Milton Hatoum é amazonense de Manaus, onde nasceu em 1952. Professor de Teoria Literária na UFAmazonas, agora está aposentado (suponho eu…), e mora em São Paulo. A área de Teoria Literária é interessante, nesse aspecto, pois admite as mais variadas formações. Há engenheiro, matemático, filósofo, sociólogo. Hatoum é arquiteto…
O primeiro livro do Hatoum se chama Relato de um certo oriente, de 1989, mas não foi o primeiro livro dele que li. Comecei com Dois irmãos, de 2000, e fiquei tão encantada com ele que meus pobres alunos tiveram que ler. Entrou na lista de leitura do semestre, sem apelação. (Ainda me lembro da Jaqueline Griebeler dizendo: é uma história de incesto, professora. Abençoada seja! Foi a única da turma a ter maturidade suficiente para perceber que a relação de Caçula com a mãe é incestuosa, embora não se realize, e destrói a vida de todos…Mas não está dito, não tem nada explícito, o bom leitor tem que sacar… e pra isso tem que saber da vida, também).
Depois é que fui ler Relato… Em 2005 saiu Cinzas do Norte e todos tratam da imigração árabe no Amazonas. Milton não tem pressa, e só três anos depois vai publicar este Órfãos do Eldorado. O livro foge do universo anterior, mas uma outra temática subsiste: a relação familiar conturbada e dolorosa.
O pai se chama Amando, o filho se chama Arminto, brincadeirinhas do autor. A mãe morreu ao dar à luz, e o pai não perdoa jamais o filho por isso. Criado sem afeto e sem aprovação, não espanta que Arminto não se ache na vida, sempre buscando a aprovação paterna, sem consegui-lo. As personagens femininas são enigmáticas, misteriosas, cheias de perigosos desvãos, especialmente Dinaura.
Inserido na Coleção MITOS, foi justamente a utilização de lendas e histórias da região amazônica o que mais me encantou no livro. São histórias repletas de uma sexualidade explícita e cruel, como a da piroca [sic] que se estica e vai até a outra margem do rio (que é o Amazonas, hehehe) e volta. E a lenda em que se monta o enredo é justamente a mais bonita, a de uma índia tapuia, cujo discurso Arminto testemunha e que Florita lhe traduz:
“Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí, deixando-a sozinha na Aldeia. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. Agora ia morar com o amante, lá no fundo das águas. Queria viver num mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça.” (p.11)
O termo Eldorado assume múltipla significação, como deve ser, englobando desde o nome do barco comprado por Amando, barco que naufraga, até o fim da prosperidade da região, com o final do ciclo da borracha. Bom demais, bom demais!
SERVIÇO:
Título: Órfãos do Eldorado
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras, coleção Mitos
Preço: R$ 23,20 (site da Livraria Cultura)
Rê: vou ler “Dois irmãos”.
Fiquei bem curioso.
bjs.
Pode ler.
Vais gostar, de certeza. Tem edição de bolso, também pela Companhia das Letras.
bj