Crônica da Martha Medeiros


(Recebi da jornalista Sônia Pillon, amiga lá de Jaraguá do Sul. Obrigada, guria!)

Tempo

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa
profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos
domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas! E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos
mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.
(Revista d’O Globo)

6 Responses to “Crônica da Martha Medeiros”


  1. 1 Fatima de Laguna

    Regina este texto é mesmo bonito. Eu o recebi na segunda feira(19)de uma amiga de Parati(RJ) porém veio sem a autoria e tá rodando na rede como FW “só para mulheres”.
    Na verdade é um texto que deve ser “Só para o mundo”.
    Parabéns por divulgar. bj.Fatima.

  2. 2 regina

    Fátima:
    companheira das madrugadas, hehehe…
    Acho que só nós duas acordamos tão cedo!
    Tem gente que acha que as crônicas da Martha são de auto-ajuda, mas eu não acho, não. São reflexões feministas … mas nada radicais, bem sensatas.
    E os textos na internet são um problema, né? A Sônia me passou o texto com a procedência, mas isso deveria incluir também a data de publicação. Ela deve ter passado como recebeu.
    Tenho dado certa consultoria pro Celso Vicenzi, por causa disso. Ele de vez em quando me manda um texto que pensa em publicar:” Diz que é da Clarice. O que achas?”
    Tá na cara que não é da Clarice, nem temática, nem estilo.Vou procurar, e respondo depois: é do Sérgio Jockyman. Nem sempre sei, ou tenho certeza, mas consigo pesquisar melhor que ele, entre as muitas alternativas que o google oferece.E assim vamos…
    Se não vier autor - e esta daí tem cara e jeito de Martha - não reproduzo.
    Tá um domingo lindo, depois de ler os jornais vou dar uma voltinha, pra tomar um pouco de sol…e fazer algum exercício, é claro…
    bj

  3. 3 Ítalo Puccini

    Eu adoro as crônicas da Martha!! Tenho uma porção de livros dela aqui. Mas, ainda assim, “Divã” é meu preferido!
    No grupo de leituras que organizei por aqui, começamos a leitura com este “Divã”. Vamos nos reunir agora para trocarmos figurinhas sobre ele.

    beijo grande de bom domingo!
    Í.ta**

  4. 4 regina

    Ítalo:
    isso é pra provar que também acordas cedo? Tá bom, acredito!
    Mas não gosto só das crônicas da Martha. Também adoro seus poemas,gosto demais daquela simplicidade… e da franqueza.
    Até me deixaste com vontade de reler os danadim!
    bj

  5. 5 Juliana pires

    Realmente a mulher de hoje quer ser a grande executiva, a grande mulher de negócios. Mas, se tudo o que ela faz for para se sentir aceita pela sociedade, ou para se sentir uma mulher moderna, com certeza seu trabalho vai virar escravidão, assim como as mulheres de antigamente que eram donas de casa e se sentiam presas, escravas. Tudo deve ser feito com equilíbrio e prazer, por isso, temos que administrar muito bem o nosso tempo para que possamos ser aquilo que gostamos de ser.

    Beijão!

  6. 6 regina

    Nossa vida -e as opções que ela nos obriga a fazer - continuam bem difíceis, né, Ju?
    MAs a gente consegue, a gente consegue.
    beijão.

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