a grande maioria pensa no jornalismo como uma profissão e não como uma forma de mudar o mundo. Os dois pensamentos têm seus lados positivos e negativos. E cada um que veja o que é melhor para si.
Beijos
Mário:
com exceção do Luciano Bittencourt, que foi meu aluno, e hoje é professor da Unisul, os outros de fato eram bem mais velhos.E o César tem razão: o clima tava muito bom,bem leve e divertido.
Mas os mais velhos têm o que dizer da profissão, sim. E ela mudou para pior, sim, em alguns aspectos, e para melhor em outros, como tudo o mais.
Como reza a cartilha filosófica do mestre Scotto, as coisas não eram melhores, não. Nós é que éramos melhores, apenas porque éramos jovens…
Assim, não discordo de ti… nem deles. Gosto de olhar os dois ou mais lados de uma questão.E é pena que pré-julgues o livro, na base do “não li e não gostei”… Vou te dar puxão de orelha, mininu!
beijinho!
É, eu lembro do Scotto dizendo que só guardamos boas lembranças do passado, e que com a idade nossos defeitos vão aumentando… Agora, eu concordo totalmente que temos muito a aprender com os mais experientes. De modo geral, claro. O que me incomoda é a postura de que hoje tudo está ruim, etc etc. A profissão mudou mesmo. Para não me aprofundar muito - acabei de almoçar, tive uma manhã cheia com a minha deputada hoje -, acho que temos que terminar essa discussão numa mesa de bar, como bem diria H. “o negócio é o seguinte, tchê” Schuch.
Beijos
Outro dia Clóvis Geyer e eu tivemos a milésima conversa sobre o
assunto.Porque a nós dois assusta observar que os amigos jornalistas, quando chegam aos 50 anos, são criaturas depressivas ao extremo…Jornalistas envelhecem mal, inclusive o amado chefe, Hélio Schuch!(que aliás, tá saindo da chefia. Tem eleições hoje, com posse amanhã).
Achavam que iam “make the difference”, notam que não fizeram, ficam mal: consigo mesmos, com a profissão, com o mundo, com a vida.
E é bobagem, pois o mundo é o que é o mundo sempre foi, e não é a atuação de nenhum jornalista - ou cronista, ou romancista, ou poeta - que vai fazê-lo mudar. O mundo corre em outra raia, dizia sábia amiga antropóloga…
Mas a mesa de bar fica de pé, hehehe. Com uma Original… ou uma Eisebahn.Discutiremos, e riremos muito, também. Faz parte, e ainda bem!
Talvez vá Brasília em maio. Daí me apresentarás algum boteco,um bem especial, querido orientando!
bj