Já na época em que eu professora do LLV da UFSC, colega me recomendou muito o livro de um novo autor, que tinha acabado de ler, e do qual tinha gostado muito: O azul do filho morto, de Marcelo Mirisola. Comprei, li, e também virei fã: gostei demais.
Quando fui removida (a meu pedido!) pro Departamento de Jornalismo, comecei a ter leituras mais dirigidas para aquele curso, e não acompanhei tão de perto os autores nacionais que não fossem do interesse de meus programas de ensino. Assim, acabei lendo prioritariamente muitas grandes reportagens em livro, ou romances de jornalistas, como Carlos Heitor Cony ou Flávio Louzeiro.
À beira da aposentadoria, há cerca de um ano, comecei a criar o que denominei “estoque de atualização”. Neste grupo estavam dois livros do Mirisola: Fátima fez os pés pra mostrar na choperia e O herói devolvido. E daí, num domingo fatídico, li uma entrevista dele no Cultura do Estadão. E Marcelo foi tão infeliz naquela entrevista, tão escroto, pra dizer em bom português, que peguei enorme ojeriza: não leio mais nada desse cara! E pus os livros dele na última prateleira da estante, aquela que não consigo alcançar, a não ser com a escada de cinco degraus…
Mas sábado passado, dando uma olhada na TV Cronópios (www.cronopios.com.br) vi que tinham feito uma entrevista com ele. Resolvi arriscar. Ao vivo e em cores, como ele é simpático e espontâneo, suas colocações não foram tão pesadas. Mas as idéias ainda são as mesmas.
Com a afirmação de que concursos literários são um exercício de compadrio, até concordo. Já ouvi algumas histórias que não depõem muito a favor do resultado desses grandes concursos. Mas Marcelo faz algumas colocações meio indiferenciadas, simplistas demais, especialmente a de que autor só consegue destaque e sucesso se participar das festas todas, for simpático e amigável com todo mundo. Não é bem assim, né? Se fosse, nada explicaria o prestígio de um Dalton Trevisan, por exemplo, criatura arredia e ranzinza. Há outras variáveis atuando, como fazer parte do eixo Rio-São Paulo, acertar a mão em estilo e tema, ter a sorte de publicar por editora que invista em seus autores - e não em termos de grana, apenas.
Fiquei achando que entre meias verdades e muito ressentimento, escondidos sob uma capa de franqueza excessiva, Mirisola se indispõe com o mundo editorial… e mais ainda consigo mesmo, inclusive desvalorizando, muitas vezes sem razão, a obra de colegas escritores. Mas posso me esquecer da bronca anterior, e voltar às boas com ele e sua obra. Logo que puder, retiro seus livros do exílio a que os submeti, e vou ver se ele é tão bom quanto ele mesmo acha…
PS.: lembrei depois dele dizendo na entrevista que - formado em Direito pela UFSC - foi o único aluno a ler Kelsen, um teórico alemão famoso da área. Posso garantir que não foi:testemunhei inúmeras discussões de minha filha - também formada em Direito pela UFSC - e sua turma, em desespero diante da necessidade de entender Kelsen. Era uma turma grande, e todos tinha lido ou estavam lendo…
Nunca li nada do cara, mas depois desse teu relato, me deu vontade de conhecê-lo, hehe
Gostei dessa, Aleph!
Sim, há similaridades, sem dúvida: irias gostar.
Então, vai lá no Cronopios e vê a entrevista…
beijão.
Recadinho da filha, depois de ler o post:
“foi no primeiro período do curso de Direito!
A gente queria queimar o Kelsen na fogueira, depois daquele período!
(risos)”
Pois se até eu me lembro do trauma, hehehe… E depois desses anos todos!
Acho que eu prefiro agüentar o Galvão Bueno narrando três horas seguidas de ginástica artística a ler mais de três páginas do Mirisola
Puxa, a analogia deu bem idéia do desagrado, hehehe…
Nunca ouvi Galvão Bueno narrando ginástica artística (disso fui poupada, aleleuia!), mas faço uma idéia, hehehe…Suponho que vá chegar à mesma conclusão que tu, mas vou tentar, ao menos - talvez apenas porque os livros já estejam aqui.
Hoje comprei o último PDJames publicado pela Companhia:Trabalho impróprio para uma mulher. Leitura mais adequada do mundo para antes de dormir, não achas? Acho que é gosto herdado: meu pai sempre lia policiais, antes de ferrar no sono… As ladies britânicas do crime são ótimas!
bj